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25 junho, 2023

Cinco Gerações - por Carlos Lopes


Por Carlos Lopes

Não foi muito complicado entender nos meus primeiros anos de idade, lá no meu Sertão, que uma geração sucede a outra. Logo: ¨Na geração do meu pai era assim¨ ou ¨A geração sua pensa diferente da minha.¨

Afinal, o que é geração X, Y e Z? Tentemos entender através da sociologia: ¨A algum tempo os diferentes níveis de gerações estão sendo denominadas por letras. Em qual você se enquadra? Geração X: Passaram pelo grande Downsizing corporativo e precisaram procurar segurança no emprego. Filhos dos baby-boomers a geração X é formada por pessoas nascidas de 1970 a 1980. Gostam de trabalhar em equipe, não acreditam em hierarquia e não vêem mistério no computador pois, participaram do surgimento dele. Geração Y: Nascidos de 1980 a 1990 são jovens, espertos e ousados. São despojados no escritório ou ouvem iPods em suas mesas. Eles querem trabalhar, mas não querem que o trabalho seja sua vida. Antenados na expansão tecnológica, buscam qualidade de vida e conforto financeiro, estão tomando seu lugar no mercado de trabalho incrivelmente competitivo. Geração Z: A grande nuance dessa geração é zapear. Outra característica desta geração é a constante troca que se faz entre os canais de interatividade, zapeando de um a outro, da internet, ao telefone, ao vídeo game. Para eles o mundo é totalmente tecnológico e virtual pois, nasceram em meio a esse mundo. São menos deslumbrados que os da geração Y com Joystick e iPhone’s.¨

Agora, a pergunta é: Você entendeu? Entender, eu até entendi ... mas porque complicar tanto o que parece simples? Nas sete gerações pesquisadas a foto acima juntou representantes de três delas: Da terceira geração, Maria das Neves de Queiroz passos. Da quarta geração, Maria Celeste Lopes. Da quinta geração, Maria das Neves Lopes. Da sexta geração, Fabiana Aparecida Lopes e da sétima geração, Maria Eduarda Lopes. Ou seja, Maria é mãe de Celeste que é mãe de Neves, que é mãe de Fabiana que por sua vez é mãe de Eduarda. Afinal, geração é como mãe cada um tem a sua.

02 junho, 2023

Livro: Gandavos: Os Contadores de Histórias



Escrever é um exercício que nos alça à cidadania universal. E este tal universo se manifesta nos temas simples do cotidiano, nas pequenezas diárias das grandes almas. Um texto de crônica ou conto é sempre uma vontade de dizer ao mundo: “Eu estou entendendo você”! É um desejo de falar ao outro que ele não está só, mas que somos todos feitos deste mesmo material comum – uma argila santa e pecadora. É isto o que somos. É a isto que chamamos “natureza humana”: complexa, contraditória, heroica e covarde ao mesmo tempo. Um ser capaz das mais nobres atitudes para com o próximo, mas, também, pronto a manifestar os sentimentos mais mesquinhos e cruéis. GANDAVOS – OS CONTADORES DE HISTÓRIAS é uma dessas exposições do que a vida é e do que é este ser humano que somos.

A iniciativa de Carlos Lopes é uma oportunidade de nos olhar bem de perto, mas com a devida distância de quem não quer se comprometer. Literatura será sempre isto: a identificação segura para, quem sabe, podermos avaliar melhor quem somos na vida de tantos personagens diferentes e semelhantes a nós. A literatura é o contato com esse“outro tão eu” e ele sempre operará em nós alguma mudança. Prepare-se para a leitura desse valioso livro.

Por: Fábio Ribas (blog Casal 20)


¨É uma coleção de história, memórias, dores e delícias¨
Celêdian Assis de Souza

¨Contar histórias é uma arte milenar que envolve as pessoas através da sensibilidade e ajuda a desenvolver uma atitude crítica e criativa perante a vida¨
Maria Olimpia de Melo

¨Tive a felicidade de conhecer o Carlos Lopes, este simpático pernambucano de Custódia PE há cerca de um ano mais ou menos¨
Gilberto Dantas

¨Aí está o nosso livro. Obrigado pela confiança¨
Carlos Lopes

¨Sejam bem vindos a este livro, meus senhores e minhas senhoras¨
Augusto Sampaio Angelim


Livro:
Título: Gandavos - Os contadores de histórias

Autores:
Carlos Lopes, Celêdian Assis de Sousa, Fábio Ribas, Gilberto Dantas, Augusto Sampaio Angelim, Geraldinho do Engenho, José Soares de Melo, Maria Olimpia Alves de Melo, Adriane Morais, Ana Bailune, Carlos Costa, José Eduardo Costa, Dilermando Cardoso, Jorge Farias Remígio e Fernando José Carneiro de Souza.

Ps. Colaboradores do Blog Custódia Terra Querida


SALES é um pintor paisagista, pernambucano, sua arte é interpretada como impressionista, alterando o abstrato e concreto em vários temas

Contato:

http:ateliersales.vilabol.uol.com.br/
(87) 3848-1780 / (87) 8807-2566

Publicado no blog: Gandavos

19 abril, 2023

Livro Seguindo na Prosa [Carlos A. Lopes]


Lançado em 2014, SEGUINDO NA PROSA, segundo livro de Carlos A. Lopes.

Peça seu exemplar pelo endereço: gandavos@hotmail.com

Para ler on line, acesse o site Calaméo: AQUI

Temos aqui mais um brilhante trabalho, fruto de seu empenho pela literatura, Helena e pelo empenho de Carlos Lopes que vem trilhando o caminho das letras, com abnegação, comum a ambos. É com muito prazer que posso recomendar essa leitura, pois venho acompanhando a trajetória de Carlos, bem de perto, desde a sua primeira publicação impressa. A apresentação de SEGUINDO NA PROSA, por Helena, dispensa maiores comentários, já que ela contemplou com muita clareza, todos os aspectos da obra. Parabéns aos dois. Um grande abraço. (Celedian Assis)

Li todos os livros de Carlos Lopes, posso afirmar que suas histórias são de um realismo puro e irretocável, próprio de pessoas que viveram na pele, ou conheceram de perto quem viveu ou vive a maioria dos fatos narrados. Apesar da dureza de alguns textos, Carlos consegue extrair suavidade e beleza em cada um dos temas que se propõe a escrever. (Maria Mineira)

Temos aqui a prova de que sonhar e fazer valer nossos sonhos sempre é possível quando assim o desejamos. E como é bom ver esses sonhos ganhando vida, na forma de um Ebook assim tão bem construído, tão lindamente concretizado, prontinho para ganhar o mundo. Um livro pronto é isso: poder levar ao mundo um pedacinho do nosso mundo e nada paga essa emoção. E que mundo bonito Carlos nos traz através desta bela parceria com Helena. Muito bom mergulhar nesse universo de quem sabe contar e encantar. Parabéns aos dois. O trabalho ficou maravilhoso, página à página, capa à capa! (Marina Alves)

