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20 julho, 2022

Senhoritas da Sociedade de Custódia (1938)



Folheando o álbum de fotografias de minha mãe verifiquei que uma foto definia bem a juventude feminina de Custódia em determinado tempo (1938). Na foto estão minha mãe, Jandira Farias, então com 20 anos, suas duas outras irmãs Alzira e Ozanira, ambas mais jovens que minha mãe e ambas infelizmente já falecidas, e outras amigas. 

Pedi a minha mãe se era possível ela identificar as amigas. Ela conseguiu identificar algumas apenas pelo primeiro nome, não se recordando dos sobrenomes ou de qual família eram e não se recordando nem do nome de outras. Minha mãe, hoje com quase 93 anos, tem sérios problemas de memória e também para todos nós, quando a convivência se acaba é natural que acabemos nos esquecendo daquelas pessoas que não foram tão presentes na nossa intimidade. 

Segue anexo a foto e aqui estão os nomes das senhoritas que representavam a "fina flor" da sociedade Custodiense na época, 1938. As que minha mãe não lembrou o nome colocarei uma "?".

Em pé: 1- "?" - 2-Jandira Farias - 3- Renilde - 4- "?" - 5- Rosa Góes - 6-Iracy - 7- Auta.
Sentadas: 1- "?" - 2- Nazaré - 3- Alzira Farias - 4-Joanita - 5- Ozanira Farias - 6- Antônia (filha de sêo Duda do banheiro).

Ainda :Marieta Severo, Dulcilia Florencio, Neuza Gonçaves, Neide Campos, Don Don Pires, Anunciada Cota, Eliza Beltrão...(quem souber a posição delas na foto, nos informar.)
Creio que seria interessante publicar a foto no blog e talvez receber mensagens de alguém que identificasse as que minha mãe não conseguiu.

Abraços

Jailson Vital

21 junho, 2022

Boêmios de Custódia (1960)


Boêmios de Custódia, dos anos 60. Vale avisar que os violões eram apenas para compor a foto, pois ninguém dessa turma tocava instrumento nenhum. Mas tinha serenata sim senhor. Para quem, é segredo.

Da esquerda para a direita: Hermes Leandro, Herbert Marinho, João Bosco Epaminondas, Sílvio Carneiro, Antônio Medeiros (Totonho), Jailson Vital e João Elizeu.

Jailson Vital

07 dezembro, 2021

Ô coisa boa da peste! - (Gândavos)

Autor: Jailson Vital - Custódia/PE

Coisa boa de se ler...

A palavra "coisa" é um bombril do idioma. Tem mil e uma utilidades. É aquele tipo de termo-muleta ao qual a gente recorre sempre que nos faltam palavras para exprimir uma ideia. Coisas do português.

A natureza das coisas: gramaticalmente, "coisa" pode ser substantivo, adjetivo, advérbio. Também pode ser verbo: o Houaiss registra a forma "coisificar". E no Nordeste há "coisar": "Ô, seu coisinha, você já coisou aquela coisa que eu mandei você coisar?".

Coisar, em Portugal, equivale ao ato sexual, lembra Josué Machado. Já as "coisas" nordestinas são sinônimas dos órgãos genitais, registra o Aurélio. "E deixava-se possuir pelo amante, que lhe beijava os pés, as coisas, os seios" (Riacho Doce, José Lins do Rego). Na Paraíba e em Pernambuco, "coisa" também é cigarro de maconha.

Em Olinda, o bloco carnavalesco Segura a Coisa tem um baseado como símbolo em seu estandarte. Alceu Valença canta: "Segura a coisa com muito cuidado / Que eu chego já." E, como em Olinda sempre há bloco mirim equivalente ao de gente grande, há também o Segura a Coisinha.

Na literatura, a "coisa" é coisa antiga. Antiga, mas modernista: Oswald de Andrade escreveu a crônica O Coisa em 1943. A Coisa é título de romance de Stephen King. Simone de Beauvoir escreveu A Força das Coisas, e Michel Foucault, As Palavras e as Coisas.

Em Minas Gerais, todas as coisas são chamadas de trem. Menos o trem, que lá é chamado de "a coisa". A mãe está com a filha na estação, o trem se aproxima e ela diz: "Minha filha, pega os trem que lá vem a coisa!"

Devido lugar: "Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça (...)". A garota de Ipanema era coisa de fechar o Rio de Janeiro. "Mas se ela voltar, se ela voltar / Que coisa linda / Que coisa louca." Coisas de Jobim e de Vinicius, que sabiam das coisas.

Sampa também tem dessas coisas (coisa de louco!), seja quando canta"Alguma coisa acontece no meu coração", de Caetano Veloso, ou quando vê o Show de Calouros, do Silvio Santos (que é coisa nossa).

Coisa não tem sexo: pode ser masculino ou feminino. Coisa-ruim é o capeta. Coisa boa é a Juliana Paes. Nunca vi coisa assim!

Coisa de cinema! A Coisa virou nome de filme de Hollywood, que tinha o seu Coisa no recente Quarteto Fantástico. Extraído dos quadrinhos, na TV o personagem ganhou também desenho animado, nos anos 70. E no programa Casseta e Planeta, Urgente!, Marcelo Madureira faz o personagem "Coisinha de Jesus".

Coisa também não tem tamanho. Na boca dos exagerados, "coisa nenhuma" vira "coisíssima". Mas a "coisa" tem história na MPB. No II Festival da Música Popular Brasileira, em 1966, estava na letra das duas vencedoras: Disparada, de Geraldo Vandré ("Prepare seu coração / Pras coisas que eu vou contar"), e A Banda, de Chico Buarque ("Pra ver a banda passar / Cantando coisas de amor"), que acabou de ser relançada num dos CDs triplos do compositor, que a Som Livre remasterizou.

Naquele ano do festival, no entanto, a coisa tava preta (ou melhor, verde-oliva). E a turma da Jovem Guarda não tava nem aí com as coisas: "Coisa linda / Coisa que eu adoro".

Cheio das coisas. As mesmas coisas, Coisa bonita, Coisas do coração, Coisas que não se esquecem, Diga-me coisas bonitas, Tem coisas que a gente não tira do coração. Todas essas coisas são títulos de canções interpretadas por Roberto Carlos, o "rei" das coisas. Como ele, uma geração da MPB era preocupada com as coisas.

Para Maria Bethânia, o diminutivo de coisa é uma questão de quantidade (afinal, "são tantas coisinhas miúdas"). Já para Beth Carvalho, é de carinho e intensidade ("ô coisinha tão bonitinha do pai"). Todas as Coisas e Eu é título de CD de Gal. "Esse papo já tá qualquer coisa...Já qualquer coisa doida dentro mexe." Essa coisa doida é uma citação da música Qualquer Coisa, de Caetano, que canta também: "Alguma coisa está fora da ordem."

