Vista parcial do povoado de Samambaia durante
Procissão de São Sebastião, padroeiro local.Sevy OliveiraLivro "Caminhos do Afeto" lançado em 2004
Editora Bagaço
Sem previsão de concurso para o preenchimento de vagas no Magistério, as nomeações eram geralmente intermediadas junto ao Governo do Estado.
Não tendo ainda 18 anos completos, fui designada, interinamente, para substituir uma professora licenciada por tempo indeterminado, na Vila de Betânia, a 72 km de Custódia — uma articulação do deputado Metódio Godoy, amigo particular do meu pai.
Era uma vila que esboçava um perfil urbano autossuficiente, com casas comerciais, feira livre, energia elétrica, transporte, diversões e a Capela de Santo Antônio, tendo um representante na Assembleia Legislativa do Estado, Capitão Olímpio Ferraz.
A casa onde me instalei era grande, mas eu contava com a companhia carinhosa de minha irmã Maria e da aluna Julieta, que, frágil e delicada, me fez acolhê-la enquanto permaneci nessa vila. A minha classe funcionava na sala da minha residência, com alunos da 3ª série, variando a idade entre 14 e 16 anos. Não era adotado ainda o critério de turmas por faixa etária.
Apesar de contar com a receptividade e o apoio das professoras do Estado, Zilda Feitosa e Maria do Carmo Moreira, o número de alunos não ultrapassou o total de 13, durante todo o segundo semestre, sendo isto o fator determinante da transferência da cadeira para outra localidade do Município.
De volta das férias de fim de ano, assumi a cadeira no povoado de Samambaia, a 37 km da sede, sempre na companhia de Maria.
A escola tinha prédio próprio, com um salão em cimento, quintal grande para o recreio e dependências para a moradia da professora.
Por se tratar de uma escola isolada, a classe era multisseriada, abrangendo da alfabetização até a 4ª série. O mobiliário da professora era limitado a uma mesa, um banco e um quadro de giz num cavalete, e o das crianças, os pais proviam com mesas e bancos.
O material escolar disponível era o livro de texto e o caderno dos alunos.
A escola recebia para merenda o leite em pó, fornecido pela Secretaria de Educação do Estado. Não tendo receptividade pela maior parte dos alunos, o leite dissolvido era distribuído por Maria com pessoas carentes da comunidade, evitando o seu desperdício.
Semanalmente, o caminhão do Sr. Cecílio Ferreira, único meio de transporte motorizado, levava os moradores e suas mercadorias para a feira livre em Custódia, oportunidade em que eu recebia os mantimentos da semana, enviados por meus pais.
Percebia-se que o progresso por ali passara, deixando as suas marcas na construção das casas de moradia, do açougue, do armazém, do salão de festas, da mercearia, da vila dos operários e do cemitério. Tudo isso impulsionado pelo funcionamento da fábrica, que exportava a fibra do caroá, em grande escala, para o Município de Caruaru.
O fato de o caroá ser extraído desordenadamente, sem uma política voltada para preservar a espécie, levou quase à extinção essa planta nativa do Sertão. Em consequência e com a escassez da matéria-prima, houve a desativação da fábrica e o êxodo dos moradores.
Em Samambaia, a fuga para a sobrevivência era endereçada para a construção do açude Poço da Cruz, em Ibimirim, para a hidroelétrica de Paulo Afonso, na Bahia, ou para a cidade de São Paulo.
Nas ruelas, a maioria das casas estavam fechadas. Havia apenas doze casas com moradores: a de Josefa Simões, a de dona Bela, a mercearia dos irmãos Ferreira, a da escola, a casa de pousada de José Cirzino e Maria Pereira, a de Dezinho e Margarida Rezende, a de Abílio e Rosa Ferreira, a de Neco e Anísia Pereira, a de Nomeriano de Freitas, empresário da fábrica de caroá, a de Júlio e Tereza Simões, a de Cecílio e Alice Simões, a de Lídia Ferreira e a de Dona Mãezinha, além de casas isoladas próximas.
À noite, frestas de luz de candeeiros, refletidas dessas casas com portas abertas, emprestavam àquelas ruas um ar nostálgico. Era como se refletissem e testemunhassem a fragilidade das casas vazias, por não conseguirem deter seus moradores, que, fechando as suas portas, abandonavam o seu aconchego.
Recém-formada, sentia-me insegura para executar o papel de professora e para lidar com essa realidade. Talvez a comunidade não tenha percebido esses meus conflitos e a dificuldade de adaptação às noites sem luz e às ruas vazias. Muitas vezes pensei em renunciar.
