02 setembro, 2026

Um dia de horror - Autor José Melo

 



Nossa terra era estigmatizada pela violência. Não por acaso o Bairro da Redenção – nome dado por Luizito, era conhecido por Beco do Iraque, em função das constantes ocorrências policiais que ali aconteciam, principalmente nos dias de segunda-feira, nos famosos “ fins-de-feira”.

Entretanto, o dia mais cruel para Custódia (de que me lembro) foi no final da década de setenta.

Naquela época a palavra assalto era desconhecida na região. Perto do meio dia, dois veículos estacionam na Praça Padre Leão, e dele descem dois homens, se dirigindo à Padaria Confiança, de propriedade do então Prefeito, João Miro. Lá, apontando uma arma para a esposa do Prefeito, D. Jovelina, pediram o dinheiro, tendo ela se negado a dar, até porque não se tinha conhecimento dessa modalidade de crime, e, inocentemente a mesma correu sério perigo. O Assaltante desistindo, saiu e entrou no mercado vizinho, e apontando a arma para o proprietário anunciou o assalto. Este ao se levantar, também inocentemente, fez um gesto de suspender a calça, levantando-a pela cintura. Foi seu último gesto: uma bala atravessou o coração de Heleno Chaves naquele dia.

Os assaltantes fugiram em disparada nos dois carros, e quando a polícia veio ao local já haviam se passados longos minutos. Naquela época a cidade era praticamente desprotegida. Não havia viaturas, armamentos, policiais em número suficiente, e para concluir, a Delegacia tinha como titular um velho sargento reformado que praticamente nada fez para prender os assaltantes.

Entretanto, a solidariedade dos custodienses mostrou a capacidade de se defender que a cidade tinha à época: dezenas de populares iniciaram uma verdadeira caçada humana aos assaltantes, percorrendo as caatingas, trocando tiros, provocando acidentes, enfim, um verdadeiro horror, que culminou com um saldo triste: além da morte de Heleno Chaves, morreram três bandidos fuzilados, e um PM, de nome Moreira, (meu contra-parente) em um acidente ocorrido em uma barreira policial nas proximidades do atual Posto Tamboril, quando o mesmo foi atropelado. Recordo que a cada assaltante que chegava, a população pensando que o mesmo estava vivo partia pra cima do carro aos berros de “lincha, lincha...”.

Conta-se que o primeiro bandido capturado foi obrigado a gritar pelos companheiros, na tentativa de localiza-los. Era noite, e de repente a luz apagou e ouviu-se um tiro. Imediatamente a luz voltou e o bandoleiro já estava caído no chão, com uma bala no ouvido. Outros dois foram metralhados no Cruzeiro, quando tentavam a fuga, pulando uma cerca.

Escapou apenas um dos assaltantes, de nome Eurípedes, assim mesmo porque que foi preso tentando a fuga, já dentro de um ônibus, próximo a Cruzeiro do Nordeste, pois ao entrar no mesmo deparou-se com um militar fardado, que o prendeu. Foi o único que escapou, e segundo comentários da época, quasae era morto na cadeia, por uma autoridade que revoltada com os fatos chegou a sacar a arma, sendo contida pelos policiais. Dias depois esse assaltante sumiu misteriosamente, durante as várias transferências de presídios. Esse foi o dia de maior violência que a cidade viveu, pelo menos no meu tempo.

[Diário de Pernambuco]: O audacioso furto de 5 milhões da prefeitura de Custódia-PE em 1965


Diário de Pernambuco
Edição 25 de Setembro de 1965

João Gracindo um dos autores do roubo, furtou do ex-prefeito Miguel José da Silva o valor dr Cr$ 5.078.451 em julho daquele ano.

 

Por Blog Custódia Terra Querida

Em 23 de setembro de 1965, as páginas do tradicional jornal Diário de Pernambuco traziam uma história policial inacreditável envolvendo diretamente o município de Custódia. O episódio reuniu um grande valor em dinheiro público, um desespero no ônibus, investigações policiais e a recaptura de um criminoso procurado em outro estado.

O Furto no Ônibus

Cerca de dois meses antes da publicação da notícia, o então prefeito em exercício de Custódia, o tenente reformado Miguel José da Silva, preparava-se para retornar à cidade. Ele embarcou em um ônibus da linha de Arcoverde carregando uma pasta de couro. Dentro dela havia documentos oficiais e a quantia exata de Cr$ 5.078.451 (cinco milhões, setenta e oito mil e quatrocentos e cinquenta e um cruzeiros), pertencente aos cofres da Prefeitura de Custódia.

Após se acomodar na poltrona e deixar a pasta sobre o assento, o prefeito desceu momentaneamente do veículo para pegar sua valise de viagem. Ao retornar ao seu assento, a surpresa: a pasta com todo o dinheiro havia sumido.

O relato da época descreve que, desorientado com a situação, o tenente Miguel Silva começou a procurar o pertence por todo o ônibus, indagando os passageiros sobre o paradeiro da quantia. Diante da busca infrutífera, ele dirigiu-se à Delegacia de Investigações e Capturas (DIC) para prestar queixa.

As Investigações e a Primeira Prisão

A polícia deu início às sindicâncias e ouviu mais de 20 suspeitos. As investigações apontaram para dois homens: João Gracindo da Silva (residente em Olinda) e José Marques Barbosa (morador de Abreu e Lima).

Os investigadores José Nildo, Francisco Pereira e Manuel Leopoldino localizaram os dois suspeitos em suas próprias residências e recuperaram o dinheiro integralmente. Pressionados no interrogatório pelo comissário João Medeiros, ambos caíram em contradições e confessaram a autoria do furto.

O Desfecho: Habeas Corpus e Latrocínio na Paraíba

O caso deu uma reviravolta logo após a primeira prisão: João Gracindo foi solto beneficiado por uma ordem de habeas corpus. No entanto, a liberdade durou pouco.

A polícia de João Pessoa (PB) enviou um telegrama informando que João Gracindo era, na verdade, um criminoso de alta periculosidade, já condenado pela Justiça paraibana a 26 anos de reclusão por crime de latrocínio (assalto à mão armada seguido de morte ou lesão grave).

A recaptura final ocorreu nas proximidades do velho cemitério de Olinda, efetuada pelo investigador Francisco Pereira, sob o comando dos comissários João Medeiros e José Armando Catende. O homem que tentou desviar os recursos da Prefeitura de Custódia acabou finalmente reconduzido à prisão para cumprir sua pena.

Nota de Contexto Histórico: O valor furtado em 1965 (mais de 5 milhões de cruzeiros) representava uma quantia expressiva para a época, um montante significativo para o orçamento municipal de Custódia na década de 1960.


Contexto do Período

O Tenente Miguel José da Silva governou Custódia como prefeito nomeado (interventor) entre 10 de outubro de 1964 e 28 de fevereiro de 1966, assumindo o cargo após o falecimento do prefeito eleito José Gonçalves Florêncio, durante o início do regime militar. Sua gestão tenha ficado marcada por ações como a inauguração do projeto inicial da Unidade Mista de Saúde Elizabeth Barbosa.