25 outubro, 2026

Rodovia PE-280: Uma justa homenagem à memória do ex-prefeito Luiz Epaminondas Nogueira de Barros

 


Quem trafega diariamente pela PE-280, rodovia que conecta Custódia ao município vizinho de Sertânia, por muitas vezes não percebe a densa história preservada ao longo do seu trajeto. Promulgada pela Assembleia Legislativa do Estado de Pernambuco e assinada pelo então presidente da Casa, Felipe Coelho, a Lei Nº 11.010, de 23 de dezembro de 1993, batizou oficialmente a estrada como Rodovia Luiz Epaminondas Nogueira de Barros.


Essa denominação perpetua na infraestrutura do Sertão do Moxotó o legado de uma das figuras públicas mais influentes da história custodiarense. Agropecuarista e liderança política tradicional do município, Luiz Epaminondas assumiu a Prefeitura de Custódia em 15 de novembro de 1955, após ser eleito pelo voto popular. Era filho de Antônio Epaminondas Nogueira de Barros e Úrsula Benigna Pereira Valões. Pertencente a tradicionais familias sertanejas.

Sua gestão, contudo, foi precocemente interrompida em 11 de dezembro de 1957, data de seu falecimento em pleno exercício do mandato executivo. Na ocasião, o vice-prefeito Adauto Pereira de Souza assumiu o comando do município para dar continuidade aos trabalhos da municipalidade.

O legado político da família seguiu vivo nas gerações seguintes: Luiz Epaminondas era pai de Luiz Epaminondas Filho, carinhosamente conhecido como Luizito, que mais tarde também ocupou o cargo de prefeito de Custódia. Seu irmão João Bosco também foi político, chegando a ser Vice-Prefeito de Custódia.



PE-280
Liga Custódia para Sertânia-PE

Matéria indicada por Josenildo Lacerda.

Família Ferreira de Lima - por Fernando Florêncio




A natureza com a sua infinita capacidade de criar situações as mais diversas possíveis, pregou-me uma peça. Imaginem leitores deste blog, que eu pertenço biològicamente a uma família que tinha, (alguns ainda têm), uma intimidade formidável e quase mágica, de trabalhar a madeira. A genética quis apenas que eu herdasse daquela família, tão somente a humildade, a retidão, o caráter e a simplicidade de colocar o coração na frente de tudo que me proponho fazer.

Como eu gostaria de ter sabido operar “um torno” de madeira tosca, desenvolvido e fabricado por mim mesmo, acionado mecanicamente pelo pé, num movimento cansativo de vai e vem, pra cima pra baixo. Com a ajuda de escopo (formão) eu teria me realizado, criando e fabricando meu próprio “pião” que, desde que fosse de pau de goiabeira, era “inlascável”. No jogo onde aquele que errava, deitava sua peça para ser atingida e levando “bicoradas” dos outros participantes até a entrada do “boi” (Um círculo feito no chão), onde os derrotados na refrega eram colocados para serem postos para fora debaixo de muitas “chapuletadas” como se dizia na época. Lascavam-se muitos peões, mas nenhum feito de pau de goiabeira. As pancadas de peões com bico de parafuso eram mortais.

Eu me refiro à Família FERREIRA DE LIMA, cujo patrono, João Ferreira, foi o mestre de uma plêiade de filhos, pessoas simples, simplórias até, aos quais delegou o dom de trabalhos em marcenaria. Creio que em Custódia e distritos, as famílias da época tiveram o primeiro guarda-roupas, a primeira estante, as camas, a cristaleira todas desenhadas e fabricadas por “Seo” João e filhos. Inclusive os meus pões.

BENEDITO, o mais refinado no trabalho artesanal da madeira, destacou-se dos demais, com uma atividade paralela sendo Pastor da Primeira Igreja Evangélica de Custódia. Mesmo com parca escolaridade, leitura claudicante, era detentor do dom de envolver as pessoas na explicação do evangelho.

