A POLÍTICA TEM IDEOLOGIA?
Por Francisco Alves – Psicanalista Clínico
Estamos nos aproximando do segundo turno das eleições e, ao me recordar de alguns capítulos da novela Mar do Sertão, passei a refletir sobre os destinos do nosso país. Compartilho aqui minhas reflexões, que, certamente, não agradarão a todos.
Candoca, personagem interpretada pela atriz Isadora Cruz na novela Mar do Sertão, exibida pela Rede Globo entre 2022 e 2023 (estreou em 22 de agosto de 2022 e terminou em 17 de março de 2023), “Candoca”, era médica na fictícia cidade de Canta Pedra. Em determinado momento da trama, ela escreve um texto sobre os poderosos daquela região. A reflexão apresentada na novela parece retratar, em muitos aspectos, a realidade política que ainda observamos em nosso país, nos estados e municípios.
Quando falamos de corrupção, precisamos compreender que ela afeta diretamente o bem-estar de todos nós, cidadãos brasileiros. Quando aqueles que detêm o poder decidem cortar investimentos essenciais em educação, saúde, segurança pública e habitação, comprometem direitos fundamentais da população.
Mais grave ainda é quando recursos públicos, que deveriam ser destinados ao atendimento das necessidades coletivas, são desviados para interesses particulares. Os agentes públicos que praticam tais atos têm o dever de conhecer os princípios constitucionais que orientam a administração pública. A corrupção, além de representar uma violação da confiança depositada pela sociedade em seus representantes, contribui para aprofundar as desigualdades sociais e econômicas no país, nos estados e nos municípios.
Se olharmos para nossa cidade, entre tantas outras, perceberemos que também enfrentamos questões semelhantes às retratadas no folhetim televisivo. A busca pela permanência no poder, a tentativa de eleger aliados para garantir a continuidade de determinados grupos políticos, o receio de denúncias e o enriquecimento incompatível com os rendimentos declarados são temas que exigem atenção, investigação responsável e transparência.
Diante disso, pergunto: em que momento determinados os políticos perderam a moral, a consciência humana e a dignidade que tanto afirmaram possuir durante as campanhas eleitorais, quando percorriam as casas dos cidadãos em busca de votos?
Trago para esta reflexão uma frase célebre atribuída a Rui Barbosa, cuja força permanece atual: “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto.”
Quantas vezes já ouvimos essas palavras? E, diante delas, pergunto: o que mudou?
A sensação de que pouca coisa mudou nasce da repetição de escândalos, da lentidão de determinados processos e da percepção de que nem todos são responsabilizados da mesma maneira. Quando a impunidade prevalece, a confiança nas instituições enfraquece e a sociedade corre o risco de se acostumar com aquilo que jamais deveria considerar normal e voltar a um tempo ora sombrio.
No campo das relações de poder, há agentes que não toleram aqueles que se recusam a ser manipulados ou que denunciam contratos suspeitos, licitações direcionadas e possíveis superfaturamentos. Por isso, mecanismos de fiscalização independentes, órgãos de controle atuantes e uma imprensa livre são indispensáveis à proteção do interesse público. Acusações, contudo, precisam ser apuradas com responsabilidade e comprovadas pelos meios legais.
Recordo-me também de uma frase frequentemente atribuída a Jô Soares: “A corrupção não é uma invenção brasileira, mas a impunidade é uma coisa muito nossa.”
A frase provoca uma reflexão incômoda: até que ponto a sociedade permite que práticas condenáveis continuem se repetindo?
Acabamos, muitas vezes, assistindo à formação de grupos políticos que se reorganizam a cada eleição para preservar seus próprios interesses, como se a máquina pública pertencesse a quem ocupa temporariamente o poder, e não à população que a sustenta.
Nesse contexto, vale beber na fonte e recordar outra frase atribuída a Millôr Fernandes:“Acabar com a corrupção é o objetivo supremo de quem ainda não chegou ao poder.”
A ironia é contundente. Muitos candidatos apresentam o combate à corrupção como uma de suas principais bandeiras, mas a sociedade precisa avaliar se suas ações, depois de eleitos, correspondem às promessas feitas durante a campanha.
A corrupção tem ideologia?
A verdade é que a corrupção política não deveria ser tratada como um problema exclusivo de uma ideologia, de um partido ou de um grupo específico. Ela pode se manifestar em diferentes campos políticos sempre que interesses particulares se sobrepõem ao interesse coletivo.
Por isso, a frase que inspira este artigo merece atenção:
“A corrupção política tem ideologia: o dinheiro público!” — frase atribuída a Saint-Clair Mello.
O dinheiro público pertence à sociedade. Sua destinação deve obedecer à lei, à transparência, à responsabilidade administrativa e às necessidades da população. Quem utiliza o poder para se apropriar de recursos coletivos ou favorecer interesses particulares deve ser investigado e, quando comprovada a irregularidade, responsabilizado na forma da lei.
Entretanto, não é exatamente isso que desejamos ver acontecer? Queremos que cada recurso destinado à educação, à saúde, à segurança e à assistência social cumpra sua finalidade. Queremos que o dinheiro público chegue às crianças, às famílias, aos trabalhadores, aos idosos e a todos aqueles que dependem de políticas públicas eficientes.
É nesse ponto que o personagem Sabá Bodó, interpretado por Welder Rodrigues em Mar do Sertão, se torna uma referência interessante para esta reflexão. A trama apresenta, por meio da sátira, os comportamentos de um gestor político que trata o poder e os recursos públicos com irresponsabilidade.
A ficção, nesse sentido, funciona como um espelho: permite que reconheçamos comportamentos que merecem ser questionados na vida real. Não se trata de afirmar que toda administração pública seja corrupta, mas de compreender que o exercício do poder exige fiscalização permanente, responsabilidade e compromisso com o cidadão.