Por essas e por outras, é preciso colocar cada coisa no devido lugar. Uma coisa de cada vez, é claro, pois uma coisa é uma coisa; outra coisa é outra coisa. E tal coisa, e coisa e tal. O cheio de coisas é o indivíduo chato, pleno de não-me-toques. O cheio das coisas, por sua vez, é o sujeito estribado. Gente fina é outra coisa. Para o pobre, a coisa está sempre feia: o salário-mínimo não dá pra coisa nenhuma.

A coisa pública não funciona no Brasil. Desde os tempos de Cabral. Político quando está na oposição é uma coisa, mas, quando assume o poder, a coisa muda de figura. Quando se elege, o eleitor pensa: "Agora a coisa vai." Coisa nenhuma! A coisa fica na mesma. Uma coisa é falar; outra é fazer. Coisa feia! O eleitor já está cheio dessas coisas!

Coisa à toa. Se você aceita qualquer coisa, logo se torna um coisa qualquer, um coisa-à-toa. Numa crítica feroz a esse estado de coisas, no poema Eu, Etiqueta, Drummond radicaliza: "Meu nome novo é coisa. Eu sou a coisa, coisamente." E, no verso do poeta, "coisa" vira "cousa".

Se as pessoas foram feitas para ser amadas e as coisas, para ser usadas, por que então nós amamos tanto as coisas e usamos tanto as pessoas? Bote uma coisa na cabeça: as melhores coisas da vida não são coisas. Há coisas que o dinheiro não compra: paz, saúde, alegria e
outras cositas más.

Mas, "deixemos de coisa, cuidemos da vida, senão chega a morte ou coisa parecida", cantarola Fagner em Canteiros, baseado no poema Marcha, de Cecília Meireles, uma coisa linda.

Por isso, faça a coisa certa e não esqueça o grande mandamento: "amarás a Deus sobre todas as coisas".

ENTENDEU O ESPÍRITO DA "COISA" ?

Gente, ótimo final de semana! Eta,
COISA boa

Texto de Propriedade do Blog Gândavos - 
http://gandavos.blogspot.com.br/2013/04/coisa-boa-de-se-ler.html

O anjo de Altamira - por Jaílson Vital

Autor: Jailson Vital de Sousa


Cheguei à cidade de Altamira, no Pará, no princípio do ano de 1974. Fui trabalhar na manutenção da Rodovia Transamazônica, recém construída, e o contrato do DNER com a empresa em que eu trabalhava, ainda tinha 18 meses para serem cumpridos. Fui morar em uma casa construída em madeira, no acampamento dos engenheiros, que distava 1,5 km da periferia, e ficava à margem da rodovia. As casas eram bem feitas e confortáveis para o padrão das demais construções da cidade. De negativo, tinha a cor escura da madeira que, não refletia a luz natural, tornando o ambiente pouco iluminado, e as telas nas janelas para impedir a entrada dos mosquitos Carapanã que infestavam a selva amazônica e cuja picada deixava o local da pele esbranquiçado e com uma coceira dos diabos. Incomodava também, a solidão. No acampamento, que durante a construção da rodovia devia ser bastante movimentado, restavam eu e a família de outro engenheiro que trabalhava em projeto diferente, e assim tínhamos pouco contato. A distância de Altamira para outras cidades pela rodovia Transamazônica era: para o leste, a cidade de Marabá e para oeste, Itaituba, ambas a 500 km. Como essa rodovia não era pavimentada, uma viagem de Altamira para qualquer uma delas levava um dia inteiro se não fosse época de chuvas, quando então tornava-se imprevisível uma viagem dessa. Para Belém, somente de barco a partir do porto de Belomonte pelo rio Xingu, ou de avião. Portanto, a não ser por esses dois meios era impossível sair de Altamira. Para não ter problemas causados pela “clausura”, pelo menos de 3 em 3 meses, eu pegava um avião para Belém e ficava por lá durante uma semana. Eu gostava da Belém daquela época. Apesar do forte calor potencializado pela umidade elevada, o ar me parecia ter um odor agradável, a gente que habitava aquela cidade era simpática e amigável. Enfim, eu gostava de estar em Belém. Aprendi a gostar e também a dançar, ou tentar dançar, o carimbó, ritmo regional apressado que, tem passos próprios para se dançar. Encantava-me também, sendo sertanejo, como sou, a imensidão de água da Baia de Guajará, que cerca Belém.

Não posso dizer que a minha estada em Altamira não foi proveitosa em termos profissionais e pessoais. Fiz grandes amizades com pessoas locais e colegas de profissão, aprendi a trabalhar em ambiente de clima adverso. O Rio Xingu que margeia a cidade, o qual fazia parte das minhas quimeras de adolescente, quando ainda no curso ginasial, no estudo de geografia, estudava os rios afluentes do Rio Amazonas, tornou-se objetivo dos meus sonhos de descobrimentos. Enfim, banhei-me, alimentei-me dele e naveguei no rio dos meus sonhos da adolescência. Mas a paisagem nem sempre é bela como desejamos. A vida tem seus truques.

Certa vez fui ao hospital local, não me lembro do motivo. Na sala de recepção encontrei uma garota que aguardava atendimento. Tinha cerca de 7 a 8 anos de idade, vestia um vestidinho simples que ia pouco abaixo dos joelhos, nos pés uma chinela empoeirada, os cabelos alourados e pouco cuidados desciam sobre os ombros magros. O seu olhar cruzou com o meu e seus olhos azuis me fitaram. Olhei fixamente para aquele rosto sem expressão e fiquei emocionado com o que vi. Pareceu-me que alguém a tinha maquilado fazendo enormes círculos arroxeadas no entorno de seus olhos. Naquele momento eu era só indagação, enquanto aquela garota parecia que pedia-me socorro, sem no entanto fazer qualquer movimento com os lábios ou com os olhos. Talvez, não entendesse porque estava ali, nem da gravidade da sua situação. Então abaixou a cabeça como que resignada com o seu destino. Soube depois que ela tinha leucemia. A imagem daquela menina desde aquele momento, impregnou-se em minha mente. É horrível o sentimento de impotência diante da fatalidade.

Deduzi, pelo tipo físico que, ela era filha de algum das centenas de colonos que teriam vindos do sul do país para morar nas agrovilas, que eram conjuntos de casas pequenas, feitas de madeira, agregadas a um lote de terras doadas pelo governo federal e situadas à margem e ao longo da Rodovia Transamazônica com o objetivo de cultivar o solo e povoar a região. Esse projeto não deu certo e os lotes acabaram sendo abandonados pelos colonos.