CÍCERO, mais turrão. Acho que por ser mais forte, companzudo, se encarregava de fabricar as pranchas, serrando manualmente toras de angico, baraúna, aroeira e umburana de cheiro, esta última, a preferida dos moveleiros por ser uma madeira bonita, macia e fácil de ser talhada. Era bonito vê-los trabalhar. A entrega dos móveis era a domicilio, e o transporte, a cabeça. Como não havia funerária, os irmãos via de regra eram instados a fabricar urgente, um caixão para alguém que resolveu partir de repente.

O outro filho do “Seo” João Ferreira, (também João), não sei por que tinha um apelido estranho; JOÃO KAKI OITO, Se transformava numa fera quando alguém o chamava pelo apelido. Esse também trabalhava a madeira, mas era Expert em fabricar instrumentos musicais de corda. Violões, Cavaquinhos, Rabecas, fez até um Violino. Era craque na matéria. Foi o primeiro voz e violão de Custódia. Era muito solicitado para tocar e acompanhar com seu violão algum “bebum” apaixonado nas serestas das madrugadas custodienses.

Atualmente, todos residem em Arcoverde. BENEDITO estive com ele por ocasião da minha visita a Custódia, vive sempre emocionado e chorou bastante ao receber o meu abraço. Parece estar enfrentando um problema sério de saúde. Esclerose acentuada, talvez.

O CICERO, está sóbrio e conversamos bastante. Ocupa-se ainda fazendo alguma coisa relacionada à madeira. Um tamborete, uma cadeirinha…

O JOÃO, desde que se acidentou, caindo do andaime de uma obra, vive numa cadeira de rodas. Está paraplégico.

Como não tenho idéia quantos filhos compunham aquela família, vou limitar-me apenas a mais um componente. Os demais hão de entender.

MARIA FERREIRA, minha mãe biológica, que hoje, 09 de maio de 2009, véspera do dia dedicado às MÃES, A ELA; “MESMO POST MORTEN” dedico esses escritos, como que me redimindo de uma omissão que durou anos. O porque dessa omissão envolve uma série de fatos de amplo conhecimento de todos da minha geração, citá-los seria cansativo, exaustivo e principalmente sem sentido.

Minha mãe ainda menina, foi trabalhar como criada (por ser menor) em Arcoverde, na casa de uma família abastada e de sobrenome pomposo. Corria o ano de 1942. Num relacionamento infantil e naquela hora tido como inconseqüente, (até porque ela tinha 14 anos), com um dos filhos da casa, (que tinha 17,) engravidou, foi posta no olho da rua, porta a fora. Naquela época, moça engravidar fora do casamento era um escândalo.

“Chegando de volta à casa dos pais teve o mesmo tratamento. ”Pé na bunda.” Não poderia ser de outra forma, porque aquela família, mesmo humilde, sentiu-se atingida nos seus dogmas de virtude e retidão moral. O poderio familiar/financeiro do outro lado, não dava chances a qualquer reparação. Família de sobrenomes extensos. Dignos de figurar em placas urbanas dando nomes a alamedas de cidades decadentes.

Consta que diante do exposto, minha mãe seguiu o caminho da prostituição, até me parir, e numa madrugada chuvosa e fria, colocar-me recém-nascido, enrolado em trapos, na porta da casa de Zé Daniel e Laura Florêncio. Por esta atitude muitos a condenaram. Quanto a mim, pelo contrário, naquela situação, gesto mais coerente; impossível. Por isso, sou-lhe grato sempre e eternamente.

O tratamento e a criação que me deram os adotantes, é de amplo conhecimento de todos. Portanto me abstenho de comentar. Seria cair na mesmice.

Mas, passados muitos anos, vou sintetizar a epopéia:


‘PROCURANDO MARIA’.


Já morando em Salvador (BA) assumi a Gerencia Regional de Vendas de uma Indústria Multinacional Americana, líder mundial na fabricação de Resinas Sintéticas, Colas e Adesivos, que com muitas fábricas espalhadas pelo Brasil, uma das quais ficava em Abreu e Lima. (PE). Numa das reuniões em Abreu e Lima, resolvi procurar Maria.