Pior ainda é quando irregularidades são descobertas, os responsáveis são processados e, depois de cumprirem as determinações judiciais, alguns retornam à vida pública sem que a sociedade tenha percebido uma mudança efetiva de comportamento. A responsabilização precisa produzir consequências, e a prevenção deve impedir que os mesmos mecanismos voltem a funcionar.
Será que precisamos conviver indefinidamente com essa realidade? Será esse o Brasil que desejamos para nossos filhos e netos? Será esse o país que queremos deixar às próximas gerações?
Claro que não!
Há uma frase popular, frequentemente atribuída a “Lord Chesterfield”, que compara políticos a fraldas, defendendo que ambos deveriam ser trocados periodicamente. A comparação é provocativa, mas a verdadeira mudança não depende apenas da substituição de pessoas: exige instituições fortes, participação popular e compromisso ético.
Também é necessário reconhecer que a política não pode ser reduzida à busca por vantagens pessoais. Embora interesses façam parte da vida política, o exercício legítimo do mandato exige responsabilidade, respeito à lei e compromisso com o bem comum. E, naturalmente, existem políticos honestos e comprometidos com a sociedade, que não devem ser confundidos com aqueles que traem a confiança pública.
Existe, ainda, uma questão mais profunda: a deformação da consciência política coletiva. Quando parte da população aceita favores em troca de votos, tolera irregularidades por conveniência ou se deixa seduzir por promessas impossíveis, cria-se um ambiente favorável à perpetuação de práticas que prejudicam a coletividade.
Essa reflexão, inspirada em ideias atribuídas a “Renée Venâncio”, ele nos convida a perguntar: será que estamos escolhendo nossos representantes com a consciência necessária ou apenas reproduzindo velhos hábitos políticos?
De vez em quando, encontramos pessoas dispostas a mudar o mundo. Quem não deseja uma sociedade melhor? Muitos defendem reformas políticas, mudanças institucionais e até alterações profundas na organização do Estado. As reformas podem ser necessárias, mas nenhuma delas será suficiente se não vier acompanhada de educação cidadã, consciência crítica e participação popular.
A Constituição Federal não é um documento sem valor. Ela representa um marco fundamental da organização democrática brasileira e estabelece direitos, deveres e limites para o exercício do poder. Qualquer proposta de mudança deve ser debatida com responsabilidade, respeitando os princípios democráticos e as garantias fundamentais.
A transformação começa quando o cidadão compreende que a democracia não se resume ao ato de votar. Ela também exige acompanhar os mandatos, fiscalizar as contas públicas, cobrar resultados, denunciar irregularidades e participar das decisões que afetam a comunidade.
Portanto, pensemos naqueles que lutaram e sacrificaram suas vidas pela liberdade e pelademocracia. Honrar essa história significa defender as instituições, respeitar as leis e não permitir que o poder público seja transformado em instrumento de enriquecimento pessoal.
E a nossa cidade? E o nosso estado? E o nosso país?
Quem são as pessoas que se apresentam como nossos representantes? Cumpriram os compromissos assumidos durante a campanha? Suas decisões correspondem às necessidades da população? Há transparência na utilização dos recursos públicos? As despesas, os contratos e as licitações podem ser acompanhados pelos cidadãos?
Também é legítimo questionar a evolução patrimonial dos agentes públicos, desde que isso seja feito com responsabilidade, respeito à privacidade e observância dos mecanismos legais de fiscalização. A constituição de holdings ou a participação em empresas no exterior, por exemplo, não constitui, por si só, prova de irregularidade.
O que importa é verificar a legalidade das operações, a origem dos recursos, a compatibilidade patrimonial e o cumprimento das obrigações de declaração e transparência aplicáveis.
Creio que a mudança política começa quando nós, os eleitores, passamos a utilizar conscientemente o voto, uma das mais importantes ferramentas de participação democrática. Não basta escolher alguém porque pertence ao nosso partido, compartilhanossas preferências ou promete resolver todos os problemas. Precisamos analisar sua trajetória, suas propostas, sua conduta e seu compromisso com o interesse público.
Depois da eleição, nossa responsabilidade não termina. Devemos acompanhar os atos dos eleitos, exigir transparência e cobrar o cumprimento dos compromissos assumidos. Uma nova política não nasce apenas da substituição de nomes, mas da construção de uma cultura de honestidade, responsabilidade e respeito à coisa pública.
Finalizo com uma reflexão frequentemente atribuída a Maquiavel:
“Um povo que aceita passivamente a corrupção não merece a liberdade, merece a escravidão.”
Independentemente da autoria exata dessa frase, sua mensagem nos leva a pensar sobre o preço da omissão. A liberdade democrática exige cidadãos conscientes, instituições responsáveis e representantes submetidos à lei.
E deixo, por fim, uma última reflexão:
Um país cujas instituições públicas e privadas são corroídas pela corrupção compromete seu próprio futuro. Quando as leis deixam de ser aplicadas com justiça, quando o interesse particular prevalece sobre o bem comum e quando a sociedadeperde a confiança nas instituições, a democracia se enfraquece.
Não podemos aceitar que o passado de erros determine o futuro das próximas gerações.
A corrupção não deve ter partido, cor ou ideologia. Deve ter consequência legal sempre que comprovada.
E a honestidade não pode ser apenas uma promessa de campanha: precisa ser um princípio permanente do exercício do poder.
A mudança começa no voto, continua na fiscalização e se consolida na consciência de cada cidadão.
(*) Os artigos e opiniões assinados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não refletem, necessariamente, a opinião deste blog."