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19 dezembro, 2021

[Biografia] José Ferreira Gomes (Zé Cavaco)



José Ferreira Gomes, vulgo Zé Cavaco, nasceu dia 15 de junho de 1931. A primeira viagem foi com quatro anos de idade, deslocando-se da sua cidade natal, Arcoverde-PE para Carnaíba-PE, em 1935.

De Carnaíba mudou-se para Samambaia, município de Custódia, passando a morar na Fazenda Lage, a partir de 1939. Ano em que ele perderia seu pai, que era agricultor e barbeiro, João Gomes dos Santos, que morreu com 35 anos. Sua mãe Quitéria Felícia Ventura morreu no dia 1º de maio de 1987, com 83 anos. João Gomes está sepultado em Samambaia e Quitéria em Paulo Afonso.

Zé Cavaco, chegou em Algodões, município de Sertânia-PE, em 1946, lugar onde conheceu Edite Ferreira Ventura, paraibana, nascida 03 de fevereiro de 1929, sua esposa a partir de 17 de abril de 1956, ano que foi para o Piauí, vivendo no Sítio Morro dos Cavalos, município de Simplício Mendes.

No dia 07 de abril de 1958, passou a trabalhar na CHESF em Paulo Afonso – BA, durante 33 anos e três semanas, até 14 de abril de 1991. Já com 61 anos, foi morar em Custódia – PE, onde vive até hoje e, pelo ano de 1994, conheceu o professor e artista plástico Pedro Cezar, o qual passou a auxiliá-lo nas pesquisas dos objetos do seu Museu. Foi também em Paulo Afonso, que nasceu Cícero Ferreira Ventura, 18 de maio de 1964, único filho do casal.

O senhor João Chaves trouxe uma cavalhada de Camalaú-PB para Algodões em 1934. Ainda em suas férias do trabalho, Zé Cavaco organizou e ampliou a Cavalhada de Algodões, de 1979 até janeiro de 1982. O registro de sua passagem em Algodões está na pilastra colocada em frente da capela de São Sebastião, feita em 1994, contendo quatro significados: a cavalhada, o vaqueiro, a religião e a política. Após esses 5 anos de experiência ele planejou ter sua própria cavalhada na vila Samambaia. O que veio acontecer em 23 de janeiro de 1988.

A primeira tinha apenas 12 cavaleiros, que usavam as cores verdes e vermelhas em fardas muito bem estilizadas. A próxima apresentação aconteceu em 1994 com 16 componentes. Neste mesmo ano tratou de deixar para as gerações futuras um registro definitivo: fundou a sede da Cavalhada, a qual contém o seu busto de pedra. Adquiriu serviço de som e imagem, além de muitas fotografias que atestam seus eventos. José Ferreira Gomes, ainda com preocupações históricas, fez doação de uma placa que registra a fundação da capela de Caiçara.

Um ano depois o número de componentes passaria para 24 cavaleiros, divididos em dois grupos de 12. Os espetáculos aconteceram até 1997, quando ele desistiu do evento e passou a se dedicar mais ao Museu Zé Cavaco, fundado em janeiro de 2000. Os equipamentos de sua Cavalhada foram destinados para Umbuzeiro-PB, cujo responsável é Chico Vereador local.

Até o momento, não obteve ajuda de ninguém, pois achava que o acontecimento deveria ser o mais naturalmente possível, inclusive pedia a participação dos moradores da vila na aquisição dos cavalos, o que aconteceu de bom grado até certo momento, pois os cavaleiros, não entendendo o sentido cultural do evento, passaram a exigir um prêmio ou um pagamento pela participação na festa.

Zé Cavaco, por sua vez, não obteve mais o prestígio por parte dos cavaleiros, que em vez de simples participantes, achavam-se verdadeiros profissionais, já que queriam ganhar pelo evento. Foi esse o principal motivo que levou esse senhor a desistir de toda a movimentação e construção desse maravilhoso espetáculo folclórico. Esvaziado de prestígio e incompreendido pela maioria da população que o tinha, e o ainda tem, como verdadeiro “besta”, lamentou muito não poder manter o espetáculo, que acontecia uma única vez por ano, não era uma ocupação de todos os dias, era uns pedacinhos de horas perdidas, dedicadas a pré-animação da tradicional festa de São Sebastião, sem fins lucrativos, pois não obtinha nenhum benefício vindo da organização da cavalhada, pelo contrário, todos os anos, tirava do seu salário o suficiente para manter todos os equipamentos desde as botas, vestimentas dos cavaleiros e adornos dos cavalos, até os mastros(doação de seu primo José Gomes da Silva), serviço de som, imagem e locução voluntária de Tiburtino ou Pedro Cezar, além do registro dos pontos feito por Damião e o apoio caseiro de João Pieta e sua esposa Josefa.

