
25) Luiz Epaminondas Filho (01/01/1993 à 22/05/1995) faleceu no cargo, assumiu o vice Djalma Bezerra



Pedro Pereira Sobrinho e Sílvio Carneiro de Farias Souza
Recife-PE
Foto provavelmente do início da década de 1960, na capital do Estado. Digo “resgate” porque, infelizmente, em nossa cidade não existe a cultura do reconhecimento dos seus filhos nem das pessoas que nasceram fora, mas que deram grande contribuição econômica, cultural e intelectual para a terra. Coincidentemente, nasceram no mesmo ano, 1940, e, na mocidade, foram estudar no Recife.
Dr. Pedro, como é mais conhecido, formou-se em Odontologia em 1963, vindo morar em sua cidade natal. Dez anos depois, concluiu o curso de Direito na Faculdade de Caruaru e passou a advogar em Custódia e cidades vizinhas. Muito eloquente e grande orador, exerceu a vereança por uma legislatura na década de 1970, mas o seu grande destaque foi como educador. Professor do Ginásio Padre Leão, fundou a Escola Técnica Joaquim Pereira em homenagem ao seu genitor.
Sílvio Carneiro foi secretário municipal nos governos intervencionistas do Tenente Miguel José (1964-1966) e de João Miro da Silva (1966-1968), e prefeito no mandato de 1969 a 1972. Destacou-se na área da educação, principalmente ao criar vários grupos escolares na zona rural — ação até então esquecida nas gestões anteriores. Sílvio foi professor e diretor do Ginásio Padre Leão na década de 1960 e em parte dos anos 1970. Faleceu precocemente em 1989, por problemas de saúde, aos 49 anos.
Agradeço, in memoriam a Sílvio Carneiro e Dr. Pedro Pereira pelo legado que deixaram para a minha querida Custódia.
Em julho de 2012, o nosso blog registrava um momento de grande orgulho para a cultura e o direito custodiense: o interesse e a disputa de editoras pelo trabalho do advogado e escritor Jânio Queiroz.
Naquela oportunidade, destacamos a projeção que suas obras e artigos vinham alcançando no meio jurídico e acadêmico, levando o nome de Custódia para além das fronteiras de Pernambuco.
Passados 14 anos, olhar para trás não é apenas um exercício de nostalgia, mas de reconhecimento. Hoje, consagrado como um advogado de renome e respeitado por sua atuante trajetória, Dr. Jânio Queiroz continua sendo referência de dedicação, rigor técnico e amor às suas raízes.
“Relembrar fatos como este reforça o propósito do Blog Custódia Terra Querida: valorizar a nossa gente e registrar para a história os passos de quem orgulha o nosso município.”
Quarta-feira, 8 de março de 2006 às 15h41m da Folha Online
Um dos destaques na 19ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, que acontece a partir de amanhã (9) a 19 de março no Pavilhão de Exposições do Anhembi, são as editoras segmentadas que produzem para públicos específicos.
Além do mercado religioso - um dos gêneros mais vendidos no Brasil - ou de livros didáticos, as mulheres também têm espaço neste setor editorial.
E as poucas pesquisas com as leitoras comprovam que há um caminho próspero para quem se arrisca. De acordo com a pesquisa "Retrato da Leitura no Brasil", de 2001, seis de cada dez leitores são mulheres. E mais de 45% delas são interessadas em livros religiosos.
A Editora Vida lança na feira o selo Vida Mulher, primeiro exclusivamente feminino do segmento cristão. Os livros abordam temas como comportamento, trabalho, espiritualidade e qualidade de vida.
Entre os lançamentos do novo selo estão "De volta para casa", de Vera Lúcia Vilaça, um relato com bom humor de uma executiva que, após 30 anos de trabalho, resolve se aposentar e cuidar da família.
Outra editora que marcará presença é a Harlequin Books. De origem canadense, a empresa estréia no país com uma série de lançamentos destinado ao público feminino.
Presente em mais de 90 países, a Harlequin lança na Bienal nove títulos. E ainda o selo Red Dress Ink, com comédias românticas para mulheres bem-sucedidas com mais de 30 anos.
