29 maio, 2026

Caminhoneiros - por José Melo




 DEDICADO AO MOTORISTA JUBILINO FERREIRA DA SILVA


Por José Melo                 


A vida de caminhoneiro sempre atraiu muitos fazendeiros do sertão, que não raro, vendiam seus rebanhos e aplicavam todo o dinheiro em caminhões, na maioria das vezes, velhos, que terminavam por arruinar financeiramente os antigos fazendeiros.

Muitas estórias eram contadas sobre a ventura e desventura desses aventureiros. Como a de um fazendeiro que comprou um velho caminhão, depois de ter vendido boa parte de seu rebanho. O caminhão quebrava mais que bolacha Creme Craker, e constantemente o velho fazendeiro tinha que vender algumas rezes para custear os constantes reparos.

Até que sem mais nenhuma rês para vender, com o caminhão quebrado no terreiro da fazenda, tomou uma decisão: mandou o “Chauffer” abrir a boca do “bicho” ( levantar o Capô), e dirigindo-se ao caminhão deu o veredito:

- “ Ô seu infeliz, você já comeu todo o meu gadinho, comeu toda a minha safra de algodão, comeu todo meu rebanho de cabras, e agora num tem mais nada. Se quer comer, agora você só tem as minhas terras. Vender eu não vendo mas se quizer, pode começar a comer!”

Esse evidentemente é um caso que não posso assegurar como verídico, mas muitos outros são verdadeiros, como o que relato a seguir.

Zé Batista sempre foi um fazendeiro muito equilibrado e trabalhador, sempre zelando por sua bela fazenda na Cacimba Nova.

Dado a proximidade da cidade, passou a morar na cidade. E foi contaminado pelo “cheiro da gasolina”.

Mas, precavido, procurou não errar. Antes de mais nada, construiu uma Garagem, na Rua Dr. Fraga Rocha. E quando alguém perguntava que construção era aquela, ele respondia sempre:

- “É uma garagem, pois penso no futuro em comprar um caminhão”.

Os amigos então o aconselhavam a desistir da empreitada, apontando os insucessos de muitos que enveredaram pela vida de caminhoneiro. Mas ele, apesar de analfabeto, era inteligente. Terminou a construção, trabalhou mais algum tempo, e depois comprou um Caminhão Chevrolet Brasil, zero quilômetro. Contratou um motorista e passou a realizar o seu sonho: fazia o transporte de mercadorias do Sudeste para o Nordeste e vice-versa. 

Com o passar dos tempos passou a encaminhar a filharada para a profissão de caminhoneiro. Resultado: todos os seus filhos, à exceção do caçula, o saudoso Ozório, passaram a dotar a profissão de motorista. Foi assim, um dos poucos fazendeiros que migrou para a atividade de transporte com sucesso.

Outros, nem tanto. Meu próprio pai tinha um comércio ativo, bem movimentado, com grande clientela. Caiu na tentação de ser caminhoneiro e viu seu comércio ir a deriva.

Vários “causos” engraçados se contam sobre caminhoneiros sertanejos. Como o de um Fazendeiro das Bandas do Barro Vermelho, que comprou um caminhão, e na primeira viagem, o novo caminhoneiro segui na cabine ao lado tendo o motorista, de nome Valdeci, constatado já no final da descida da Serra do mimoso que o “bruto” perdera os freios, exclamou:

“- Valha-me Deus, faltou freio!”

Ao que o apavorado transportador passa a implorar:

“- Intonce, Sêo Vardemar, pare pra eu descer, qui eu nun quero morrer de virada não!”

Outro fala sobre a arrogância de um motorista que acabara de dar um polimento na pintura do famoso “Marta Rocha” ( Chevrolet 1956, de linhas arrojadas para a época), quando um fazendeiro, encantado com a beleza do bruto passou a mão na pintura, ao que o motorista “chiou”:

“ - Ei, velho, tire a mão e esse saco velho da pintura do caminhão.”

Ao que o pobre coitado, humilhado, pergunta ao motorista:

“- Sêo moço, qui má lhe pregunto: quanto custa mar ou meno um caminhão desse?”

O Motorista, para humilhar ainda mais o velhote, deu um preço bem superior ao real. O velhinho fez as contas, abriu o saco velho e despejou em cima do capô do caminhão, uma verdadeira fortuna, fruto da venda de uma boiada, e cujo valor cobria o valor informado pelo motorista, e deu o troco ao motorista:

“- Apois se o caminhão vale isso e é seu, me passe os papé dele que eu compro ele agora, e pago a vista. Agora se não for seu, dêxe de xalerá o dono e num venha querer passar pito nas pessoa!”

Certa feita, Adamastor foi chamado para consertar uma camionete, em Quitimbu, que fazia semanas que a “bicha” não “pegava” nem no tranco. 

Limpeza do carburador, regulagem do relê, bota em tempo, enfim, faz uma revisão geral. Como a bateria estava arriada, pede aos presentes para dar uma empurradinha na camionete, para ver se ela “pegava”.

Na primeira tentativa, nada, na segunda também não. Depois de várias tentativas e novos ajustes, enfim ela pega, fazendo aquele barulhão tão esperado pelo dono, que não se contendo agradeceu:

“ Viva Santa Luzia, qui graças a ela meu carrim tá bom de novo!!!

Ao que, Adamastor, conhecido por sua fina ironia, não perdoou:

“- Se foi ela que consertou seu carro, porque você foi me chamar pra consertar?”

E o agora feliz proprietário contra argumentou:

“- Você consertou, mas ela ajudou!”

Adamastor aproveitou e concluiu:

“- Então você vai ter que pagar dobrado: além do meu trabalho, que deu certo, você teve a sorte de ter uma Santa ajudando!

E o pobre homem pagou a Adamastor regiamente e ainda faz uma doação para a Padroeira de Quitimbu.

E pra finalizar, nada mais ridículo do que aquele ajudante de caminhão que, para garantir a segurança do veículo e da carga, foi dormir na boleia do caminhão. Quando se preparava para dormir, descobriu um pijama do dono do bruto, e não teve conversa: vestiu aquela roupa “chic”.

Só que na manhã seguinte, quem disse que ele conseguia desamarrar o nó cego que ele deu no cordãozinho do pijama? Pense num sufoco, vendo a hora o dono chegar e ele ali vestido no seu belo pijama!!!

Não sei o final, só sei que isso aconteceu na antiga Bomba, no Posto Shell que lá havia.

28 maio, 2026

Fonte Luminosa da Praça Padre Leão



Quem lembra da fonte luminosa na Praça Padre Leão, década de 1990, é uma das lembranças mais nostálgicas e marcantes para quem viveu ou frequentou o centro de Custódia nessa época. Ela não era apenas um elemento decorativo, um ponto de encontro para os jovens custodiense.