A manutenção da rodovia, não exigia diretamente a minha intervenção constante. Havia uma equipe de operários, com um encarregado que comandava a realização dos serviços, usando máquinas e caminhões. Essa equipe adentrava a rodovia, cujo trecho sob nossa responsabilidade media mais de 200 km, toda segunda feira e só retornava aos sábados. Levavam os mantimentos necessários para uma semana e dormiam em barracas armadas por eles ou nas casas abandonadas das agrovilas.

Certa feita, um caminhão retornou em um dia no meio da semana, fato que só acontecia quando alguma máquina quebrava e era necessário vir buscar alguma peça, ou outra emergência séria. Aproximei-me para conversar com o motorista e indaguei o motivo da vinda. Ele apontou para a carroceria e mostrou-me um caixão funerário. Disse que era o corpo de uma menina que havia morrido de leucemia e o pai havia pedido a caridade de trazê-la para ser sepultada em Altamira. Eu não sei por que uma garota de quem eu não sabia o nome, causou-me tanta comoção naquele instante. Era a garota do hospital. Ela havia se tornado anjo.

Finalmente chegou o dia da minha partida de Altamira. Dentro do avião, enquanto eu tirava as últimas fotografias da cidade, através da janela, uma confusão de sentimentos tomava conta de mim. A alegria por sair enfim de uma cidade que me sufocava, a tristeza por deixar pessoas queridas e saber que nunca mais as veria, a satisfação pelo dever cumprido e a impressão que ainda carrego comigo de que um dia eu vi um anjo de olhos azuis e olheiras roxas. O meu anjo de Altamira.

Autor: Jailson Vital de Sousa - Custódia/PE
Publicação cedida pelo autor e pelo blog Gândavos
Crédito da ilustração: Edmar Sales 

03 dezembro, 2021

Geografia Sentimental da Várzea e alguma história [Jailson Vital]


Prezado Paulo

Lendo o livro Baraúna, escrito por Zé Carneiro, em certa parte destinada à memória da Várzea, ele recomenda como complemento a leitura da minha crônica sobre essa tão importante rua. Lembrei-me então que em certa época houve um problema com o seu servidor de onde "sumiram" várias publicações, entre elas a minha crônica. 

Hoje lembrei-me que tenho um Disco rígido que pertenceu a um notebook e uso eventualmente como backup. Fui procurar e lá estava a minha crônica sobre a Várzea. Aproveitei e fiz um reparo (edição) histórica, consertando um erro de pessoa. 

Diante dessa recomendação de Zé Carneiro, solicito encarecidamente a você, colocar de volta essa crônica na minha "página" do nosso tão querido blog.

Por Jailson Vital de Souza 



vár.zea 

sf 1 Campina cultivada. 2 Planície de grande fertilidade. 3 Terrenos baixos e planos, sem serem alagadiços, que margeiam os rios e ribeirões. 

Se fôssemos definir a Várzea, bairro (?) de Custódia, nos meados dos anos 50, não seria possível encaixá-la exatamente na definição do dicionário citada acima. No entanto a definição não é de todo inapropriada. Naqueles anos a Várzea começava no pé da ladeira (que ia do prédio do Forum onde hoje é a Biblioteca Municipal até onde hoje é a casa construída pelo Sr. Luiz Amaral) e terminava na casa do sítio de dona Izaque Lopes. 

Havia um espaço entre o pé da ladeira e a casa do sêo “Pedrinho da banca”, que não tinha nenhuma construção. Não havia ainda o clube, e os alicerces da casa do sêo Luiz Amaral foram erguidos alguns anos mais tarde. Esse espaço é que em alguma época de grandes chuvas poderia se assemelhar a uma várzea, pois corria aí um riacho que vinha das terras mais altas do sêo João Miro e barrado pela estrada da várzea inundava as terras a montante. 

Havia na estrada uma pontezinha de madeira sob a qual o riacho se metia para logo depois se espraiar por todo o espaço onde hoje é o clube, tomando o nosso campo de futebol, “a grama”, invadindo o sítio de dona Nita Remígio onde aguava os altos coqueiros, o canavial e as mangueiras da manga rosa mais cheirosa e saborosa que eu já chupei, passava por baixo da ponte da BR 232 e ganhava a Mata Verde. Aqui faço um parágrafo para explicar que a BR 232 nessa época passava pelo cemitério, pela Av. Inocêncio Lima (A Bomba) e seguia por onde hoje é a rodoviária. 

Não volto ainda ao ponto onde deixei a narrativa. Volto devagar e demoro-me um pouco na “grama” e aí me vejo jogando bola, embora fosse um perna de pau, pois sendo asmático não tinha muito fôlego para correr atrás dela, mas me vejo jogando pião, bola de gude, enterrando ferrinho, derrubando “pitelo” de castanha de caju ou prendendo besouro em caixa de fósforo para ouvir o zumbido dele tentando se soltar. Era a “grama” também o palco das “rolétas” como eram chamadas as brigas em que os parceiros se agarravam um tentando derrubar o outro, brigas essas muitas vezes incentivadas pelos companheiros para se divertirem. 

Pronto, retomemos a narrativa a partir da casa do sêo Pedrinho que ficava no lado direito da rua. Desse ponto em diante havia casas dos dois lados. Permitam-me citar como referências algumas pessoas do meu conhecimento e das minhas lembranças que moravam lá, assim como algumas construções. Após a casa do sêo Pedrinho morava a minha primeira professora, dona Alexandrina, a família de sêo Abílio Moura (Abílio “cacundo”) e havia algumas casas antes de se chegar à casa de força do grupo gerador, motor como chamávamos, que fornecia energia elétrica a toda Custódia. Além de energia o “motor” fornecia também um barulho ensurdecedor à vizinhança. Barnabé o encarregado de seu funcionamento deve ter terminado os seus dias, surdo. 

Logo depois do “motor” havia duas construções que merecem ser citadas. Do lado esquerdo o posto de saúde e do direito o dispensário. O dispensário deveria ser uma entidade destinada a abrigar indigentes. No entanto ficou apenas na intenção, pois a construção se resumiu aos alicerces, à fachada e dois quartos, um de cada lado da fachada. Em um dos quartos morava “Maria doida” e no outro um maluco do qual não me lembro o nome (Luiz?, Catrevagem?), mas que se irritava quando a meninada fazia a pergunta: onde está a guerra ? Ele respondia: a guerra tá embaixo do chão e depois corria e atirava pedra na meninada. 