"Procurava um marido e encontrei um Cachorro", de Karen Templeton, "Perigo", de Nora Roberts, "A Garota no espelho", de Mary Alice Monroe (sucesso de vendas nos EUA) são alguns deles.
Outra obra que deverá interessar as leitoras é "Putz! Virei a minha mãe!" (editora Nova Fronteira), de Sandra Reishus, que usa uma linguagem sarcástica para mostrar o óbvio: o quanto as mulheres de qualquer idade são influenciadas por suas mães.
Seguindo a linha comportamento e auto-ajuda, outro destaque é "O que uma mulher não deve dizer a um homem nem sob tortura!" (Ed. Novo Século), de Jânio Queiroz. O livro está recheado de frases "proibidas".
Até meados dos anos 1970, a rotina de abastecimento de carne em Custódia refletia uma realidade comum a grande parte do interior do Brasil: o abate e a comercialização de proteína animal ocorriam sob condições precárias de higiene e sem regulamentação sanitária rígida.
Inicialmente, o abate bovino era realizado diretamente no solo, forrado de forma improvisada com folhagens de ariú ou folhas de bananeira. Com o tempo, a construção de um pequeno pátio de cimento evitou o contato direto das carcaças com a terra, mas não resolveu os graves problemas estruturais. O sangue da matança escorria e se infiltrava no chão, gerando um odor forte e permanente no local.
Após o esquartejamento, a carne era transportada em carros de boi até o antigo Açougue Público. Lá, o cenário não era diferente: piso irregular, bancadas de cimento deterioradas e carcaças suspensas ou dispostas sobre as tarimbas. A esse ambiente somava-se a chegada de suínos e caprinos vindos da zona rural no lombo de animais, abatidos na madrugada das segundas-feiras. Apesar das condições, essa era a principal fonte de proteína animal acessível à população da época.

Esse panorama começou a mudar radicalmente com a gestão do prefeito Luizito, que viabilizou a construção do Abatedouro Público Municipal dentro das normas sanitárias exigidas na época. Em seguida, a criação do Mercado Público Municipal organizou a comercialização, garantindo instalações adequadas e higiênicas para feirantes e consumidores.
Por quase cinco décadas, essas duas estruturas cumpriram um papel fundamental na saúde pública e na economia local. Com o crescimento da cidade e o avanço das exigências sanitárias, deram lugar a instalações modernas, consolidando uma transformação histórica na forma como o município produz, fiscaliza e consome seus alimentos.
Por José Soares de Melo e co-participação Paulo Peterson.
Fotos: Acervo Luiz Epaminondas Filho e Adeilda Mariano.
Quando o escritor peruano Mario Vargas Llosa (Arequipa, 1936) mergulhou na história do Brasil para escrever A Guerra do Fim do Mundo (1981), ele não apenas criou um dos maiores romances da literatura em língua espanhola — ele imortalizou as narrativas, os caminhos e os povos do interior do Nordeste brasileiro.
Dedicado expressamente a Euclides da Cunha, autor do clássico Os Sertões, o romance recria com dramaticidade e rigor a saga de Canudos e a figura icônica de Antônio Conselheiro. No entanto, para além dos grandes eventos da guerra, a obra carrega a riqueza das rotas sertanejas e traz à tona territórios e populações que compõem a memória viva dessa epopeia.
"A literatura tem o poder extraordinário de resgatar geografias esquecidas e dar voz aos caminhos do sertão."
Entre as páginas marcantes do romance, Vargas Llosa registra passagens de peregrinos e sertanejos vindos de diversas regiões do Pernambuco e do Nordeste rumo a Canudos. Nesses relatos de devoção e resistência, destaca-se a menção ao “Povo de Custódia”, revelando como os caminhos do Sertão do Moxotó se entrecruzam com a trama que conquistou leitores ao redor do mundo.
Esse resgate histórico e bibliográfico reafirma a importância das raízes locais em obras de dimensão universal:
Diálogo com os Clássicos: A transposição de Os Sertões de Euclides da Cunha para a prosa épica e polifônica de Vargas Llosa.
