29 maio, 2026

Caminhoneiros - por José Melo




 DEDICADO AO MOTORISTA JUBILINO FERREIRA DA SILVA


Por José Melo                 


A vida de caminhoneiro sempre atraiu muitos fazendeiros do sertão, que não raro, vendiam seus rebanhos e aplicavam todo o dinheiro em caminhões, na maioria das vezes, velhos, que terminavam por arruinar financeiramente os antigos fazendeiros.

Muitas estórias eram contadas sobre a ventura e desventura desses aventureiros. Como a de um fazendeiro que comprou um velho caminhão, depois de ter vendido boa parte de seu rebanho. O caminhão quebrava mais que bolacha Creme Craker, e constantemente o velho fazendeiro tinha que vender algumas rezes para custear os constantes reparos.

Até que sem mais nenhuma rês para vender, com o caminhão quebrado no terreiro da fazenda, tomou uma decisão: mandou o “Chauffer” abrir a boca do “bicho” ( levantar o Capô), e dirigindo-se ao caminhão deu o veredito:

- “ Ô seu infeliz, você já comeu todo o meu gadinho, comeu toda a minha safra de algodão, comeu todo meu rebanho de cabras, e agora num tem mais nada. Se quer comer, agora você só tem as minhas terras. Vender eu não vendo mas se quizer, pode começar a comer!”

Esse evidentemente é um caso que não posso assegurar como verídico, mas muitos outros são verdadeiros, como o que relato a seguir.

Zé Batista sempre foi um fazendeiro muito equilibrado e trabalhador, sempre zelando por sua bela fazenda na Cacimba Nova.

Dado a proximidade da cidade, passou a morar na cidade. E foi contaminado pelo “cheiro da gasolina”.

Mas, precavido, procurou não errar. Antes de mais nada, construiu uma Garagem, na Rua Dr. Fraga Rocha. E quando alguém perguntava que construção era aquela, ele respondia sempre:

- “É uma garagem, pois penso no futuro em comprar um caminhão”.

Os amigos então o aconselhavam a desistir da empreitada, apontando os insucessos de muitos que enveredaram pela vida de caminhoneiro. Mas ele, apesar de analfabeto, era inteligente. Terminou a construção, trabalhou mais algum tempo, e depois comprou um Caminhão Chevrolet Brasil, zero quilômetro. Contratou um motorista e passou a realizar o seu sonho: fazia o transporte de mercadorias do Sudeste para o Nordeste e vice-versa. 

Com o passar dos tempos passou a encaminhar a filharada para a profissão de caminhoneiro. Resultado: todos os seus filhos, à exceção do caçula, o saudoso Ozório, passaram a dotar a profissão de motorista. Foi assim, um dos poucos fazendeiros que migrou para a atividade de transporte com sucesso.

Outros, nem tanto. Meu próprio pai tinha um comércio ativo, bem movimentado, com grande clientela. Caiu na tentação de ser caminhoneiro e viu seu comércio ir a deriva.

Vários “causos” engraçados se contam sobre caminhoneiros sertanejos. Como o de um Fazendeiro das Bandas do Barro Vermelho, que comprou um caminhão, e na primeira viagem, o novo caminhoneiro segui na cabine ao lado tendo o motorista, de nome Valdeci, constatado já no final da descida da Serra do mimoso que o “bruto” perdera os freios, exclamou:

“- Valha-me Deus, faltou freio!”

Ao que o apavorado transportador passa a implorar:

“- Intonce, Sêo Vardemar, pare pra eu descer, qui eu nun quero morrer de virada não!”

Outro fala sobre a arrogância de um motorista que acabara de dar um polimento na pintura do famoso “Marta Rocha” ( Chevrolet 1956, de linhas arrojadas para a época), quando um fazendeiro, encantado com a beleza do bruto passou a mão na pintura, ao que o motorista “chiou”:

“ - Ei, velho, tire a mão e esse saco velho da pintura do caminhão.”

Ao que o pobre coitado, humilhado, pergunta ao motorista:

“- Sêo moço, qui má lhe pregunto: quanto custa mar ou meno um caminhão desse?”

O Motorista, para humilhar ainda mais o velhote, deu um preço bem superior ao real. O velhinho fez as contas, abriu o saco velho e despejou em cima do capô do caminhão, uma verdadeira fortuna, fruto da venda de uma boiada, e cujo valor cobria o valor informado pelo motorista, e deu o troco ao motorista:

“- Apois se o caminhão vale isso e é seu, me passe os papé dele que eu compro ele agora, e pago a vista. Agora se não for seu, dêxe de xalerá o dono e num venha querer passar pito nas pessoa!”

