22 janeiro, 2023

Dona Lidia Ferreira e Leu de Samambaia


Dona Lídia Ferreira veio com a família morar em Samambaia quando tinha 10 anos de idade, natural da cidade de São Bento do Una – PE, casou com Elizeu mais conhecido como Leu Ferreiro (Família Ferreira e Rezende), irmão de Delícia Rafael.

Leu Ferreiro era um homem que organizava muitas procissões em Samambaia, ajudou varias famílias na região, tinha também várias profissões, foi: barbeiro, cabeleireiro, sapateiro, cozinheiro e por último ferreiro, pelo qual gerou seu apelido.


Serviu o Exército Brasileiro aos 18 anos, lá foi cozinheiro das tropas armadas, ficou até a Guerra de 1946, teve apenas um filho com sua esposa, chamado carinhosamente de Bastião de Leu. Criou ainda três filhos adotivos, entre ele Seba (Esposo de Maricelia) pai dos garotos Marcio e Sergio. Faleceu dia 26 de Agosto de 2006, vítima de diabetes. 

Seu filho Bastião, seguiu a profissão de ferreiro até 2006 quando seu pai faleceu. Hoje é dono do mercadinho São Sebastião, um dos mercados mais movimentados de Samambaia.
Texto enviado por Evanilson Rezende

Dona Expedida e Cicero Matuto



Dona Expedita veio com sua família para morar em Samambaia quando tinha apenas 12 anos de idade, natural da cidade de Flores – PE (família Necodenos), casou com Cícero Matuto (Família Pereira de Lima, conhecido Os Matutos), nascido e criado em Samambaia. Aos 18 anos o sr. Cícero entrou no Exercito Brasileiro e fugiu para se casar com a mesma.

Entrou na fabrica de caroá em 1952, começou arrancando caroá na caatinga, patrimônio de São Sebastião, com 4 anos de serviço, passou a ser gerente. Dois anos antes da fabrica ser desativada, pediu demissão e foi ter seu próprio fabrique de carvão.

Criou 7 filhos, sendo eles: Gedeão, Eginaldo (Egnaldo), Evanuse (Vera), Reginaldo (Ló da Caiçara), Evani (Lira mãe de Evanilson), Ana Lucia e Jeane.

Texto enviado por Evanilson Rezende

Poemas para Custódia - parte 3


Por Miguel Pedrosa

E na hora dezoito dos mistérios, com as seis badaladas de um sino, em que anjos entoam doce hino sobre almas postadas em reverência, é aí que se mostram as ausências de Olívias, Anitas e Corinas, de Quitérias, Marias e Olindinas, dedilhando os segredos do rosário, transformadas em puros santuários, murmurando orações em bela rima. 

É a hora da prece e do perdão, evocando a beleza de um salmo: “paz na terra àqueles que são calmos, pois que são os herdeiros dessa terra!” diluindo rancores, ódio e guerra e hasteando a bandeira da esperança, assumindo a pureza da criança e implantando o brasão da harmonia. 

Esqueceram? – “vós sois o sal da terra e se o sal não salgar, como se salga?” São reflexos do Cristo em Sua saga de verdades, de dor e de paixão, um apelo aos traços de união que se deve implantar aqui e agora, não há mais tempo de espera ou demora, pois que urge implantar o reino eterno. 

E é na hora dezoito dos mistérios que as Olívias, Anitas e Corinas, as Quitérias, Marias e Olindinas, vão pedindo a Deus paz e concórdia, e que o futuro reserve pra Custódia, as noções do que o Mestre nos ensina.

Carnaval chegando, relembre a Custocada (1978)



Escola de samba CUSTOCADA durante Carnaval de 1978. Foto tirada em frente ao Casarão na rua Luiz Epaminondas, centro de Custódia.



Carvanal no CLRC em Fevereiro de 1979
Folia fenomenais e passado alegórico.

Fotos: Jorge Remígio

20 janeiro, 2023

Ele saiu do sitio Lajedo para fazer história no Centro-Oeste, saiba quem é esse custodiense...