Após reforma, a Praça Padre Leão passou por uma mudança, e nela, foi construido uma Fonte Luminosa. Era o cenário principal após a reforma, o costume de dar voltas ao redor da praça para conversar, paquerar e encontrar os amigos, embalado pelo movimento das noites de fim de semana e após as missas na Igreja Matriz de São José.

Para a tecnologia da época, a fonte era uma verdadeira atração visual na cidade. Ela operava com um sistema de jatos de água intermitentes que mudavam de altura, combinados com um jogo de luzes coloridas (geralmente tons de verde, azul, vermelho e amarelo) instaladas submersas ou na base dos jatos. O reflexo das cores na água em movimento causava um efeito fascinante, especialmente para as crianças da época.

Antes da era dos smartphones, a fonte luminosa era o "cartão-postal" oficial da cidade para registros fotográficos analógicos. Muitas famílias custodieneses, jovens casais e visitantes guardam em seus álbuns de fotos de papel registros com a fonte colorida ao fundo, registrando momentos festivos, vestimentas de domingo ou os tradicionais festejos de fim de ano e padroeiro.

Com o passar dos anos e as sucessivas reformas urbanas que a praça sofreu ao longo das últimas décadas, o desenho original do espaço foi se modificando. O desgaste natural dos sistemas hidráulico e elétrico, somado às novas concepções de arquitetura das gestões públicas, fez com que a dinâmica da praça mudasse, deixando a antiga fonte luminosa dos anos 90 guardada na memória afetiva e na identidade cultural dos moradores de Custódia.

Paulo Peterson

27 maio, 2026

Encontro de Luiz Epaminondas Filho com Presidente João Figueiredo e Marco Maciel (1979)


Arquivo Familiar:
Pereira Epaminondas


Visita do então Presidente João Figueiredo ao Governador Marco Maciel, em outubro de 1979, para um almoço no Palácio Campo das Princesas, em Recife.

O então Prefeito de Custódia, Luiz Epaminondas Filhos, foi um dos convidados, foi na Gestão de Marco Maciel, que a cidade de Custódia recebeu grandes investimentos anos depois.

Na oportunidade, o Presidente anunciou novas medidas de apoio ao Nordeste e ao Estado de Pernambuco, dentre elas investimentos no transporte ferroviário, construção de um terminal rodoviário de passageiros, investimento numa central de cargas e comércio atacadista, aumento no silo portuario do Recife, investimentos no Polo Industrial de Cabo, Curado, Paulista e Prazeres, além de projetos para Agricultura com o Projeto do Leite, o mais beneficiado.

Pesquisa e informações: José Soars de Melo e Paulo Peterson

24 maio, 2026

Homenagem a Ditinha - por Lindinalva Almeida

 



 

Homenagem a Ditinha

"Meus escritos são a minha voz para o presente e para o futuro."

Ditinha, cruzaste a ponte entre a Terra e o Céu! Sentiremos eternamente a sua falta.

A cada dia, nos perguntamos: por que tanta pressa, se somos apenas visitantes?

Se, a cada vinte e quatro horas, é subtraído o nosso tempo, é aí que percebemos que a vida é linda! A vida — esse pestanejar de olhos — tem suas raízes profundas nas terras do coração. Essas raízes nem sempre seguem o mesmo percurso; porém, estarão sempre ligadas pela força do seu tronco.

A metáfora acima nos mostra que o ser humano é único neste universo sobre o qual, ainda, sabemos tão pouco.

Ditinha viveu setenta e sete anos bem vividos. Filha do senhor João Dodô e da dona Quitéria, tinha seis irmãos; era casada com o senhor João Batista e mãe de cinco filhos. A alegria era a mola propulsora dessa mulher grandiosa: amava a vida e a família com a pureza de uma criança. Posicionava-se sempre com disposição para ajudar. Na doença de qualquer um da família, era a primeira a chegar. A sua fé e o seu carinho eram essenciais nos momentos difíceis. Sua resiliência e bondade se estendiam também aos amigos e vizinhos. A esposa dedicada, a mãezona, a vovó coruja, a irmã amiga, a cunhada afetuosa e a sogra com coração de mãe deixou um vazio que só Deus para curar. Seu ciclo de amizade era marcado pelo afeto e pelo bom humor.

Tudo é temporário, menos a maneira como você fazia o outro se sentir. Isso é para sempre.

Minha amiga querida partiu neste dezenove de maio, mês da Virgem Maria, que segurou em sua mão, levando-a à Casa Celestial. Hoje, faz sete dias da sua partida.

Nossos sinceros sentimentos ao seu João, ao Ebinho e à Priscilla. Estendemos o nosso pesar a todos os seus familiares:

• Irmãos: Djalma, Luizinho, Vavá, Marinelza, Margarida e Sandra.

• Filhos: Djan, João Elbert, Janclebio, Shirlene e Higor.

• Netos: João Lucas, Kamila, João Ítalo, Kauan, Priscylla, Stefanny Caroline, João Victor, Victória, Higor Filho, Melissa e Rafael.

• Bisnetos: Davi Luiz, Heitor, João Miguel, Alice, Natan, Nícolas e Vicente.

• Noras: Priscilla e Roberta.

• Genro: Marcelo.


Nosso abraço de paz e luz!

Arnaldo e Lindinalva-Nenê

(Escritora).

Custódia, maio, 2026.

22 maio, 2026

Joany - por Jussara Burgos


Foto: Paulo Peterson

 Joany

Joany com Y no fim,
como quem redesenha o próprio nome
para que o tempo jamais a alcance.

Disseram-lhe um dia
que Joana era nome de velha,
e ela, com graça e decisão,
plantou um Y no final
e ali floresceu para sempre.

Foi professora
bordava saberes nas manhãs,
abria janelas onde não havia horizontes,
e ensinava, sobretudo,
a dignidade de existir.

Foi filha, esposa, mãe,avó e bisavó, colo sempre aberto e palavra certa para acolher sobrinhos.
Inteira no gesto,
imensa no cuidado,abrigo firme
nos dias de vendavais.

Primeira-dama
de um município, sim,
mas também da delicadeza cotidiana,
do passo elegante,
do olhar que acolhe sem esforço.

Eterna, disseram,
porque certas presenças
não acabam, vivem, tem permanência.

Exímia doceira
e nisso havia um segredo:
transformava açúcar em afeto,
receitas em memória,
e cada doce seu
era um pedaço de seu coração
oferecido ao mundo.