Zé Cavaco pensava que os cavaleiros iriam segurar as suas participações na Cavalhada, com a intenção de valorizar Samambaia e transformá-la num evento cultural grande, para atrair mais gente para as comemorações da Festa do Padroeiro, o que beneficiaria, até economicamente os comerciantes da vila, tornando-a conhecida fora dos limites de Custódia e região. Seria uma espécie de marca registrada, pois o local é conhecido apenas pela Usina de Caruá Vasconcelos & Cia, comprada por Numeriano de Freitas e, ainda hoje de pé, graças a Clodoaldo eAristóteles.

A Cavalhada de Samambaia seria uma marca, assim como a usina é e será sempre. A Cavalhada só viria a contribuir para engrandecer as artes e a cultura da Vila, considerada hoje, pelos próprios moradores, um local parado, esquecido, lento, com tendência ao esquecimento de sua própria história.

Para que isso não acontecesse, veio novamente a idéia, a perspicácia, a coragem, a sensatez, a visão de mundo de Zé Cavaco, que a partir do ano 2000, começou a perseguir o seu grande sonho, iniciou a construção do Museu Zé Cavaco, em prédio próprio e localizado na Vila de Samambaia, sob número 1931, data de nascimento do fundador. E agora em 2002, sente seu sonho realizado, mesmo que ainda falte algumas pequenas coisas.

De início o Museu era para contar a História das Cavalhadas organizadas por José Ferreira Gomes. Mas com o acúmulo de material, o local se tornou polivalente e Zé Cavaco passou a valorizar as coisas do homem do campo, a história local, com objetos de uso doméstico e educacional, como as lousas usadas pelos antigos alunos da região, máquinas de costurar antigas e muitos outros objetos interessantes. Também possui temas alusivos às histórias do Brasil e do mundo, história do cangaço e Antônio Conselheiro (Canudos), de Luiz Gonzaga, de Padre Cícero e Frei Damião e, também de Delmiro Gouvêia, que foi o primeiro a construir uma usina na cachoeira do “Grutião”(sic!), na parte alagoana do rio São Francisco, idéia esta que serviu de base para Apolônio construir a grande usina de Paulo Afonso-BA, provida pela CHESF.

Todo esforço de José Ferreira é para que a cultura não morra, para que ela seja preservada para as futuras gerações de moradores de Samambaia e região. É um pouco de conhecimento geral, uma ínfima parte da biblioteca da humanidade, porém feito com carinho e dedicação.

PS: Trabalho elaborado pelo artista plástico PEDRO CEZAR, cedido gentilmente para o blog Custódia Terra Querida. Para que mais trabalhos desse porte sejam publicados com mais frequencia no blog, pedimos as pessoas caso usem o texto em algum trabalho ou site, cite o nome do autor, pois, trata-se de um projeto feito com muito carinho, e de uma riqueza cultural de grande valor para o município.

19 agosto, 2020

História da Cavalhada - Por Pedro Cezar



A História da Cavalhada nasce durante a dinastia carolíngia ou reinado de Carlos Magno (século VI d.C.), portanto há quase 1500 anos. Carlos Magno, de religião cristã, lutou bravamente contra os sarracenos, de religião islâmica, impedindo-os de invadir o centro norte da Europa. A cavalhada é uma tradição dos torneios da Idade Média, onde os aristocratas exibiam em espetáculos públicos, sua destreza e valentia. Na verdade, cavalhada representa a luta entre mouros e cristãos. O feito foi amplamente divulgado, como mostra de bravura e lealdade cristã, por trovadores que viajavam por toda a Europa.

E ficou sendo conhecido como a “A Batalha de Carlos Magno e os 12 pares de França”, livro este que o Museu Zé Cavaco possui um exemplar, considerado obra raríssima, só encontrada em três grandes bibliotecas do Brasil, um verdadeiro épico, cantado em trova, como forma de incentivar a população cristã contra as investidas dos exércitos islâmicos, que, apesar da derrota na batalha de Carlos Magno, não abandonou as investidas, principalmente ao Sul da Europa, vindos da Mauritânia.


Conhecidos como mouros, os muçulmanos da Mauritânia, invadiram, no século VIII, o Sul da Península Ibérica, dominando a região de Granada (Espanha), de onde foram expulsos somente em fins do século XV.