Certa feita, Adamastor foi chamado para consertar uma camionete, em Quitimbu, que fazia semanas que a “bicha” não “pegava” nem no tranco. 

Limpeza do carburador, regulagem do relê, bota em tempo, enfim, faz uma revisão geral. Como a bateria estava arriada, pede aos presentes para dar uma empurradinha na camionete, para ver se ela “pegava”.

Na primeira tentativa, nada, na segunda também não. Depois de várias tentativas e novos ajustes, enfim ela pega, fazendo aquele barulhão tão esperado pelo dono, que não se contendo agradeceu:

“ Viva Santa Luzia, qui graças a ela meu carrim tá bom de novo!!!

Ao que, Adamastor, conhecido por sua fina ironia, não perdoou:

“- Se foi ela que consertou seu carro, porque você foi me chamar pra consertar?”

E o agora feliz proprietário contra argumentou:

“- Você consertou, mas ela ajudou!”

Adamastor aproveitou e concluiu:

“- Então você vai ter que pagar dobrado: além do meu trabalho, que deu certo, você teve a sorte de ter uma Santa ajudando!

E o pobre homem pagou a Adamastor regiamente e ainda faz uma doação para a Padroeira de Quitimbu.

E pra finalizar, nada mais ridículo do que aquele ajudante de caminhão que, para garantir a segurança do veículo e da carga, foi dormir na boleia do caminhão. Quando se preparava para dormir, descobriu um pijama do dono do bruto, e não teve conversa: vestiu aquela roupa “chic”.

Só que na manhã seguinte, quem disse que ele conseguia desamarrar o nó cego que ele deu no cordãozinho do pijama? Pense num sufoco, vendo a hora o dono chegar e ele ali vestido no seu belo pijama!!!

Não sei o final, só sei que isso aconteceu na antiga Bomba, no Posto Shell que lá havia.

28 maio, 2026

Fonte Luminosa da Praça Padre Leão



Quem lembra da fonte luminosa na Praça Padre Leão, década de 1990, é uma das lembranças mais nostálgicas e marcantes para quem viveu ou frequentou o centro de Custódia nessa época. Ela não era apenas um elemento decorativo, um ponto de encontro para os jovens custodiense.

Após reforma, a Praça Padre Leão passou por uma mudança, e nela, foi construido uma Fonte Luminosa. Era o cenário principal após a reforma, o costume de dar voltas ao redor da praça para conversar, paquerar e encontrar os amigos, embalado pelo movimento das noites de fim de semana e após as missas na Igreja Matriz de São José.

Para a tecnologia da época, a fonte era uma verdadeira atração visual na cidade. Ela operava com um sistema de jatos de água intermitentes que mudavam de altura, combinados com um jogo de luzes coloridas (geralmente tons de verde, azul, vermelho e amarelo) instaladas submersas ou na base dos jatos. O reflexo das cores na água em movimento causava um efeito fascinante, especialmente para as crianças da época.

Antes da era dos smartphones, a fonte luminosa era o "cartão-postal" oficial da cidade para registros fotográficos analógicos. Muitas famílias custodieneses, jovens casais e visitantes guardam em seus álbuns de fotos de papel registros com a fonte colorida ao fundo, registrando momentos festivos, vestimentas de domingo ou os tradicionais festejos de fim de ano e padroeiro.

Com o passar dos anos e as sucessivas reformas urbanas que a praça sofreu ao longo das últimas décadas, o desenho original do espaço foi se modificando. O desgaste natural dos sistemas hidráulico e elétrico, somado às novas concepções de arquitetura das gestões públicas, fez com que a dinâmica da praça mudasse, deixando a antiga fonte luminosa dos anos 90 guardada na memória afetiva e na identidade cultural dos moradores de Custódia.

Paulo Peterson

27 maio, 2026

Encontro de Luiz Epaminondas Filho com Presidente João Figueiredo e Marco Maciel (1979)


Arquivo Familiar:
Pereira Epaminondas


Visita do então Presidente João Figueiredo ao Governador Marco Maciel, em outubro de 1979, para um almoço no Palácio Campo das Princesas, em Recife.

