15 julho, 2026

O Sertão em Versos: O Cangaço e a Geografia Poética de Nertan Macêdo



O resgate de registros históricos nos permite viajar no tempo e compreender a complexa teia social do Nordeste de meados do século XX. O verso a seguir, coletado pelo escritor e jornalista cearense Nertan Macêdo e publicado no Rio de Janeiro em 1950, reconstrói o imaginário do cangaço, misturando o nomadismo, as alianças com coronéis e a forte ligação com territórios que hoje guardam essas memórias.

O Registro Histórico (1950)


"Tenho casa, tenho fome,
bolandeira no Salgueiro,
na serra da Cana Brava
 coronel é coiteiro,
 na serra do Logradouro
o compadre é fazendeiro,
nas furnas da Serra Negra
viro bicho maloqueiro,
no Limão, no Canindé
tenho cavalo estradeiro,
 suspiro pelo descanso
no viver de cangaceiro,
quero moça de janela
em Custódia e Tabuleiro.
"


A Geografia do Verso

A poesia popular coletada por Macêdo funciona como um mapa do Sertão de Pernambuco e Ceará, citando locais emblemáticos para a dinâmica do cangaço:

  • Salgueiro, Custódia e Serra Negra: Cidades e acidentes geográficos pernambucanos conhecidos pelas rotas e esconderijos de bandos.

  • O "Coiteiro" e o "Fazendeiro": O verso escancara a rede de apoio que os cangaceiros possuíam entre os poderosos locais (coronéis), essencial para a sobrevivência no bioma da Caatinga.

Quem foi Nertan Macêdo?

Natural de Crato, Ceará (nascido em 20 de maio de 1929), Nertan Macêdo foi uma voz fundamental para a literatura e o jornalismo regionalista. Vindo de uma família de intelectuais — irmão de Denizard Macêdo, renomado jornalista com passagens pelo Diário de Pernambuco, Jornal do Commercio e O Jornal —, Nertan dedicou sua vida a registrar a cultura e a história do povo sertanejo. Sua relevância intelectual o levou a ocupar a cadeira número 17 do prestigiado Instituto Cultural do Cariri (ICC).

Matérias enviada por
José Soares de Melo

Um comentário: