23 outubro, 2026

Memória & História: O retrato das pressões políticas em Custódia nas páginas da imprensa em 1945



Manchete do jornal Diário da Manhã
Recife-PE
30/08/1945


Resgatar a história de Custódia exige olhar de frente para os momentos cruciais que moldaram a nossa identidade política e social. Um desses momentos marcantes está registrado na edição de 30 de Agosto do Diário da Manhã do ano de 1945.

Ao denunciar a interferência do governo estadual e as retaliações contra oposicionistas no município, a reportagem revelou as contradições vividas pela população no conturbado processo de transição democrática do país. Demissões arbitrárias, entraves burocráticos e intimidações eleitorais faziam parte do cenário cotidiano exposto pelo jornal.

Para que a população conheça em detalhes os fatos narrados naquela época, preparamos este material especial. A seguir, você confere a nossa interpretação histórica sobre o período e, logo em seguida, o texto original completo da notícia tal como foi publicado em 1945.

Análise Histórica: O que a matéria revelou sobre Custódia em 1945


Parcialidade e Aparelhamento das Instituições: A oposição (UDN), representada por João Veríssimo do Amaral, acusava o governo estadual (liderado por Etelvino Lins) e o PSD de utilizarem a máquina pública e a estrutura judiciária local para favorecer os candidatos situacionistas. O juiz de Direito é acusado de reter por 15 dias o livro de registro de nascimentos para atrasar o alistamento eleitoral dos eleitores oposicionistas, beneficiando o alistamento do PSD.

Perseguição a Funcionários Públicos: Ocorreram demissões por motivação estritamente política. A tesoureira da prefeitura, com 9 anos de serviço e em licença de saúde, foi exonerada por ser casada com um oposicionista. Além disso, o cartório/tabelionato único foi desmembrado para colocar seu funcionário em disponibilidade.

Intervenção em Cooperativas e Coação Econômica: O governo destituiu o gerente eleito da Cooperativa Agropecuária de Custódia por ser amigo do presidente local da UDN, substituindo-o por um interventor nomeado. Cabos eleitorais do PSD faziam ameaças aos agricultores locais, afirmando que quem não votasse no governo seria impedido de operar na cooperativa e de realizar transações bancárias com o Banco do Brasil.

Contradição do Discurso da Redemocratização: O texto destaca a prática da política do "manda quem pode e quem tiver o que perder vote no governo" (atribuída a Agamenon Magalhães), apontando a contradição entre as promessas oficiais de redemocratização e a conduta autoritária praticada nos municípios do interior.

Resistência Eleitoral: Apesar das pressões, a matéria aponta que a UDN local mantinha sua base organizada para apoiar a candidatura presidencial do brigadeiro Eduardo Gomes nas eleições de dezembro de 1945, prevendo um resultado desfavorável ao governo no município.).

Transcrição da Notícia Original (Diário da Manhã, 1945)

"MANDA QUEM PODE" NA ZONA SERTANEJA

TERROR FASCISTA DOMINA O MUNICIPIO DE CUSTODIA

O SR. ETELVINO ORDENA UMA SERIE DE PERSEGUIÇÕES A TODOS QUANTOS NÃO RESAM PELA SUA CARTILHA — DEMITIDA A TESOUREIRA DA PREFEITURA COM 9 ANOS DE SERVIÇO PORQUE É CASADA COM UM OPOSICIONISTA — DESMEMBRADO O CARTORIO — O JUIZ A SERVIÇO DA POLITICAGEM DE 10 DE NOVEMBRO

Esteve, ontem, na redação deste jornal, o sr. João Verissimo do Amaral, membro do diretorio local da União Democratica Nacional de Custodia, em cujo municipio é proprietario. Falando á reportagem, declarou que em Custodia a campanha eleitoral está sendo processada com evidente desigualdade de tratamento, por parte das autoridades publicas, para os membros da oposição. Os partidarios do governo têm todas as facilidades para aliciar o eleitorado, enquanto toda sorte de impecilhos e obstaculos se opõem ás atividades dos adversarios.

O mais grave, porém — salienta o sr. João Verissimo — é que essa desigualdade de tratamento emana até do juiz de Direito, a quem cabia, pela natureza da propria função que exerce, uma atitude mais isenta de animo, o que não se verifica.

"Vamos aos fatos tais quais se passam" e prossegue: "Para demonstrar a parcialidade do juiz de Custodia basta dizer que tendo-lhe sido entregue o livro de registro de nascimento para rubricar, e deses modo procedermos aos alistamento dos nossos eleitores, ficou o juiz com esse livro durante quinze dias, prejudicando e atrazando cerca de trezentas petições.

"Essa demora, como é facil de compreender, só poderia aproveitar ao P. S. D. que, com todas as facilidades que lhe são permitidas, vai prosseguindo o alistamento dos seus filiados.

"Mas ha outras coisas que convem ser ditas. Por exemplo não faz muitos dias, regressando do Recife aquela cidade, o prefeito declarou que levava ordem do interventor para demitir a tesoureira da prefeitura; isto porque a ocupante daquele cargo era casada com um oposicionista. A demissão verificou-se mesmo no dia 22 do corrente; e a tesoureira tinha cerca de nove anos de serviço, desempenhando seu posto com um zelo que ninguem lhe contesta e todos reconhecem.

Acresce, ainda — esclarece o sr. João Verissimo — que a referida funcionaria se encontrava em goso de licença para tratamento de saude, quando foi surpreendida com a noticia da sua demissão. A's pessoas mais aproximadas do prefeito, informou este que o sr. Etelvino Lins o autorizara a pôr os pontos nos ii, em seu municipio, afirmando-lhe que contasse com o apoio do governo.

Mas aí não ficou a façanha do prefeito de Custodia. Chegou ao municipio disposto mesmo a cumprir á risca as ordens do interventor, para manter a politica do "manda quem pode". Assim, o tabelionato unico daquele municipio, consoante as instruções do palacio das Princesas, foi desmembrado e o funcionario do mesmo — conforme voz geral, nos meios oficiais — ia ser posto em disponibilidade.

"Aí está — diz o procer udenista de Custodia — a que se reduz a afirmativa do interventor, quando no Teatro Santa Isabel, por ocasião da convenção do P. S. D. afirmou, "naturalmente para inglês ver" que marchavamos para uma redemocratização do país, e que era chegado o tempo da livre manifestação do pensamento, podendo o funcionario votar contra o governo.

Tudo isso é pouco. Para amedrontar os partidarios da U. D. N. os cabos eleitorais do P. S. D. fazem excursões pelas fazendas e povoados do municipio, dizendo que aqueles que não votarem no governo serão perseguidos e não conseguirão operar nas cooperativas, nem fazer transações com o Banco do Brasil.

As ameaças, em Custodia, se sucedem, e é de todos conhecido o caso da Cooperativa Agro-Pecuaria, que desapareceu como autarquia. O fato se passou do seguinte modo. No dia 17 do corrente mês, ali chegou o sr. Pitagora de Souza Dantas, assistente do Departamento de Assistencia ás Cooperativas, o qual, recebido pelo gerente — este regularmente eleito em assembléia geral ordinaria, a 15 de abril deste ano — disse-lhe que o objetivo de sua viagem era entregar a direção da cooperativa ao sr. Pereira da Nobrega (que, por sinal, já esteve no Estado de Goiaz), passando este a interventor da cooperativa.

Avisou ao gerente para vir imediatamente ao Recife, pois o sr. Etelvino Lins queria ter com ele um entendimento pessoal. Assim fez o gerente. O sr. Pitagora procedeu ao balanço da cooperativa e logo entregou a mesma ao sr. Pereira da Nobrega, enquanto, sem formalidade de especie alguma, era demitido o gerente. O motivo desta demissão é ser o gerente da tal cooperativa amigo particular do sr. Ernesto Queiroz, presidente do diretorio da U. D. N.

"Como vê — conclue o sr. João Verissimo — em Custodia é assim que se prepara o ambiente para as eleições de dezembro. A frase do sr. Agamenon Magalhães é a diretriz fundamental da politica seguida e praticada em toda a sua realidade pelos seus mandatarios. Mais do que em qualquer outra parte do Estado, aplica-se a Custodia o "manda quem pode e quem tiver o que perder vote no governo". Isso não importa contra que direito. Não repugnam aos dirigentes governistas os meios de que se utilizam. Todos servem, desde que consigam atemorizar o eleitorado para que vote com eles.