Foram quase 800 anos de ocupação moura por quase toda a península, o que colaborou para o avanço tecnológico destas nações, uma vez que os muçulmanos árabes, propagadores do islamismo, eram mais evoluídos, do ponto de vista tecnológico, artístico e cultural, do que os cristãos da época. Os reis que resistiram a este avanço refugiaram ao norte da península e mantiveram intacta sua cultura, vindo deles a iniciativa de expulsão da soberania moura na Península Ibérica. Incorporada ao folclore, durante séculos, a História de Carlos Magno era atração nas vozes dos trovadores e, somente em idos do século XIII em Portugal é que a Rainha Isabel resolveu instituí-la como uma festividade, aos modos de uma representação dramática, quase que como um jogo de xadrez, a fim de incentivar a instituição cristã e o repúdio aos mouros. 
 

A sua realização está ligada à Festa do Divino Espírito Santo, que tem origem na tradição portuguesa e leva em conta o calendário da Igreja Católica. Segundo a liturgia religiosa, é o dia de Pentecostes, exatamente 50 dias após a Páscoa. Provavelmente a Festa do Divino Espírito Santo foi instituída pela rainha Isabel, esposa do rei trovador Dom Dinis, de Portugal.
No Brasil essa tradição teria chegado por volta de 1756, com os portugueses, e ganhando perfil próprio em cada Estado, em cada região brasileira.

Na verdade, cavalhada representa a luta entre mouros e cristãos. São doze cavaleiros mouros e doze cavaleiros cristãos. No final da longa batalha, vencem os cristãos que ainda conseguem converter os mouros ao cristianismo. Trata-se de uma tradição praticada em várias regiões do Brasil, porém com diferenças marcantes de uma região para outra. Num grande campo de batalha, onde de um lado, o lado do poente, 12 cavaleiros cristãos vestidos de azul, a cor do cristianismo, lutam contra 12 cavaleiros mouros vestidos de vermelho, encastelados no lado do sol nascente.

No Brasil esta representação dramática foi introduzida, sob autorização da Coroa, pelos jesuítas com o objetivo de catequizar os gentios e escravos africanos, mostrando nisto o poder da fé cristã.

A Cavalhada de Zé Cavaco possuía um aspecto original, era uma mescla de modelo antigo, com vestes e desfile de cavaleiros e todo um ritual religioso e místico, baseado na fé católica, com a empolgante disputa de dois grupos de cavaleiros disputando entre si para ver quem retirava mais vezes a argolinha, exposta numa trave colocada em local apropriado.

Porém, a falta de visão cultural e descaso dos políticos e autoridades religiosas fez com que este acontecimento fosse posto fora dos limites da vila de Samambaia. Se o povo de Samambaia quisesse, a Cavalhada de Zé Cavaco, ou de São Sebastião, como Zé costumava falar, não corria o risco de essa memória de representações tão antigas desaparecerem com o desaparecimento dos “mais velhos”. Se por um lado ele tirava do deu próprio bolso para manter viva esta tradição, por outro o poder público teimava em desconhecer. Além do mais, as autoridades religiosas estavam aquém deste evento que principiava o dia das comemorações do padroeiro. Triste e reprimido em suas tentativas, não restou outra opção a José Ferreira Gomes, se não procurar uma comunidade que quisesse dar continuidade a seu capricho artístico. E todo o material, a exceção de alguns expostos no Museu Zé Cavaco para lembrar o ato folclórico foi doado à cidade de Umbuzeiro-PB. Torna-se necessário dizer aqui o tamanho da perda para Samambaia, para Custódia e para Pernambuco, visto que a Cavalhada foi ser realizada em outro Estado. É menos um ato. Deixa um vazio que poucos percebem, mas fica faltando um pedacinho de algo que se foi. Aquelas pessoas que participavam e gostavam sentem falta.

Por essas e outras, eu, Pedro Cezar Bezerra do Nascimento, que tenho familiares em Samambaia, peço que na minha ausência ou de Zé Cavaco, vocês dêem continuidade ao Museu, isso é um bem comunitário e de um valor cultural incalculável, pois as gerações futuras terão a oportunidade de tocar e ver, ler e pensar sobre seus ancestrais e o modo de vida que levavam em tempos passados. Um povo sem memória é um povo sem história, pois nós somos hoje aquilo que fizemos no passado.

PS: Trabalho elaborado pelo artista plástico PEDRO CEZAR BEZERRA DO NASCIMENTO, cedido gentilmente para o blog CUSTÓDIA TERRA QUERIDA. 

Para que mais trabalhos desse porte sejam publicados com mais frequência, pedimos as pessoas caso usem o texto em algum trabalho, cite o nome do autor, pois, trata-se de um projeto feito com muito carinho, e de uma riqueza cultural de grande valor para o município.