Para conhecer mais trabalhos de Carlos A. Lopes, e seu Blog e Livro da série Gandavos, basta acessar: AQUI

11 julho, 2022

O cinema de seu Zé das Máquinas - por Carlos Lopes


Por Carlos Lopes

Depois de mais de duas horas chacoalhando dentro de uma boléia de camionete imprópria à cinco pessoas, a velha e fiel Ford 1951 aponta em direção ao centro de Custódia. Pouco havia de expectativa, muito mais de cansaço e desgosto por deixar para trás a cidade de nascimento. De todos, somente eu e o meu pai de nada tinha a reclamar. Ele por ter perdido o que conseguira em anos de trabalho e no meu caso apenas uma criança de nove anos aberto as mudanças da vida. Arregalei bem os olhos para admirar uma velha fubica ano 1929 estacionada na calçada da avenida Manoel Borba. Mais tarde vim a saber pertencer a João Correia.

A primeira casa em que moramos em Custódia foi na rua Coronel Nemésio Rodrigues de Melo. Nossos vizinhos eram os irmãos Vitor. Fernando constrói um carrinho de madeira para mim e estabeleceu-se uma grande amizade entre todos. A casa deles era muito freqüentada e quase sempre se via por lá Marcos e Márcio Moura, que juntamente com seus pais foram de grande importância na nossa chegada já que os conhecia de Tabira, onde tenente Ulisses fora delegado. Logo percebemos que nossa nova casa tinha fundos com o cinema e em dias de exibição dava pra ouvir com nitidez a trilha sonora dos filmes.

Seu Benedito, um senhor aposentado do exército, sentia muito gosto em se pompar usando farda de gala na entrada do seu cinema. Durante o dia atuava como ¨juiz de menor¨ perambulando atrás da criançada. Era um Deus nos acuda quando o velho aparecia com seu tradicional: ¨Espere aí¨. Normalmente findava com nossas brincadeiras de rua, mas em compensação de longe gritávamos: ¨Papagaio Verde!¨ No mesmo prédio do cinema de Seu Benedito surge o Cine Uirapuru, de propriedade de Seu Adolfo, provindo das bandas de Quitimbú. Aliás, a história da cenegrafia custodiense ainda contou com a participação de Zé de Isaias e Adamastor Ferraz, os pioneiros em produzir exibições cinematográficas que se tem conhecimento. Contam que Adamastor certa vez em São Caetano, cobrou a ¨entrada¨ pelo mesmo filme três vezes. Vendo cada rolo de filme terminar e a debandada dos nativos, anunciava novamente o filme e fazia um novo apurado.

Meu pai comprou o cinema de Seu Adolfo por uma quantia bastante razoável ficando um saldo a ser liquidado em pequenas parcelas, sob a alegação de que teria de assim ser feito antes de alguma desavença com algum pai de família. O cinema trouxe ao meu pai a notoriedade que hoje o torna conhecido por várias gerações de pessoas e é impossível quem não o reconheça pelo nome de Seu Zé do Cinema ou Seu Zé das Máquinas. O novo cinema veio a ser registrado oficialmente como Cine Santa Maria, porém foi com o nome Cine Custódia que ficou conhecido. O cinema funcionava na Avenida Inocêncio Lima em um salão de propriedade de um dos seus melhores amigos, o Sr. Guilherme Queiroz. Ele, fiscal de renda do Estado e filho de Nozinho Veríssimo, uma verdadeira lenda do município e também pai de Terezinha Queiroz, a nossa vizinha de frente, isso já na rua Dr. Fraga Rocha.

Como meu pai ¨exibia¨ filmes em outras cidades foi percebendo as inovações e procurava atualizar seu cinema. Daí vieram: piso em declineo, cadeiras apropriadas, ventiladores de teto, tela panorâmica e por fim, aquisição de projetor de 35mm, equipamento pouco comum à maioria dos cinemas da região. Coube ao meu pai exibir o primeiro filme colorido na cidade. E aí tem uma curiosidade. O filme fora produzido em cinemascop e cadê a lente especial? Tentou-se de tudo, inclusive transmitir imagem de espelho para espelho, mas não deu certo. Ninguém reclamou pela imagem comprimida, afinal tratava-se de um filme colorido. Foram infindáveis os títulos exibidos no Cine Custódia, destacando-se: Os canhões de Navarone, Meu ódio será sua herança, A meia-noite levarei tua alma, Os três mosqueteiros, Coração de Luto, Romeu e Julieta, Love story, A mulher do padre, Tarzan e as Amazonas e Teixeirinha e as sete provas. Este último, certa vez Fernando José o batizou de Teixeirinha e as 32 provas. Isto porque sempre que o faturamento caia meu pai o trazia de volta.

Enfim, o Cine Custódia funcionou durante quase uma década como um dos principais pontos de cultura e entretenimento de Custódia. Lá, além de assistir o Repórter Esso, ainda se assistia o filme: ¨A Copa do Mundo de 70¨. Filmes como este, juntamente com ¨O assalto ao trem pagador¨ e ¨Mineirinho vivo ou morto¨, traziam ao cinema até o vigário logal. Quantos namoros não tiveram início durante as sessões? Existia lugar melhor pra uns amassos naquele tempo? Mas nem sempre de glória vivia o cinema. A existência de um único público às vezes levava meu pai a loucura. Quando se instalava na cidade um parque de diversão ou um circo, ocasiões onde nem sempre se conseguia público mínimo que custeasse a exibição, meu pai ia ao desespero. Era hora de procurar outras ¨praças¨ para não deixar faltar comida à mesa. E isso meu pai fez muito bem protagonizando exibições em lugarejos onde nunca havia chegado a sétima arte e ainda fornecia filmes com renda dividida em cidades onde já havia cinema.

Certa feita, fomos ¨passar¨ filme num lugar chamado São Caetano. Na hora da exibição, nenhum pagante. Papai puxa conversa com morador do lugarejo e vem a saber de um lutador de um pequeno circo ter desafiado um ¨lutador¨ local e, naturalmente, todos estavam por lá. Uma meia hora depois lá vem papai acompanhado de umas oito ¨mulheres de vida fácil¨, lá de Custódia, que como nós foram faturar com a festa de rua do lugar. A mim foi entregue um disco de 78 rpm com a recomentação de que ficasse virando de um lado para outro, por ser o único disco. A segunda recomendação era coisa de pai pra filho: focar no som, nada de olhar a dança. Aqui aculá meu pai passava o chapeu e a matutada contribuia de forma satisfatória. No dia seguinte, o capim do quintal estava todo abaixadinho. Anos depois ainda havia ¨senhoras¨ me perguntando: ¨Ei menino, quando é que teu pai vai fazer outro forró daquele?¨ Minha mãe é que não gostou nada daquele acontecido!