"Entretanto, a oposição em Custodia dispõe de um grande nucleo eleitoral e vai levar vitoriosamente ás urnas, dentro em breve, o nome do brigadeiro Eduardo Gomes, que redimirá o pais da situação atrás em que o lançou o Estado Novo, para garantir a verdadeira liberdade democratica.

"O governo de Pernambuco nada perderá em esperar pelo resultado das eleições de dezembro no tão espezinhado municipio de Custodia. Nada como um dia atrás do outro" — concluiu o sr. João Verissimo.




22 outubro, 2026

Resgate Histórico: O projeto de 1947 que planejou integrar Custódia ao progresso rodoviário

 



No final da década de 1940, o Sertão pernambucano vivia um momento decisivo de reorganização e busca por desenvolvimento no pós-guerra. Em uma edição do jornal Diario de Pernambuco de 22 de outubro de 1947, os deputados estaduais Gomes de Sá, Justino Alves e Moury Fernandes apresentaram à Assembléia Legislative um projeto de lei que redefiniria o Plano Estadual de Rodovias Intermunicipais e Interestaduais para o exercício financeiro de 1948 e anos seguintes.

Para Custódia, o projeto trouxe duas proposições de extrema relevância estratégica:

  1. A rota até o Airi (Floresta): A inclusão do trecho de 80 km que saía de Sítio dos Nunes (Flores), cruzando o território custodiense — integrando vilas e fazendas históricas como Betânia, Cunhães e Soares (município de Custódia) — em direção ao povoado do Airi e à estrada de Ibimirim a Floresta.

  2. A ligação com Macacos (Afogados da Ingazeira): O trecho de 30 km que ligava diretamente a cidade de Custódia à vila de Macacos, passando por Quitimbu, permitindo o acesso à estrada de Sertânia e Afogados, com rota direta para o estado da Paraíba.

O que isso representou para Custódia na época?

Naquele período, abrir rotas e garantir estradas de rodagem significava romper o isolamento geográfico e econômico do interior do estado. Para o município de Custódia, a aprovação dessa legislação representou:

  • Desenvolvimento e Escoamento Agrícola: As fazendas e comunidades rurais (como Cunhães e Soares) passavam a figurar oficialmente no mapa de infraestrutura do estado, facilitando o transporte da produção agropecuária local para centros urbanos regionais.

  • Integração Regional e Interestadual: A conexão direta com o Sertão do Pajeú (Afogados da Ingazeira), o Moxotó (Sertânia) e o estado vizinho da Paraíba colocava Custódia no caminho dos grandes eixos de circulação de mercadorias e passageiros.

  • Reconhecimento Político e Territorial: O registro formal de vilas, povoados e limites municipais em documentos estaduais reafirmava a importância de Custódia na malha territorial de Pernambuco, pavimentando o caminho para o crescimento urbano e comunitário que veríamos nas décadas seguintes.

Confira abaixo a transcrição na íntegra do recorte do jornal de 1947 e acompanhe este capítulo da nossa história!



Diário de Pernambuco
Edição 30 de Setembro de 1947


Novos projetos de lei apresentados á Assembléia Legislativa do Estado – Alcançarão os exercicios financeiros de 1948 e subsequentes

Pelos deputados Gomes de Sá, Justino Alves e Moury Fernandes, foi apresentada, ontem, na Assembléia Legislativa, um projeto de lei, incluindo no plano estadual das rodovias intermunicipais e interestaduais, a serem construidas nos exercicios financeiros de 1948 e subsequentes, as seguintes estradas:

I — da vila de Sitio dos Nunes, municipio de Flores, á vila do Airi (antiga Rochedo) do municipio de Floresta, atravessando as fazendas São Gonçalo, Malhada do Boqueirão, povoado São Caetano, vila de Betania e ainda as fazendas Cunhães e Soares (municipio de Custodia) e Boqueirão da Serra Preta (municipio de Floresta) num percurso aproximado de 80 quilometros, ligando a estrada tronco central do Estado á estrada de Ibimirim a Floresta;

