27 outubro, 2026

A Promessa - Zezé do Amaral



Todo lugar tem seu personagem folclórico. Custódia não foge a regra, tem José, o mudo do Sr. Mocinho Severo. Ele nunca estudou o método "Braille" e mesmo assim se comunica por mímica, mas eu não entendo sua gesticulação.

Uma manhã, chegando em Pesqueira (minha casa tinha a traseira para a Praça Jurandir Britto de Freitas, por onde sempre entrávamos, principalmente quando chegávamos da fazenda. Nessa praça fica o ponto dos transportes tipo lotação, para o famoso Cruzeiro de Poção.

Comecei a colocar as coisas em ordem, e fui para a cozinha, quando vejo o Mudo em minha frente. Olho para ele, espantada, o mesmo já entendendo que eu queria saber o motivo daquela presença inesperada, ajoelha-se, cruza os dedos, une as mãos, olha para o céu e se benze fazendo o sinal da cruz, três vezes seguidas.

Fiquei louca! Libério que na hora estava entrando, vê aquela cena e me pergunta o que estava acontecendo. Eu respondi apavorada: pelo jeito, ele matou uma pessoa em Custódia e veio aqui para casa.

É quando, para felicidade nossa, a esposa do mesmo aparece, e eu pergunto: 

- Minha filha, pelo amor de Deus, diga-me o que aconteceu com o Mudo? 

Ela rindo disse: 

- Vamos pagar uma promessa no Cruzeiro de Poção. 

Que alívio! 

Logo, comecei a entender que a cruz com os dedos era o cruzeiro e as mãos postas, ele ajoelhado e mostrando o céu, era o pagamento da promessa. 

Suspirei fundo, e fui providenciar o café para os visitantes amigos.

Fonte: Livro RETRATO ESCRITOS III de Zezé do Amaral França, pag. 62-63, 2003

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