E que casa…
um primor de zelo,
um abrigo bonito, generoso
como quem se entrega inteira
a cada detalhe,

a cada canto arrumado com amor.
Ali, tudo respirava cuidado,
tudo dizia: há vida aqui.

Hoje, a ausência tem peso de silêncio,
e o mundo parece um pouco desalinhado
sem sua exatidão de beleza.

Mas há um Y desenhado no céu,
como um galho de luz aberto,
sustentando seu nome
no alto da memória.

Joany permanece
no doce que ainda lembra o seu toque,
no cuidado que ela ensinou sem dizer,
na elegância que não se aprende, é nata

Permanece
como quem não partiu,
apenas se espalhou
em tudo que continua
a florescer.

Vá em paz, tia.
Leve a minha gratidão e a certeza que a senhora viverá
sempre no meu coração.


Jussara Burgos
Luziania-GO
Maio/2026

21 maio, 2026

[Biografia] Joana Pereira Marques Epaminondas "Dona Joany" - Por Lindinalva Almeida "


 

Joana Pereira Marques Epaminondas, nascida em 17 de julho de 1931 e natural de Custódia, era católica, professora aposentada e filha de Joaquim Pereira da Silva e Corina Marques Pereira. Foi casada com o deputado Luiz Epaminondas Filho (in memoriam), com quem constituiu uma bela família.

Teve dois filhos, Flávia Inês Pereira Epaminondas e Luiz Cláudio Pereira Epaminondas, além de sete netos e quatro bisnetos. Conhecida carinhosamente pelo apelido de Joany, residia na Avenida Inocêncio Lima.

Dona Joany sempre foi considerada uma das mulheres mais elegantes de Custódia. Sua fineza nos gestos e atitudes lhe conferia características de verdadeira nobreza.

 Representou o município por dois mandatos como primeira-dama, desempenhando a função com elegância e estrito respeito aos padrões protocolares exigidos pelo cargo. Esposa dedicada, foi também companheira e amiga inseparável do esposo, mãe carinhosa, anfitriã de primeira grandeza e dona de um admirável talento culinário. Entre tantos dotes, destacava-se ainda pelo bordado à mão, um verdadeiro trabalho de arte.

A sólida educação recebida de seus pais serviu-lhe como base para um futuro seguro e promissor. Sua formação acadêmica foi construída em importantes instituições de ensino, como o Colégio Sagrado Coração de Jesus, em Caruaru, o Colégio Americano Batista e o Instituto de Educação de Pernambuco (IEP), ambos em Recife. Leitora assídua de bons livros, iniciou sua trajetória profissional como professora primária na Escola Reunida Maria Augusta — hoje Escola Municipal Maria Augusta —, localizada na Rua João Veríssimo, antiga Rua da Várzea.

O conteúdo transmitido pela professora Joany marcou profundamente a vida de muitas crianças que, hoje adultas, guardam belas lembranças do aprendizado. Um ex-aluno relata que jamais esqueceu suas aulas e os recursos didáticos utilizados: leitura de histórias, ensinamentos sobre boas maneiras, urbanidade, religião e os conteúdos da grade curricular. Em seu depoimento, ele afirmou:

“Pode parecer muito simples o que exponho, mas, para mim, foi de grande importância. Aprendi a gostar da leitura e da escrita, a sentar à mesa, a usar garfo e faca, a lavar as mãos ao sair do banheiro e, sobretudo, aprendi a respeitar o próximo.”

Um belo testemunho do legado deixado pela educadora.

O município de Custódia também contou com relevantes serviços prestados por Dona Joany na vida pública. Na primeira gestão do prefeito Luizito, como era conhecido Luiz Epaminondas Filho, ela assumiu a Secretaria de Assistência Social. Nesse período, o município foi contemplado com diversos projetos e programas sociais, como cursos de corte e costura, pintura e culinária, além de apoio às gestantes com a entrega de kits de enxoval para bebês. Houve ainda incentivo e apoio ao fortalecimento das associações comunitárias.

Na segunda gestão de Luizito, exerceu com grande competência o cargo de Secretária de Educação, em uma fase marcada pelo progresso educacional do município. Várias escolas foram construídas e muitas outras, reformadas. As bibliotecas das escolas municipais receberam valiosos acervos, enquanto a Biblioteca Municipal Zenilda Simões de Oliveira Burgos funcionava de forma contínua, atendendo alunos das redes municipal e estadual, bem como a população em geral, assídua na leitura e no acompanhamento do jornal matinal.

Dona Joany deixou como ensinamento uma frase que traduzia seu pensamento humanista: “Nada mais civilizado do que saber conviver com as diferenças.”

Nossos sinceros sentimentos a Flávia, Luiz Cláudio, netos, bisnetos e a toda a família Pereira Epaminondas.

(Esta biografia integra meu livro, que em breve será publicado.)

Nosso abraço de paz e luz!

Custódia, 20 de Maio de 2026.

Arnaldo e Lindinalva/Nenê (Escritora)

15 maio, 2026

Flama do DNOCS



Em pé:

Reginaldo da Cerâmica, Nen Brigão, Denildo Moisés, Marquinho Ferraz, Toliba Betânia e Marco Ramalho

Agachado:

Tambor Arcoverde, Nadilson Santos, Natalicio do DNOCS, Roberto Moura, Brasilia e Aloísio do Banco do Brasil

 

08 maio, 2026

O dia que falei com o Rei - por Jussara Burgos


foto ilustrativa


A cidade de Custódia cresceu do sítio de dona Nita, um verdadeiro oásis com altos coqueiros no meio do Sertão do Moxotó. Era lá que eu morava. Quando tínhamos de ir ao comércio, costumávamos dizer que íamos à rua. Em uma dessas idas à rua, chegando à Praça Padre Leão, encontrei pouca gente circulando e o chão coberto de panfletos de propaganda eleitoral. Houve um comício, ou melhor, um showmício, e algumas pessoas ainda estavam por lá. Eis que vejo, à minha frente: ele! Estava acompanhado por outro homem; os dois andavam em direção a um carro estacionado na praça.

Olhei, surpresa, sem acreditar no que eu estava vendo, e turbilhões de pensamentos invadiram minha cabeça.

– É ele, sim. Vai lá. Pede um autógrafo.

– Não, tenho vergonha.

– Pede, porque você não sabe se terá outra oportunidade. Vai!

– Não vou.

Nisso, ele entrou no carro e bateu a porta. O companheiro era o condutor.

É agora ou nunca. Fui. Com as pernas tremendo feito vara verde, o coração acelerado e a voz embargada de emoção, corri até a janela do carro, que já estava com o motor funcionando, e disse timidamente:

– O senhor pode me dar um autógrafo?