II — da cidade de Maniçobal (Pernambuco) á vila de Jati (antiga Macapá) do Estado do Ceará, ligando á estrada transnordestina, num percurso de 40 quilometros, sendo: 18 no territorio pernambucano e 22 no territorio cearense;

III — da cidade de Ouricuri (Pernambuco) á cidade de Paulistana (Piaui), passando pela vila de Manacá (antiga Barra de São Pedro), num percurso aproximado de 100 quilometros, sendo: 40 no territorio pernambucano e 60 no territorio piauiense, ligando a estrada tronco central do Estado ao ponto terminal da estrada de ferro Leste-Bahiana (antiga Petrolina-Teresinha); e,

IV — da cidade de Custodia á vila de Macacos do municipio de Afogados da Ingazeira, passando pelo povoado 'Quitimbu', num percurso de 30 quilometros, ligando a estrada tronco central do Estado á estrada de Sertania e Afogados da Ingazeira, que tem penetração no Estado da Paraiba.

Pelo mesmo projeto, fica o governo autorizado a entrar em entendimento com os do Ceará e do Piaui, para que em cooperação sejam construidas, dentro de um plano racional, as rodovias interestaduais de que tratam os incisos II e III.


21 outubro, 2026

A política tem ideologia? - por Francisco Alves (Psicanalista Clínico)




A POLÍTICA TEM IDEOLOGIA?

Por Francisco Alves – Psicanalista Clínico


Estamos nos aproximando do segundo turno das eleições e, ao me recordar de alguns capítulos da novela Mar do Sertão, passei a refletir sobre os destinos do nosso país. Compartilho aqui minhas reflexões, que, certamente, não agradarão a todos.

Candoca, personagem interpretada pela atriz Isadora Cruz na novela Mar do Sertão, exibida pela Rede Globo entre 2022 e 2023 (estreou em 22 de agosto de 2022 e terminou em 17 de março de 2023), “Candoca”, era médica na fictícia cidade de Canta Pedra. Em determinado momento da trama, ela escreve um texto sobre os poderosos daquela região. A reflexão apresentada na novela parece retratar, em muitos aspectos, a realidade política que ainda observamos em nosso país, nos estados e municípios.

Quando falamos de corrupção, precisamos compreender que ela afeta diretamente o bem-estar de todos nós, cidadãos brasileiros. Quando aqueles que detêm o poder decidem cortar investimentos essenciais em educação, saúde, segurança pública e habitação, comprometem direitos fundamentais da população.

Mais grave ainda é quando recursos públicos, que deveriam ser destinados ao atendimento das necessidades coletivas, são desviados para interesses particulares. Os agentes públicos que praticam tais atos têm o dever de conhecer os princípios constitucionais que orientam a administração pública. A corrupção, além de representar uma violação da confiança depositada pela sociedade em seus representantes, contribui para aprofundar as desigualdades sociais e econômicas no país, nos estados e nos municípios.

Se olharmos para nossa cidade, entre tantas outras, perceberemos que também enfrentamos questões semelhantes às retratadas no folhetim televisivo. A busca pela permanência no poder, a tentativa de eleger aliados para garantir a continuidade de determinados grupos políticos, o receio de denúncias e o enriquecimento incompatível com os rendimentos declarados são temas que exigem atenção, investigação responsável e transparência.

Diante disso, pergunto: em que momento determinados os políticos perderam a moral, a consciência humana e a dignidade que tanto afirmaram possuir durante as campanhas eleitorais, quando percorriam as casas dos cidadãos em busca de votos?

Trago para esta reflexão uma frase célebre atribuída a Rui Barbosa, cuja força permanece atual: “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto.”

Quantas vezes já ouvimos essas palavras? E, diante delas, pergunto: o que mudou?

A sensação de que pouca coisa mudou nasce da repetição de escândalos, da lentidão de determinados processos e da percepção de que nem todos são responsabilizados da mesma maneira. Quando a impunidade prevalece, a confiança nas instituições enfraquece e a sociedade corre o risco de se acostumar com aquilo que jamais deveria considerar normal e voltar a um tempo ora sombrio.