Foto: Luisa(in memorian), Luizinho Tenório e a filha Mariane.

Nasci na região do Lajedo, distrito de Quitimbú, comarca de Custódia, no dia 10 de setembro de 1945, sou filho de Joaquim Tenório Sobrinho e de Dona Maria José de Oliveira, ambos já falecidos. Saímos dessa região em agosto de 1949, em um pau de arara como retirantes da seca, com destino ao estado de Mato Grosso uno, hoje Mato Grosso do Sul; nossa mudança sofreu uma interrupção de seis anos, período que ficamos trabalhando no interior de São Paulo (distrito de Novo Cravinho, município de Pompéia), com o objetivo de juntarmos numerário suficiente para concluirmos de vez nossa migração, fato que se deu somente em abril de 1955, quando chegamos à cidade de Cassilândia no dia 12.

Minha primeira atividade nesta cidade foi de carroceiro, a seguir de comerciário, alfaiate e Office boy, sou economista formado pela UNIMAR – Universidade de Marilia, fui por duas vezes secretário da Prefeitura Municipal de Cassilândia, fui Prefeito deste município de 1989 a 1992 e deputado estadual por Mato Grosso do Sul em duas legislaturas, aproveito o ensejo para parabeniza-lo pelo blog, tendo em vista que o mesmo está ótimo.

Abraça-o fraternalmente, bem como, a todos os conterrâneos custodienses, o sertanejo dessa terra querida.

Assinado: Luiz Tenório de Melo (Luizinho Tenório)

Saiba qual livro de Ariano Suassuna cita Custódia


Em “O Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta” (1971) do escritor paraibano Ariano Suassuna, nosso município é citado na página 100 do livreto, com as seguintes palavras:


Naquela noite, ceamos canja de rolinhas, pato assado, carne-de-sol com farofa, jerimum com leite, e, coroando tudo, uma umbuzada. Depois do jantar, sentados em espreguiçadeiras no copiar da “Carnaúba”, ficamos a conversar coisas vagas, enquanto as estrelas piscavam em cima, e lá longe, para os lados da Vila de Custódia, relâmpagos cortavam o céu. A terra e o fresco ar noturno cheiravam a mato e a chuva, e foi ali que eu, tendo como pretexto a caçada da tarde, puxei a conversa para esse assunto. Narrei todos os meus insucessos, exagerando e mesmo inventarìdo o que podia. Por fim, a modo de conclusão, lancei a frase que tinha preparado como centro do meu plano.”

O romance é inspirado em um episódio ocorrido no século XIX, no município sertanejo de São José do Belmonte, a 470 quilômetros do Recife, onde uma seita, em 1836, tentou fazer ressurgir o rei Dom Sebastião – transformado em lenda em Portugal depois de desaparecer na África (Batalha de Alcácer-Quibir): sob domínio espanhol, os portugueses sonhavam com a volta do rei que restituiria a nação tomada à força. O sentimento sebastianista ainda hoje é lembrado em Pernambuco, durante a Cavalgada da Pedra do Reino, por manifestação popular que acontece anualmente no local onde inocentes foram sacrificados pela volta do rei.

Suassuna iniciou o Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta, seu nome completo, em 1958 para concluí-lo somente uma década depois, quando o autor percebeu o que o levou a escrever o romance: a morte do pai, quando tinha apenas três anos de idade – tragédia pessoal presente na literatura de Suassuna, e a redenção do seu “rei” – uma reação contra o conceito vigente na época, segundo o qual as forças rurais eram o obscurantismo (o mal) e o urbano o progresso (o bem).

A história, baseada na cultura popular nordestina e inspirada na literatura de cordel, nos repentes e nas emboladas, é dedicada ao pai do autor e a mais doze “cavaleiros”, entre eles Euclides da Cunha, Antônio Conselheiro e José Lins do Rego.