No final da década de 70, o Cine Custódia fecha as portas encerrando a fase romântica do cinema no interior. Digo isto porque dezenas de outros cinemas também assim procederam. A televisão de ótima imagem e som, estava acessível a todos. Mesmo cinemas famosos não foram páreo às programações gratuitas, entre eles: Bandeirantes (Arcoverde), São José (Afogados da Ingazeira e Alvorada (Tabira). Em nome do meu pai, gostaria de aproveitar esta oportunidade para registrar o nome de pessoas que contribuíram com o cinema durante quase uma década sem receber uma prata sequer como pagamento. Foram valiosas as locuções feitas por José Melo e Fernando José, mesmo quando meu pai fazia exibição em outras localidade era a voz deles nas primeiras viagens, depois ficou sendo a de papai mesmo . Fica um agradecimento ao já falecido Humberto de João Anjo por ter sido o nosso primeiro operador de som e do projetor. Um carinho todo especial ao nosso Severino do Rádio pelos tantos reparos em nossos equipamentos. Alguém gritava: ¨Cadê o som¨. Meu pai dizia: ¨Chamem Severino!¨ Sem os amigos Guilherme Queiroz e Claudinete Simões o cinema não teria funcionado por muito tempo. O primeiro ¨esquecia¨ de cobrar o aluguel e ao segundo cabia o financiamento de filmes em épocas difíceis. Por fim, um agradecimento muito grande ao amigo da família Pedro Vitor. Este foi o fiel escudeiro da paz e da tranqüilidade em suas atribuições diárias pela cidade e a noite era o nosso anjo da guarda. Coitado, assistia até cinco vezes o mesmo filme. Sempre ao lado de Rosa, na época sua namorada. Quando lá não estava, aos primeiros ¨sapateados da turma¨ meu pai dizia: ¨Chama Pedrin¨. E Pedro ao entrar, dizia em alto e bom som: ¨Pessoal, eu estou aqui¨. A fita podia partir por vezes (e partia mesmo) e ninguém reclamava.

Com a chegada da televisão até a praça ficou vazia. A mulherada só desciam após a novela das oito. Houve até quem cobrasse entrada em sua residência daqueles desprovidos de um aparelho de receptor. Por estas e outras o prefeito Luizito disponibiliza um aparelho a céu aberto a quem quisesse assistir. Ao meu pai, coube perceber a chegada da hora do descanso de uma vida de trabalhos onde perambulou pelas mais diversas profissões. Isto porque aos nove anos de idade saiu de casa para trabalhar pelo simples prato comida. De lá pra cá, foi agricultor, carreiro, pedreiro, vendedor de ovos, vendedor de sapatos na feira, dono de padaria, militar, comerciante de móveis, entre outras. Prosperidade mesmo só no início dos anos sessenta quando se tornou um dos principais comerciantes da região do Pajeú. O rádio já existia mas foi o meu pai que o popularizou. O preço foi alto demais para uma pessoa acostumada a uma vida singela. Em um triste cair de tarde do ano de 1968 deixamos Tabira, enxotados pelas dívidas e pelo desencanto pelo lugar. Outra cidade teria que nos abraçar e por certo que nisto fomos felizes. Custódia representou o porto seguro em um momento de aflição, onde era difícil tomar um rumo certo ou dar sentido ao rumo. E por isso, só temos a dizer: 

Obrigado gente de Custódia!

Ps.
Venho por meio dessa mensagem mostrar meu profundo sentimento pelo ocorrido. Infelizmente nem tudo acontece como imaginamos, mas Deus sabe o que faz. O Blog Custódia se solidariza com todos componentes da família do sr. Zé das Máquinas, em especial, ao filho, colaborador e amigo em particular Carlos Lopes.

Paulo Peterson

22 junho, 2022

Nós e os Violados - por Carlos Lopes




por CARLOS LOPES

Naquela primavera de 1979 os dias eram iguais aos anteriores e muito parecidos aos tantos das outras estações do ano. Além dos ensaios com a banda marcial do Colégio Padre Leão, por conta do 11 de setembro, só nos restava fazer circular um jornal cujo batismo era ¨O Grito¨.


Este apesar do bom conteúdo e dos ótimos colaboradores o taxaram de ser ¨meio¨didático.
Em meio aos festejos do aniversário do município constava na programação um show do então badalado Quinteto Violado. O conjunto instrumental que se caracterizou pela interpretação de músicas nordestinas seria uma atração e tanto a um lugar carente de entretimentos. O grupo musical atravessava o seu melhor momento, inclusive com reconhecimento a nível nacional. Na própria casa de disco local havia a disponibilidade do primeiro disco e dos álbuns mais recentes Antologia do baião (1977), Missa do vaqueiro (1976 e Até a Amazônia (1978). Afinal, Gilberto Gil havia definido o grupo como ¨free nordestino¨ e Caetano Veloso afirmou textualmente ser a novidade na música brasileira.

Pela manhã com Fernando José formulamos as perguntas a serem feitas ao Quinteto e a abordagem ficou definida acontecer no cair da tarde. Um pouco antes do horário previsto chego à casa do amigo, em pânico. Concordamos da necessidade do apoio de alguém a altura daquela tarefa. A tarde caia quando eu, Antônio Remígio, Fernando José e o colaborador do ¨Grito¨ Peter Peterson(Dr. Pedro Pereira) chegamos ao hotel Macambira. Minutos depois Marcelo Melo estava diante de nós. O salão de janta estava vazio e por mais de uma hora desfrutamos também da companhia de Toinho, Fernando, Luciano e Ciano que chegaram aos poucos.


A apresentação do grupo se deu no oitão da igreja e depois fui pra casa transcrever a entrevista, na maior ansiedade de fechar a edição. Dois dias depois estávamos fazendo a impressão quando faltou tinta no mimeógrafo. Busquei o produto na prefeitura e antes que a matriz, em papel chamado estêncil, danificasse peguei o carro lá de casa e fui ao DNOCS conseguir a tal tinta. Logo depois da Pindoba me deparei com uma patrulha rodoviária. ¨O senhor sabe a que velocidade estava?¨ ¨Uns 80km, acho¨. Depois de saber ter passado dos 120km, o guarda pediu a habilitação. Evidentemente, eu não tinha. Então solicitou descer do veículo. Respondi: ¨O senhor multe no que for preciso, pois não tenho tempo pra conversas¨. Pisei até o fundo do acelerador!