Diante da inusitada pergunta e da resposta não sei bem se o maluco ficava atrás da pedra ou estava correndo à frente dela. Atrás do dispensário, um pouco mais afastado ficava o “cemitério velho”, abandonado e com muitas lápides de suas sepulturas quebradas deixando à mostra as ossadas. Depois do dispensário havia um espaço sem casas para depois recomeçar. Desse lado morava a família do marceneiro sêo Lunga e dona Lindalva que eram vizinhos dos meus pais, sêo Zé Vital e dona Jandira. No lado esquerdo havia a marcenaria do sêo Lunga, a casa de Adamastor e de sêo Catonho Florêncio. Ficava desse lado também um casarão de cumeeira alta onde morava Antuza. 

Ao lado do casarão tinha uma estrada que conduzia aos fundos deste e à porteira de entrada do sítio de dona Nita. Faço aqui uma pausa para prestar homenagem a um morador do sítio de dona Nita que era personagem das festas religiosas de Custódia. Zé Biá era exímio flautista que com seu pífano de taboca acompanhado por companheiros no zabumba, triângulo e outro pífano fazendo segunda voz animava as festas. Retorno mais uma vez a descrever a Várzea. 

Depois do casarão, do lado esquerdo, recordo que tinha apenas uma pequena bodega e um largo espaço sem construções antes de chegar ao chafariz de sêo Duda do Banheiro. O chafariz ou banheiro como também era chamado era um prédio com uma grande caixa d’água que era abastecida de um cacimbão construído ali mesmo. A fachada enegrecida parecia ter levado uma mão de cal apenas na inauguração sabe-se lá quantos anos atrás. Dela saiam duas grossas torneiras de ferro que jorravam a água para as latas de 20 litros dos que lá iam se abastecer. Pagavam cada lata d’água com uma fichinha de flandres marcada a punção que haviam comprado antes. Dentro do prédio havia vários banheiros igualmente sujos e de chão escorregadio, onde muitos homens iam tomar seu banho semanal. Pagavam igualmente com uma fichinha. Fazendo outra pausa nessa caminhada esclareço que sêo Duda do Banheiro não é o mesmo que sêo Duda Ferraz. 

Este poderia ser considerado um multi-empresário da sua época. Atuava como mecânico dando suporte à manutenção do grupo gerador que fornecia energia à cidade, juntamente com seu filho Adamastor e Zé de Isaías. no ramo do entretenimento (Parque de diversão, constituído de canoas e carrossel que ele e novamente com Adamastor, construíam) e no ramo da comunicação (Serviço de alto-falantes: Difusora Duas Américas). Embora atuasse nessas 3 frentes, não tinha sequer 1 empregado. Trabalhavam para ele o filho Adamastor e 3 filhas. Sêo Duda Ferraz morava próximo à “grama”, na fronteira entre a Várzea e a rua “de baixo”. 

Bom, voltemos a caminhar, porém agora do lado direito da rua pois do lado esquerdo depois do chafariz não tinha mais nada, era somente roça. Depois da minha casa havia somente umas 4 casas antes de começar o muro que cercava uma fábrica abandonada. Tinha uma chaminé alta, vários tanques e montes do que parecia um pó grosso de madeira, de uma cor avermelhada que chamávamos de tanino. Provavelmente tinha sido um curtume que algum tempo depois foi reativado por sêo “Manuel do curtume” um viúvo, pai da bela morena Jandira. 

Depois do curtume havia igualmente no lado direito, um grande vazio para depois surgir o sítio do sêo Zé Major, um senhor moreno, alto e cego que criava vacas e vendia leite para a população. Depois do sítio de sêo Zé Major tinha umas poucas casas onde morava sêo Fantim Simões pai de Totonho e onde chegado de Betânia veio morar também sêo Anfilófio pai de uma penca de filhos entre os quais Tadeu, Maristela e Célia. Daí para diante era somente vazio até chegar a casa de dona Izaque Lopes. Hoje para vencer essa distância entre o pé da ladeira e a casa de dona Izaque é um pulo. Naquela época era uma viagem com algumas aventuras no meio. Eu com certeza tive as minhas. 

Vitória – ES, 07 de setembro de 2007

04 novembro, 2021

O Eclipse - por Jailson Vital



Por Jailson Vital de Souza

Nos dias de hoje a crendice em fantasma, alma penada, lobisomem, vampiro etc., está desmoralizada. Os filmes de terror que antigamente nos assustavam tanto e nos deixavam sem dormir, hoje são comédias e os personagens embora de aparência aterrorizadora e executando ações macabras, só provocam gargalhadas dos jovens espectadores. No entanto uma parcela grande da população, principalmente aquela menos culta, ainda acredita que fenômenos naturais como enchentes, secas prolongadas, grandes incêndios e eclipses são castigos de Deus ou sinais do fim do mundo. Imaginem essa situação no início da década de 60. Ou melhor, imaginem o anúncio em Custódia de um eclipse total, naquela época. Pois eu lhes conto. 
O anúncio do eclipse (da lua, acredito) trouxe inquietação a grande parte dos moradores e começou a correrem os boatos dos malefícios trazidos por esse acontecimento, como doenças, pestes e mortes. Mas corria também para alívio dos desesperados a receita do antídoto para tudo isso. À semelhança dos castigos de Deus ao faraó e seu povo no episódio bíblico das 7 pragas do Egito (Êxodo), onde a salvação para os israelitas seria pintar as ombreiras da sua porta com o sangue de cordeiro (pois Deus veria esse sinal e seu castigo não entraria naquela casa), a salvação para aqueles custodienses na ocasião do eclipse seria colocar um ramo de arruda em um vidro e pendurá-lo na porta de entrada da casa. 
Alguns estudantes, eu entre eles, achávamos aquilo tudo um absurdo e tentávamos explicar a algumas pessoas que o eclipse se tratava de um fenômeno natural causado pelo alinhamento do sol, da terra e da lua, mas éramos vozes vencidas. Éramos pouquíssimos em relação aos que criam que o ramo de arruda era a barreira contra o mal iminente. Não nos conformávamos vendo que quase todas as casas tinham um vidrinho com um ramo de arruda pendurado na porta. 
Então, “bolamos” um modo de demonstrar esse absurdo. Naquela noite, quando aconteceria o eclipse, já altas horas, quando todos dormiam, saímos no jeep de um de nós e cuidadosamente fomos recolhendo os vidrinhos e colocando no jeep. Ao final da “coleta” fomos para a praça em frente à igreja e lá, em uma construção circular de paralelepípedo construída talvez com o intuito de futuramente ser colocada uma estátua, fomos depositando os vidros. 
No dia seguinte ao acordarmos fomos para a praça ver a reação dos que paravam para ver aquilo sem entender o que significava nem como todos aqueles vidros tinham ido parar ali. Havíamos finalmente demonstrado que, mesmo sem a arruda estavam todos sãos e salvos.

