
Primeira foto, legenda:
O fazendeiro Henrique Lucio depois de fazer compras na feira de Custodia dirige-se para casa. Foto feita na estrada Custodia-Águas Belas, em frente a residencia do Major Inocêncio Gomes de Lima, prefeito daquele municipio. Armados os transeuntes previnem-se contra os assaltos
Segunda foto, legenda:
A filha da fazendeira de "Queimadas", quando fazia declarações ao reporter do DIARIO DE PERNAMBUCO. Photo colhido em Custodia, vendo-se ainda um fazendeiro e senhoritas da sociedade local.
Esta reportagem especial do Diario de Pernambuco (edição de sábado dia 12 de Dezembro de 1936) traça um panorama detalhado e cru da realidade vivenciada no interior pernambucano durante o auge do banditismo no sertão. Através do relato direto de moradores, autoridades locais e testemunhas oculares, o texto revela o clima de sobressalto constante em que viviam as populações sertanejas — obrigadas a andar armadas para garantir a própria segurança diante do temor gerado pelo bando de Virgulino Ferreira da Silva, o "Lampião", e de outros grupos menores que se proliferavam pela região.
A matéria destaca as profundas falhas táticas das forças policiais no combate aos cangaceiros. O uso de cornetas de comando e veículos barulhentos antecipava a presença das volantes, permitindo que os criminosos — profundos conhecedores da vegetação e da geografia da caatinga — escapassem facilmente. Além da ineficácia militar, a reportagem expõe os abusos cometidos pelas próprias tropas oficiais contra a população civil.
Enriquecido por uma entrevista com o prefeito de Custódia, Major Inocêncio Gomes de Lima (15/08/1936 à 15/05/1939), o texto resgata as origens de Lampião — de almocreve a chefe do cangaço —, expõe aspectos curiosos de sua religiosidade e rotina mística e apresenta descrições físicas minuciosas do sertanejo que desafiava a autoridade do Estado e marcava a história do Nordeste brasileiro.
Segue abaixo o texto na íntegra publicado no Diário de Pernambuco:
Quadros
da zona sertaneja sujeita ás incursões do banditismo
Em
cada pedra, perdida no descampado, a lembrança de Lampião — Porque a técnica
adoptada pela polícia não dá resultado.
Conversa com o prefeito de
Custódia -- Devoto do padre Cícero -- Relembrando a entrada de Virgulino para o
cangaço.
As populações do interior dos
municípios sertanejos, alarmadas pelo banditismo, procuram munir-se de armas,
já que as volantes quase só se movimentam entre as cidades e os povoados.
E' já sabido o caso do roubo
dos 22 cavalos em "Cancela", município de Custodia, a menos de uma
légua da rua.
Os assaltos a fazenda Caroá e
a várias outras de Mulungu, a passagem dos cangaceiros pelo serrote do Tamanduá,
sem nenhum impedimento, são um atestado da falta de segurança em que se acha o
sertão.
Registramos, agora, impressões
colhidas ultimamente pelo nosso repórter em visita a zona atingida pelo
cangaceirismo.
A
PAYSAGEM SERTANEJA
O descampado sertanejo permite
muito bem se avistar através os alastrados, os cardeiros, os marmeleiros e as
catingueiras secas até o gado pastar a distância nos serrotes quase pelados de
vegetação.
Os lajeiros muito frequentes
naquela zona assombram os transeuntes na passagem, quando se fala em "Lampião",
na terra, sugerindo ideias de emboscadas pelos facínoras. As veredas feitas
pelo gado em direção dos bebedouros penetram profundamente nas caatingas e são
o caminho certo da fonte.
É notório no sertão que a
polícia age com técnica militar para combater o banditismo, o que aumenta a
impossibilidade de um encontro com o grupo.
O repórter do DIARIO DE PERNAMBUCO ouviu em Tigre, povoado de Alagoa de Baixo, fazendeiros dizerem que as forças no encalço do "major" Virgulino ao chegarem ao serrote junto dessa localidade, tocaram cornetas que foram ouvidas no lugar Boa Vista, a quase meia légua de distância.
Também em Custodia, do lado de
Alagoa de Baixo aconteceu o mesmo. O vaqueiro Thomaz Anjo contou ao repórter
que durante a caminhada que fez com o grupo de cangaceiros, de vez em quando o
chefe mandava seus comandados pararem e escutava demoradamente qualquer ruído,
por mais leve que fosse, mesmo de vento forte nas folhas secas.
Desse modo, sendo utilizada a
corneta para as vozes do comando e o caminhão para o transporte, os bandidos,
sempre de alerta, podem prevenir-se.
Fomos informados na Brigada
Militar que o caminhão é de necessidade para o rápido transporte de forças, não
obstante produzir ruído capaz de ser ouvido ao longe pelos bandidos.
As "caatingas"
impossibilitam o soldado de conduzir a metralhadora, o fuzil metralhador e
equipagem para a luta.
As estações ambulantes de radiotelegrafia,
também não podem ter condução, pelo mato, desde que nem o burro me suporta o
seu peso em longas caminhadas, debaixo de um sol causticante por um terreno sem
pasto suficiente para a alimentação.
Neste caso, a distribuição das
volantes nas proximidades das fazendas evitaria esses inconvenientes.
COM
O PREFEITO DE CUSTODIA
Quando se achava em Custodia,
o repórter do DIARIO DE PERNAMBUCO esteve na residência do prefeito local,
major Inocêncio Gomes de Lima, com quem palestrou acerca do banditismo.