Ele, imponente como todo rei, perguntou-me:

– Qual é o seu nome?

Pegou uma caneta e um pedaço de papel no porta-luvas e escreveu: “Para Jussara, um abraço de Luiz Gonzaga”.

Só deu tempo de dizer “obrigada” e sair dali correndo com minha nova aquisição.

Fui mostrar ao meu pai o que havia conseguido; ele nada falou, mas sorriu bondosamente, compartilhando minha felicidade.

Em casa, os meninos estavam no quintal, agachados, jogando bila. Entrei eufórica, dizendo em voz alta o que tinha conseguido. A brincadeira deles foi interrompida, e o autógrafo passou de mão em mão.

Todos examinaram o pedaço de papel, e alguém falou:

– Não sei por que você está tão feliz, isso não serve para nada.

Esbravejei:

– Como assim não serve para nada? Só eu tenho a assinatura do maior cantor do Nordeste, e vocês não têm. Estão é com inveja.

Eles voltaram para suas brincadeiras, e eu fui guardar minha preciosidade em meu bauzinho, junto com minha medalha de Nossa Senhora e outras relíquias de meu mundo infantil. E ali o autógrafo permaneceu por muitos anos.

Em 1976, mudei-me para o Planalto Central. De volta ao sertão, anos depois, meu guarda-roupa ainda estava lá e, dentro dele, meu baú. Mas o autógrafo sumiu. Lamento muito; gostaria que ele estivesse comigo enquanto eu viver. Sem dúvida, foi um fato marcante para uma menina franzina que venceu a timidez e falou com o Rei do Baião.

Por Jussara Burgos

Publicado Originalmente no
Blog Academia Valparaisense de Letras

[Causos] Quando o telefone chegou no sertão - por Jussra Burgos



Invenção de Alexander Graham Bell chegou ao sertão como quem traz o futuro nas mãos. O aparelho, pesado e invariavelmente preto, pousou na sala como um oráculo moderno desses que não preveem destinos, mas os convocam. Era a década de 70, e na cidade pequena tudo acontecia devagar, como se o tempo também precisasse pedir licença. Mas naquele dia, não: havia pressa no ar, curiosidade nas janelas, gente inventando motivo para passar à porta só para espiar o aparelho. O disco giratório, do 1 ao 0, numa volta quase cerimonial, parecia um relógio medindo não as horas, mas as distâncias.

Poucos tinham telefone. Por isso mesmo, ele não era apenas um objeto: era ponto de encontro, ponte invisível. Ao lado, repousava a lista com nomes e números escritos com capricho, como se cada linha guardasse uma promessa de voz.

Quando tocava, era um acontecimento. Era um som ao qual nossos ouvidos ainda não estavam acostumados. Eu atendia com toda a importância que o momento exigia:

— Residência dos Burgos.

Do outro lado, um silêncio breve, seguido de estranhamento:

— O quê?

E eu repetia, firme, como quem defende um território:

— Residência dos Burgos.

Já meu irmão preferia brincar com o mundo. Se o telefone era novidade, por que não reinventar também o modo de atender? Atendia com entusiasmo irreverente. Primeiro, ficava em silêncio, provocando quem estava do outro lado da linha a dizer “alô”.

Então ele disparava:

— Não diga alô, diga Transbrasil! Ganhe uma passagem aérea e vá pra… (pqp)

E, antes que o destino fosse completado com palavras pouco elegantes, já se podia imaginar o susto ou o riso atravessando o fio.

O telefone, que veio para encurtar distâncias, acabou revelando outras coisas: o jeito de cada um, a voz que se oferece ao desconhecido, a pequena coragem de falar com quem não se vê. Outro dia, puxei pela memória, como quem gira novamente o disco do tempo. Quando contei esse fato ao meu irmão, ele perguntou:

— Tu te lembras disso?

Riu do outro lado — não do telefone, mas da lembrança:

— Claro que lembro.

Houve ainda outro episódio. Meu pai, comerciante, partiu cedo, vítima de um enfarte fulminante. Tinha apenas cinquenta e cinco anos. Pessoas de outras cidades ainda ligavam para ele. A senhora que auxiliava minha mãe nas tarefas domésticas não era dada a delicadezas. Se alguém perguntava por meu pai, a resposta vinha sempre a mesma:

— Ligue para o cemitério.

E naquele instante entendi: o grande acontecimento não foi apenas a chegada do telefone. Foi o modo como, entre fios e vozes, a vida passou a se contar de outro jeito mais próxima, mais sonora e, às vezes, deliciosamente atrevida.




Jussara Burgos
Luziânia-GO
Maio/2026

03 maio, 2026

Escritora custodiense Jussara Burgos lança seu segundo livro "Sob o manto da poesia".




Convido os amigos a fazerem uma viagem Sob o manto da poesia. Este livro não me pertence por inteiro é feito de vozes que se entrelaçam como rios que, ao se encontrarem, já não sabem mais onde começam ou terminam.

Coube a mim o gesto primeiro o sopro, a semente, quebrar o silêncio. Mas foi preciso mãos regando a semente para ela crescer e florescer. Dry Neres, Presidente e Fundadora da Academia Valparaisense de Letras, o acolheu com palavras de abertura, como quem acende uma luz na entrada do caminho.

O prefácio veio na cantoria de Oliveira de Panelas menestrel de voz antiga e eterna, que fez da palavra um aboio e um destino. Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal da Paraíba.

Nas orelhas, dois sopros de poesia: Ezio Rafael, com a força do chão pernambucano, e Márcio Catunda, tecendo versos como quem borda o vento. Houve ainda mãos invisíveis e essenciais um amigo que cuidou das palavras, como quem alinha estrelas. Renato Palet desenhou o corpo do livro, e fez dele não apenas páginas, mas um território de delicadeza.

E, entre traços de luz, Helena Coelho Burgos, ainda tão jovem, fez nascer imagens que parecem lembrar
o que o tempo ainda nem contou. Minha neta com quinze anos tem o nome registrado na Câmara Brasileira do Livro como ilustradora.

Assim, este livro é mais que um livro é um gesto coletivo, um poema repartido, uma beleza que se fez em muitas mãos.

E eu convido você não apenas a lê-lo, mas a atravessá-lo, como quem caminha por dentro de um sonho.




Grata

Jussara Burgos
Maio/2026


29 abril, 2026

Custodiense Jussara Burgos se torna Membro Titular na Academia Valparaisense de Letras (GO)




A Academia Valparaisense de Letras (AVL) realizou na noite de ontem, a Cerimônia de Posse de seus novos Membros Titulares e Membro Correspondente. Um encontro que celebrou a literatura, a arte e o fortalecimento da cultura naquela cidade.