Esses anseios iam perdendo a sua intensidade em face da perseverança e, por que não dizer, da bravura daquelas crianças, que enfrentavam o caminho da escola sob o sol forte ou sob as chuvas e, muitos deles, a pé e só com o café da manhã.
Conscientizando-me dessas dificuldades, não deveria mais me acomodar nem fazer do ensino uma simples rotina.
As minhas emoções deveriam ser agora direcionadas para uma vivência nova, que iria exigir muita abnegação e criatividade.
Sugeri ao delegado de ensino local, Cecílio Ferreira, solicitar à Prefeitura de Custódia uma professora para a classe de alfabetização. Foi designada Alzira Simões, que, no início de cada ano letivo, entregava-me as crianças alfabetizadas.
As tardes eram reservadas para avaliar as tarefas de classe e planejar as atividades da próxima aula, confeccionando material didático e redigindo os exercícios de classe e de casa de cada aluno das primeiras séries.
A Secretaria de Educação solicitava o resumo quinzenal dessas atividades, por série, e, mensalmente, um exemplar da prova com o seu gabarito, a relação das notas e as provas de maior e de menor resultado. Lamentavelmente, não recebia o retorno com a avaliação dessas informações.
A visita semestral de Maurina Rodrigues, inspetora escolar, era realizada na sede de Custódia. Nas reuniões, abordava assuntos gerais e anotava as atividades e dificuldades das escolas isoladas dos povoados.
Enviava também para a Diocese de Pesqueira exemplares das provas de Religião e o relato das atividades em classe e na igreja.
Pela exiguidade do tempo — oito da manhã ao meio dia — na sala de aula, para atender aos diferentes níveis de escolaridade, tornavam-se imprescindíveis atividades extra-classe de cunho social, artístico, religioso e de lazer.
Quando ia a Custódia nos fins de semana, fazia passeios, participava de festas e me divertia, sempre na companhia agradável das amigas, em especial Leny, Neide Campos e Angélica Rodrigues. Nas férias, comprava jogos educativos e livros de histórias, que ficavam disponíveis para as crianças na escola, no horário da tarde. Muitas vezes, jogava com elas.
Além das datas comemorativas do calendário escolar, as crianças participavam das festas tradicionais e religiosas locais.
Na data da independência, pela manhã, os alunos, orientados por Cabo Menezes, da Polícia Militar, ali em destaque, desfilavam pelas ruas, organizados em pelotões com uma ala de frente. Encerravam o desfile com manobras diante da escola, entoando hinos cívicos e, após o hasteamento da Bandeira, pelo Delegado de Ensino, recitavam poesias.
A tarde desportiva constava de jogos e brincadeiras por classe, e era prestigiada com a presença e a torcida da comunidade, inclusive dos que vinham das fazendas e sítios vizinhos.
Partindo das observações do relacionamento entre os alunos na sala de aula, no recreio, com as plantas e com os animais, organizava passeios no campo. Essas atividades eram direcionadas para desenvolver atitudes de respeito pela natureza e espírito de competitividade e de solidariedade nos jogos e nas brincadeiras.
As atividades da igreja eram também da coordenação da professora, com terço diário, catecismo à tarde, nos domingos, novenário do Coração de Jesus, semana santa, assistência ao pároco de Custódia na celebração das missas, festa de São Sebastião, padroeiro local, e os exercícios do mês de maio.
O conjunto das vozes de Socorro e Margarida Rezende, Neginha, Lia Simões, Zequinha e da aluna Geni Pereira formava um coro harmonioso que recebia elogios do pároco e dos visitantes.
No mês de maio, toda a comunidade participava dos exercícios marianos, lotando a Capela.
O altar era ornamentado com folhas, galhos e flores silvestres, lamparinas, velas e, por concessão dos irmãos Ferreira, tecidos da sua loja.
Além dos cânticos e orações, alguns noiteiros inovavam com outras atividades. Na noite dos moradores de Caiçara, um arruado próximo de Samambaia, eles traziam a banda de pífanos e prestavam a sua homenagem com um interessante ritual ao redor do altar. Na noite dos jovens, no último domingo de maio, diante da igreja, armavam uma grande fogueira, colocavam mesas com comidas típicas de milho, soltavam fogos de artifício e culminavam com um animado forró no salão de festas.
O último dia era reservado à escola. As crianças ofertavam flores, coroavam no altar a imagem de Nossa Senhora e levavam-na em procissão até a calçada, onde cantavam hinos em coro e representavam, em jogral, cenas alusivas à Nossa Senhora, encerrando o mês Samambaia recebeu a visita de Dom Adelmo Cavalcanti Machado, bispo diocesano de Pesqueira, com uma calorosa recepção. Entre missas, confissões, batismos e crismas, amadrinhei alunos e testemunhei casamentos: um saldo religioso positivo nessa semana litúrgica. Dom Adelmo considerou significativa a minha atuação catequética, afirmando o reconhecimento do meu trabalho, pela Diocese.