No campo das relações de poder, há agentes que não toleram aqueles que se recusam a ser manipulados ou que denunciam contratos suspeitos, licitações direcionadas e possíveis superfaturamentos. Por isso, mecanismos de fiscalização independentes, órgãos de controle atuantes e uma imprensa livre são indispensáveis à proteção do interesse público. Acusações, contudo, precisam ser apuradas com responsabilidade e comprovadas pelos meios legais.

Recordo-me também de uma frase frequentemente atribuída a Jô Soares: “A corrupção não é uma invenção brasileira, mas a impunidade é uma coisa muito nossa.”

A frase provoca uma reflexão incômoda: até que ponto a sociedade permite que práticas condenáveis continuem se repetindo?

Acabamos, muitas vezes, assistindo à formação de grupos políticos que se reorganizam a cada eleição para preservar seus próprios interesses, como se a máquina pública pertencesse a quem ocupa temporariamente o poder, e não à população que a sustenta.

Nesse contexto, vale beber na fonte e recordar outra frase atribuída a Millôr Fernandes:“Acabar com a corrupção é o objetivo supremo de quem ainda não chegou ao poder.”

A ironia é contundente. Muitos candidatos apresentam o combate à corrupção como uma de suas principais bandeiras, mas a sociedade precisa avaliar se suas ações, depois de eleitos, correspondem às promessas feitas durante a campanha.

A corrupção tem ideologia?

A verdade é que a corrupção política não deveria ser tratada como um problema exclusivo de uma ideologia, de um partido ou de um grupo específico. Ela pode se manifestar em diferentes campos políticos sempre que interesses particulares se sobrepõem ao interesse coletivo.

Por isso, a frase que inspira este artigo merece atenção:

“A corrupção política tem ideologia: o dinheiro público!” — frase atribuída a Saint-Clair Mello.

O dinheiro público pertence à sociedade. Sua destinação deve obedecer à lei, à transparência, à responsabilidade administrativa e às necessidades da população. Quem utiliza o poder para se apropriar de recursos coletivos ou favorecer interesses particulares deve ser investigado e, quando comprovada a irregularidade, responsabilizado na forma da lei.

Entretanto, não é exatamente isso que desejamos ver acontecer? Queremos que cada recurso destinado à educação, à saúde, à segurança e à assistência social cumpra sua finalidade. Queremos que o dinheiro público chegue às crianças, às famílias, aos trabalhadores, aos idosos e a todos aqueles que dependem de políticas públicas eficientes.

É nesse ponto que o personagem Sabá Bodó, interpretado por Welder Rodrigues em Mar do Sertão, se torna uma referência interessante para esta reflexão. A trama apresenta, por meio da sátira, os comportamentos de um gestor político que trata o poder e os recursos públicos com irresponsabilidade.

A ficção, nesse sentido, funciona como um espelho: permite que reconheçamos comportamentos que merecem ser questionados na vida real. Não se trata de afirmar que toda administração pública seja corrupta, mas de compreender que o exercício do poder exige fiscalização permanente, responsabilidade e compromisso com o cidadão.

Pior ainda é quando irregularidades são descobertas, os responsáveis são processados e, depois de cumprirem as determinações judiciais, alguns retornam à vida pública sem que a sociedade tenha percebido uma mudança efetiva de comportamento. A responsabilização precisa produzir consequências, e a prevenção deve impedir que os mesmos mecanismos voltem a funcionar.

Será que precisamos conviver indefinidamente com essa realidade? Será esse o Brasil que desejamos para nossos filhos e netos? Será esse o país que queremos deixar às próximas gerações?

Claro que não!

Há uma frase popular, frequentemente atribuída a “Lord Chesterfield”, que compara políticos a fraldas, defendendo que ambos deveriam ser trocados periodicamente. A comparação é provocativa, mas a verdadeira mudança não depende apenas da substituição de pessoas: exige instituições fortes, participação popular e compromisso ético.

Também é necessário reconhecer que a política não pode ser reduzida à busca por vantagens pessoais. Embora interesses façam parte da vida política, o exercício legítimo do mandato exige responsabilidade, respeito à lei e compromisso com o bem comum. E, naturalmente, existem políticos honestos e comprometidos com a sociedade, que não devem ser confundidos com aqueles que traem a confiança pública.

