Os Ardentes: Memórias, Causos e o Som de uma Época
Falar dos Ardentes é mergulhar numa das páginas mais vivas, bem-humoradas e saudosas da música do Sertão pernambucano nos anos 1970. É uma história feita de improviso, companheirismo e daquela irreverência típica da juventude de uma época que deixaria saudades para sempre.
As Origens e o Mal-Entendido
Muita gente confunde até hoje a história do conjunto com a da antiga Escola de Música de Seu Seba. A única ligação real, na verdade, foi o facto de Expedito Batista ter sido aluno de Seba. A criação dos Ardentes foi um capítulo à parte.
Tudo começou quando Zil permaneceu na cidade após a partida da construtora Queiroz Galvão. Perante esse cenário, Expedito Batista — grande amigo de Sílvio — teve a ideia de formar um conjunto musical. Para tirar o projeto do papel, pediu a José Melo que organizasse uma lista de contribuição junto da comunidade para arrecadar verbas para os equipamentos. Paralelamente, Expedito conversou com Sílvio, que conseguiu uma subvenção para uma escola de música onde Zil seria o professor. Essa escola durou pouco: com a formação do grupo a avançar a todo o vapor, as aulas foram encerradas para dar lugar aos ensaios.
Com recursos próprios dos músicos e o dinheiro angariado na vaquinha comunitária, comprou-se o básico para arrancar:
Um amplificador
Uma guitarra
Um baixo
Uma bateria
A Estreia Trágica como "The Black Bat"
Com o equipamento montado e o repertório ensaiado, faltava batizar o grupo. Recorreu-se a Assis, filho de Jorge Arruda, que sugeriu The Black Bat — traduzido na época como "Os Morcegos Negros".
Com o nome escolhido e a expetativa em alta, agendou-se a estreia para o distrito de Sítio dos Nunes, com a ajuda de Chá Preto, que conseguiu o local. Na data e hora marcadas, a banda subiu ao palco pronta para abafar. O resultado, contudo, foi um desastre histórico de público: para não dizer que não esteve ninguém, a plateia foi composta única e exclusivamente por Chá Preto.
Inconformados com o fiasco, os componentes atribuíram a culpa ao nome: "Onde já se viu um conjunto com nome de Morcego? Só podia dar azar!"
O Renascimento e a Virada Regional
Após acaloradas discussões, decidiram mudar o nome para Os Ardentes. A mudança operou um milagre imediato.
A verdadeira estreia sob o novo nome aconteceu numa cerimónia de colação de grau na antiga Petrolândia. Seguiu-se o casamento de um influente político em Betânia e, em pouco tempo, a banda tornou-se atração indispensável nos bailes e festas de toda a região do Pajeú e arredores, passando por Iguaraci, Afogados da Ingazeira, Carnaíba e várias outras localidades.
No CLRC, Os Ardentes animavam todos os domingos, durante o "Jotamelo Show", programa de auditório. O conjunto formou uma orquestra improvisada e tocou em um dos carnavais do CLRC.
Causos de Bastidores: Coragem Falsa e Vestidos Longos em Petrolândia
A viagem para a estreia em Petrolândia rendeu histórias inesquecíveis. O grupo levou os seus parcos equipamentos: a bateria, um amplificador com caixa de som para o baixo, outro para a guitarra e um único microfone para o vocalista, Paulo Félix.
Como ainda era cedo para o show, os músicos foram passear no Cais do Rio São Francisco. Lá, ficaram a admirar rapazes de 14 ou 15 anos a saltar de uma altura de cerca de 15 metros para as águas do Velho Chico. Paulo Félix resolveu então aprontar uma das suas: disse que também tinha coragem para dar aquele pulo perigoso. Desafiado por Dida, Paulo começou a despir-se para mergulhar. Durante meia hora, todos os companheiros imploraram para que não cometesse essa loucura, lembrando o compromisso do show e o risco de um acidente. Só após muita insistência ele fingiu desistir.