O escritório ficava junto à rodovia e como conhecia o pessoal em minutos tinha a bisnaga na mão. Era uma reta e os guardas avistaram o Chevette sendo manobrado. Um deles praticamente ficou no meio da pista fazendo sinal para que eu parasse. Passei a uns 140km sem nem olhar pra trás. Meu pensamento: ¨Até eles me alcançarem eu já estou dentro da cidade e lá não tem jurisdição¨. Não foi uma hora e meu pai já sabia do ocorrido. O prefeito foi lá e conseguiu cancelar as quatro multas aplicadas, entre elas, desacato a autoridade.

No dia seguinte passamos à tarde na Praça Padre Leão vendendo jornal cujo grito de misericórdia era: ¨Estudantes de Custódia perguntam ao Quinteto Violado¨. Foi uma festa! Uns comprava pela entrevista, outros pela vontade de contribuir e havia também os que evitam a rotulação de anticultural. Era o tempo em que quem sabia tinha o gosto de repassar a informação. Quem transitasse de carro ou a pé, não escapava dos apelos meio desesperados. Afinal eu, Fátima Ferreira, José Assis e José Eugênio rodamos exemplares aos montes. No cair da tarde, restavam apenas uns trinta. Sobra, nem pensar! Fomos de porta em porta até liquidar a fatura. Exaustos, olhamos um pro outro, com a sensação dever cumprido. Todos queriam comida e cama. ¨Desta vez ninguém taxa o jornal de didático¨, disse-lhes. ¨É cultura e informação¨, acrescentei. Nada em contrário. Então cada um seguiu em busca do seu lar. Afinal, não é todo dia que se tem a oportunidade de entrevistar o Quinteto Violado.


Texto Carlos Lopes

11 abril, 2022

O ressurgimento do Grupo Teatral Os Gândavos - por Carlos Lopes


Como falei anteriormente em matéria publicada neste blog (Sobre o Grupo Teatral Astecas), no dia seguinte da apresentação de Pluft o Fantasminha, de Maria Clara Machado, Paulo Andrade me procurou na saída do cinema, dizendo-se satisfeito com nosso desempenho e queria contribuir com o grupo. Estava nascendo ali um novo Grupo Teatral. Aliás, o ressurgimento do Grupo Teatral Os Gândavos, fundado inicialmente por Domingos Sávio, Fernando José, Jussara Burgos, Antônio Remígio, entre outros.

Paulo Andrade chegou a nossa cidade como um dos funcionários pioneiros do Banco do Brasil, provindo de Caruaru, onde foi engajado na arte de representar e em outros trabalhos comunitários. A partir deste momento os ensaios passaram a ser elaborados, inclusive com marcação de palco. Paulinho não só trouxe de sua cidade natal um empilhamento de ensinamentos, mas também sua ilustre esposa que se incorporou ao grupo na peça: “Morre um Gato na China”. O elenco foi composto pelo próprio Paulo Andrade no papel de Gastão, Célia Regina como Liane, cabendo a mim o personagem Sérgio, enquanto Antônio Remígio nos dava segurança no ponto.

¨Morre um Gato na China”, foi encenada no Centro Lítero Recreativo de Custódia, em primeira instância, no dia 23 de novembro de 1977. A obra prima de Pedro Bloch ficou encravada na história da dramaturgia local como a mais sucedida montagem e também como a única capaz de arrancar lágrimas da pláteia. A peça ainda foi levada às cidades de Monteiro na Paraíba e a Serra Talhada, onde foi encenada no Colégio Nossa Senhora de Fátima.

A segunda metade da década de setenta é positivamente o expoente maior da cultura custodiense. Além das tantas peças montadas por membros da própria comunidade, naqueles anos recebemos o ilustre fenômeno Nino Honorato com os monólogos: “As Mãos de Eurídice”, “Esta Noite Choveu Prata” e “A entrada de Lampião no Inferno”. Através de Paulo Andrade veio de Caruaru as peças “A Segunda Virgindade”, e a premiadíssima “Rua do Lixo 24”, apresentada em 21 de janeiro de 1978, pelo Grupo Feira de Caruaru, do próprio Vital Santos.

Com este grupo nascia também uma consciência coletiva no teatro custodiense. Esta mudança de mentalidade foi constatada durante e após as apresentações de ¨A Entrada de Lampião no Inferno,¨ e “A Segunda Virgindade.¨ Ou seja, as pessoas em sua maioria iam às peças por ser ¨uma novidade¨ mas não assimilavam bem o conteúdo. A partir daquele momento decidimos que os textos seriam de criação do próprio grupo.

Sob a direção de Paulinho, no dia 6 de março de 1978 fizemos três apresentações da peça de minha autoria “Como é Difícil Viver”, nos colégios: Técnico Joaquim pereira, Padre Leão e Joaquim Inácio. Logo no final da primeira apresentação, a estudante Leny ao ser entrevistada respondeu: “Gostei porque entendi”. A esta altura contávamos com os atores Fátima Ferreira, Magdália Chavier, José Wilson, Luciano Washington, Lúcia Maria, Luís William e Angélica Ferreira. No dia 3 de maio de 1978 estreamos: “Pedido de Casamento”, também de minha autoria. A partir daí compus mais seis peças: “Uma Vaga de secretária”, “Autarquia”, “O Filho Pródigo”, “Um caso Diferente”, “Rua Torta” e “O Ladrão que Nada Roubou”.

A exemplo da geração anterior chegara a hora de nos tornamos cidadãos do mundo. Paulo e Célinha se mudaram para Gravatá. Outros como eu, desceram ao nível do mar buscando faculdades e empregos. No apagar das luzes, com Marleide Espídola, Fátima Ferreira, José Eugênio, José Assis e uma gama de excelentes colaboradores, fundamos um jornal de circulação mensal sob o título “O Grito”, e assinei matérias em duas edições do Jornal Custódia Hoje.

Autor: Carlos Lopes - Olinda/PE


01 fevereiro, 2022

09 janeiro, 2022

Grupo Teatral Os Gândavos



Grupo de teatro custodiense OS GÂNDAVOS.

Foi encenada com o Título ¨Égua Gorda¨ em 03 de maio de 1978, no Colégio Técnico Joaquim Pereira, horas antes houve uma apresentação na Escola Municipal Padre Leão.

No dia 19 de agosto de 1980, no Centro Lítero Recreativo de Custódia, como parte da programação da Primeira Semana Cultural de Custódia. Se chamava ¨Pedido de Casamento¨ e contava com um tempo de duração, de uns 70 minutos.

Blog Família Lopes e Santos



11 novembro, 2021

A hora crepuscular - por Carlos Lopes



Autora: Osminda Carneiro

A tarde cai lentamente.

Seis horas é à hora do ângelus, da prece e do perdão. Hora em que o camponês com seus músculos contraídos El quebrados pela luta árdua e penosa da lida cotidiana, cabisbaixo dobra a sua fronte, eleva o seu pensamento para o altíssimo e pede para que os seus trabalhos sejam abençoados.