Existe, ainda, uma questão mais profunda: a deformação da consciência política coletiva. Quando parte da população aceita favores em troca de votos, tolera irregularidades por conveniência ou se deixa seduzir por promessas impossíveis, cria-se um ambiente favorável à perpetuação de práticas que prejudicam a coletividade.

Essa reflexão, inspirada em ideias atribuídas a “Renée Venâncio”, ele nos convida a perguntar: será que estamos escolhendo nossos representantes com a consciência necessária ou apenas reproduzindo velhos hábitos políticos? 

De vez em quando, encontramos pessoas dispostas a mudar o mundo. Quem não deseja uma sociedade melhor? Muitos defendem reformas políticas, mudanças institucionais e até alterações profundas na organização do Estado. As reformas podem ser necessárias, mas nenhuma delas será suficiente se não vier acompanhada de educação cidadã, consciência crítica e participação popular.

A Constituição Federal não é um documento sem valor. Ela representa um marco fundamental da organização democrática brasileira e estabelece direitos, deveres e limites para o exercício do poder. Qualquer proposta de mudança deve ser debatida com responsabilidade, respeitando os princípios democráticos e as garantias fundamentais.

A transformação começa quando o cidadão compreende que a democracia não se resume ao ato de votar. Ela também exige acompanhar os mandatos, fiscalizar as contas públicas, cobrar resultados, denunciar irregularidades e participar das decisões que afetam a comunidade.

Portanto, pensemos naqueles que lutaram e sacrificaram suas vidas pela liberdade e pelademocracia. Honrar essa história significa defender as instituições, respeitar as leis e não permitir que o poder público seja transformado em instrumento de enriquecimento pessoal.

E a nossa cidade? E o nosso estado? E o nosso país?

Quem são as pessoas que se apresentam como nossos representantes? Cumpriram os compromissos assumidos durante a campanha? Suas decisões correspondem às necessidades da população? Há transparência na utilização dos recursos públicos? As despesas, os contratos e as licitações podem ser acompanhados pelos cidadãos?

Também é legítimo questionar a evolução patrimonial dos agentes públicos, desde que isso seja feito com responsabilidade, respeito à privacidade e observância dos mecanismos legais de fiscalização. A constituição de holdings ou a participação em empresas no exterior, por exemplo, não constitui, por si só, prova de irregularidade. 

O que importa é verificar a legalidade das operações, a origem dos recursos, a compatibilidade patrimonial e o cumprimento das obrigações de declaração e transparência aplicáveis.

Creio que a mudança política começa quando nós, os eleitores, passamos a utilizar conscientemente o voto, uma das mais importantes ferramentas de participação democrática. Não basta escolher alguém porque pertence ao nosso partido, compartilhanossas preferências ou promete resolver todos os problemas. Precisamos analisar sua trajetória, suas propostas, sua conduta e seu compromisso com o interesse público.

Depois da eleição, nossa responsabilidade não termina. Devemos acompanhar os atos dos eleitos, exigir transparência e cobrar o cumprimento dos compromissos assumidos. Uma nova política não nasce apenas da substituição de nomes, mas da construção de uma cultura de honestidade, responsabilidade e respeito à coisa pública.

Finalizo com uma reflexão frequentemente atribuída a Maquiavel:

“Um povo que aceita passivamente a corrupção não merece a liberdade, merece a escravidão.”

Independentemente da autoria exata dessa frase, sua mensagem nos leva a pensar sobre o preço da omissão. A liberdade democrática exige cidadãos conscientes, instituições responsáveis e representantes submetidos à lei.

E deixo, por fim, uma última reflexão:

Um país cujas instituições públicas e privadas são corroídas pela corrupção compromete seu próprio futuro. Quando as leis deixam de ser aplicadas com justiça, quando o interesse particular prevalece sobre o bem comum e quando a sociedadeperde a confiança nas instituições, a democracia se enfraquece.

Não podemos aceitar que o passado de erros determine o futuro das próximas gerações.

A corrupção não deve ter partido, cor ou ideologia. Deve ter consequência legal sempre que comprovada.

E a honestidade não pode ser apenas uma promessa de campanha: precisa ser um princípio permanente do exercício do poder.

A mudança começa no voto, continua na fiscalização e se consolida na consciência de cada cidadão.

(*) Os artigos e opiniões assinados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não refletem, necessariamente, a opinião deste blog."