A Capela precisava de reparos. Com os alunos, os jovens locais e as meninas Nilda Campos, Maria do Carmo Tenório e as minhas irmãs Ezilda e Darcy, vindas de Custódia, organizava "show" com o objetivo de angariar recursos e de tornar as noites mais movimentadas.
Era gratificante observar a desenvoltura e a espontaneidade de todos no palco, diante da platéia, interpretando com graça a revista da cidade, os monólogos, os diálogos e os dramas, peças teatrais de histórias emocionantes, que eu elaborava.
Com alegria, constatava que a arte de representar e de cantar só dependia de oportunidade.
O "show" foi levado aos povoados vizinhos de Maravilha e de Caiçara, contando com o transporte do compadre Cecílio Ferreira e a carinhosa receptividade dos seus moradores.
Na festa do padroeiro São Sebastião, em 20 de janeiro, mesmo estando de férias, era solicitada pelo Monsenhor Urbano de Carvalho, pároco de Custódia. A primeira noite do novenário era, por tradição, da família do Sr. Manoel Olímpio de Rezende, que, durante muitos anos, fora o coordenador da Capela.
Estando doente, levamos as imagens de São Sebastião e de Nossa Senhora das Dores em procissão até a sua casa. Um quadro de grande emoção: ver a expressão de alegria e de fé daquele homem enfermo, agradecendo, com humildade, a presença dos santos da sua devoção e lhes pedindo para ser o seu advogado diante de Deus.
Muitos samambaienses voltavam ao povoado para prestigiar a festa do seu padroeiro. Havia muita alegria nos rituais da igreja, nas barracas, nos leilões de prendas e nos bailes. Com a entrega da bandeira ao novo patrono da festa, encerrava-se o novenário.
Nos fins de semana, fazia passeios em fazendas vizinhas ou ia com a professora Alzira para Caiçara, onde morava a sua mãe, Chiquinha Simões — uma casa alegre, mesa farta e uma família de muitas moças e rapazes. Aproveitava para visitar os meus parentes da família Rodrigues — Joaquim, Dona Milu, Antônia, Alonso, Elpídio e Benzinho de Melo, uma das lideranças locais.
O luar das noites de Samambaia clareava as ruas, e na calçada de Dona Josefa Simões, cantávamos em seresta ao som do violão de Adauto Costa.
Nesse período que ali vivi, perdi pessoas muito queridas: o irmão Luiz Carlos, com 25 anos, casado com Lucila Angelim, em Salgueiro, a minha avó Dondon e, em Pesqueira, o Sr. Zé Guilherme.
Vivi também a forte emoção de ganhar os dois primeiros sobrinhos, Cícero Gomes de Oliveira Neto, filho de Dedé, e Maria Auxiliadora Angelim, filha de Luiz Carlos.
Marcaram minha lembrança Leu Rezende, sempre bem-humorado no atendimento à comunidade, com suas múltiplas habilidades profissionais, e o Sr. Nomeriano de Freitas, industrial e agropecuarista, que mantinha, com os seus ternos em cores claras, uma postura urbana de empresário. Também guardo na memória Sebastião Bernardo — o Boca, ajudante de caminhão que, nos dias de sábado e nas vindas extras a Samambaia, trazia-me pães, carnes e frutas frescas, mandados por minha mãe. Os compadres, os alunos e as afilhadas Luzia Pieta, Geni Pereira, Edite Sitônio, Cilene Simões, Áurea de Melo e Percy Ribeiro fazem parte dessas lembranças, que guardam também nítida a figura da aluna Didi Campos.
Como professora, era convocada para receber autoridades, presidir seção eleitoral, mesmo quando votei pela primeira vez, intervir em desentendimentos entre adultos, batizar crianças enfermas, cortar cabelo, preparar noivas e rezar em velórios.
Os meus medos de insetos, de fantasmas e de velórios foram gradativamente atenuados por não haver alternativas para evitar essas coisas.
Transferida, deixava em Samambaia as inseguranças, os anos e os sonhos da juventude. Ganhei afilhadas, fiz amigos e consegui, mesmo com limitações didáticas, extrapolar as paredes da escola, tornando a aprendizagem mais interativa com o social, com o religioso e com o lazer.
Essa experiência me legou uma bagagem pedagógica e de vida que me fez assumir sem dificuldades a direção do Grupo Escolar João Guilherme, em Tacaimbó, e passar, com destaque, no concurso de Supervisor Escolar de Professores Leigos, promovido pela Secretaria de Educação do Estado, em Recife.