O então Prefeito de Custódia, Luiz Epaminondas Filhos, foi um dos convidados, foi na Gestão de Marco Maciel, que a cidade de Custódia recebeu grandes investimentos anos depois.

Na oportunidade, o Presidente anunciou novas medidas de apoio ao Nordeste e ao Estado de Pernambuco, dentre elas investimentos no transporte ferroviário, construção de um terminal rodoviário de passageiros, investimento numa central de cargas e comércio atacadista, aumento no silo portuario do Recife, investimentos no Polo Industrial de Cabo, Curado, Paulista e Prazeres, além de projetos para Agricultura com o Projeto do Leite, o mais beneficiado.

Pesquisa e informações: José Soars de Melo e Paulo Peterson

24 maio, 2026

Homenagem a Ditinha - por Lindinalva Almeida

 



 

Homenagem a Ditinha

"Meus escritos são a minha voz para o presente e para o futuro."

Ditinha, cruzaste a ponte entre a Terra e o Céu! Sentiremos eternamente a sua falta.

A cada dia, nos perguntamos: por que tanta pressa, se somos apenas visitantes?

Se, a cada vinte e quatro horas, é subtraído o nosso tempo, é aí que percebemos que a vida é linda! A vida — esse pestanejar de olhos — tem suas raízes profundas nas terras do coração. Essas raízes nem sempre seguem o mesmo percurso; porém, estarão sempre ligadas pela força do seu tronco.

A metáfora acima nos mostra que o ser humano é único neste universo sobre o qual, ainda, sabemos tão pouco.

Ditinha viveu setenta e sete anos bem vividos. Filha do senhor João Dodô e da dona Quitéria, tinha seis irmãos; era casada com o senhor João Batista e mãe de cinco filhos. A alegria era a mola propulsora dessa mulher grandiosa: amava a vida e a família com a pureza de uma criança. Posicionava-se sempre com disposição para ajudar. Na doença de qualquer um da família, era a primeira a chegar. A sua fé e o seu carinho eram essenciais nos momentos difíceis. Sua resiliência e bondade se estendiam também aos amigos e vizinhos. A esposa dedicada, a mãezona, a vovó coruja, a irmã amiga, a cunhada afetuosa e a sogra com coração de mãe deixou um vazio que só Deus para curar. Seu ciclo de amizade era marcado pelo afeto e pelo bom humor.

Tudo é temporário, menos a maneira como você fazia o outro se sentir. Isso é para sempre.

Minha amiga querida partiu neste dezenove de maio, mês da Virgem Maria, que segurou em sua mão, levando-a à Casa Celestial. Hoje, faz sete dias da sua partida.

Nossos sinceros sentimentos ao seu João, ao Ebinho e à Priscilla. Estendemos o nosso pesar a todos os seus familiares:

• Irmãos: Djalma, Luizinho, Vavá, Marinelza, Margarida e Sandra.

• Filhos: Djan, João Elbert, Janclebio, Shirlene e Higor.

• Netos: João Lucas, Kamila, João Ítalo, Kauan, Priscylla, Stefanny Caroline, João Victor, Victória, Higor Filho, Melissa e Rafael.

• Bisnetos: Davi Luiz, Heitor, João Miguel, Alice, Natan, Nícolas e Vicente.

• Noras: Priscilla e Roberta.

• Genro: Marcelo.


Nosso abraço de paz e luz!

Arnaldo e Lindinalva-Nenê

(Escritora).

Custódia, maio, 2026.

22 maio, 2026

Joany - por Jussara Burgos


Foto: Paulo Peterson

 Joany

Joany com Y no fim,
como quem redesenha o próprio nome
para que o tempo jamais a alcance.

Disseram-lhe um dia
que Joana era nome de velha,
e ela, com graça e decisão,
plantou um Y no final
e ali floresceu para sempre.

Foi professora
bordava saberes nas manhãs,
abria janelas onde não havia horizontes,
e ensinava, sobretudo,
a dignidade de existir.

Foi filha, esposa, mãe,avó e bisavó, colo sempre aberto e palavra certa para acolher sobrinhos.
Inteira no gesto,
imensa no cuidado,abrigo firme
nos dias de vendavais.

Primeira-dama
de um município, sim,
mas também da delicadeza cotidiana,
do passo elegante,
do olhar que acolhe sem esforço.

Eterna, disseram,
porque certas presenças
não acabam, vivem, tem permanência.