A passarada vibrante de alegria executa o último número da sua melodia e regressa de par em par para o seu morno ninho, a fim de aquecer os seus filhotinhos.

No pátio da casa grande da fazenda já se ver um rebanho de ovelhas alvas como flocos de algodão, formando assim um tapete de Arminho, para depois de alguns minutos serem banhado pelo clarão da lua cheia, esta candeia fulgurante, que vagueia pelo espaço, fazendo clarear toda imensidão, garbosa, sutil e bela, bailando como uma princesa no amplo firmamento, distribuindo alegria e poesia aos corações apaixonados.

Finalmente, a tarde morre para dar lugar ao novo dia.

E assim neste perpassar de lutas é a nossa vida inteira, sem estacionamento e sem uma felicidade completa porque cada dia a vida piora, ninguém se entende não existe amor.

O custo de vida não corresponde ao que se ganha, enquanto isso o Brasil cresce e se desenvolve, para frente altaneiro, querendo ser potência, indiferente ao drama dos seus míseros habitantes.

Ps. Quando pensei em criar o jornal ¨O Grito¨ primeiro busquei os colaboradores e em seguida convidei colegas para materializar a idéia. A primeira colaboradora visitada foi Osminda Carneiro que de imediato aceitou escrever uma matéria por edição. A hora crepuscular foi publicada na edição III, do ano de 1979, em Custódia PE.

Publicado Originalmente: Gandavos - Os contadores de História

31 outubro, 2021

História da Banda Mauro César - por Carlos Lopes


Comentário do colaborador e blogueiro custodiense CARLOS LOPES, 
sobre  BANDA MARCIAL MAURO CESAR:

A banda já existia, não lembro de ter um nome específico, apenas lembro que diziam: ¨A banda do ginásio Padre Leão¨. Aí, aconteceu o acidente automobilístico e morreu nosso companheiro de banda Mauro César. A banda foi então batizada em sua homenagem... 

Mauro Cesar tocava um tarol que era uma beleza, mesmo caso de Genildo Pereira, que também tocava tarol. Ou seja, Mauro César era membro da banda, filho de Expedito da Movelaria. Portanto nada mais justo que dar o nome dele a banda. A banda do Ginásio Padre Leão era pequena, ela cresceu justamente a partir da minha turma (eu, Genildo, Mauro Cesar). Antes eram poucos instrumentos, você pode conferir vendo fotos do seu tio Gilson, Jorge Remigio, etc. 

Dona Sila foi a responsável pelo crescimento da banda, claro, juntamente como outras pessoas, tipo Dr Orlando, Silvio Carneiro, etc. A banda renovou os instrumentos e incluiu muitos instrumentos de sopro. Ou seja, chegamos a tocar em outras localidades por que a gente tinha em mente a banda de Serra Talhada, nosso referencial. Neste tempo houve rivalidade entre bandas e muitas vezes faziam filas para vaiar a nossa ao passar. Mas, era uma coisa natural, cada colégio queria ter a melhor banda ... a nossa estava a mil de vantagem. 

O nosso principal uniforme era branco, como podem conferir na foto. Teve ano em que fizemos (independente da alunada) verdadeiras apresentações na frente da prefeitura ... era uma banda e tanto! 

Toquei sete anos na banda (cinco de Padre Leão e Dr. Pedro Pereira me dispensava para eu tocar na banda adversária). Pedro sempre foi 10 comigo. Fui pra Brasília representar Custódia por escolha do teu pai ... sempre foi amigo. 

Isso é o que lembro. Não sei se ajuda no teu trabalho.

Carlos Lopes
15/09/2011

08 outubro, 2021

Amigos, eternos amigos - Por Carlos Lopes


Faz tempo que queria escrever sobre o tema amigos. Falar daquela sensação boa que é poder contar com eles, independente da enrascada que se meteu. Unifiquei algumas fotos, pois somente assim poderia reuni-los. Afinal, Dona Vida tratou de mandar cada um pra um canto diferente. Porém não quero falar de qualquer amigo e sim daqueles lá da infância. Aqueles que cresceram com a gente. São os mesmos que num determinado tempo pensavam e agiam num só pensamento. Todos queriam a mesma namorada, o mesmo filme e os mesmos gibis. Alguns deles brilharam em nossas vidas, mas logo cedo subiram ao céu. 

A grande maioria ficou na terra, viraram adultos e evidentemente se tornaram pessoas diferentes. Rubens (Binha) foi um sujeito autêntico, inteligente e batia um violão como ninguém. A foto representa o primeiro retorno de Brasília. Algum tempo depois voltou em definitivo com a saúde totalmente comprometida. A foto com Genildo foi tirada num 7 de setembro antes do desfile.  O diretor da escola (meio embriagado) resolve revisar a tropa. Por termos consciência da gravata presa por elástico buscamos Quinca Fotógrafo segundos antes da nossa vez. Escapamos!  Na foto central a garotada não estava na praia de Boa Viagem e sim numa barragem a sangrar por contas da boa invernada. Eu, Jefferson e Fernando, entre outros, não perdíamos um banho de barragem ou açude. 

Logo abaixo aparece a galera em pose de ¨na falta disso vai assim mesmo¨. Houve uma época em que íamos receber uma foto e já tirávamos outra, sempre improvisando. E por ultimo, uma foto de natal no interior do bar Sabazinho, onde além de mim aparece Enildo, Fernando, Antônio e Carlos Nunes.  Aos que não sabem, no centro da Praça Padre Leão (outrora praça de baixo) funcionou um bar por muitos e muitos anos. Enfim, esses garotos cresceram e tomaram jeito de homens e até esqueceram alguns sonhos. Porém nunca e jamais vão esquecer-se dos amigos de infância e da adolescência. É sempre uma surpresa agradável esbarrar com essa galera em algum fim-de-ano. Afinal, temos lembranças em comum guardadas lá no fundo dos nossos corações, vividas na década de setenta.

Por Carlos Lopes

04 outubro, 2021

Livro: Dedos de Prosa de Carlos Lopes - por Nêodo Ambrosio de Castro



Esse livro de Carlos Lopes é simplesmente maravilhoso. 

Trata-se de uma coletânea de escritos que relatam fatos interessantes e intrigantes da vida real. Vida de um menino que logo se fez adulto, o qual narra com maestria, fatos interessantíssimos da vida em sua região. Convívio com os amigos, lições de vida e fatos corriqueiros, mas que nos faz viajar de nossa infância à fase adulta. 

É sem dúvida uma narração de acontecimentos que se passam nas vidas de todos nós e ao lermos temos a nítida impressão de que estamos ali, como protagonistas olhando ou participando de seus relatos, tal a forma delicada e repleta de exemplos de bem viver que só pode nos deixar saudades. Saudades da infância, da juventude, dos tempos de escola, das viagens do sertão para a capital, experiências e descobertas de coisas que uma criança crescida em uma pequena localidade, consegue encontrar na cidade grande. 

