A feira livre de Custódia sempre foi uma das maiores e mais movimentadas da região do Moxotó. Sendo uma cidade em termos populacionais, menor que suas vizinhas Serra Talhada, Arcoverde, Afogados, mesmo assim a feira de Custódia suplantava as feiras da vizinhança. Mascates de todos os lugares era presença garantida na feira cujo gigantismo ocupava toda a praça principal e as ruas adjacentes.
Frutas e verduras vinham de Triunfo, roupas de Caruaru, milho, feijão de corda eram de arranca era da produção local.
Meu pai, Zé Daniel, tinha uma bodega na esquina do beco de Zuca Pinto, vizinha à barbearia de Zé Nego.
Sonrisal, um comprimido que parecia uma bolacha, era vendido na Farmácia Pereira para tratar de “queima”, que não era nada mais, nada menos que azia.
Chegou à bodega um matuto (termo usado para identificar o pessoal que vinha da roça), com um sonrisal na mão e pediu a minha mãe, Dona Laura, que ajudava meu pai na vendinha, um copo dágua.
Acho que não explicaram ao homem que aquele comprimido parecendo uma bolacha, precisava ser diluído no copo d’água para poder ser tomado.
O Matuto jogou o sonrisal inteiro na boca, como engoliu não se sabe, e imediatamente tomou a água.
Dizem que quando o sonrisal recebeu a água, já na barriga começou a ferver por dentro, o homem danou-se a gritar, que estava sendo sufocado, sem fôlego e sentindo “coscas no bucho”, desabotou o cinturão e começou a dar massagem na barriga, e a andar desesperado pelos cantos da venda, com os olhos esbugalhados e
dando cada arroto de assombrar. Era como se tivesse tomado sozinho um litro de coca-cola quente. Não ficou ninguém dentro da venda até o matuto vomitar aquela explosiva mistura.
Curou-se com uma gelada de morango de gelo raspado vendida em garrafas imundas, por um cabra que vinha de Sertânia. Imaginem o quadro.
Nunca imaginamos, eu e Pedro de Dona Izaque, o efeito devastador que teria sobre a feira de Custódia, a soltura de um casal de jumentos, estando a jumenta no cio, no meio daquele povão.
A matutada que vinha montada para a feira, amarrava seus animais lá “nas gramas”. Naquela área gramada que usávamos como campo de futebol, bem ali no comecinho da Várzea, bem em frente à casa de Seu Luiz Amaral.
Hoje o CLRC - Clube Lítero Recreativo de Custódia, ocupa parte daquela área. Os animais ficavam amarrados na cerca do Sítio de Dona Nita e se alimentavam da grama.
Eu desamarrei um jumento forte, liso de tão gordo, enquanto Pedro procurava uma jumenta que estivesse com “as partes” bem inchadas, sinal de cio intenso.
Aproximamos os dois e a paquera começou, acompanhada de coices dela e relincho dele.
Como nada acontece por acaso, a jumentinha se fez de difícil e o jumento tal qual um tarado obsessivo, passou a morder-lhe o pescoço.
A jumenta acuada, disparou em direção ao beco de Valentin, com o jumento atrás mostrando as armas, exibindo a espada fora da bainha. Adentraram ao ambiente da feira, levando logo pelos peitos a banca de feira de Anizio Batista. Derramou tudo. Foi sabonete gessy, e brilhantina glostora pra todo lado.
Algumas moças da nossa sociedade fugindo daquele quadro dantesco, mesmo em desabalada carreira, conseguiram algumas latinhas de pó “promessa,” famosa Cashemere Bouquet, que estavam esparramadas pelo chão da feira.
Mais abaixo, o casal de jegues pegou de frente as bancas de roupas que ficavam em frente à Casa Gois, sem deixar nenhuma de pé. Como era época de seca, muita gente pensou que a feira estava sendo saqueada pelos retirantes. A correria foi de fazer medo. Teve feirante que deu até tiro pra cima para acalmar aquele povão.
Mesmo assim ainda roubaram muitas coisas dos feirantes. Eu corri logo para casa a fim de arranjar a desculpa de que não teria nada a ver com aquela desordem.
E o jumento enlouquecido, continuava na feroz perseguição à pobre jumenta, que aquela altura procurava um refúgio. Inicialmente tentou a Padaria de Seu João Miro, foi na Casa Gois, as portas batiam na sua cara impedindo a entrada, sendo enfim alcançada pelo jumento no beco de Pedro Rafael. Beco sem saída, fechado na outra extremidade pelo caminhão de João Bernardo. Aí não teve jeito. Acabou a resistência, capitulou, entregou os pontos e fez-se a luz.
Depois, como que habituados ao local aonde eram amarrados pelos seus respectivos donos, o casal de jumentos seguiu calmamente em direção às gramas e a feira que normalmente acabava por volta das seis da tarde, naquela segunda-feira, os feirantes arrumaram o que sobrou daquele terremoto e foram embora antes das quatro.
Crônica faz parte do livro FOI ASSIM - UMA HISTÓRIA AUTOBIOGRAFICA - 2010
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Foi tenso o negócio kkkkkkkk
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