Exímia doceira
e nisso havia um segredo:
transformava açúcar em afeto,
receitas em memória,
e cada doce seu
era um pedaço de seu coração
oferecido ao mundo.

E que casa…
um primor de zelo,
um abrigo bonito, generoso
como quem se entrega inteira
a cada detalhe,

a cada canto arrumado com amor.
Ali, tudo respirava cuidado,
tudo dizia: há vida aqui.

Hoje, a ausência tem peso de silêncio,
e o mundo parece um pouco desalinhado
sem sua exatidão de beleza.

Mas há um Y desenhado no céu,
como um galho de luz aberto,
sustentando seu nome
no alto da memória.

Joany permanece
no doce que ainda lembra o seu toque,
no cuidado que ela ensinou sem dizer,
na elegância que não se aprende, é nata

Permanece
como quem não partiu,
apenas se espalhou
em tudo que continua
a florescer.

Vá em paz, tia.
Leve a minha gratidão e a certeza que a senhora viverá
sempre no meu coração.


Jussara Burgos
Luziania-GO
Maio/2026

21 maio, 2026

[Biografia] Joana Pereira Marques Epaminondas "Dona Joany" - Por Lindinalva Almeida "


 

Joana Pereira Marques Epaminondas, nascida em 17 de julho de 1931 e natural de Custódia, era católica, professora aposentada e filha de Joaquim Pereira da Silva e Corina Marques Pereira. Foi casada com o deputado Luiz Epaminondas Filho (in memoriam), com quem constituiu uma bela família.

Teve dois filhos, Flávia Inês Pereira Epaminondas e Luiz Cláudio Pereira Epaminondas, além de sete netos e quatro bisnetos. Conhecida carinhosamente pelo apelido de Joany, residia na Avenida Inocêncio Lima.

Dona Joany sempre foi considerada uma das mulheres mais elegantes de Custódia. Sua fineza nos gestos e atitudes lhe conferia características de verdadeira nobreza.

 Representou o município por dois mandatos como primeira-dama, desempenhando a função com elegância e estrito respeito aos padrões protocolares exigidos pelo cargo. Esposa dedicada, foi também companheira e amiga inseparável do esposo, mãe carinhosa, anfitriã de primeira grandeza e dona de um admirável talento culinário. Entre tantos dotes, destacava-se ainda pelo bordado à mão, um verdadeiro trabalho de arte.

A sólida educação recebida de seus pais serviu-lhe como base para um futuro seguro e promissor. Sua formação acadêmica foi construída em importantes instituições de ensino, como o Colégio Sagrado Coração de Jesus, em Caruaru, o Colégio Americano Batista e o Instituto de Educação de Pernambuco (IEP), ambos em Recife. Leitora assídua de bons livros, iniciou sua trajetória profissional como professora primária na Escola Reunida Maria Augusta — hoje Escola Municipal Maria Augusta —, localizada na Rua João Veríssimo, antiga Rua da Várzea.

O conteúdo transmitido pela professora Joany marcou profundamente a vida de muitas crianças que, hoje adultas, guardam belas lembranças do aprendizado. Um ex-aluno relata que jamais esqueceu suas aulas e os recursos didáticos utilizados: leitura de histórias, ensinamentos sobre boas maneiras, urbanidade, religião e os conteúdos da grade curricular. Em seu depoimento, ele afirmou:

“Pode parecer muito simples o que exponho, mas, para mim, foi de grande importância. Aprendi a gostar da leitura e da escrita, a sentar à mesa, a usar garfo e faca, a lavar as mãos ao sair do banheiro e, sobretudo, aprendi a respeitar o próximo.”

Um belo testemunho do legado deixado pela educadora.

O município de Custódia também contou com relevantes serviços prestados por Dona Joany na vida pública. Na primeira gestão do prefeito Luizito, como era conhecido Luiz Epaminondas Filho, ela assumiu a Secretaria de Assistência Social. Nesse período, o município foi contemplado com diversos projetos e programas sociais, como cursos de corte e costura, pintura e culinária, além de apoio às gestantes com a entrega de kits de enxoval para bebês. Houve ainda incentivo e apoio ao fortalecimento das associações comunitárias.

Na segunda gestão de Luizito, exerceu com grande competência o cargo de Secretária de Educação, em uma fase marcada pelo progresso educacional do município. Várias escolas foram construídas e muitas outras, reformadas. As bibliotecas das escolas municipais receberam valiosos acervos, enquanto a Biblioteca Municipal Zenilda Simões de Oliveira Burgos funcionava de forma contínua, atendendo alunos das redes municipal e estadual, bem como a população em geral, assídua na leitura e no acompanhamento do jornal matinal.