Sem qualquer dúvida esse livro poderá nos proporcionar momentos únicos de alegria, de tristezas, trazer-nos saudade e principalmente nos arremeter àqueles tempos onde éramos todos felizes, inocentes, mas que já tínhamos formado, em nosso caráter, o sentimento de responsabilidade, de honestidade, caridade e o de perda. Assim como a compreensão do que era errado ou certo. Sentimentos transmitidos pelos mais velhos, que se preocupavam com o nosso futuro. 

É um livro maravilhoso, cheio de temperos para todos os gostos. 

Recomendo-o para todos, sem exceção. 

Nêodo Ambrosio de Castro – Eugenópolis/RJ 

Vendas: 

07 setembro, 2021

O Cinema de seu Zé das Máquinas - por Carlos Lopes


Depois de mais de duas horas chacoalhando dentro de uma boléia de camionete imprópria à cinco pessoas, a velha e fiel Ford 1951 aponta em direção ao centro de Custódia.  Pouco havia de expectativa, muito mais de cansaço e desgosto por deixar para trás a cidade de nascimento. De todos, somente eu e o meu pai de nada tinha  a reclamar. Ele por ter perdido o  que conseguira em anos de trabalho e no meu caso apenas uma criança de nove anos aberto as mudanças da vida. Arregalei bem os olhos para admirar uma velha fubica ano 1929 estacionada na calçada da avenida Manoel Borba. Mais tarde vim a saber pertencer a João Correia.


A primeira casa em que moramos em Custódia foi na rua Coronel Nemésio Rodrigues de Melo. Nossos vizinhos eram os irmãos Vitor. Fernando  constrói um carrinho de madeira para mim e estabeleceu-se uma grande amizade entre todos. A casa deles era muito freqüentada e quase sempre se via por lá  Marcos e Márcio Moura, que juntamente com seus pais foram de grande importância na nossa chegada já que os conhecia de Tabira, onde tenente Ulisses fora delegado. Logo percebemos que nossa nova casa tinha fundos com o cinema e em dias de exibição dava pra ouvir com nitidez a trilha sonora dos filmes. 

Seu Benedito,  um senhor aposentado do exército, sentia muito gosto em se pompar usando farda de gala na entrada do seu cinema. Durante o dia atuava como  ¨juiz de menor¨  perambulando atrás da criançada.  Era um Deus nos acuda quando o velho aparecia com seu tradicional: ¨Espere aí¨. Normalmente findava com nossas brincadeiras de rua, mas em compensação de longe gritávamos: ¨Papagaio Verde!¨ No mesmo prédio do cinema de Seu Benedito surge o Cine Uirapuru, de propriedade de Seu Adolfo, provindo das bandas de Quitimbú. Aliás, a história da cenegrafia custodiense ainda contou com  a participação de Zé de Isaias e Adamastor Ferraz, os pioneiros em produzir exibições cinematográficas que se tem conhecimento. Contam que Adamastor certa vez em São Caetano, cobrou a ¨entrada¨ pelo mesmo filme três vezes. Vendo cada rolo de filme terminar e a debandada dos nativos, anunciava novamente o filme e fazia um novo apurado.

Meu pai comprou o cinema de Seu Adolfo por uma quantia bastante razoável ficando um saldo a ser liquidado em pequenas parcelas, sob a alegação de que teria de assim ser feito antes de alguma desavença com algum pai de família. O cinema trouxe ao meu pai a notoriedade que hoje o torna conhecido por várias gerações de pessoas e é impossível quem não o reconheça pelo nome de Seu Zé do Cinema ou Seu Zé das Máquinas. O novo cinema veio a ser registrado oficialmente como Cine Santa  Maria, porém foi com o nome Cine Custódia que ficou conhecido.  O cinema funcionava na Avenida Inocêncio Lima em um salão de propriedade de um dos seus melhores amigos, o Sr. Guilherme Queiroz. Ele, fiscal de renda do Estado e filho de Nozinho Veríssimo, uma verdadeira lenda do município e também pai de Terezinha Queiroz, a nossa vizinha de frente, isso já na rua Dr. Fraga Rocha.

Como meu pai ¨exibia¨ filmes em outras cidades foi percebendo as inovações e procurava atualizar seu cinema. Daí vieram: piso em declineo, cadeiras apropriadas, ventiladores de teto, tela panorâmica e por fim, aquisição de projetor de 35mm, equipamento pouco comum à maioria dos cinemas da região. Coube ao meu pai exibir o primeiro filme colorido na cidade. E aí tem uma curiosidade. O filme fora produzido em cinemascop e cadê a lente especial? Tentou-se de tudo, inclusive transmitir imagem de espelho para espelho, mas não deu certo. Ninguém reclamou pela imagem comprimida, afinal tratava-se de um filme colorido. Foram infindáveis os títulos exibidos no Cine Custódia, destacando-se: Os canhões de Navarone, Meu ódio será sua herança, A meia-noite levarei tua alma, Os três mosqueteiros, Coração de Luto, Romeu e Julieta, Love story, A mulher do padre, Tarzan e as Amazonas e Teixeirinha e as sete provas. Este último, certa vez Fernando José o batizou de Teixeirinha e as 32 provas. Isto porque sempre que o faturamento caia meu pai o trazia de volta.

Enfim, o Cine Custódia funcionou durante quase uma década como um dos principais pontos de cultura e entretenimento de Custódia. Lá, além de assistir o Repórter Esso, ainda se assistia o filme: ¨A Copa do Mundo de 70¨. Filmes como este, juntamente com ¨O assalto ao trem pagador¨ e ¨Mineirinho vivo ou morto¨, traziam ao cinema até o vigário logal. Quantos namoros não tiveram início durante as sessões?  Existia lugar melhor pra uns amassos naquele tempo?  Mas nem sempre de glória vivia o cinema. A existência de um único público  às vezes levava meu pai a loucura. Quando se instalava na cidade um parque de diversão ou um circo, ocasiões onde nem sempre se conseguia público mínimo que custeasse a exibição, meu pai ia ao desespero.  Era hora de procurar outras ¨praças¨ para não deixar faltar comida à mesa. E isso meu pai fez muito bem protagonizando exibições em lugarejos onde nunca havia chegado a sétima arte e ainda fornecia filmes  com renda dividida em cidades onde já havia cinema.  