A custodiense Jussara Burgos, filha do casal José Burgos e Noêmia Pereira, tomou posse como Membro Titular da Cadeira nº 34, que tem como Patronesse Raquel de Queiroz.

Comentou para o Blog Custódia Terra Querida, onde colabora desde do inicio em 2007, sobre a Posse na AVL.

Com alegria serena e o coração tomado de gratidão, compartilho este momento que se inscreve entre os mais significativos da minha trajetória.

A posse na Academia Valparaisense de Letras, ontem, dia 28 de abril de 2026, representa não apenas uma conquista pessoal, mas a celebração de um caminho tecido com dedicação, afeto e perseverança.

Divido, com minha terra querida, este instante de realização, na esperança de que ele também inspire outros a acreditarem na força dos seus próprios sonhos.











DISCURSO

Tudo começa com uma história. Antes mesmo de compreendermos o mundo, já somos conduzidos por narrativas aquelas que nossos pais nos contam, que embalam nossos medos, alimentam nossos sonhos e nos ensinam, com delicadeza, a existir. Crescemos ouvindo histórias e, quase sem perceber, passamos também a contá-las: nos palcos, nas páginas, nas telas e até nos silêncios. Porque, no fundo, viver é isso: tecer histórias com o fio invisível do tempo. Eu fui Gandavo, uma contadora de histórias.

E talvez nunca tenha deixado de ser. Era esse o nome do grupo de teatro amador do qual fiz parte, onde entre luzes simples e sonhos imensos, aprendi que toda existência pede voz. Mais tarde, meu amigo Carlos Lopes, também Gandavo, fundou um blog com esse mesmo nome. E foi ali que minhas palavras encontraram abrigo: publiquei contos, compartilhei caminhos, dividi páginas com escritores de todo o Brasil. E assim, pouco a pouco, fui voltando para casa para aquilo que sempre fui.

Mas houve um instante inaugural, desses que a memória guarda como um milagre silencioso. Eu tinha 16 anos, estudava em um colégio interno de freiras, e escrevi um poema que, quase sem perceber, abriu em mim uma fresta de mundo. Uma colega, cujo pai trabalhava no jornal da cidade, pediu para publicá-lo. Dias depois, voltou com ele impresso e, naquele papel simples, recortei um pedaço de sonho e, com todo carinho, nas férias, levei-o como presente à minha mãe. Ela leu e, emocionada, disse: “Quem sabe se não estou diante de uma Rachel de Queiroz…”

Naquele instante, algo em mim despertou para sempre.

Ao chegar a esta Academia Valparaisense de Letras, não escolhi por acaso a cadeira 34. Sobre meus ombros repousa a honra de ter a cearense Rachel de Queiroz como patronesse a primeira mulher a ocupar um lugar na Academia Brasileira de Letras. Fundada em 1897, sob a presidência de Machado de Assis, a ABL levou oitenta anos para acolher uma mulher. Oito décadas para que o silêncio se convertesse em voz e a voz encontrasse imortalidade.

Ao assumir seu lugar, Rachel não apenas ocupou um espaço:  deu início a um novo tempo. Raquel de Queiroz recebeu outra honraria , foi   também a primeira mulher a receber o Prêmio Camões, consagração que veio pela força incontestável de sua obra e como reconhecimento de um talento que já iluminava gerações. Assim, tornou-se farol para tantas outras mulheres

Escolho esta cadeira como quem faz um gesto de amor e de memória.

É a minha forma de homenagear, com palavras, aquela mulher que um dia me viu antes de mim mesma: minha mãe.

Trago também comigo a presença do meu avô materno, Joaquim Pereira. Foi analfabeto até os 14 anos.

E, depois de aprender a ler, tornou-se um apaixonado pelas palavras, dono da maior biblioteca particular de sua cidade. Ele me ensinou, sem jamais dizer, que nunca é tarde para começar — e que os livros são portas que, uma vez abertas, jamais se fecham.

A poesia de João do Vale me deu asas para voar até aqui.

Ele compôs Rojão de Brasília — e, no tempo em que a Capital nascia do barro e do sonho, ela ecoava na voz de Jackson do Pandeiro, dizendo:

“O Brasil está construindo mais uma grande cidade
Que antigamente foi sonho e hoje é realidade
Está ficando povoado, todo o meu Brasil central
Riqueza própria e glória trouxe a nova capital.”

E mais adiante, como um sopro de encantamento a música diz:

“O Planalto é tão lindo que a gente tem a impressão
Que bem ali, bem pertinho, o céu encosta no chão.”

Foi essa imagem do céu tocando a terra que acendeu em mim o desejo profundo de conhecer o Planalto Central. Em 1976, conheci Brasília foi amor à primeira vista. Nesse ano celebramos nossas bodas de ouro. Brasília foi a ponte para eu chegar aqui. E, entre todas as conquistas, reconhecimentos e caminhos percorridos, a minha maior premiação é este fardão que agora visto não como adorno, mas como símbolo de uma caminhada 

Neste momento tão significativo, agradeço aos amigos e familiares aqui presentes, testemunhas e, muitas vezes, personagens dessa jornada feita de histórias.

Porque tudo gira em torno delas. Uma peça de teatro só respira porque há uma história pulsando em seu coração. Um filme nos atravessa porque reconhecemos nele fragmentos de nós mesmos. E eu estou aqui, diante de vocês, porque acreditei, contei e vivi histórias.

E assim sigo.

Delicadamente tecida por palavras, movida pela emoção, sustentada pela memória.

Porque, no fim, somos isso: histórias que caminham, que sentem, que resistem…e que encontram, na escuta do outro, não apenas abrigo, mas a sua eternidade.




POSSE DOS NOVOS ACADÊMICOS - AVL



Para assistir apenas o discurso de Jussara Burgos, vá até em 1h32min e 09s do video acima.

28 abril, 2026

Mensagem da amiga Lindinalva Almeida para Maria Lenilda (Lena Pereira)



Morre, neste 25 de abril, a querida amiga Lenilda Lins Pereira, na cidade do Recife.

Ah, como dói perder nossos entes queridos, meu Deus!

“Algumas pessoas passam pela nossa vida como o vento leve de uma tarde de verão. Não ficam para sempre, mas deixam uma brisa que refresca a alma.”

O paradoxo da vida é este: aprender o valor da vida ao tempo que, lentamente, a perdemos.