Dona Joany deixou como ensinamento uma frase que traduzia seu pensamento humanista: “Nada mais civilizado do que saber conviver com as diferenças.”

Nossos sinceros sentimentos a Flávia, Luiz Cláudio, netos, bisnetos e a toda a família Pereira Epaminondas.

(Esta biografia integra meu livro, que em breve será publicado.)

Nosso abraço de paz e luz!

Custódia, 20 de Maio de 2026.

Arnaldo e Lindinalva/Nenê (Escritora)

15 maio, 2026

Flama do DNOCS



Em pé:

Reginaldo da Cerâmica, Nen Brigão, Denildo Moisés, Marquinho Ferraz, Toliba Betânia e Marco Ramalho

Agachado:

Tambor Arcoverde, Nadilson Santos, Natalicio do DNOCS, Roberto Moura, Brasilia e Aloísio do Banco do Brasil

 

08 maio, 2026

O dia que falei com o Rei - por Jussara Burgos


foto ilustrativa


A cidade de Custódia cresceu do sítio de dona Nita, um verdadeiro oásis com altos coqueiros no meio do Sertão do Moxotó. Era lá que eu morava. Quando tínhamos de ir ao comércio, costumávamos dizer que íamos à rua. Em uma dessas idas à rua, chegando à Praça Padre Leão, encontrei pouca gente circulando e o chão coberto de panfletos de propaganda eleitoral. Houve um comício, ou melhor, um showmício, e algumas pessoas ainda estavam por lá. Eis que vejo, à minha frente: ele! Estava acompanhado por outro homem; os dois andavam em direção a um carro estacionado na praça.

Olhei, surpresa, sem acreditar no que eu estava vendo, e turbilhões de pensamentos invadiram minha cabeça.

– É ele, sim. Vai lá. Pede um autógrafo.

– Não, tenho vergonha.

– Pede, porque você não sabe se terá outra oportunidade. Vai!

– Não vou.

Nisso, ele entrou no carro e bateu a porta. O companheiro era o condutor.

É agora ou nunca. Fui. Com as pernas tremendo feito vara verde, o coração acelerado e a voz embargada de emoção, corri até a janela do carro, que já estava com o motor funcionando, e disse timidamente:

– O senhor pode me dar um autógrafo?

Ele, imponente como todo rei, perguntou-me:

– Qual é o seu nome?

Pegou uma caneta e um pedaço de papel no porta-luvas e escreveu: “Para Jussara, um abraço de Luiz Gonzaga”.

Só deu tempo de dizer “obrigada” e sair dali correndo com minha nova aquisição.

Fui mostrar ao meu pai o que havia conseguido; ele nada falou, mas sorriu bondosamente, compartilhando minha felicidade.

Em casa, os meninos estavam no quintal, agachados, jogando bila. Entrei eufórica, dizendo em voz alta o que tinha conseguido. A brincadeira deles foi interrompida, e o autógrafo passou de mão em mão.

Todos examinaram o pedaço de papel, e alguém falou:

– Não sei por que você está tão feliz, isso não serve para nada.

Esbravejei:

– Como assim não serve para nada? Só eu tenho a assinatura do maior cantor do Nordeste, e vocês não têm. Estão é com inveja.

Eles voltaram para suas brincadeiras, e eu fui guardar minha preciosidade em meu bauzinho, junto com minha medalha de Nossa Senhora e outras relíquias de meu mundo infantil. E ali o autógrafo permaneceu por muitos anos.

Em 1976, mudei-me para o Planalto Central. De volta ao sertão, anos depois, meu guarda-roupa ainda estava lá e, dentro dele, meu baú. Mas o autógrafo sumiu. Lamento muito; gostaria que ele estivesse comigo enquanto eu viver. Sem dúvida, foi um fato marcante para uma menina franzina que venceu a timidez e falou com o Rei do Baião.