Já no hotel, a verdade veio ao cimo quando lhe perguntaram se ia mesmo saltar:
“Eu? Pular daquela altura? Só se fosse doido. Eu estava era a gozar com a vossa cara!” — respondeu rindo debochadamente.
Mais tarde, ao chegarem ao clube e observarem a entrada do público por trás das cortinas do palco, veio o susto: a maioria das mulheres vestia longos elegantíssimos — o "chique dos últimos" da época. Assustado com tanta sofisticação, Paulo Félix cismou que não tinha gabarito para cantar para uma plateia tão fina. Foi um custozão convencê-lo de que era normal e que Os Ardentes eram um conjunto jovem, e não uma orquestra. A apresentação acabou por acontecer e esteve longe de desapontar.
A Irreverência de Dida: Do Galo do Terreiro ao Suco de Frutas
Dida era a alegria contagiante da trupe. Extremo gozador, fazia todos rir mesmo quando não tinha intenção.
Numa regresso de um show em Iguaraci, por volta das cinco da manhã, ao passarem pelo terreiro de uma casa no Açudinho, Dida pediu ao motorista da Rural que atropelasse uma galinha para o almoço. Depois de algumas manobras, ouviu-se o estrondo da "vítima" por baixo do carro. Dida correu, "socorreu" a caça jogando-a para dentro do veículo e o grupo arrancou antes que alguém aparecesse. Com o almoço combinado na casa de um dos componentes, a expetativa era grande. A decepção veio ao chegar a Custódia: a vítima do atropelamento não era uma galinha, mas sim o galo do terreiro — de carne rija e difícil de cozinhar.
Mesmo assim, ao meio-dia, reuniram-se para saborear o ensopado. Enquanto esperavam o galo cozinhar, Dida reparou numa enorme jarra de sumo de frutas sobre a mesa. Pediu um copo à dona da casa, mas, devido às suas habituais peraltices, o pedido foi-lhe recusado.
Dida segredou aos companheiros: "Quem duvida que eu consigo um copo de suco?". Para dobrar a dona da casa, apelou à curiosidade feminina:
“Eu estou na dúvida... Nem sei se conto o que Burro Preto aprontou ontem em Iguaraci!”
A curiosidade e o ciúme falaram mais alto. A dona da casa cedeu e serviu-lhe o copo de sumo em troca da informação. Dida bebeu tudo de uma assentada e cumpriu a sua parte no trato, disparando:
“Burro Preto esta noite em Iguaraci estava a bufandar tanto que ninguém aguentava tocar!”
Quase levou uma tareia de cabo de vassoura da dona da casa, para gargalhada de todos.
Formação e Memória Histórica
Ao longo da sua trajetória, a formação dos Ardentes reuniu talentos marcantes. Na foto clássica do grupo, registaram-se: Fanca (que era cantor, substituiu Paulo de Zé Miúdo e mais tarde viria a tocar bateria e outros instrumentos), Beto, Paulo Félix, Expedito (dono da banda), Dida e Zil — sem esquecer a passagem de Maminha de Pedrinho da Banca (guitarrista e irmão de Binha) e Lucas.
Tragicamente, com o passar das décadas, o tempo levou alguns dos seus protagonistas. Fanca faleceu em Brasília num incêndio ao tentar salvar a filha. Em junho de 2026, deu-se a partida de Dida Boiadeiro, meses após um emocionante encontro em janeiro do mesmo ano com o seu grande parceiro Paulo Félix e da visita marcante na Semana Santa, quando já sexagenário e alquebrado pela diabetes, relembrou com o mesmo brilho nos olhos as memórias douradas dos tempos de Os Ardentes.
A história dos Ardentes permanece acesa no coração de Custódia e do Sertão do Pajeú como um testemunho vibrante de uma era em que a música se fazia com alma, amizade e boas gargalhadas.
Em junho de 2026, Dida faleceu. Acima o vídeo do encontro.
Texto criado a partir de informações de JOSÉ SOARES DE MELO
Fotos e vídeo enviados por FÁBIO FÉLIX, filho de Paulo.