Hoje, todos choramos a partida da nossa conterrânea Lenilda, ou Lena, como era conhecida. A despedida de alguém que parte para a casa celestial traz consigo um sentimento de dor e de tristeza. Mas, devemos seguir adiante, com a certeza de que a ressurreição é o nosso galardão.

Lenilda era filha do Excelentíssimo ex-prefeito do município de Custódia, senhor Adauto Pereira e da professora aposentada, a senhora Nita Lins Pereira. O casal teve dez filhos. Lena era uma dessa prole grandiosa: cinco homens e cinco mulheres.

Nascida no distrito da Maravilha, Custódia – PE.
Credo religioso: católica praticante.
Casada com o Dr. Pedro Pereira Sobrinho (in memoriam).
Mãe de um casal de filhos: Paulo Peterson e Paula Peterson, e avó de três netos.

Lena era uma das moças mais bonitas de sua juventude.
Dotada de vários dons, seus trabalhos manuais eram perfeitos. Educada e sempre presente na vida dos amigos. Trabalhou por muitos anos na Farmácia Pereira ao lado de seu sogro Joaquim Pereira e alguns filhos de Dona Noêmia. Ainda trabalhou no Colégio Técnico, de propriedade de seu esposo, além da Secretaria de Assistência Social no Programa Bolsa Família. 

A mulher: filha, esposa, mãe, irmã, sogra, tia e cunhada. Exímia dona de casa, soube ver todos dentro da célula base da família. Amou-os com afeto e discrição.

Essa saudade vai doer. Com certeza, sentirão a falta da mão amiga, sempre estendida a todos que a procuravam; da palavra de apoio; do café, nos intervalos dos jogos de baralho na casa de sua irmã Rosa; dos almoços em família, quando ela se propunha a cozinhar deliciosos pratos.

As boas lembranças também virão com a cadeira vazia na calçada de sua casa, espaço que aconchegava, todas as tardes, família e amigos para um bom e inesquecível bate-papo.

Aos seus filhos, netos, genro, nora, irmãos, sobrinhos e cunhados, o amor era dado e recebido com toda intensidade.

Amigos, agora só a oração vai diminuir a saudade do anjo bom que já não está entre nós.

Descanse em paz, Lena!

Em nome dos queridos amigos Paulo, Paula e Rosa, estendo nosso sentimento e nossas orações a todos os familiares.

Abraços de paz e luz!

Arnaldo e Lindinalva (Nenê).
Escritora.

Custódia, 26 de abril de 2026.


 

14 abril, 2026

As Vitrines - Jorge Remígio


Jorge Remígio.
Recife, abril de 2026


Estávamos no ano de 1982, porém não lembro qual o mês. Finalmente os irmãos Farias Remígio estavam morando juntos na capital. Não era fácil, para muitas famílias do interior, manter os filhos estudando na universidade. Mesmo esta sendo pública, havia gastos que muitos pais não podiam arcar.

Vamberto era um empresário com familiares em Custódia, inclusive, a sua irmã era amiga das minhas irmãs, e isso facilitou todo o processo do contrato de aluguel do imóvel onde fomos morar. Era um apartamento vizinho ao dele. A juventude é festiva por natureza, e creio que a nossa era até demasiada. Então, nos finais de semana não faltavam festas e encontros com amigos da nossa cidade do interior.

Quando não íamos para a Praia de Boa Viagem, sempre tinha opção nos bares da Ilha do Leite, Boa Vista e principalmente no Derby, onde reinava a feirinha na praça, sempre aos domingos. Olinda era um programa raro, até porque ninguém era motorizado. Vamberto era de outra geração, mas muito ligado a todos nós, e em muitos momentos participava das bebedeiras e batucadas que fazíamos. Ele tinha um carro que eu achava o maior “barato".

É uma gíria da época. Carro esportivo, de playboy como se referiam ao famoso Puma. Conversível, pois arriava a capota, um verdadeiro charme. Porém, tinha um detalhe, só havia dois bancos. Eu desejava muito andar de carona naquele Puma, mas Vamberto quando saia era sempre com a noiva. Claro que sempre mantive a esperança, não dizem que é a última que morre? Pois em um final de tarde de um domingo qualquer, tive uma grata surpresa. Vamberto me perguntou.

-Jorge, você conhece a feirinha do Alto da Sé?
-Não

Eu ia em Olinda no carnaval ou em outro momento esporádico. Ele estava se arrumando para sair, então me veio a interrogação. “Será que ele vai me convidar para ir para essa feirinha? Claro que eu pensei no Puma, como não! Que felicidade quando ele perguntou.

-Queres ir comigo lá?
-Oxe! só se for agora. Eu vou trocar de roupa rapidinho.

Quando retornei, Vamberto falou que havia esquecido uma coisa, entrou no quarto, pegou um revólver e colocou no cós, na parte de trás.

-Jorge, tu estás armado?
–Tô nada, tu sabes que eu entrei a pouco tempo na Polícia Civil, e um revólver é caro.

Atualmente eu estou trabalhando no arquivo, depois eu penso nisso. Nessa época, muitas pessoas andavam armadas, bastava ter condições financeiras para comprar, e também gostar de portar. Não era difícil adquirir o porte de armas. Enfim, o sonho realizado. Entramos no Puma e logo pegamos a grande Avenida Agamenon Magalhães com destino a Olinda. Realmente era uma sensação prazerosa, aquele vento na cara e as pessoas nos seus Fuscas, Brasílias, Chevettes e Corcéis, olhando com admiração para o Puma. Usando um neologismo, era um “amostramento” mesmo, da minha parte. Quando chegamos em Olinda, cidade que respira cultura e contracultura também, já era noite, e, após estacionarmos o carro, nos dirigimos para o bar, Cantinho da Sé. Muito conhecido e, naquele local, era o mais badalado e concorrido. Quando adentramos, já havia bastante pessoas, pois em seu interior não havia mesas vazias. Mas, o nosso interesse era ficar no terraço, pois havia uma excelente vista para o Recife ao fundo. Ficamos fitando o local para descobrir uma mesa vazia. Encontramos, porém não havia tamboretes. “E
agora?” Ficamos em pé ao lado da mesa, esperando o garçom para tomar uma providência.

Foi nesse exato momento que Vamberto viu dois tamboretes sem uso, em uma mesa próxima. “Eita! resolvemos o problema” Será? Tinham dois rapazes na mesa, e quando Vamberto pegou um dos tamboretes, um dos rapazes levantou-se rápido e pegou na outra perna do banco. Puxou forte, mas Vamberto não se intimidou e também deu um solavanco.