26 setembro, 2021

Os medos de cada um - por Jailson Vital


Texto
Por Jailson Vital de Souza
Jalvital@gmail.com

Alma do outro mundo, alma penada; eu morria de medo. Ainda muito criança fui morar na Rua da Várzea. A casa tinha um quintal comprido, cercado por uma cerca de varas a pique. Atrás tinha um caminho que passava por trás de todos os quintais daquele lado da rua e mais adiante levava às ruínas do “cemitério velho”, como o chamávamos.

Essa proximidade da nossa casa com a porta do além me apavorava, principalmente nas noites em que vítima de um ataque de asma não podia dormir. As luzes se apagavam às 10 horas da noite e a fraca luz do candeeiro a querosene com sua luz bruxuleante dava movimento em alguma roupa dependurada na parede, aumentando a minha vigília. A minha mente enfraquecida pela doença e pelo sono, dava forma sobrenatural àquela roupa.

Vencido pelo cansaço eu conseguia adormecer, mas logo vinham os pesadelos. Personagens horrendos assemelhados à figura representativa do diabo que, eu tinha visto em algum livro vinham me atacar no quintal. No sonho o pavor era imenso diante daquela figura medonha e apesar dos meus gritos não aparecia ninguém para me salvar. Mas a mente fabulosa das crianças também cria os meios para escapar.

Então, não havendo saída eu dava um salto e começava a voar escapando do perigo de ser levado pelo diabo que, nos meus sonhos não voava. Esse pesadelo se repetiu algumas vezes, mas eu escapava sempre do mesmo jeito: voando. Tanto voei que terminei gostando e passei a usar dessa faculdade para me divertir. Voava por prazer e quando queria. Isso durou até a minha maturidade. E o diabo dos pesadelos? Deve ter ido para o diabo que o carregue, pois nunca mais atanazou os meus sonhos.

Cada época traz consigo os seus medos. Os de hoje, bem conhecidos, não incluem mais medo de alma penada ou do diabo, talvez. Os medos de hoje são mais bem reais e certamente e infelizmente mais danosos física e mentalmente. Os medos de antigamente eram transmitidos por nossos colegas quando contavam “acontecidos” fantásticos ou por nossos pais com o intuito de controlar melhor os filhos ou até porque acreditavam neles também.

O medo do diabo, como descrevi, era passado pelo padre, do púlpito, no sermão ou nas aulas de catecismo. A figura do demo era usada para inibir as crianças e adultos, no seu modo de agir, pois a lista de pecados era muito extensa e o diabo estava sempre a espera que alguém transgredisse as regras do bom comportamento.

Medo de Deus. Medo de Deus? Sim, isso mesmo. Do mesmo modo como a figura do diabo era usada, a figura pregada de Deus também. Deus era aquele que tudo via e estava sempre pronto a castigar quem saía da linha. Deus era uma espécie de “big brother”, o grande irmão do “romance” 1984 de George Orwell e chegava a ser representado em algumas gravuras por um grande e único olho. Esse conceito foi modificado pela Igreja que, prega hoje, Deus como o Pai amantíssimo e misericordioso.

Medo do pai. Hoje acredito que, poucas crianças têm medo do pai; o que não acontecia antigamente. Naquela época, a 40, 50 anos atrás o conceito de autoridade mandava que a obediência paterna e a disciplina devessem ser exercidas através de chicotadas e puxões de orelhas. O pai era temido e talvez também amado, mas esse segundo sentimento ficava bem oculto, pois era interpretado como uma fraqueza.

Medo de papangu. A figura medonha do papangu colocava qualquer criança em desespero. Quando pequeno, durante o carnaval, para ir da minha casa para a casa da minha avó era uma aventura. Eu fazia o trajeto por partes, correndo entre os pontos de parada seguros, vigiando se não aparecia algum papangu. Os rapazes que se trajavam de papangu vestiam geralmente perneiras e gibão e colocavam uma máscara tapando todo o rosto para não serem reconhecidos.

Outros envolviam o corpo em sacos de estopa, penduravam chocalhos na cintura que faziam um barulho disrítmico quando eles andavam ou corriam e usavam igualmente a máscara. Não podia faltar na mão um chicote que tinha uma ponteira, a qual produzia um estalido alto quando o chicote era brandido. A associação da vestimenta com o chicote apavorava até alguns adultos. Esses rapazes assim trajados saiam durante todo o carnaval, pedindo dinheiro e pregando susto.

Tormento, para mim, era quando morria alguém em Custódia. Eu não tinha coragem de ver defunto, pois isso estava associado ao medo de alma penada. Se fosse somente isso, tudo bem. Era só não ir lá vê-lo. Mas havia um costume, na época, de anunciar o óbito na difusora Duas Américas. E aí a coisa se complicava, porque esse anúncio era elevado à potência do absurdo.

Desde a hora do falecimento até a hora do sepultamento, toda a população era bombardeada com o anúncio e convite para esse “ato de piedade cristã” como anunciava a locutora, entremeada seguidamente, sem descanso, com a Ave Maria de Gounod, cantada por um tenor de voz grave, que mais parecia um lamento saído das profundezas. E não havia como fugir desse tormento, pois a Duas Américas tinha alto-falantes em toda a cidade. O jeito era esperar que o finado fosse finalmente sepultado.

Os leitores desta, conforme as suas idades irão alguns, identificarem alguma semelhança ou nenhuma. Como eu disse antes, são sinais do tempo. Cada tempo nos assusta de modo diferente. O importante é adquirirmos o conhecimento para que sejamos capazes de identificar os medos reais e possamos criar nossas defesas, e os medos criados pela nossa mente para que deles possamos nos tratar.

13 agosto, 2020

Manzualto! Camonebói


Por Jailson Vital de Souza

Era mágico. Eu entrava na casa de Fernando de Laura (Florêncio) sem pedir licença, me dirigia para a pilha de revistas de história em quadrinhos (HQ) que chamávamos gibís e fascinado com tanta diversidade escolhia a que queria ler ou reler e ler mais quantas vezes a revista me convidasse. Era fascinante incorporar os personagens heróis defensores da lei e da ordem. As revistas ainda eram impressas em tinta preta, mas meus olhos de menino davam colorido, davam movimento e davam som a cada quadrinho. 

Eu realmente vivenciava cada história. Os heróis eram diversos. Haviam os cowboys, os meus preferidos, cujo cenário era o velho oeste americano e nomes como Billy The Kid, Cavaleiro Negro, Tom Mix, Zorro, Hopalong Cassidy, Roy Rogers, Rocky Lane, Flecha Ligeira e muitos outros. Na Selva estavam lá atentos, Tarzan, O Fantasma e Jim das Selvas. Na cidade os heróis voadores Super Homem, Capitão Márvel, Capitão América e Centelha Vermelha além da dupla Batman e Robin. Nos mares, o Homem Submarino, no espaço planetário, Flash Gordon e Buck Rogers. Enfim, o mundo naquela época estava protegido dos malfeitores em todos os seus ambientes por esses personagens maravilhosos. 