Material enviado por: José Soares de Melo

19 janeiro, 2023

O Cachorro de Ernane

Texto de Jorge Remígio
Recife, janeiro de 2023


Eu conheci Ernane em abril de 1967, ele dirigia um carro que teve um problema mecânico justamente em Custódia. Então, procurou os meus pais e dormiu em nossa casa naquela noite de chuvas torrenciais. Ele era de São José do Belmonte, e o meu pai foi muito amigo do pai dele quando morou por dois anos no início da década de cinquenta naquela cidade. Eu gravei bem essa data porque fomos acordados, na madrugada, sobressaltados com vozes que ecoavam vindo da ladeira da várzea, a qual ficava ao lado do quarto onde dormíamos. Quando olhamos pelo basculante, nos deparamos com um grande número de pessoas alvoroçadas e a água já chegando na base da ladeira a um nível nunca visto até então. Quase que gritamos. “É cheia!”. Saímos todos de casa e fomos nos juntar aos curiosos, mas vimos também muita gente arriscando a própria vida tentando salvar pertences e animais das pessoas moradoras da Rua João Veríssimo, que aflitas, deixavam tudo para trás. O nível da água subia rapidamente e, em menos de uma hora, parte daquela rua ficou quase submersa. Foi a maior enchente do Riacho Custódia que corta a parte baixa da cidade. Quando amanheceu o dia a cidade, impactada, contabilizava os estragos provocados pela força da correnteza. Sete casas destruídas totalmente e muitas com avarias, inclusive a incipiente fábrica de doces Tambaú, que funcionava ao lado da ponte da Bomba. Infelizmente, duas pessoas perderam a vida. Uma das vítimas fatais foi Luiz. Um menino ruivo, um pouco mais novo do que eu e muito conhecido na cidade. Lamentamos imensamente essa fatalidade.

Ernane só retornou a nossa cidade no ano de 1971. Fez amizade rapidamente com os jovens farristas, e o que não faltava eram festas e pileques homéricos. Namorou com nossa amiga, Mabel, e passou a vir com mais frequência. Nessa época o nosso “point” era o bar de Gerson Queiroz, mas conhecido por Deta, dono do famoso Ponto Certo, localizado na Praça Padre Leão. Naquele tempo, próximo da Padaria de João Miro e Dona Jovelina, hoje ao lado das Lojas Americanas. Esse local atraia toda juventude da cidade, no bar tinha uma radiola, e interessante era o nível dos discos de vinil que Deta comprava. Conheci o LP Índia, de Gal Costa, ali. Como também os sucessos de Gil e Caetano eram lugar comum. O grande Paulinho da Viola e depois o estrondoso sucesso dos Secos e Molhados no início de 1973, vivenciamos tudo isso no caloroso Ponto Certo. No ano de 1972, o roqueiro Raul Seixas conquistou não só os jovens, mas também pessoas de mais idade. O pesqueirense Paulo Diniz não saia das paradas desde o seu disco lançado no ano de 1970. Porém, confesso que o som revolucionário, para todos nós, foi o surpreendente Tim Maia. Que coisa extraordinária aquele vozeirão potente cantando músicas românticas, mas também nos mostrando um ritmo inovador. Era o “Soul” que ele trazia das suas experiências com a música negra dos Estados Unidos. A turma não tinha um violonista, mas improvisávamos e não deixávamos de cantar fazendo um batuque na mesa em que bebíamos. Marcas deixadas nas falanges dos meus dedos são testemunhos dessa época de juventude. Ferdinando Feitosa, se não fizesse medicina, tinha entrado para o mundo da música. As opções para divertimento não eram muitas, porém fazíamos de tudo um motivo para comemorar seja lá o que fosse. Nos domingos à tarde no CLRC, Zé Melo apresentava o seu programa de variedades, J. Melo Show. Os calouros eram a atração maior, pois todos que participavam almejavam um dia uma carreira de sucesso. Flávia Epaminondas ganhou quase todos os programas, era uma menina notável. Esse programa se revesava com os jogos do Sport de Custódia, time criado por Dr. Pedro Pereira, tendo seu auge ente os anos de 1971 e 1973.