Após a reunião, fui ao Alto José do Pinho, em Casa Amarela, era a única pista que eu soubera. Percorri todos os becos e vielas. Ninguém conhecia Maria. Quem “tinha uma vaga” lembrança, não sabia o paradeiro.

Passados mais alguns anos, resolvi telefonar para a Rádio Clube, e relatei o meu desejo de encontrar Maria. Por sorte, num programa de boa audiência, um senhor chamado “MANOEL PIUTÁ” a quem eu gostaria de conhecer e agradecer telefonou para a rádio, dizendo onde estava Maria.

Localizei onde estava minha mãe. “Morava” numa palafita. Num barraco horroroso, que quando a maré vinha no preamar, a água podre lambia-lhe os pés. Uma podridão insuportável vinda dos alagadiços de um bairro hoje urbanizado chamado Coqueiro Seco.

Visão prejudicada pelas cataratas, um estado diabético avançado. Localizava as coisas tateando pelo barraco. Em contraste com o local, o barraco de Maria era de uma limpeza sem igual.

Em consonância com os irmãos, transferi minha mãe para Arcoverde, que sob os cuidados da família, já sem aquele ranço moralista dos anos 40, passou a viver com decência. Até então houvera apenas sobrevivido.

Aqui abro um parêntese, para agradecer a prestimosa colaboração de um médico e administrador do antigo INPS em Arcoverde, que coincidentemente vem a ser irmão do meu pai biológico. Sabedor de toda história, se prontificou a cuidar da saúde de minha mãe, providenciando para ela fosse operada da cataratas e monitorando o diabetes. Assim foi feito.

A vida tem disso. Quando eu resolvi tomar “a atitude de ADOTAR MARIA” , pagando assim a minha dívida, involuntária, mas minha, acontece o imprevisível.

Quando Maria já estava vendo quão bonito era o céu, a exuberância da natureza, a alegria das ruas, vendo o filho moleque feito homem, conversando com todos de igual para igual, indo ao banco sem precisar de procurador para receber os proventos de uma aposentadoria, eis que um Acidente Vascular Cerebral (AVC) a leva para o andar de cima.

Às fatalidades dessa ordem, dá-se o nome de coisas do imponderável.

Hoje, MARIA FERREIRA DE LIMA, minha mãe, repousa e reina soberana numa gaveta do campanário de Arcoverde com uma placa de Granito Andorinha a identificar sua penúltima morada. Penúltima, porque estou em entendimentos com a família para transferir os despojos da minha mãe para o solo, aí sim sua última morada, e lá construir o mausoléu da:


FAMILIA FERREIRA DE LIMA.


EM TEMPO: Neste relato não faço maiores alusões ao lado paterno, pela insignificância que representa no contexto desta história.


Fernando Florêncio
Ilhéus/BA
(Mai/2009)




24 outubro, 2026

Colégio Técnico Joaquim Pereira: Pioneirismo e Formação



O Colégio Técnico Joaquim Pereira foi fundado e inaugurado em 10 de março de 1973 pelo advogado, professor, cirurgião-dentista e líder comunitário Dr. Pedro Pereira Sobrinho, em Custódia (PE). Era situado na Avenida Inocêncio Lima, na época, era vizinho da Coletoria Estadual. Atualmente funciona o prédio da Magazine Luiza.

A instituição desempenhou um papel divisor de águas na educação do Sertão do Moxotó, pois trouxe o ensino técnico-profissionalizante e o curso normal/pedagógico para o município em uma época em que as opções de formação secundária na região eram extremamente restritas.

Principais Aspectos e Impacto Histórico

  • Origem do Nome: A escola recebeu o nome de Joaquim Pereira, em homenagem ao pai do Dr. Pedro Pereira Sobrinho, figura respeitada na história familiar e local. (Clique aqui) 

  • Abertura de Oportunidades: Antes de sua criação, jovens de Custódia precisavam se deslocar para centros maiores (como Arcoverde, Serra Talhada ou Recife) para cursar o ensino secundário técnico ou de formação de professores. A chegada do colégio fixou os estudantes na cidade.