Geografia Afetiva: O registro da mobilidade dos sertanejos por vilas, feiras e povoados do interior de Pernambuco e da Bahia.
Memória Preservada: A presença de Custódia registrada na literatura mundial e acessível em acervos digitais como o Google Books.
Para obter o livro impresso: CLIQUE AQUI
Material histórico e bibliográfico enviado por José Soares de Melo.
A história dos municípios do Moxotó e do Pajeú é profundamente entrelaçada pelas memórias, documentos e atuações públicas de suas famílias pioneiras. Entre os personagens que deixaram marcas definitivas na organização política, jurídica e social da região destaca-se Joaquim Pereira de Sá, o popular Quinca Sá — figura cuja presença em terras custodienses remonta ao início do século XX, como atesta um recibo de venda de terras datado de 1907.
Origem: Natural de Serra Talhada (à época denominada Vila Bela), integrou o movimento migratório familiar rumo ao Sertão do Moxotó ainda no século XIX.
Passagem por Alagoa de Baixo (atual Sertânia): Seguiu os passos de seu tio, Esperidião Mariano de Sá (pai de Maria Josefina Gomes de Sá / Dona Maria de Seu Ernesto Queiroz), estabelecendo-se na Fazenda Piutá.
Cargos Políticos e Jurídicos: Exercendo liderança na região, ocupou posições de grande relevância pública:
Conselheiro e Presidente do antigo Conselho Municipal de Alagoa de Baixo (órgão equivalente à Câmara de Vereadores);
Suplente de Juiz e Adjunto de Promotor;
Escrivão da Coletoria Estadual após sua fixação definitiva em Custódia.
Por volta de 1915, a mãe de Joaquim, Epifânia Auzéria Mariano de Sá, transferiu residência de Serra Talhada para o povoado de Custódia, trazendo consigo os netos:
Cassiano Pereira de Sá (pai de Noême Sá);
Maria Dolores Pereira de Sá (mãe de Zé Burgos);
Anna Pereira de Sá (Dona Nita);
José Cassiano Pereira de Sá.
Joaquim Pereira de Sá casou-se com Maria Augusta do Amaral e Sá, carinhosamente conhecida como Dona Manoca.
Raízes do Povoamento: Dona Manoca era filha do Capitão Francisco do Amaral (Capitão Chico Amaral da Várzea Grande) e neta do português Caetano do Amaral, um dos primeiros habitantes a se estabelecerem nas proximidades do núcleo urbano nascente.
Pioneirismo na Educação: Tornou-se uma das primeiras professoras da história de Custódia.
Pioneirismo no Comércio: Fundou e administrou o primeiro Café da Hora do povoado, localizado na tradicional Rua da Bomba, vizinho ao histórico Hotel de Zabé de Cândida.
O casal teve um filho biológico e adotou Artur, conhecido popularmente como Tuta.
Figura emblemática na vida cultural e boêmia da cidade, Tuta destacou-se como um grande seresteiro do município. Sua trajetória foi tragicamente interrompida no ano de 1961, fato que causou comoção e permaneceu registrado na memória social da cidade.
O velho patriarcado sertanejo era bastante rígido em relação à manutenção da honra de seu nome, principalmente no seio da família, onde as filhas eram “protegidas” pelos pais enquanto não se casassem. Só que, para isso ocorrer, havia todo um longo e penoso processo. A mãe, geralmente mais tolerante, acompanhava a filha a festas, feira, igreja etc., sempre de olhos e ouvidos atentos a eventuais “conquistadores”. Se aparecesse um jovem se “enxirindo” para a sua filha, a reação poderia ter duas vertentes: seria de defesa por parte da mãe, se o pretendente fosse um “Zé Ninguém”, ou seria alcoviteira, se o dito jovem representasse um bom partido para a filha.