Ficaram os dois agarrados ao mesmo tempo no banco, e a troca de impropérios foi grande. O outro rapaz da mesa ficou de pé, mas não interveio. Foi tudo muito rápido, eu fiquei ao lado de Vamberto, e a cabeça estava a mil. Pensava: “Que B.O. pesado da gota” Porque aquilo poderia tomar proporções gigantescas. Vamberto estava armado e qualquer atitude da outra parte que configurasse uma ameaça com arma, o desfecho seria fatal. Eu tinha poucos meses como policial, estava no estágio probatório, que são dois anos, então se me metesse em uma confusão daquela, tinha plena consciência que as consequências seriam problemáticas demais. Todas as pessoas que estavam naquela área externa do bar ficaram na expectativa. Muitas de pé, na iminência de se retirar do local. A bala perdida sempre existiu. Os dois rapazes eram louros e de estatura alta, mas Vamberto os enfrentou de frente, com uma coragem que me surpreendeu. Tenho certeza que os dois rapazes também foram surpreendidos por aquela atitude, pois, após soltar o banco, pediram a conta ao garçom, que observava tudo, próximo onde estávamos. Quando os dois saíram, peguei um banco e sentamos na mesa. Vamos relaxar um pouco, baixar a tensão. Mas, fiquei com a “pulga atrás da orelha”.

-Vamberto, não vamos dar as costas para a entrada do bar, porque pode haver surpresa, esses caras podem retornar.

Momento tenso. Pedimos uma cerveja ao garçom, para aliviar o estresse que foi grande. O bar estava cheio, mas fomos atendidos rapidamente. Quando o garçom chegou à mesa, abriu um grande sorriso para Vamberto, e falou.

-Parabéns! Você foi o único que enfrentou esses caras. Eles são Tenentes do Exército, são gaúchos e já causaram vários problemas aqui no bar. Todo final de semana é um tumulto.

São uns quatro que vem sempre.

Eita! gota, pensei no ditado que diz.”Nada é tão ruim que não possa piorar”. Eu sabia que havia um Quartel do Exército na PE 15 e não era muito distante dalí. Então, falei para Vamberto.

-Vamos sair daqui rápido, é muito provável que esses Tenentes cheguem aqui com a Polícia do Exército. Com certeza eles se sentiram desmoralizados e vão querer a desforra

Vamberto ainda quis argumentar que não poderíamos sair correndo dali, mas convenci ele, dizendo que não precisava correr, mas pagar a conta e ir para outro local. Estávamos vivendo em um regime ditatorial, e sabíamos como as coisas eram resolvidas, principalmente quando se envolvia algum militar. Fomos pagar a cerveja, mas o dono do estabelecimento falou que já estava paga. Nem questionei quem havia pago, mas com certeza foi uma cortesia. Saímos do Cantinho da Sé, e seguimos para o outro lado da igreja, e entramos em um bar muito convidativo, até pela bela decoração. Sentamos em uma mesa sem o menor problema, local aconchegante, e pedimos uma cerveja. É como se a poeira tivesse baixando, a normalidade dando as caras. Que tensão, ufa! Agora estava tudo bem, a luz não muito forte, exigia uma melhor observação do ambiente. Olhei os abajus as plantas, e há poucos metros de onde estávamos, uma radiola de ficha luminosa, tocava AS VITRINES, música e letra de Chico Buarque de Holanda.



08 abril, 2026

Praça Padre Leão e seus pontos comerciais no final da década de 70



No primeiro imóvel da foto, funcionou a Farmácia de Elpídio Pires, entre 1963 e 1964.

Posteriormente foi de propriedade de Severino Pinheiro. A residência seguinte foi do Sr. Evilácio Bernardo da Silva e Joana Rodrigues da Silva, ele tinha um bar e uma mercearia, vizinho ao bar de Jurandir, Bar Fênix.

Depois o famoso Bar Ponto Certo. Em 1962, pertencia a Demócrito Rodrigues de Queiroz, tempos depois foi de Gerson Rodrigues de Queiroz (Deta), entre 1970 e 1973. Foi de propriedade também de Joãozito, João do Ponto Certo, e por fim, de Luciano Góis Veríssimo.

A loja seguinte, na década de cinquenta foi uma loja de tecidos de Antenor Pires, depois de Severino Pinheiro, posteriormente foi o primeiro supermercado da cidade, pertencente a Heleno Chaves, depois Supermercado Ribeiro, e hoje lojas Americanas.

Seguido do prédio que foi a Padaria Confiança, de João Miro da Silva e esposa Jovelina, depois os dois prédios conjugados, que era a Casa Góis, de propriedade dos irmãos Domingos Alves de Góis e Sebastião Alves de Góis.

Por último, após o beco, a padaria de Pedro e Delicia Rafael. Posteriormente vários familiares assumiram atividades nesse local, Geralmino, Rildo e Reginaldo.



No outro lado da Praça, com vista da torre da Igreja Matriz a primeira casa, antigamente foi o Cartório de Né Marinho, Budega de Joventino, sua residência em seguida, a casa onde hoje é a Cisagro, era a casa do pai de Zé Agostinho que casou com Vânia Rafael.

O prédio seguinte, só foi o supermercado Ribeiro, em 1976. Nessa época devia funcionar algum bar.

Residência de Zezito Caju e o prédio seguinte, foi o consultório odontológico de Dr. Pedro Pereira Sobrinho, hoje é a Varadinha do Vavá.

Na esquina do outro lado, por muito tempo foi a mercearia e bar de Valdeci, filho de seu João Barros. Já foi Pizzaria e até hoje é o BAR ALTAS HORAS.

Na sequencia a residência de Manoelzinho Cassiano, pai de Neli Aleixo. Após a loja de móveis dos irmãos João e Inaldo Azevedo e o prédio da Farmácia Pereira, fundada em 1937.

Paulo Peterson, com apoio de José Melo e Jorge Remígio.

05 abril, 2026

Das galinhas ao helicóptero: a trajetória que moldou um advogado de sucesso


publicado originalmente em:
Naçao Juridica. 


O início de uma trajetória profissional é, muitas vezes, definido pela resiliência. No interior do Maranhão, um episódio tornou-se emblemático: o recebimento de honorários advocatícios representados por duas galinhas na porta de um fórum. Embora o gesto tenha sido registrado com orgulho pelo profissional, foi alvo de ironia por quem limitava o conceito de sucesso ao valor financeiro imediato.

Para o advogado Janio Queiroz (@janioqueiroz_), essa experiência foi um pilar de sustentação para uma carreira sólida. Anos depois, a dedicação resultou em um cenário distinto: um passeio de helicóptero no Rio de Janeiro, oferecido por um cliente em sinal de reconhecimento. Contudo, a essência desta evolução não reside no luxo do presente, mas na confiança estabelecida ao longo de todo o percurso.