  • Curso Oferecido: O colégio destacou-se pela oferta de Cursos Técnicos em Contabilidade, sendo responsável pela formação de dezenas de profissionais que exercem suas funções até hoje no municipio. Alguns se aposentaram.

  • Pioneirismo Educacional: Representou uma das primeiras iniciativas privadas de ensino comunitário/técnico no município, combinando rigor acadêmico com formação voltada ao mercado de trabalho regional.

O Fundador: Dr. Pedro Pereira Sobrinho

Advogado, cirurgião-dentista, auditor, professor e ex-vereador de Custódia, Dr. Pedro idealizou o colégio como um projeto de desenvolvimento social. Sua visão era de que o acesso à educação técnica e pedagógica era o único caminho para emancipar a juventude custodiense e impulsionar a economia local.

Legado

O Colégio Técnico Joaquim Pereira marcou a história cultural e educacional de Custódia ao longo das décadas de 1970 e 1980. Grande parte dos profissionais, educadores e gestores públicos que atuaram na cidade nos anos subsequentes teve sua base de formação nos bancos escolares dessa instituição.

Alguns professores

Zezito Caju, Silvio Carneiro, Braz, Fernando Lacet, Francisco Bernardo, Jussara Burgos, Arielson, Carminha Simão, Airton Pereira, Lindinalva Bezerra, Braz, Lemos, Lenilza Pereira, Carlos Alberto (Carlão), José Ronaldo, Edvilson.


Formatura da 1ª Turma do Colégio Técnico Joaquim Pereira (1975)




Em pé:
Arnaldo Almeida, Gilvan Medeiros, Ogival, Lourinho, Gilvan Bernardo, Djalmir, Carlos, Marcos Viola, Marcos Moura, Gerson Gonçalves (Padrinho da turma) e Pedro Pereira (Diretor)
.
Sentados:
José Mariano, Nemias Gonçalves, Nídia Fernandes, Naisa Amaral, Fátima e Mara Fernandes Marize.


23 outubro, 2026

Memória & História: O retrato das pressões políticas em Custódia nas páginas da imprensa em 1945



Manchete do jornal Diário da Manhã
Recife-PE
30/08/1945


Resgatar a história de Custódia exige olhar de frente para os momentos cruciais que moldaram a nossa identidade política e social. Um desses momentos marcantes está registrado na edição de 30 de Agosto do Diário da Manhã do ano de 1945.

Ao denunciar a interferência do governo estadual e as retaliações contra oposicionistas no município, a reportagem revelou as contradições vividas pela população no conturbado processo de transição democrática do país. Demissões arbitrárias, entraves burocráticos e intimidações eleitorais faziam parte do cenário cotidiano exposto pelo jornal.

Para que a população conheça em detalhes os fatos narrados naquela época, preparamos este material especial. A seguir, você confere a nossa interpretação histórica sobre o período e, logo em seguida, o texto original completo da notícia tal como foi publicado em 1945.

Análise Histórica: O que a matéria revelou sobre Custódia em 1945


Parcialidade e Aparelhamento das Instituições: A oposição (UDN), representada por João Veríssimo do Amaral, acusava o governo estadual (liderado por Etelvino Lins) e o PSD de utilizarem a máquina pública e a estrutura judiciária local para favorecer os candidatos situacionistas. O juiz de Direito é acusado de reter por 15 dias o livro de registro de nascimentos para atrasar o alistamento eleitoral dos eleitores oposicionistas, beneficiando o alistamento do PSD.

Perseguição a Funcionários Públicos: Ocorreram demissões por motivação estritamente política. A tesoureira da prefeitura, com 9 anos de serviço e em licença de saúde, foi exonerada por ser casada com um oposicionista. Além disso, o cartório/tabelionato único foi desmembrado para colocar seu funcionário em disponibilidade.