Hoje, lembro de uma característica interessante. Nunca um herói matou um bandido. No máximo, um tiro era disparado na mão do facínora para derrubar-lhe a arma, estes eram dominados, presos e entregues ao xerife ou outra autoridade policial. Os autores tinham o cuidado de não estimular a violência. Muitos anos depois, com o advento das HQ de lutas marciais é que a violência começou a ser mostrada em suas histórias.

Depois veio o cinema. Zé de Isaías montou uma sala de exibição num prédio que ficava de frente para a Praça Padre Leão, próximo onde hoje é a Câmara Municipal e era a primeira sede ou veio a ser depois, do CLRC (Clube Lítero Recreativo de Custódia). O projetor era de 16 mm e a sessão precisava ser interrompida para trocar os rolos de filme. Tinha sessão apenas nos fins de semana. Foi nesse cinema que assisti: O Homem da Máscara de Ferro, O Conde de Monte Cristo e Os Sinos de Santa Maria, todos em preto e branco, pois o filme colorido ainda era raro. Mas o que mais atraía a meninada e mesmo os adultos eram os seriados. 

Eram filmes curtos de mais ou menos meia hora, semelhantes à novela de hoje, com uma diferença; o “mocinho ou a mocinha” terminava cada capítulo em perigo de vida. Passava sempre depois da exibição do filme semanal. A meninada ficava imaginando e discutindo, o resto da semana, o modo como eles sairiam daquela enrascada. Assim, ninguém perdia o próximo capítulo. O seriado que ficou na minha lembrança foi “Os Perigos de Nyoka”. 

O casal Nyoka e seu companheiro Larry eram os artistas. Todo capítulo essa mocinha caia numa armadilha montada pelos bandidos, era ameaçada por um leão ou uma cobra, despencava de uma cachoeira, era ameaçada por índios e muitas outras situações. Nós, meninos ficávamos apreensivos, torcendo pela nossa heroína.Algum tempo depois, esse cinema passou a ser propriedade de Inácio Germano, onde Osminda Carneiro era a bilheteira.As nossas brincadeiras, na época, incluíam a reedição dos filmes de faroeste com uns sendo os “artistas” e outros os bandidos. 

Brincávamos principalmente na Praça Ernesto Queiroz e em volta da igreja. As armas eram feitas de madeira ou simplesmente imitadas com a mão estendendo dois dedos. Quando algum menino surpreendia outro vinha a ordem de rendição: “manzualto”! Isto é, mãos ao alto. Dizendo assim ficava mais claro, pois a pronúncia MÃOS-AU-AU-TO ficava parecendo um latido. No final com todo mundo rendido fazia-se a conta de quem venceu. Geralmente todos. E para irmos embora vinha a ordem imitando os cowboys: 

“Camonebói”! (Come on boys) – Vamos rapazes.

Pois é. Vamos rapazes, vamos para Pasárgada, ainda dá tempo.

12 julho, 2020

O menino que acendia estrelas

Por 
Jailson Vital de Souza
Setembro/2013
         jalvital@gmail.com
 1 - O AMBIENTE 

Custódia, Início dos anos 50, casa dos meus avós maternos, Samuel e Prezalina. O meu avô negociava comprando produtos como ovos, carvão e queijo, dos sítios e fazendas que percorria montado em lombo de burro, e os revendia para o mercado da CEASA do Recife. Lembro de como ele embalava os ovos, colocando-os numa caixa grande de madeira, sobre capim seco, espaçados uns dos outros para não quebrar. Após, colocava outra camada de capim e assim sucessivamente até encher a caixa, a qual seguia para o Recife, sacolejando na carroceria de um caminhão, que rodava pelo menos 2 dias por estrada de terra, até chegar ao seu destino, incólume. A minha avó tinha um “café”, que na época era um misto de lanchonete e restaurante. Servia bolos e doces fabricados por ela mesma e na segunda feira, dia de feira na cidade, ela servia almoço para as pessoas que vinham da zona rural ou de outros municípios para participar desse imenso mercado a céu aberto, que ocupava grande parte da cidade, e era a principal fonte de renda dos pequenos comerciantes. 

A casa dos meus avós tinha duas frentes: uma para a Av. Inocêncio lima, que era mais conhecida como a rua da bomba ou simplesmente a bomba, pois era por lá que passava a rodovia e tinha dois postos de combustíveis. Um pertencente a João Miro e o outro a Francisquinho Pires. Nessa frente é que funcionava o café da minha avó e vizinho, a bodega do meu avô. A outra, dava para onde é hoje a Praça Padre Leão. Nessa parte da casa é que tinha as dependências normais de uma residência: sala, quartos, sala de jantar. Em frente da casa, um imenso quadrilátero de terra, vazio, constituía o que chamávamos o quadro da rua. Era costume designar como “a rua”, o centro da cidade, o local onde existia comércio, bares, igreja, o local onde regularmente a população se reunia para algum evento. O “quadro da rua” de Custódia, era um retângulo, com uma leve inclinação, constituído de casas estreitas, geralmente de uma porta e uma ou duas janelas também estreitas, dando diretamente para a calçada e coladas uma à outra. Não me lembro de alguma casa ter um espaço frontal destinado a plantação de flores à guisa de um jardim. 

Em cima da calçada, geralmente largas, havia árvores da espécie fícus benjamina, cuja copa dava sombra que refrescava a frente das casas no período de muito calor e onde os moradores dos sítios amarravam os animais de montaria quando vinham à “rua”, comprar algum mantimento ou remédio. Alguns anos mais tarde essa espécie de árvore teve que ser cortada por abrigar em sua folhagem um inseto popularmente conhecido como potó, cujos fluídos em contato com a pele humana provoca queimadura e o surgimento de bolhas muito doloridas. Em um dos lados menores desse retângulo, na parte mais alta, erguia-se e ergue-se imponente a igreja matriz de São José, com sua bela torre, cujo sino fazia a chamada para as missas, anunciava a morte de alguém, repicava alegremente nas festas do padroeiro e até em uma determinada época posterior, anunciou as 9 horas da noite, comandado por Sebastião, o sacristão e ordenado pelo padre Luiz Klur, cujo intuito era avisar aos jovens que era hora de se recolherem aos seus lares, principalmente àqueles que namoravam nos degraus da igreja.