Ocorre que, não raro, aquele pretendente escorraçado pela vigilante mãe não desistia e acabava por conquistar o coração da jovem sertaneja. Começava, então, o namoro “escondido”, sempre auxiliado por amigas da jovem, que serviam de “correio” para recados e bilhetes entre os jovens apaixonados. E tudo corria bem até que os pais descobrissem o namoro proibido. A vigilância era redobrada, os cuidados, apurados, e a jovem coitada vivia “presa” no seu lar.
Mas as amigas “alcoviteiras” se desdobravam em recados, e o casal de jovens resolvia fugir para forçar o casamento. Isso porque o código de honra do sertão daquela época era implacável: a honra da filha fugidia tinha que ser reparada com o casamento ou com sangue.
Aí é que ressurgia uma velha prática iniciada com os homens das cavernas, que consumavam seus “namoros” arrastando com uma mão a sua “amada” pelos cabelos e com um tacape na outra mão para a sua defesa.
Evoluindo com o tempo, a prática se transformou no famoso “roubo de moça”, com costumes mais humanos e modernos. Hoje, a prática se transformou no simples comunicado dos jovens aos pais de que decidiram viver juntos.
Assim, os jovens marcavam dia e horário da fuga, geralmente de madrugada. O jovem, travestido de raptor, chegava a cavalo e fazia um sinal de assobio; em poucos instantes, o casal já estava cavalgando contra o vento frio da madrugada, em busca de um abrigo para servir de ninho de amor.
A tradição mandava que o raptor levasse a amada para a residência de seus padrinhos, uma forma de assegurar a honra — ou o que restou dela — da jovem fugidia. A partir daí, começavam as tratativas para, primeiro, tranquilizar os pais que ficavam desesperados de manhã ao notar a ausência da filha. Depois, vinham as providências para reparar o “erro” do jovem casal: providenciar imediatamente o casamento, única forma de evitar o confronto que terminaria em sangue para “lavar a honra” daquela família ultrajada com o rapto.
Essa etapa da aventura era composta de rituais seguidos ao pé da letra. A moça deveria se ajoelhar aos pés do seu padrinho e pedir a sua bênção; o padrinho deveria levar a afilhada até seus pais, explicar a situação e, juntos, iniciarem as providências para o casamento. Até a realização do matrimônio, a moça ficaria sob a guarda de seus padrinhos ou pais, sem contato íntimo com o futuro marido.
No final das contas, tudo acabava bem. Casados, os jovens passavam a — tardiamente — planejar e pôr em prática os seus sonhos. A casa, o trabalho, a normalidade, os filhos, enfim, a reprodução da vida que segue.
O roubo de moça era notícia para ser comentada pela população por semanas. Naqueles tempos sem comunicações, notícias eram coisas raras.
Recordo-me de que assisti a um “roubo de moça” no início da década de sessenta. Morávamos na Travessa Heleno Aleixo e, em certa tarde, ouvi um verdadeiro alarido. Ao procurar ver melhor, observei um cavaleiro em desenfreada carreira no cavalo, com uma moça na garupa, agarrada a ele. Depois surgiu o comentário de que se tratava de um roubo de moça.

Esta reportagem especial do Diario de Pernambuco (edição de sábado dia 12 de Dezembro de 1936) traça um panorama detalhado e cru da realidade vivenciada no interior pernambucano durante o auge do banditismo no sertão. Através do relato direto de moradores, autoridades locais e testemunhas oculares, o texto revela o clima de sobressalto constante em que viviam as populações sertanejas — obrigadas a andar armadas para garantir a própria segurança diante do temor gerado pelo bando de Virgulino Ferreira da Silva, o "Lampião", e de outros grupos menores que se proliferavam pela região.
A matéria destaca as profundas falhas táticas das forças policiais no combate aos cangaceiros. O uso de cornetas de comando e veículos barulhentos antecipava a presença das volantes, permitindo que os criminosos — profundos conhecedores da vegetação e da geografia da caatinga — escapassem facilmente. Além da ineficácia militar, a reportagem expõe os abusos cometidos pelas próprias tropas oficiais contra a população civil.
