No tempo de criança, acreditem que também já fui criança, pois não nasci com essa idade, chovia no sertão com trovoadas e com elas, as grandes cheias. O rio que vinha de Custódia, nascendo no Sítio Cangalha, daquele município, passava por trás da cidade, até chegar ao Sítio Boa Vista; atravessava-se três vezes esse rio, seguindo por Poço Comprido, Caroalina, antiga Cachoeirinha, até cair no Rio Moxotó, com suas águas barrentas; arrastava todo o lixo da cidade que os moradores depositavam em suas margens, pois não havia coleta de lixo, toda imundice da cidade descia com a cheia, sem falar em outros lugares de onde nasce o rio; ia com sua fúria levando tudo que encontrava pela frente, cercas, árvores, animais.
Quando passava na Boa Vista era aquela beleza, água por todos os lados, chegando perto da casa de tio Germano, onde tinha enorme quantidade de quixabeiras, ao que chamávamos de ilha; ficávamos realmente ilhados, sem podermos ir para lugar nenhum. Os homens não iam a feira em Custódia, até que a cheia passasse. Debaixo das quixabeiras formavam-se pequenos barreiros, que depois de dias a água era alva e fria, aquele líquido era trazido para os potes de barro. Achávamos que aquela água era boa; tinha uma lagoa grande, que também recebia a referida água e que chamávamos de lagoa do prado, por haver um prado (corrida de cavalo). Não tínhamos idéia da água contaminada que estávamos a beber. Não adoecíamos, não tínhamos vermes, giárdia ou outros males; pelo menos pensávamos ser imunes às doenças, a tudo que fosse nocivo. As cacimbas que se formavam debaixo das quixabeiras eram nossas fontes de água mineral; o da quixabeirinha era a preferida por todos, diziam ser a mais limpa e doce. Santa ignorância!
Quando as águas baixavam, os meninos de tio Germano iam tomar banho no rio; tinha uma árvore de nome jaramatalha ou jaramataia que ficava em uma das margens do rio, formando um belo pulador para os mesmos; era ali que eles faziam suas acrobacias. Nunca tiveram aula de natação, aprenderam a nadar com paus de mulungu ou cabaças. Saltavam de costa, faziam cambalhotas e tudo que era invenção, vestidos de calças compridas, não existia bermuda nem calção, apenas sem camisa.
Este ano de 2002, soube por intermédio do meu primo José de Souza Lima, que aconteceu o mesmo fenômeno, arrancando cercas de arame farpado, estacas, não se sabendo onde foram ficar, se no Rio Moxotó ou no Mar. Os meninos de ontem, que sobrevivem, já estão com mais de 75 nos, e dessa vez, não fizeram cambalhotas, nem sequer banharam-se nessas águas. A infância esconde o perigo das coisas.
Publicado originalmente no vol 3 da série Retrato Escrito da custodiense Zezé do Amaral Freança, página 31-32, lançado em 2003.

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