Certa feita, fomos ¨passar¨ filme num lugar chamado São Caetano. Na hora da exibição, nenhum pagante. Papai puxa conversa com morador do lugarejo e vem a saber de um lutador de um pequeno circo ter desafiado um ¨lutador¨ local e, naturalmente,  todos estavam por lá. Uma meia hora depois lá vem papai acompanhado de umas oito ¨mulheres de vida fácil¨, lá de Custódia, que como nós foram faturar com a festa de rua do lugar. A mim foi entregue um disco de 78 rpm com a recomentação de que ficasse virando de um lado para outro, por ser o único disco.  A segunda recomendação era coisa de pai pra filho: focar no som, nada de olhar a dança.  Aqui aculá meu pai passava o chapeu e a matutada contribuia de forma satisfatória. No dia seguinte, o capim do quintal estava todo abaixadinho. Anos depois ainda havia ¨senhoras¨ me perguntando: ¨Ei menino, quando é que teu pai vai fazer outro forró daquele?¨ Minha mãe é que não gostou nada daquele acontecido!

No final da década de 70, o Cine Custódia fecha as portas encerrando a fase romântica do cinema no interior.  Digo isto porque dezenas de outros cinemas também assim procederam. A televisão de ótima imagem e som, estava acessível a todos. Mesmo cinemas famosos não foram páreo às programações gratuitas, entre eles: Bandeirantes (Arcoverde), São José (Afogados da Ingazeira e Alvorada (Tabira). Em nome do meu pai, gostaria de aproveitar esta oportunidade para registrar o nome de pessoas que contribuíram com o cinema durante quase uma década sem receber uma prata sequer como pagamento. Foram valiosas as  locuções feitas por José Melo e Fernando José,  mesmo quando meu pai  fazia exibição em outras localidade era a voz deles nas primeiras viagens, depois ficou sendo a de papai mesmo .  Fica um agradecimento ao já falecido Humberto de João Anjo por ter sido o nosso primeiro operador de som e  do projetor. Um carinho todo especial ao nosso Severino do Rádio pelos tantos reparos em nossos equipamentos. Alguém gritava: ¨Cadê o som¨. Meu pai dizia: ¨Chamem Severino!¨ Sem os amigos Guilherme  Queiroz e Claudinete Simões o cinema não teria funcionado por muito tempo. O primeiro ¨esquecia¨ de cobrar o aluguel e ao segundo cabia o financiamento de filmes em épocas difíceis. Por fim, um agradecimento muito grande ao amigo da família Pedro Vitor. Este foi o fiel escudeiro da paz e da tranqüilidade em suas atribuições diárias pela cidade e a noite era o nosso anjo da guarda. Coitado, assistia até cinco vezes o mesmo filme. Sempre ao lado de Rosa, na época sua namorada. Quando lá não estava, aos primeiros ¨sapateados da turma¨ meu pai dizia: ¨Chama Pedrin¨. E Pedro ao entrar, dizia em alto e bom som: ¨Pessoal, eu estou aqui¨. A fita podia partir por vezes (e partia mesmo) e ninguém reclamava.

Com a chegada da televisão até a praça ficou vazia. A mulherada só desciam após a novela das oito. Houve até quem cobrasse entrada em sua residência daqueles desprovidos de um aparelho de receptor.  Por estas e outras o prefeito Luizito disponibiliza um aparelho a céu aberto a quem quisesse assistir. Ao meu pai, coube perceber a chegada da hora do descanso de uma vida de trabalhos onde perambulou pelas mais diversas profissões.  Isto porque aos nove anos de idade saiu de casa para trabalhar pelo simples prato comida. De lá pra cá, foi agricultor, carreiro, pedreiro, vendedor de ovos, vendedor de sapatos na feira, dono de padaria, militar, comerciante de móveis, entre outras.  Prosperidade mesmo só no início dos anos sessenta quando se tornou um dos principais comerciantes da região do Pajeú. O rádio já existia mas foi o meu pai que o popularizou. O preço foi alto demais para uma pessoa acostumada a uma vida singela.  Em um triste cair de tarde do ano de 1968 deixamos  Tabira, enxotados pelas dívidas e pelo desencanto pelo lugar.  Outra cidade teria que nos abraçar e por certo que nisto fomos felizes. Custódia representou o porto seguro em um momento de aflição, onde era difícil tomar um rumo certo ou dar sentido ao rumo. E por isso, só temos a dizer: Obrigado gente de Custódia!

Por Carlos Lopes 
 

 

23 agosto, 2021

Coisas de quem não tem o que fazer - por Carlos Lopes

Foto e texto: Carlos Lopes

No final da década de setenta com Antônio Remígio tínhamos algo em comum, além de bons amigos, gostar de caminhar pelas ruas da cidade. Sempre que o sol dava sinal de cansaço, percorríamos longos trechos, seja pelas ruas ou nos arredores de Custódia. Não havia nenhum motivo específico, apenas uma rotina tipo comer doce de leite no Posto de Seu Nivaldo, exceder-se no vai-e-vem nas ruas das paqueras e beber cajuina numa bodega na rua da bomba. Era andar pelo prazer de bater perna, tão somente e, simplesmente isso. Durante o trajeto a conversa girava em torno dos nossos sonhos futuros além dos limites municipais. Antônio falava de Cárceres no Mato Grosso e eu de prosperar em Americanas, SP. Foi não foi, surgia de espanto: ¨Epa! Já passamos por aqui.¨ Sabe que fazíamos? Atirávamos um chinelo ao céu e aonde apontasse ao cair seria o nosso norte, mesmo que já tivéssemos passado naquela rua.

Muitos anos se passaram e, nessa sexta-feira santa passada, ao percorrer a Rua José Thomás, esbarrei na curiosidade de rever ¨o curral de Luizito¨, como assim é conhecido. Não me contive e tirei algumas fotos. Aquela porteira bem ali a minha frente me conduziu a uma outra Custódia que carregava o estigma de encalhada por ficar localizada entre cidades maiores. Lembrei de Dona Terezinha e minha mãe preparando lanches e tudo mais para com Jefferson caçar de arco e flecha naquela verdadeira floresta que surgia logo depois da casa de Seu Belchior, chamada ¨As Baraúnas¨. Não foi sem propósito a permanência de uma baraúna em frente ao Colégio Polivalente. Pra encurtar a história, resolvi percorrer as ¨outroras pontas de ruas¨ da cidade, só pra ter certeza de como estava cada local da meia-volta em nossas andanças.

As fotos que se seguem a essas lembranças é o resultado da surpresa dessa semana santa de 2011: A maior parte das pontas de ruas de outrora ainda permanecem lá, intactas. É evidente que a cidade cresceu em dobro e no melhor e mais bonito estilo possível. Mas, parece que por pirraça ou coisas da vida, em alguns casos sequer há indícios de que algo foi alterado. No caso onde residia Dona Áurea, mãe de Luciana, até parece que o tempo parou, a não ser pelo visual de um condensador de split que nos remete aos novos tempos. A Custódia que parava ali, dali mesmo nunca saiu. Outros casos, só de olhos bem arregalados pra perceber que ainda existe, no caso o curral de Zé Nazaro, próximo ao cemitério. Não sou vaqueiro nem criador mas fiquei feliz pela permanência das tantas cancelas e do odor causado pelas fezes animais dos tantos currais. Aqueles que passam pelos ¨cantos¨ citados, nem devem me entender, mas se forem bem atentos perceberão que falo a verdade. Lá estão, um ¨caminhão¨ de cancelas em meio a uma cidade moderna. A bem da verdade, o custodiense de um modo geral não costuma poupar seus monumentos históricos. A secular calçada da igreja foi recentemente desfigurada, sepultando parte de um projeto arquitetônico e também as milhares de lembranças das gerações que se sucederam ao longo dos anos.