Enriquecido por uma entrevista com o prefeito de Custódia, Major Inocêncio Gomes de Lima (15/08/1936 à 15/05/1939), o texto resgata as origens de Lampião — de almocreve a chefe do cangaço —, expõe aspectos curiosos de sua religiosidade e rotina mística e apresenta descrições físicas minuciosas do sertanejo que desafiava a autoridade do Estado e marcava a história do Nordeste brasileiro.
Segue abaixo o texto na íntegra publicado no Diário de Pernambuco:
Quadros
da zona sertaneja sujeita ás incursões do banditismo
Em
cada pedra, perdida no descampado, a lembrança de Lampião — Porque a técnica
adoptada pela polícia não dá resultado.
Conversa com o prefeito de
Custódia -- Devoto do padre Cícero -- Relembrando a entrada de Virgulino para o
cangaço.
As populações do interior dos
municípios sertanejos, alarmadas pelo banditismo, procuram munir-se de armas,
já que as volantes quase só se movimentam entre as cidades e os povoados.
E' já sabido o caso do roubo
dos 22 cavalos em "Cancela", município de Custodia, a menos de uma
légua da rua.
Os assaltos a fazenda Caroá e
a várias outras de Mulungu, a passagem dos cangaceiros pelo serrote do Tamanduá,
sem nenhum impedimento, são um atestado da falta de segurança em que se acha o
sertão.
Registramos, agora, impressões
colhidas ultimamente pelo nosso repórter em visita a zona atingida pelo
cangaceirismo.
A
PAYSAGEM SERTANEJA
O descampado sertanejo permite
muito bem se avistar através os alastrados, os cardeiros, os marmeleiros e as
catingueiras secas até o gado pastar a distância nos serrotes quase pelados de
vegetação.
Os lajeiros muito frequentes
naquela zona assombram os transeuntes na passagem, quando se fala em "Lampião",
na terra, sugerindo ideias de emboscadas pelos facínoras. As veredas feitas
pelo gado em direção dos bebedouros penetram profundamente nas caatingas e são
o caminho certo da fonte.
É notório no sertão que a
polícia age com técnica militar para combater o banditismo, o que aumenta a
impossibilidade de um encontro com o grupo.
O repórter do DIARIO DE PERNAMBUCO ouviu em Tigre, povoado de Alagoa de Baixo, fazendeiros dizerem que as forças no encalço do "major" Virgulino ao chegarem ao serrote junto dessa localidade, tocaram cornetas que foram ouvidas no lugar Boa Vista, a quase meia légua de distância.
Também em Custodia, do lado de
Alagoa de Baixo aconteceu o mesmo. O vaqueiro Thomaz Anjo contou ao repórter
que durante a caminhada que fez com o grupo de cangaceiros, de vez em quando o
chefe mandava seus comandados pararem e escutava demoradamente qualquer ruído,
por mais leve que fosse, mesmo de vento forte nas folhas secas.
Desse modo, sendo utilizada a
corneta para as vozes do comando e o caminhão para o transporte, os bandidos,
sempre de alerta, podem prevenir-se.
Fomos informados na Brigada
Militar que o caminhão é de necessidade para o rápido transporte de forças, não
obstante produzir ruído capaz de ser ouvido ao longe pelos bandidos.
As "caatingas"
impossibilitam o soldado de conduzir a metralhadora, o fuzil metralhador e
equipagem para a luta.
As estações ambulantes de radiotelegrafia,
também não podem ter condução, pelo mato, desde que nem o burro me suporta o
seu peso em longas caminhadas, debaixo de um sol causticante por um terreno sem
pasto suficiente para a alimentação.
Neste caso, a distribuição das
volantes nas proximidades das fazendas evitaria esses inconvenientes.
COM
O PREFEITO DE CUSTODIA
Quando se achava em Custodia,
o repórter do DIARIO DE PERNAMBUCO esteve na residência do prefeito local,
major Inocêncio Gomes de Lima, com quem palestrou acerca do banditismo.
Na ocasião passou pela estrada
o fazendeiro Henrique Lucio, residente em Sabá, o qual se dirigia para sua
casa, depois de ter feito a feira na cidade.