Por Jussara Burgos

Publicado Originalmente no
Blog Academia Valparaisense de Letras

[Causos] Quando o telefone chegou no sertão - por Jussra Burgos



Invenção de Alexander Graham Bell chegou ao sertão como quem traz o futuro nas mãos. O aparelho, pesado e invariavelmente preto, pousou na sala como um oráculo moderno desses que não preveem destinos, mas os convocam. Era a década de 70, e na cidade pequena tudo acontecia devagar, como se o tempo também precisasse pedir licença. Mas naquele dia, não: havia pressa no ar, curiosidade nas janelas, gente inventando motivo para passar à porta só para espiar o aparelho. O disco giratório, do 1 ao 0, numa volta quase cerimonial, parecia um relógio medindo não as horas, mas as distâncias.

Poucos tinham telefone. Por isso mesmo, ele não era apenas um objeto: era ponto de encontro, ponte invisível. Ao lado, repousava a lista com nomes e números escritos com capricho, como se cada linha guardasse uma promessa de voz.

Quando tocava, era um acontecimento. Era um som ao qual nossos ouvidos ainda não estavam acostumados. Eu atendia com toda a importância que o momento exigia:

— Residência dos Burgos.

Do outro lado, um silêncio breve, seguido de estranhamento:

— O quê?

E eu repetia, firme, como quem defende um território:

— Residência dos Burgos.

Já meu irmão preferia brincar com o mundo. Se o telefone era novidade, por que não reinventar também o modo de atender? Atendia com entusiasmo irreverente. Primeiro, ficava em silêncio, provocando quem estava do outro lado da linha a dizer “alô”.

Então ele disparava:

— Não diga alô, diga Transbrasil! Ganhe uma passagem aérea e vá pra… (pqp)

E, antes que o destino fosse completado com palavras pouco elegantes, já se podia imaginar o susto ou o riso atravessando o fio.

O telefone, que veio para encurtar distâncias, acabou revelando outras coisas: o jeito de cada um, a voz que se oferece ao desconhecido, a pequena coragem de falar com quem não se vê. Outro dia, puxei pela memória, como quem gira novamente o disco do tempo. Quando contei esse fato ao meu irmão, ele perguntou:

— Tu te lembras disso?

Riu do outro lado — não do telefone, mas da lembrança:

— Claro que lembro.

Houve ainda outro episódio. Meu pai, comerciante, partiu cedo, vítima de um enfarte fulminante. Tinha apenas cinquenta e cinco anos. Pessoas de outras cidades ainda ligavam para ele. A senhora que auxiliava minha mãe nas tarefas domésticas não era dada a delicadezas. Se alguém perguntava por meu pai, a resposta vinha sempre a mesma:

— Ligue para o cemitério.

E naquele instante entendi: o grande acontecimento não foi apenas a chegada do telefone. Foi o modo como, entre fios e vozes, a vida passou a se contar de outro jeito mais próxima, mais sonora e, às vezes, deliciosamente atrevida.




Jussara Burgos
Luziânia-GO
Maio/2026

03 maio, 2026

Escritora custodiense Jussara Burgos lança seu segundo livro "Sob o manto da poesia".




Convido os amigos a fazerem uma viagem Sob o manto da poesia. Este livro não me pertence por inteiro é feito de vozes que se entrelaçam como rios que, ao se encontrarem, já não sabem mais onde começam ou terminam.

Coube a mim o gesto primeiro o sopro, a semente, quebrar o silêncio. Mas foi preciso mãos regando a semente para ela crescer e florescer. Dry Neres, Presidente e Fundadora da Academia Valparaisense de Letras, o acolheu com palavras de abertura, como quem acende uma luz na entrada do caminho.

O prefácio veio na cantoria de Oliveira de Panelas menestrel de voz antiga e eterna, que fez da palavra um aboio e um destino. Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal da Paraíba.

Nas orelhas, dois sopros de poesia: Ezio Rafael, com a força do chão pernambucano, e Márcio Catunda, tecendo versos como quem borda o vento. Houve ainda mãos invisíveis e essenciais um amigo que cuidou das palavras, como quem alinha estrelas. Renato Palet desenhou o corpo do livro, e fez dele não apenas páginas, mas um território de delicadeza.

E, entre traços de luz, Helena Coelho Burgos, ainda tão jovem, fez nascer imagens que parecem lembrar
o que o tempo ainda nem contou. Minha neta com quinze anos tem o nome registrado na Câmara Brasileira do Livro como ilustradora.

Assim, este livro é mais que um livro é um gesto coletivo, um poema repartido, uma beleza que se fez em muitas mãos.

E eu convido você não apenas a lê-lo, mas a atravessá-lo, como quem caminha por dentro de um sonho.




Grata

Jussara Burgos
Maio/2026