24 agosto, 2020

Grupo Teatral Astecas - por Carlos Lopes




Nos anos setenta, a vizinha cidade de Sertânia foi exemplo no esporte e na cultura. Os seus fabulosos jogadores de handebol foram à alma da seleção estadual e a cada ano o número elevado de alunos que ingressavam nas universidades recifenses não era novidade pra ninguém. No teatro não foi diferente, todo mundo sabia do Grupo Teatral Disparada.

Em 1974, a nata dos estudantes custodienses apresenta uma peça teatral composta a partir de um folheto de cordel, onde a convite de Fernando José interpretei um personagem de poucas falas. O Grupo Teatral Os Gândavos foi de suma importância a tantos jovens que viram na dramaturgia uma forma de se aculturar e proporcionar entretenimento a uma sociedade muito fechada e de poucas oportunidades.

Além de consideráveis montagens, o grupo mantinha-se sintonizado com o Serviço Nacional de Teatro, recebendo orientações, revistas e apoio técnico, estimulante aos grupos que se formaram posteriormente. Com o passar dos anos houve o esvaziamento natural de estudantes que migraram às grandes universidades do país. 

Em 1976, juntamente com Ione Miro, Nalva Aleixo, Gisoleide Ferreira, Maria de Fátima, Carlos Nunes e Edilene Feitosa foi criado o Grupo Teatral Astecas. Meses depois, no dia 8 de setembro de 1976 estreamos com a peça ¨A Pobreza Envergonhada”, no Colégio Municipal Padre Leão, de onde todos éramos alunos.

A curta trajetória deste grupo foi marcada pela montagem da peça infantil de Maria Clara Machado, “Pluft o Fantasminha”. A esta altura alguns novos membros foram incorporados e já tínhamos um aparato técnico compatível evitando as gafes iniciais. A apresentação foi feita com sucesso no Colégio Municipal Padre Leão, e em seguida, no dia 21 de abril de 1977, fizemos apresentação para os alunos do Colégio General Joaquim Inácio. Na platéia havia um casal muito especial. Os caruaruenses Paulo Andrade e sua esposa Célia Regina me procuraram no dia seguinte se dizendo satisfeitos com o nosso desempenho. Estava nascendo ali um novo grupo teatral. Aliás, o ressurgimento do Grupo Teatral Os Gândavos. Mas aí é uma outra história.

Por Carlos Lopes
Foto: Peça Morre Um Gato na China

20 agosto, 2020

Banda Marcial Mauro Cesar - por Carlos Lopes



A foto acima lembra o meu ingresso na Banda Marcial do Ginásio Municipal Padre Leão. Terminado o primeiro ensaio visando o sete de setembro de 1973, desesperado bati a porta da minha eterna diretora, Dona Sila. Queria fazer parte da banda evitando os costumeiros: ¨Balança os braços¨, ¨você está fora da linha¨ e ¨olhe firme pra frente¨, atribuições do primeiro da fila. 

Entender meus motivos, até que Dona Sila entendeu, mas não havia instrumentos disponíveis. Meu gancho foi um surdo que Pedrinho de Dona Pura havia estourado o couro no dia anterior. Saí dali com o instrumento às costas, mas desfilar como pelotão de fila, nem pensar! Rasguei a perna de uma calça de um tecido semelhante a um Jeans e mamãe se pós a costurar o que sobrou do couro sobre o tecido. 

No dia seguinte lá estava eu na banda. Tocar até tocava, mas fazia um pouco de conta como ninguém. Dias depois Dona Sila adquiriu um couro novo e assim fui componente da banda Marcial Mauro César por sete anos, mesmo já estudando no Colégio Técnico Joaquim Pereira.

Texto: Carlos Lopes

10 outubro, 2013

Gândavos - Terceiros contos é lançado na Bienal Internacional do Livro






Agradeço a todos que prestigiaram a minha passagem pela IX Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, na tarde de hoje, no Centro de Convenções de Olinda - Pernambuco. Com mais calma farei um relato melhor do acontecido e certamente que citarei nomes de pessoas que fizeram a diferença para que este ¨meu momento¨ foi concretizado. 

Obrigado Recife, Obrigado Olinda, obrigado amigos e obrigado a todos que por conta do evento ali se fizeram presentes.

Carlos Lopes do Blog Gândavos

07 outubro, 2013

Livro Gandavos Terceiros Contos na IX Bienal Internacional do Livro


Amigos do Recife e da Região Metropolitana, é chegada a hora! NESTA QUARTA-FEIRA, dia 09/10, estarei na Plataforma de lançamento de Livros da IX Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, no horário de 17:50 até 18:50h. Aguardo a presença de vocês e agradeço antecipadamente.

Carlos Lopes

13 julho, 2013

Encontro de dois custodiense durante XIV Fenearte


A FENEART em sua 14 edição, no Centro de Convenções, Recife/Olinda PE, uma programação vasta, com estandes de artesanatos, exposições e shows. No detalhe, com o meu amigo Jorge Farias Remígio, escritor e artista expositor. Segundo Jussara Burgos "Jorge Remígio e Carlos Lopes são a fina flor da intelectualidade custodiense"! O escritor Carlos Lopes rebate "Jorge Remígio é um artesão de talento invejável. Confecciona chapéus carnavalescos, feitos artesanalmente. Recentemente participou, também no Recife, da feira de Artesanato da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap).

22 abril, 2013

Luar do Sertão - Caboclinho Coração Nordestino


Vídeo documental com relatos da trajetória e importância do Luar do Sertão para os moradores de Custódia. O Luar do Sertão foi formado em maio de 2002 e sua primeira apresentação ocorreu no dia 21 de agosto do mesmo ano, na quadra do Colégio Municipal Ernesto Queiroz, durante a Festa Folclórica de Custódia. Foram apresentadas danças de ciranda e caboclinhos. O maracatu, carro chefe do grupo, foi apresentado pela primeira vez no dia 11 de setembro do mesmo ano, na Praça Padre Leão, durante as festividades de aniversário do município. Atualmente, o grupo é coordenado pela coreógrafa e professora Ubiratânia Queiroz Batista e completou 10 anos de vida em 2012.