Ia um seu conhecido na frente,
montado e armado de um rifle. Atrás, um trabalhador puxando um
"jegue" (jerico) carregado. Depois vinha um empregado do fazendeiro
com um rifle na mão e outro a tiracolo. Em último lugar o sr. Henrique Lucio
montado e também armado.
A objetiva do DIARIO DE PERNAMBUCO colheu esse frisante quadro da situação sertaneja.
A
VIDA DE LAMPIÃO
O major Inocêncio Gomes de
Lima disse-nos haver conhecido Lampião desde menino.
A seguir, passou a contar histórias
do bandido.
— "O nome de Lampião é
Virgulino Ferreira de Souza. Seu pai chamava-se José Ferreira, criador e proprietário
em "Poço do Negro", no município de Floresta.
DE
ALMOCREVE A CANGACEIRO
Na mocidade Virgulino era
almocreve e muitas vezes carregava caroá de Betânia para Rio Branco. Nesse
tempo conheci-o muito.
Entretanto, com o assassino do
pai, Virgulino resolveu vingar-se e essa vingança jogou-o no cangaceirismo.
Seus irmãos, Livino, Antônio
Ferreira e Ezequiel acompanharam-no na nova fase de vida."
O
CANGACEIRO É ELEITOR EM FLORESTA
Como o repórter mostrasse
interesse pelos detalhes da vida do conhecido cangaceiro, o major Inocêncio,
esboçando um sorriso, disse:
— "Ele e os irmãos são
eleitores em Floresta. Agora é que o título deve estar sem valor por causa da
reforma."
DEVOTO DO PADRE CICERO. JEJUA
TODAS AS QUARTAS-FEIRAS
Prosseguindo, o major Inocêncio
contou:
— "Quando Lampião esteve
na minha casa, por ocasião de uma "visita" a Betânia, agindo como cangaceiro,
me contou que jejua todas as quartas-feiras, se reza muito para o padre Cicero.
Ele me disse que em virtude de não haver peixe no sertão para guardar preceito
na quarta-feira, não come nada. Só bebe agua.
Na ocasião do almoço, em frente dos seus comparsas, Virgulino, segundo disse, bota um punhado de farinha na boca afim de que ninguém saiba que ele jejua. Entretanto, a farinha é jogada fora ás escondidas.
O seu chapéu de couro tipo de
vaqueiro é levantado na frente, ostentando um retrato do padre do Juazeiro.
No seu pescoço, traz orações
fortes, escapulários, rosários e medalhas de santos.
Nas abas do chapéu conduz
medalhas de ouro e prata.
É um místico, extremamente
confiante nas suas orações fortes.
Acredita que assim se possa
livrar de qualquer perigo."
AUMENTA A FORMAÇÃO DE PEQUENOS GRUPOS
Já noticiámos que em Sitio,
perto do povoado do Rio da Barra, pequenos grupos, constituídos apenas de 2 e 3
homens, davam assalto ás casas de residência.
Na estrada que passa pelo
Sítio do Nunes, nas proximidades de Alagoa de Baixo, o proprietário do auto
7849, sr. Floriano Tibúrcio dos Santos, foi assaltado por um desses grupos, sob
a chefia do cangaceiro Gaudêncio.
Tentaram assassinar um
passageiro do auto, mas, a pedido do sr. Floriano, não o fizeram. Roubaram o
dinheiro que o passageiro conduzia e mandaram-no prosseguir viagem.
Ouve-se constantemente falar
no sertão de que o profundo conhecedor da caatinga pode livrar-se bem da polícia.
Cientes disso, vão dia a dia aparecendo gatunos que se travestem de Lampião
para fazer suas "colheitas".
Ha vaqueiros não só
conhecedores da caatinga como "rastejadores", isto é, descobrem o
paradeiro das pessoas apenas pelo rastro. Desses alguns já tem prestado
indicações a polícia.
LAMPIAO
TEM 43 ANOS E ESTA AINDA FORTE, LEVANDO UMA VIDA TÃO ACIDENTADA
A filha da fazendeira de
Queimadas quando conversou com o nosso representante em Custodia, disse ter
visto o "major" Virgulino.