O dia quatro de novembro de 1972 caiu em um sábado. Aniversário de Otacílio Góis que completava 17 anos. Tudo conspirava a seu favor, pois o dia de finados na quinta feira ocasionou um feriadão. Ávido por uma agitação naquele final de manhã, se dirigiu em passos apressados para o ponto onde todos nós convergíamos, o Ponto Certo. Ao chegar e já um pouco atrasado, deparou-se com parte da turma nas atividades etílicas e, para sua surpresa, Ernane, em suas idas e vindas, tinha chegado em nossa cidade com um DKV, o qual estava na frente do nosso templo. Esse carro tinha saído de linha em 1967, porém, ainda conservava o seu charme. Aliás, nós não tínhamos nem um violão, um DKV tendo lá qualquer ano de fabricação já era uma suntuosidade. O aniversariante ainda totalmente abstêmio, foi convidado a entrar no veículo, iam todos para uma inauguração de um grupo escolar municipal na zona rural, mais precisamente na Boa Vista, distante uns trinta quilômetros de Custódia. Embarcaram nessa aventura, além do motorista Ernane, Marcos Moura, Francisquinho Santana, Luciano Veríssimo e o aniversariante Otacílio Góis. Zarparam a toda velocidade na direção da Bomba. O DKV com motor em dois tempos já era zuadento por natureza, e com a descarga aberta então, provocava um barulho ensurdecedor. Ao subirem a ladeira da Inocêncio Lima, chegando no cruzamento que leva ao hospital, pararam para dar passagem a Dr. Moura que vinha em seu Fusca. Todos muitos alegres, cumprimentaram o médico cirurgião da cidade, o qual perguntou para onde aquela rapaziada se dirigia. Responderam de pronto, que iam para uma festa na Boa Vista. Dr. Moura, ironicamente, falou que iria preparar a sala de cirurgia. Todos riram da piada e tome pé no DKV, que desceu a ladeira do cemitério deixando uma nuvem cinzenta de poeira. Avançaram pela estrada vicinal de barro e cascalho, cortando os sítios Serrote, Cedro, Fazendinha, Carvalho, Lagoa da Onça, Riacho Novo, despertando curiosidade aos habitantes rurais que saiam de suas casas para saber que diabos era aquilo que espantavam os pássaros e assombravam os cachorros. O aniversariante mesmo sendo chegado a aventuras, não se sentia bem naquele rally. Estar sóbrio, nesses momentos, realmente é constrangedor. Mas ele pensou, há poucos metros vamos cruzar o leito seco do rio, então o carro vai diminuir consequentemente a velocidade na areia. Ledo engano. Ao fazerem uma curva acentuada próximo de cruzarem o leito do rio, se depararam com uma rural willys parada na areia, e os seus ocupantes ao ouvirem aquele barulho estranho e inidentificável, correram para o mato e o veloz DKV chocou-se de frente com o veículo parado. Saldo do acidente: O aniversariante teve um corte nos lábios e amoleceu alguns dentes com a pancada, Luciano com a suspeita de fratura na clavícula, Marcos Moura com um corte na testa, Francisquinho Santana e Ernane saíram ilesos. E agora? Resolveram retornar a pé todo esse percurso. Andaram poucos metros sob um sol escaldante, mas logo foram socorridos por Ferrerinha borracheiro que vinha da dita festa em seu jeep. Receberam os cuidados médicos no hospital, não sendo necessário nenhuma intervenção cirúrgica como havia preconizado o saudoso Dr. Moura. Como castigo pela insensatez, os lesionados perderam o grande baile à noite no CLRC, abrilhantado pelo conjunto musical da cidade, Os Ardentes.

Ernane foi rareando as suas vindas para Custódia, e já no final da década de setenta, chegou de surpresa e antes de ir para o hotel, foi levar um presente para minha mãe Ozanira. Desceu do carro sorridente com um grande cachorro pastor alemão nos braços. O danado do cachorro era de gesso, o que causou de imediato uma rejeição das minhas irmãs Eliane e Ana Cláudia, já adolescentes, em relação ao presente. Minha mãe agradeceu, disse que gostou muito e colocou o canino em local de destaque na sala de estar. Foi Ernane sair e de imediato surgir logo esse diálogo.