Intervenção em Cooperativas e Coação Econômica: O governo destituiu o gerente eleito da Cooperativa Agropecuária de Custódia por ser amigo do presidente local da UDN, substituindo-o por um interventor nomeado. Cabos eleitorais do PSD faziam ameaças aos agricultores locais, afirmando que quem não votasse no governo seria impedido de operar na cooperativa e de realizar transações bancárias com o Banco do Brasil.

Contradição do Discurso da Redemocratização: O texto destaca a prática da política do "manda quem pode e quem tiver o que perder vote no governo" (atribuída a Agamenon Magalhães), apontando a contradição entre as promessas oficiais de redemocratização e a conduta autoritária praticada nos municípios do interior.

Resistência Eleitoral: Apesar das pressões, a matéria aponta que a UDN local mantinha sua base organizada para apoiar a candidatura presidencial do brigadeiro Eduardo Gomes nas eleições de dezembro de 1945, prevendo um resultado desfavorável ao governo no município.).

Transcrição da Notícia Original (Diário da Manhã, 1945)

"MANDA QUEM PODE" NA ZONA SERTANEJA

TERROR FASCISTA DOMINA O MUNICIPIO DE CUSTODIA

O SR. ETELVINO ORDENA UMA SERIE DE PERSEGUIÇÕES A TODOS QUANTOS NÃO RESAM PELA SUA CARTILHA — DEMITIDA A TESOUREIRA DA PREFEITURA COM 9 ANOS DE SERVIÇO PORQUE É CASADA COM UM OPOSICIONISTA — DESMEMBRADO O CARTORIO — O JUIZ A SERVIÇO DA POLITICAGEM DE 10 DE NOVEMBRO

Esteve, ontem, na redação deste jornal, o sr. João Verissimo do Amaral, membro do diretorio local da União Democratica Nacional de Custodia, em cujo municipio é proprietario. Falando á reportagem, declarou que em Custodia a campanha eleitoral está sendo processada com evidente desigualdade de tratamento, por parte das autoridades publicas, para os membros da oposição. Os partidarios do governo têm todas as facilidades para aliciar o eleitorado, enquanto toda sorte de impecilhos e obstaculos se opõem ás atividades dos adversarios.

O mais grave, porém — salienta o sr. João Verissimo — é que essa desigualdade de tratamento emana até do juiz de Direito, a quem cabia, pela natureza da propria função que exerce, uma atitude mais isenta de animo, o que não se verifica.

"Vamos aos fatos tais quais se passam" e prossegue: "Para demonstrar a parcialidade do juiz de Custodia basta dizer que tendo-lhe sido entregue o livro de registro de nascimento para rubricar, e deses modo procedermos aos alistamento dos nossos eleitores, ficou o juiz com esse livro durante quinze dias, prejudicando e atrazando cerca de trezentas petições.

"Essa demora, como é facil de compreender, só poderia aproveitar ao P. S. D. que, com todas as facilidades que lhe são permitidas, vai prosseguindo o alistamento dos seus filiados.

"Mas ha outras coisas que convem ser ditas. Por exemplo não faz muitos dias, regressando do Recife aquela cidade, o prefeito declarou que levava ordem do interventor para demitir a tesoureira da prefeitura; isto porque a ocupante daquele cargo era casada com um oposicionista. A demissão verificou-se mesmo no dia 22 do corrente; e a tesoureira tinha cerca de nove anos de serviço, desempenhando seu posto com um zelo que ninguem lhe contesta e todos reconhecem.

Acresce, ainda — esclarece o sr. João Verissimo — que a referida funcionaria se encontrava em goso de licença para tratamento de saude, quando foi surpreendida com a noticia da sua demissão. A's pessoas mais aproximadas do prefeito, informou este que o sr. Etelvino Lins o autorizara a pôr os pontos nos ii, em seu municipio, afirmando-lhe que contasse com o apoio do governo.