A advocacia de sucesso não deve ser mensurada apenas pelas cifras, mas pela capacidade de construir relacionamentos pautados na ética e na competência. Aqueles que desconsideram os começos humildes falham em compreender que o êxito é um processo cumulativo. Cada etapa cumprida com excelência prepara o profissional para resultados cada vez maiores.

A transição entre o cenário rural e o horizonte urbano demonstra que a carreira responde à persistência e à manutenção de princípios. O sucesso é, portanto, a consequência natural de uma atuação que preserva a dignidade em todas as instâncias. Esta trajetória reafirma que o respeito ao cliente e a constância no trabalho são os maiores ativos de um advogado.

Fonte: Clique Aqui

03 abril, 2026

Atual E.C.



Um dos melhores times de Custódia de todos os tempos, o ATUAL E.C.

Presidente era Fernando de Durval.

Tinha um dos melhores jogadores da época, o craque FRANCIELHO SOBREIRA, mais conhecido como "Esquerdinha", hoje funcionário público municipal.

Nos dias atuais, alguns desse time seriam jogadores de qualquer equipe profissional do cenário nacional.

Por José Orlando


 

7 de Setembro de 1970 em Custódia-PE



Da esquerda para direita :

Ulisses Góis, em seguida morador do Dnocs, filho de Dona Bia, Maninho,
 Ivanildo de Jonas e Marcos Moura.

01 abril, 2026

Livro "Os pedaços dos retalhos de Bebeth" do custodiense Cristiano Jerônimo



Sexto livro do escritor Cristiano Jerônimo e o primeiro no gênero Romance/Prosa, a obra conta a história de uma jovem sertaneja de família tradicional do interior de Pernambuco que deixa a família no interior do seu estado para estudar na capital, Recife. A estrutura narrativa de “Os pedaços dos retalhos de Bebeth” segue um formato não linear, onde a protagonista revisita momentos de sua vida por meio de memórias fragmentadas e reflexões pessoais.

O livro utiliza uma abordagem intimista e sensorial, explorando temas como sexualidade, superação e identidade. A narrativa é construída com saltos temporais, alternando entre o passado e o presente, o que permite ao leitor acompanhar a evolução da personagem e compreender os desafios que ela enfrenta. Além disso, há um forte uso de descrições detalhadas e diálogos introspectivos, que ajudam a criar uma conexão emocional com a jornada da protagonista, Bebeth.

O que ninguém contava é que essa história acabaria com um final tão surpreendente.

Comprar:

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14 março, 2026

Primeiros Sapateiros de Custódia



Francisquinho Laurentino, Raimundo de Mana, Tarcísio de Margarida de Manoel Henrique,
Flávio Laurentino, Luiz de Quitéria. 




Sapataria de Dourinho na Bomba, alguns identificados:

Luiz de Quitéria, Francisquinho Laurentino, Bastinho de Antônio Cota, Raimundo de Mana,
Dourinho e Zito Laurentino.

Quem souber mais nomes, por favor, deixa nos comentários dessa postagem.

13 março, 2026

Inauguração da Escola José Pereira Burgos (1980)


Foto: Marcos Moura
(Colorida com IA com autorização)


Inauguração da Escola José Pereira Burgos, antigamente chamado de "Polivalente". o evento foi realizado em 27 de Dezembro de 1980.

Erem José Pereira Burgos, recebeu uma comitiva formada por secretários, deputados e políticos da região, além do Prefeito da Cidade, Luiz Epaminondas Filho.

Ao microfone, Dep. Antônio Airton Benjamim, na época Secretário de Transportes de Pernambuco; Marcos Moura, Secretário do PDS 2 em Custódia, do Dep. Joel de Holanda, do Governador Marco Maciel e do Dep. Federal Inocêncio Oliveira.

Marcos Moura ainda recebeu a comitiva do Governador, em sua residência, na Rua Dr. Manoel Borba nº 308, e de seu amigo Belchior Ferreira Nunes. 

Posse do Prefeito Belchior Ferreira Nunes (1989)


(foto colorida com IA)

Foto da posse de Belchior como Prefeito de Custódia, em primeiro de Janeiro de 1989.

Além do prefeito eleito, esposa D. Teca, o vereador Washington Nestor Gois do Amaral, Maria de Aranha, filho Toinho, além de outras pessoas não identificadas.


12 março, 2026

Praça Padre Leão na década de 1950


Foto: Família Gonçalves


Uma rara imagem da Praça Padre Leão, provavelmente na década de 1950, o registro foi feito do Hotel Sabá, de propriedade do sr. Amaro e Maria Gonçalves. Este hotel tinha sua fachada para a Avenida Inocêncio Lima e seus dormitórios, eram situados na parte de trás, com vista para a Praça Padre Leão.

Alguns detalhes chamam atenção, a Igreja Matriz de São José ainda não tinha o seu relógio. As canoa de Duda Ferraz, pai de Adamastor. Ele que também tinha o serviço da Rádio Difusora Duas Américas, que começava logo cedo com mensagens para namorados e propaganda das casas comerciais e de profissionais liberais da época.

O prédio da Farmácia Pereira aparece do lado direito e foi um dos primeiros edifícios de dois pavimentos do município.

Construída na administração do Prefeito Joel Inocêncio Gomes Lima, provavelmente concluída entre 1953 e 1954. Inicialmente tinha o nome de Praça 04 de Outubro, quando era ainda chão batido, e após a construção, passou a ser Praça Padre Leão. A foto é de março de 1960.





A segunda imagem, provavelmente é de 1958, de autoria do IBGE, também é de mesma época, porém mais antiga. O Centro de Custódia constituia-se de ruas paralelas, divididas em quarteirões de casas conjugadas, e alguns becos.

As moradias tinha sua frente para voltada para a praça Padre Leão, e os muros e quintais, para as ruas secundárias, formando assim, um largo retangularde terra batida, com a Igreja Matriz de São José em destaque.

Nesse largo, hierarquicamente o mais importante e o mais simbólico, funcionavam as casas comerciais, escolas, feira livre e locais de assistência médica, farmacêutica, juridica e administrativa. Nas noites de luar, o espaço transformava-se, sob a mágica das crianças, num grande picadeiro, para as cantigas de roda, jogos e correria.

Texto: Paulo Peterson, com informações de Berenice Gonçalves, José Melo e Sevy Oliveira.

Ps:

As fotos originais são preto e branco, foi usado IA para colorir, sem alterar as caracteristicas originais. Todos os Direitos Reservados aos seus autores: Familia Gonçalves e IBGE