Em frente à igreja, estendia-se um imenso descampado de terra nua. Esse descampado era dividido ao meio por uma fileira de postes de madeira, que ia da igreja até o lado oposto. Os postes eram encimados por arandelas de onde pendiam lâmpadas de pouca potência que, iluminavam pouco mais que um círculo cujo diâmetro não era superior à sua altura. Completavam a iluminação, postes colocados rente às calçadas, próximos das casas. A baixa qualidade das lâmpadas era o que havia disponível na época, aliada a pouca potência do gerador que fornecia a energia elétrica. À noite, o quadro da rua era imerso numa penumbra. Eram raras as pessoas que saiam de casa após o jantar. Distinguiam-se grupos de crianças que brincavam correndo, fazendo alarido ou um adulto que ia à farmácia comprar remédio para dor de dente. À “boquinha” da noite, em torno das 18 horas, todos se recolhiam para o jantar que era realizado com a família toda reunida em torno da mesa. Sopa de feijão com macarrão ou canja feita com as sobras da galinha do almoço, cuscus ou xerém com leite ou ensopado com o caldo da galinha, arroz doce, jerimum de leite amassado com o garfo e imerso no leite, imbuzada na época de imbú, canjica e pamonha na época de milho verde, ou simplesmente ovo, pão e café. Esse era o cardápio da imensa (nem tão imensa assim) maioria dos custodienses. Nesse aspecto, vivíamos em uma comunidade socializada. 

18 horas era o marco de transição entre o dia muitas vezes luminoso, quente e seco e uma noite amena e estrelada. A conta da energia era cobrada pela quantidade de pontos de luz que havia na residência. Por isso, muitas famílias tinham pontos de luz apenas em alguns cômodos e ao anoitecer acendiam os candeeiros que também tinham a sua vertente econômica. Os mais pobres usavam um candeeiro feito de folha de flandres (lata), em forma de cilindro soldado em um funil invertido. Abastecia-se o candeeiro com querosene, colocava-se um pavio de algodão torcido, pelo furo do funil que ficava umedecido pelo querosene. Com um fósforo acendia-se o pavio que fornecia uma chama proporcional ao comprimento do pavio que ficava para o lado de fora. Os que tinham condições, adquiriam uma lamparina, cujo princípio de funcionamento é o mesmo do candeeiro, porém de aspecto mais harmonioso: o recipiente para o querosene era fabricado em vidro ou louça e a chama fornecida por um pavio de algodão trançado, além de ser protegida por uma manga (cilindro de vidro transparente) que irradiava a luz com mais eficiência e poder ser controlada por um dispositivo externo que aumentava ou diminuía o comprimento do pavio. 

2 - ACENDENDO ESTRELAS 

Quando o meu avô viajava, minha mãe me mandava ficar com minha avó. Tinha eu por essa época, uns 9 ou 10 anos e era cheio de alegria que eu ia para o paraíso dos bolos e doces. Raspar as panelas era a melhor diversão que eu poderia ter e eu fazia essa tarefa com competência. Ela, cansada da labuta do dia, ia dormir cedo da noite. Começava para mim outra atividade das mais prazerosas: a observação do firmamento. Começava com as últimas réstias de luz do dia. Lá próximo ao horizonte ia-se acendendo a estrela D’Alva. Com o avanço da noite, esta ia ficando maior e mais brilhante, resplandecendo. Alguns anos depois vim a saber que a Estrela D’Alva não era uma estrela, mas sim o planeta Vênus. A minha admiração por aquela estrela brilhante não diminuiu. Aumentou a minha curiosidade e daí a indagação: -haverá habitantes em Vênus? -Será que eles estão olhando para nós agora? -Que aparência terão? Logo após o jantar, eu armava a espreguiçadeira na graduação máxima para ficar quase deitado e a colocava na calçada, em frente da casa. Deitava-me e começava a observação. Descobri que uma estrela que se apresentava com um brilho avermelhado, diferente das outras, também não era uma estrela mas sim o planeta Marte. A curiosidade outra vez aguçava a imaginação .

-Será que os marcianos são realmente uns homenzinhos verdes e tem antenas como aparece no cinema? 

As Três Marias eram as estrelas mais evidentes no céu. Em linha reta, com espaçamentos iguais e ambas brilhantes, bastava olhar para cima e logo as distinguia. Também vim a saber que essas três estrelas faziam parte da Constelação de Orion. Formam o cinturão da figura. O Cruzeiro do Sul é outra constelação fácil de se ver. Formada por 5 estrelas. 4 formam a cruz e uma quinta estrela com pouco brilho, aparece abaixo do braço direito da cruz e por isso é chamada de Intrometida. O Cruzeiro do sul aparece próximo ao horizonte sul, e seu braço maior aponta para o polo sul. Serviu de orientação ao navegador Fernão de Magalhães em sua expedição de circun-navegação do globo terrestre. Em sua homenagem, foi dado o seu nome (Estrela de Magalhães), à estrela α (Alpha), a inferior e mais brilhante do braço maior da cruz. Aprendi lendo que, seguindo a direção do braço menor do Cruzeiro do sul, da direita para a esquerda, e à distancia de duas vezes o seu comprimento, encontramos a estrela Alpha Centauri , que faz parte da Constelação do Centauro e é a estrela mais próxima do nosso sistema solar.

À medida que a noite avançava, as luzes da iluminação da praça já não atrapalhavam muito, mas quando essas se apagavam, entre 9 e 10 horas, havia uma explosão de luzes no céu. Acontecia então uma sublimação. Eu, criança, inconscientemente me concentrava naquele esplendor e flutuava. Despregava-me da espreguiçadeira e levitava ao encontro dos astros, flutuando em unicidade com o universo.

O tempo passa. No início dos anos 60, chega a energia elétrica gerada pela Usina de Paulo Afonso. A iluminação das cidades melhora com a invenção da lâmpada de vapor de mercúrio. A qualquer hora pode-se acender uma lâmpada e os aparelhos eletrodomésticos começam a aparecer nas casas. Com a forte iluminação das ruas a observação do céu à noite não era mais possível. A maioria das crianças nascidas na cidade a partir dessa época não conhece a beleza de um céu noturno. Eu também passei a me interessar por outras coisas.

Já adulto aprendi uma técnica de relaxamento eficiente e aliei essa técnica com a audição do álbum Meddle de Pink Floyd, culminando esse transe com a música Echoes. Creio que atingia o estado alfa de concentração e voltei a levitar, meu corpo descolando do chão e o meu espírito se elevando até as alturas conforme cada estágio da música. É impossível descrever as sensações desses 22 minutos de duração da audição. 