Na ocasião passou pela estrada
o fazendeiro Henrique Lucio, residente em Sabá, o qual se dirigia para sua
casa, depois de ter feito a feira na cidade.
Ia um seu conhecido na frente,
montado e armado de um rifle. Atrás, um trabalhador puxando um
"jegue" (jerico) carregado. Depois vinha um empregado do fazendeiro
com um rifle na mão e outro a tiracolo. Em último lugar o sr. Henrique Lucio
montado e também armado.
A objetiva do DIARIO DE PERNAMBUCO colheu esse frisante quadro da situação sertaneja.
A
VIDA DE LAMPIÃO
O major Inocêncio Gomes de
Lima disse-nos haver conhecido Lampião desde menino.
A seguir, passou a contar histórias
do bandido.
— "O nome de Lampião é
Virgulino Ferreira de Souza. Seu pai chamava-se José Ferreira, criador e proprietário
em "Poço do Negro", no município de Floresta.
DE
ALMOCREVE A CANGACEIRO
Na mocidade Virgulino era
almocreve e muitas vezes carregava caroá de Betânia para Rio Branco. Nesse
tempo conheci-o muito.
Entretanto, com o assassino do
pai, Virgulino resolveu vingar-se e essa vingança jogou-o no cangaceirismo.
Seus irmãos, Livino, Antônio
Ferreira e Ezequiel acompanharam-no na nova fase de vida."
O
CANGACEIRO É ELEITOR EM FLORESTA
Como o repórter mostrasse
interesse pelos detalhes da vida do conhecido cangaceiro, o major Inocêncio,
esboçando um sorriso, disse:
— "Ele e os irmãos são
eleitores em Floresta. Agora é que o título deve estar sem valor por causa da
reforma."
DEVOTO DO PADRE CICERO. JEJUA
TODAS AS QUARTAS-FEIRAS
Prosseguindo, o major Inocêncio
contou:
— "Quando Lampião esteve
na minha casa, por ocasião de uma "visita" a Betânia, agindo como cangaceiro,
me contou que jejua todas as quartas-feiras, se reza muito para o padre Cicero.
Ele me disse que em virtude de não haver peixe no sertão para guardar preceito
na quarta-feira, não come nada. Só bebe agua.
Na ocasião do almoço, em frente dos seus comparsas, Virgulino, segundo disse, bota um punhado de farinha na boca afim de que ninguém saiba que ele jejua. Entretanto, a farinha é jogada fora ás escondidas.
O seu chapéu de couro tipo de
vaqueiro é levantado na frente, ostentando um retrato do padre do Juazeiro.
No seu pescoço, traz orações
fortes, escapulários, rosários e medalhas de santos.
Nas abas do chapéu conduz
medalhas de ouro e prata.
É um místico, extremamente
confiante nas suas orações fortes.
Acredita que assim se possa
livrar de qualquer perigo."
AUMENTA A FORMAÇÃO DE PEQUENOS GRUPOS
Já noticiámos que em Sitio,
perto do povoado do Rio da Barra, pequenos grupos, constituídos apenas de 2 e 3
homens, davam assalto ás casas de residência.
Na estrada que passa pelo
Sítio do Nunes, nas proximidades de Alagoa de Baixo, o proprietário do auto
7849, sr. Floriano Tibúrcio dos Santos, foi assaltado por um desses grupos, sob
a chefia do cangaceiro Gaudêncio.
Tentaram assassinar um
passageiro do auto, mas, a pedido do sr. Floriano, não o fizeram. Roubaram o
dinheiro que o passageiro conduzia e mandaram-no prosseguir viagem.
Ouve-se constantemente falar
no sertão de que o profundo conhecedor da caatinga pode livrar-se bem da polícia.
Cientes disso, vão dia a dia aparecendo gatunos que se travestem de Lampião
para fazer suas "colheitas".
Ha vaqueiros não só
conhecedores da caatinga como "rastejadores", isto é, descobrem o
paradeiro das pessoas apenas pelo rastro. Desses alguns já tem prestado
indicações a polícia.
LAMPIAO
TEM 43 ANOS E ESTA AINDA FORTE, LEVANDO UMA VIDA TÃO ACIDENTADA
A filha da fazendeira de
Queimadas quando conversou com o nosso representante em Custodia, disse ter
visto o "major" Virgulino.
Os cangaceiros estiveram na fazenda Queimadas, onde intimaram as moças, filhas da fazendeira, a dar-lhes comida. Foi, assim, que uma delas viu Virgulino. Contou-nos esta ser ele um indivíduo alto, magro, moreno, tostado pelo sol, com um olho doente, escorrendo água, usando óculos. Na calça traz quatro galões dourados, que significam o seu posto de major. Os demais, quando de sua confiança, tem o título de capitão. Assim, Corisco e o Virgínio, este morto pelo cabo Alves, no encontro de Jeritacó.
O CABO 21 CONTINUA NO COMMANDO DE UMA VOLANTE
O cabo da Escola de
Recrutamento da Brigada Militar do Estado, cujo nome de "guerra" é
21, principal responsável pelas desordens promovidas pela "volante"
estacionada em Tigre, quando esteve ali o repórter do DIARIO DE PERNAMBUCO, foi
transferido para Alagoa de Baixo pelo tenente Apolônio, comandante das forças
volantes estacionadas naquela cidade.
Apesar do cabo haver praticado
distúrbios, rajado a metralhadoras os muros do cemitério em vez de perseguir os
bandidos, continua a frente de um grupo de combate, por falta de substituto,
conforme fomos informados na Brigada.
A respeito de tais arbitrariedades foi aberto inquérito.