Mas aí não ficou a façanha do prefeito de Custodia. Chegou ao municipio disposto mesmo a cumprir á risca as ordens do interventor, para manter a politica do "manda quem pode". Assim, o tabelionato unico daquele municipio, consoante as instruções do palacio das Princesas, foi desmembrado e o funcionario do mesmo — conforme voz geral, nos meios oficiais — ia ser posto em disponibilidade.

"Aí está — diz o procer udenista de Custodia — a que se reduz a afirmativa do interventor, quando no Teatro Santa Isabel, por ocasião da convenção do P. S. D. afirmou, "naturalmente para inglês ver" que marchavamos para uma redemocratização do país, e que era chegado o tempo da livre manifestação do pensamento, podendo o funcionario votar contra o governo.

Tudo isso é pouco. Para amedrontar os partidarios da U. D. N. os cabos eleitorais do P. S. D. fazem excursões pelas fazendas e povoados do municipio, dizendo que aqueles que não votarem no governo serão perseguidos e não conseguirão operar nas cooperativas, nem fazer transações com o Banco do Brasil.

As ameaças, em Custodia, se sucedem, e é de todos conhecido o caso da Cooperativa Agro-Pecuaria, que desapareceu como autarquia. O fato se passou do seguinte modo. No dia 17 do corrente mês, ali chegou o sr. Pitagora de Souza Dantas, assistente do Departamento de Assistencia ás Cooperativas, o qual, recebido pelo gerente — este regularmente eleito em assembléia geral ordinaria, a 15 de abril deste ano — disse-lhe que o objetivo de sua viagem era entregar a direção da cooperativa ao sr. Pereira da Nobrega (que, por sinal, já esteve no Estado de Goiaz), passando este a interventor da cooperativa.

Avisou ao gerente para vir imediatamente ao Recife, pois o sr. Etelvino Lins queria ter com ele um entendimento pessoal. Assim fez o gerente. O sr. Pitagora procedeu ao balanço da cooperativa e logo entregou a mesma ao sr. Pereira da Nobrega, enquanto, sem formalidade de especie alguma, era demitido o gerente. O motivo desta demissão é ser o gerente da tal cooperativa amigo particular do sr. Ernesto Queiroz, presidente do diretorio da U. D. N.

"Como vê — conclue o sr. João Verissimo — em Custodia é assim que se prepara o ambiente para as eleições de dezembro. A frase do sr. Agamenon Magalhães é a diretriz fundamental da politica seguida e praticada em toda a sua realidade pelos seus mandatarios. Mais do que em qualquer outra parte do Estado, aplica-se a Custodia o "manda quem pode e quem tiver o que perder vote no governo". Isso não importa contra que direito. Não repugnam aos dirigentes governistas os meios de que se utilizam. Todos servem, desde que consigam atemorizar o eleitorado para que vote com eles.

"Entretanto, a oposição em Custodia dispõe de um grande nucleo eleitoral e vai levar vitoriosamente ás urnas, dentro em breve, o nome do brigadeiro Eduardo Gomes, que redimirá o pais da situação atrás em que o lançou o Estado Novo, para garantir a verdadeira liberdade democratica.

"O governo de Pernambuco nada perderá em esperar pelo resultado das eleições de dezembro no tão espezinhado municipio de Custodia. Nada como um dia atrás do outro" — concluiu o sr. João Verissimo.




22 outubro, 2026

Resgate Histórico: O projeto de 1947 que planejou integrar Custódia ao progresso rodoviário

 



No final da década de 1940, o Sertão pernambucano vivia um momento decisivo de reorganização e busca por desenvolvimento no pós-guerra. Em uma edição do jornal Diario de Pernambuco de 22 de outubro de 1947, os deputados estaduais Gomes de Sá, Justino Alves e Moury Fernandes apresentaram à Assembléia Legislative um projeto de lei que redefiniria o Plano Estadual de Rodovias Intermunicipais e Interestaduais para o exercício financeiro de 1948 e anos seguintes.

