Por Sidnei Pires
Há lugares e pessoas cuja história não se apaga, mesmo quando a estrutura física cede ao tempo. A antiga casa de Antônio Baixa-Verde, construída com um alpendre humilde e acolhedor sustentado por quatro colunas de alvenaria, era um desses marcos. Ficava logo após a travessia do Riacho Pelo Sinal — divisa natural entre Tabira e Afogados da Ingazeira —, a exatos seis quilômetros de Tabira. Logo do outro lado da estrada, erguia-se um cajueiro frondoso que Mãe Dondon plantara com as próprias mãos, motivo de orgulho renovado a cada geração que contava essa história.
A casa, pensada originalmente para abrigar a família de José Pires Ferreira, o popular Zuzu Pires, teve suas paredes derrubadas anos mais tarde por decisão de Beto Pires, sob o argumento de que o local se tornara ponto de ajuntamento de desocupados — não sem antes Beto, com seu jeito característico, acertar uma "recompensa" com os rapazes do lugar. Contudo, a memória do que ali se viveu permanece intacta.
As Raízes e a Primeira Família
A trajetória de Zuzu Pires entrelaça-se profundamente com as famílias do Cariri e do Pajeú. Seu primeiro matrimônio foi com Olindina, filha de Tio Zoiudo e Vó Candinha, e irmã de Tia Candoia (esposa de Tio João Pires Ferreira), pertencentes ao tronco dos Rodrigues de Freitas.
Da união entre Zuzu e Olindina nasceram dois filhos:
Theophilo: Casou-se com Dulce, uma das herdeiras das históricas águas de Sabah, em Custódia. Não deixaram descendentes.
Antenor: Casou-se com a educadora Elizete, tornando-se pai de Mirian e Tonho.
Olindina faleceu precocemente em Espírito Santo (antigo nome do município de Tabira). Seu corpo repousa logo na entrada do cemitério local, no mesmo jazigo onde estão sepultados Pai Quim, Mãe Dondon e Severino, esposo de Tia Lídia.
Novas Trajetórias e o Caminho até Custódia
Após a perda de Olindina, o viúvo Zuzu casou-se em segundas núpcias com Filomena, prima de sua falecida esposa e filha de Dactiva e Jacinto Medeiros, vindos de Sumé, na Paraíba.
Em tempos de penúria e busca por novas oportunidades, a família pôs-se a caminho de Custódia. Antes de fixar residência definitiva no novo destino, fizeram uma parada em Macacos (atual município de Iguaracy), onde já residia o irmão mais velho de Zuzu, Joaquim Pires Ferreira — carinhosamente chamado de Tio Paizinho. Foi nessa passagem por Macacos que nasceu o primeiro filho do casal:
Anísio Pires.
Já estabelecidos em Custódia, a família se completou com o nascimento da única filha mulher de Zuzu:
Maria do Carmo Pires.
A Revolução de 1930 e o Liderança Política
Em Custódia, Zuzu Pires consolidou sua presença e vocação pública, tornando-se um dos principais chefes políticos da região durante os desdobramentos da Revolução de 1930. O cenário político da época colocou irmãos em lados opostos da disputa regional: enquanto Zuzu saía vitorioso em Custódia, seus irmãos mais jovens, Severino e Pedro, eram derrotados politicamente em Espírito Santo. Apesar dos embates da época, o afeto e a fraternidade no seio da família Pires Ferreira sempre se mantiveram preservados.
O prestígio e a consideração por Zuzu eram tais que seu irmão, José Pires Ferreira Sobrinho, batizou o próprio filho em sua homenagem.
José Pires Ferreira, popularmente conhecido como Zuzu Pires, foi uma importante e influente liderança política de Custódia, com marcante atuação em meados do século XX.
Filiado ao PSD (Partido Social Democrático), Zuzu Pires exerceu papel relevante na articulação comunitária e nas decisões políticas do município. Entre suas contribuições mais destacadas para a infraestrutura local, esteve sua intermediação junto ao governo estadual para a construção e instalação do antigo Grupo Escolar em Custódia, atendendo às demandas educacionais da população da época.
A Fotografia de Família
Um dos registros visuais mais preciosos dessa época mostra a família reunida em Custódia, acompanhada da sobrinha Edite Pires de Oliveira, que exercia o magistério na cidade. Na imagem, estão registrados:
Em pé: Filomena, Zuzu Pires e Theophilo.
Sentados: Antenor, Maria do Carmo, Anísio e a professora Edite Pires.
A história de Zuzu Pires reúne elementos marcantes da formação do Sertão pernambucano: a força dos laços de parentesco, as migrações entre os pequenos povoados, a política do início do século XX e as memórias afetivas que ligam lugares simples — como um alpendre de quatro colunas ou a sombra de um cajueiro — à identidade de toda uma descendência.
Sugestão de leitura sobre Zuzu Pires:
Frente a Frente com Ernesto Queiroz e José Pires Ferreira (Zuzu Pires) - por José Carneiro (CLIQUE AQUI)


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