Os cangaceiros estiveram na fazenda Queimadas, onde intimaram as moças, filhas da fazendeira, a dar-lhes comida. Foi, assim, que uma delas viu Virgulino. Contou-nos esta ser ele um indivíduo alto, magro, moreno, tostado pelo sol, com um olho doente, escorrendo água, usando óculos. Na calça traz quatro galões dourados, que significam o seu posto de major. Os demais, quando de sua confiança, tem o título de capitão. Assim, Corisco e o Virgínio, este morto pelo cabo Alves, no encontro de Jeritacó.
O CABO 21 CONTINUA NO COMMANDO DE UMA VOLANTE
O cabo da Escola de
Recrutamento da Brigada Militar do Estado, cujo nome de "guerra" é
21, principal responsável pelas desordens promovidas pela "volante"
estacionada em Tigre, quando esteve ali o repórter do DIARIO DE PERNAMBUCO, foi
transferido para Alagoa de Baixo pelo tenente Apolônio, comandante das forças
volantes estacionadas naquela cidade.
Apesar do cabo haver praticado
distúrbios, rajado a metralhadoras os muros do cemitério em vez de perseguir os
bandidos, continua a frente de um grupo de combate, por falta de substituto,
conforme fomos informados na Brigada.
A respeito de tais arbitrariedades foi aberto inquérito.

Em 2011, durante as festividades do padroeiro São José, em Custódia-PE, uma das atrações musicais da noite era o poeta, cantor e compositor Maciel Melo. Antes de subir ao palco, tive a oportunidade de conversar por alguns minutos em seu camarim.
Sendo ele natural de Iguaracy — antigo distrito de Afogados da Ingazeira —, esse acabou sendo o gancho perfeito para iniciar o nosso breve bate-papo. Comentei que tinha um tio que morava por lá, e Maciel perguntou imediatamente de quem se tratava. Quando respondi que era Sebastião Alves, o cantor abriu um largo sorriso e emendou sem hesitar:
— O da farmácia da praça?
A partir dali, a conversa fluiu com ainda mais leveza e descontrações. Como bom iguaraciense, Maciel conhecia a fundo a história de sua terra. Lembrou que o povoado surgiu por volta de 1914, após a construção de uma igreja dedicada a São Sebastião, e que inicialmente se chamava Macacos, em homenagem a uma família tradicional da região. Temendo futuras conotações pejorativas para o lugar, foi justamente o meu tio, Sebastião Alves da Silva — então representante da vila junto à Câmara Municipal de Afogados da Ingazeira —, quem batalhou e conseguiu a mudança do nome para Iguaracy.
Maciel rememorou com carinho as lembranças da infância e juventude na farmácia do meu tio, o convívio com os filhos dele e a importância imensa que Sebastião tinha para a cidade. O que nos unia ali eram laços ainda mais profundos: Sebastião Alves era irmão da minha Tia Maria (mãe de Gerson Gonçalves) e de Corina Pereira Marques, minha avó paterna. Inclusive, quando a mãe dele faleceu, tendo ele apenas dois anos de idade, foi em Custódia que Sebastião foi residir, acolhido pelo casal Joaquim Pereira e Corina Pereira, ambos eram comerciantes.
Conforme a hora do show se aproximava, mencionei que havia criado o Blog Custódia Terra Querida. Para minha grata surpresa, Maciel respondeu que já conhecia o espaço! Contou-me que, durante as pesquisas na internet para a escrita de um de seus livros, encontrou em meu site a fotografia de uma lendária figura folclórica da região: Pedro Maraváia. Maciel fez questão de destacar que usou a imagem em sua obra e que creditou devidamente o blog.
Nos despedimos e saí dali tomado por uma enorme felicidade. Além da profunda admiração que sempre tive pelo trabalho desse "caboclo sonhador", descobri naquela noite que partilhávamos afetos, memórias e amigos em comum.
Essa ligação entre Maciel e a memória de Maraváia não ficou guardada apenas nas páginas do livro. O poeta também imortalizou o personagem na canção O Boi do Pajeú.