3 – O ESPETÁCULO 

Na metade dos anos 80, eu morava na cidade do Rio de Janeiro. Os meus dois primeiros filhos eram ainda pequenos. Fui convidado por um amigo a passar o feriado da Semana Santa na cidade de São Lourenço uma estância hidromineral do sul de Minas Gerais. No sábado de aleluia, ele me convidou para irmos à cidadezinha de Aiuruoca, no alto da Serra da Mantiqueira, a 989 metros de altitude, ao pé do Pico do Papagaio, onde ele queria visitar um parente. A estadia nessa cidade de casas antigas, ruas ladeirosas e uma igreja construída em estilo barroco, foi agradável, principalmente pela beleza dos cânticos antigos da celebração dos ritos da Ressurreição de Jesus.

Resolvemos voltar para São Lourenço, naquela noite mesmo. Já tínhamos saído da cidade há algum tempo e nos encontrávamos na parte mais alta da região a uns 1000 metros de altitude, quando de repente o nosso carro foi invadido por um turbilhão de luzes. Estrelas entravam pelo para-brisa, pelas janelas, dançavam dentro do carro. Meio atordoado e extasiado parei o carro no acostamento e desliguei os faróis. Então me deparei com um espetáculo que poucos têm oportunidade de ver. Miríades de estrelas faiscavam no céu como se todos os diamantes escondidos nas profundezas do solo das Minas Gerais houvessem numa gigantesca erupção sido pregados na abóbada celeste. Apesar de a lua não está aparente, a luminosidade era suficiente para enxergarmos a estrada e as árvores do contorno. Estrelas cadentes riscavam o céu. Creio que naquela noite, Deus estava fazendo uma demonstração de como foi o 4º dia da criação do mundo.

Dizem que quando alguém vê uma estrela cadente, deve fazer um pedido, que ele se realizará. Creio que naquela noite, devo ter pedido para ser feliz. E fui atendido. 

Vitória-ES, 11/05/12

17 outubro, 2013

Nova Biblioteca - A hora é agora (Jailson Vital)



Por Jailson Vital de Souza 
jalvital@gmail.com
Vitória-ES


Há algum tempo que, sempre que vou a Pernambuco passo pelo menos um final de semana em Custódia. A cada visita me surpreendo com algo novo. O crescimento demográfico urbano é impressionante. O cemitério que nos meus tempos de infância ficava bem afastado da periferia da cidade, hoje, encontra-se a bem dizer circundado com as construções de casas que estão sendo feitas nos loteamentos ao seu redor. O movimento do comércio e a diversidade de serviços, cresceu muito com o aumento da capacidade de compra da população, alavancada principalmente pela quantidade de empregos ofertados pelas obras do governo federal em andamento.

No entanto, há algo que está imutável através dos tempos e posso dizer sem erro, desde os meus tempos de estudante, e bote tempo nisso. Imutável não! Em decadência contínua! Trata-se da biblioteca municipal. Localizada ao lado da casa da minha tia, eu não poderia deixar de ver o descaso com que essa instituição foi e é tratada governo após governo. Abre diariamente e sempre teve uma funcionária sempre presente, não se sabe para que, pois os livros que ainda restam estão misturados nas prateleiras sem qualquer critério de arrumação ou catalogação, mesmo porque a funcionária não foi treinada para isso. Parece que nenhum prefeito olhou para a biblioteca como um órgão importantíssimo na complementação da educação recebida pelos nossos jovens na escola. 

Em uma sociedade carente como foi e hoje se esforça para sair dessa carência econômica como a de Custódia, seria na biblioteca, onde a juventude, principalmente, poderia procurar as informações complementares às que recebe nas salas de aula e onde o professor iria procurar aprimoramento aos seus conhecimentos além de aumento a sua capacidade intelectual. O preço do livro desestimula a sua compra, cabe ao poder público prover esse benefício à população. 

Tenho notado a vontade da juventude de formar grupos para a realização de eventos culturais como o grupo de danças Luar do Sertão, formado por jovens que se esforçam nessa tarefa com seus próprios recursos financeiros e conhecimentos literários, além da formação de jovens na arte de representar, iniciativa louvável do ator Humberto Guerra e anteriores tentativas de formação de grupos teatrais.. Mas é necessário que esses jovens encontrem fontes de pesquisas para se aprimorarem nas suas artes ou ficarão na mesmice. 

O livro é um portal mágico que transporta quem o lê para distâncias inimagináveis e tempos vetustos ou futuros. É lendo livros que podemos sair dos nossos limites físicos e viajar através das palavras e imagens para, por exemplo, Paris; entrar no museu do Louvre e conhecer as obras dos grandes mestres da pintura universal, ir a Atenas até a Acrópole conhecer a arte da arquitetura grega, mergulhar nas teorias do princípio do universo e da raça humana, tomar ciência do que estamos fazendo com o nosso habitat, a terra, e dos possíveis destinos que nos aguardam, conforme nossas atitudes.

É conhecendo a nossa história que evitamos que os erros cometidos se repitam. Lendo, nos abstraímos e incorporamos os personagens de um romance e nos deliciamos e sofremos com suas aventuras, enquanto percebemos o estilo que o escritor usa para tecer a trama. É nos livros que aprendemos novas palavras, novos conceitos, refinamos nosso poder de avaliação, mudamos ou reafirmamos nossas opiniões com maior sabedoria, escolhemos melhor nossa comida, nossa bebida, nosso lazer, as músicas que ouvimos; as nossas companhias, tomamos conhecimento dos nossos direitos de cidadão e podemos avaliar melhor os candidatos que pretendem nos governar. 

Custódia está passando por um momento excepcional, mas não nos enganemos que seja o suficiente. A atividade econômica pode continuar crescendo ou arrefecer quando faltar o pleno emprego, conforme as ações dos administradores públicos e dos empresários, mas o investimento que sustentará a capacidade de crescimento econômico, social e cultural é sem dúvida nenhuma o investimento na educação. A construção de um novo prédio para a biblioteca; mais amplo, com capacidade de abrigar um acervo importante, a instalação de computadores para gerenciar o acervo e prover acesso à internet, dirigidos à consulta e estudos, o emprego de um(a) bibliotecário(a) ou pessoa capaz de fazer indicações e devidamente treinada nos assuntos de gerência de uma biblioteca, a atuação da Prefeitura junto ao Ministério e Secretarias Estaduais da Educação e Cultura, campanha de doação de livros novos e usados pela população e empresas, torna-se nesse momento essencial e inteligente. 

A professora Zilda Simões está precisando de uma casa digna. Os professores terão papel de importância primordial no funcionamento da biblioteca. Na divulgação, incentivo à leitura, indicação, uso e interpretação de textos na sala de aula. 

Caros conterrâneos custodienses: o cavalo da oportunidade está passando na nossa porta selado e encilhado. Montemos agora, pois se deixarmos para depois, talvez só vejamos a poeira deixada pelos seus cascos. 

(*) Todo e qualquer texto publicado não reflete necessariamente a opinião deste blog. Refletem apenas a opinião do autor.