Para Custódia, o projeto trouxe duas proposições de extrema relevância estratégica:

  1. A rota até o Airi (Floresta): A inclusão do trecho de 80 km que saía de Sítio dos Nunes (Flores), cruzando o território custodiense — integrando vilas e fazendas históricas como Betânia, Cunhães e Soares (município de Custódia) — em direção ao povoado do Airi e à estrada de Ibimirim a Floresta.

  2. A ligação com Macacos (Afogados da Ingazeira): O trecho de 30 km que ligava diretamente a cidade de Custódia à vila de Macacos, passando por Quitimbu, permitindo o acesso à estrada de Sertânia e Afogados, com rota direta para o estado da Paraíba.

O que isso representou para Custódia na época?

Naquele período, abrir rotas e garantir estradas de rodagem significava romper o isolamento geográfico e econômico do interior do estado. Para o município de Custódia, a aprovação dessa legislação representou:

  • Desenvolvimento e Escoamento Agrícola: As fazendas e comunidades rurais (como Cunhães e Soares) passavam a figurar oficialmente no mapa de infraestrutura do estado, facilitando o transporte da produção agropecuária local para centros urbanos regionais.

  • Integração Regional e Interestadual: A conexão direta com o Sertão do Pajeú (Afogados da Ingazeira), o Moxotó (Sertânia) e o estado vizinho da Paraíba colocava Custódia no caminho dos grandes eixos de circulação de mercadorias e passageiros.

  • Reconhecimento Político e Territorial: O registro formal de vilas, povoados e limites municipais em documentos estaduais reafirmava a importância de Custódia na malha territorial de Pernambuco, pavimentando o caminho para o crescimento urbano e comunitário que veríamos nas décadas seguintes.

Confira abaixo a transcrição na íntegra do recorte do jornal de 1947 e acompanhe este capítulo da nossa história!



Diário de Pernambuco
Edição 30 de Setembro de 1947


Novos projetos de lei apresentados á Assembléia Legislativa do Estado – Alcançarão os exercicios financeiros de 1948 e subsequentes

Pelos deputados Gomes de Sá, Justino Alves e Moury Fernandes, foi apresentada, ontem, na Assembléia Legislativa, um projeto de lei, incluindo no plano estadual das rodovias intermunicipais e interestaduais, a serem construidas nos exercicios financeiros de 1948 e subsequentes, as seguintes estradas:

I — da vila de Sitio dos Nunes, municipio de Flores, á vila do Airi (antiga Rochedo) do municipio de Floresta, atravessando as fazendas São Gonçalo, Malhada do Boqueirão, povoado São Caetano, vila de Betania e ainda as fazendas Cunhães e Soares (municipio de Custodia) e Boqueirão da Serra Preta (municipio de Floresta) num percurso aproximado de 80 quilometros, ligando a estrada tronco central do Estado á estrada de Ibimirim a Floresta;

II — da cidade de Maniçobal (Pernambuco) á vila de Jati (antiga Macapá) do Estado do Ceará, ligando á estrada transnordestina, num percurso de 40 quilometros, sendo: 18 no territorio pernambucano e 22 no territorio cearense;

III — da cidade de Ouricuri (Pernambuco) á cidade de Paulistana (Piaui), passando pela vila de Manacá (antiga Barra de São Pedro), num percurso aproximado de 100 quilometros, sendo: 40 no territorio pernambucano e 60 no territorio piauiense, ligando a estrada tronco central do Estado ao ponto terminal da estrada de ferro Leste-Bahiana (antiga Petrolina-Teresinha); e,

IV — da cidade de Custodia á vila de Macacos do municipio de Afogados da Ingazeira, passando pelo povoado 'Quitimbu', num percurso de 30 quilometros, ligando a estrada tronco central do Estado á estrada de Sertania e Afogados da Ingazeira, que tem penetração no Estado da Paraiba.

Pelo mesmo projeto, fica o governo autorizado a entrar em entendimento com os do Ceará e do Piaui, para que em cooperação sejam construidas, dentro de um plano racional, as rodovias interestaduais de que tratam os incisos II e III.