-Mamãe, a senhora não vai deixar esse cachorro horrível aqui na sala, vai?

-Vou sim, minha filha. Foi um presente.

-Mais mamãe, esse cachorro é cafona, é feio, é de gesso! Isso não é uma obra de arte

-Mas vai ficar aqui, a casa é minha, então eu mando

                 Não havia argumento que demovesse ela dá ideia de tirar o cachorro daquele local. Eu confesso que ninguém naquela casa gostou do cachorro, inclusive em outra ocasião tentei fazer o mesmo que minhas irmãs, mas não obtive sucesso. Cheguei a argumentar que se o cachorro não fosse totalmente revestido de espelho quadradinhos, até que seria aceitável. Mas nada. O cachorro passou algum tempo habitando na sala, porém, um certo dia foi levado para o quartinho de despejos no fundo do quintal. Não sei explicar o motivo, mas passou anos esquecido e empoeirado naquele local. O tempo foi passando e infelizmente soubemos do falecimento do amigo Ernane, o que nos deixou triste. O meu avô materno Samuel Carneiro, foi residir na casa dos meus pais no ano de 1984, já com os seus 89 anos. Pouco tempo depois, ele teve um problema de saúde, sendo necessário amputar uma das pernas abaixo do joelho. Ele era uma pessoa muito forte, pois muitas vezes dispensava a cadeira de rodas e vinha na cadeira de balanço, apoiando o único pé no chão, forçando um movimento com o corpo que impulsionava a cadeira para frente, indo do seu quarto até a sala de estar, atravessando o corredor da casa. Ele dizia que aquele exercício era necessário e importante para ele.

                 Certo dia resolveram fazer uma grande faxina no quartinho de despejos, dispensar alguns objetos que não serviam mais, e utilizar outros ali guardados. O cachorro empoeirado e esquecido há anos, enfim foi limpo por minha mãe e reconduzido ao seu antigo pedestal. Eu não entendi o porquê do retorno, até desconfiava que nem ela gostava daquele cachorro, e também Ernane jamais retornaria à Custódia. Mas ele permaneceu lá, imponente e de orelhas em pé, parecendo um cão de guarda. O meu avô após o almoço, como de costume, se dirigiu para sala, movimentando a cadeira de balanço com um pé e o impulso do corpo, dizia que facilitava a digestão. Ao chegar na sala, ele sempre fazia uma manobra na cadeira para ficar em uma posição que visualizava bem a calçada da rua a frente. Nessa dita manobra e em um movimento brusco, o coitado do cachorro foi nocauteado. Incrível como ele ficou em pequenos pedados. Minha mãe correu para sala devido ao grande estrondo e sem noção da ocorrência, deparou-se com pedaços de gesso e imensos pedacinhos de espelhos espalhados por todos os cantos da sala. O pior é que meu avô não parava de chorar, na cabeça dele era como se estivesse provocado um grande prejuízo. Quebrado um vaso chinês de valor incalculável. Minha mãe tentava consolá-lo e varria os cacos do cachorro. Nesse momento entrei em casa e me deparei com os últimos pedaços de gesso sendo conduzidos para o lixeiro e a luz que entrava pela porta da casa reluzindo nos poucos pedacinhos de espelhos ainda não recolhidos. Minha mãe levou a última pá, mas o meu avô não se conformava com o “prejuízo” causado. Calmamente fui falando com ele, explicando que tinha sido um acidente, ele não tinha culpa nenhuma, foi uma fatalidade, mas ele ainda insistia no “prejuízo”. Eu passei a ser mais incisivo. “Vô, preste bem atenção, veja, o senhor sem querer fez um grande favor para muitos daqui de casa. Eu não gostava desse cachorro, minhas irmãs e meus irmãos também não, meu pai era indiferente, e até desconfio que a minha mãe não gostava dele. Ela só tinha respeito porque foi um presente de um amigo”. Acho que surtiu efeito, pois ele foi se acalmando, parou de chorar e a vida continuou sem o cachorro de Ernane na sala de estar.

Dedico esse texto, à memória do meu saudoso primo/irmão, Fernando José Carneiro de Souza.