02 outubro, 2026

As Histórias do Sítio Timbaúba, com sr. Cicero Mariano



No coração do Sertão do Moxotó, no Sítio Timbaúba, em Custódia, a história da formação rural brasileira permanece viva através dos relatos orais e das estruturas arquitetônicas do local. Em entrevista concedida ao canal Sertão Mano Amigo, Seu Cícero Mariano(cargo militar e administrativo de Portugal e do seu império colonial, responsável por comandar forças militares e administrar regiões), morador local de 89 anos, resgatou memórias fundamentais sobre a colonização regional, o período escravagista e os episódios que moldaram o interior pernambucano.

Uma Arquitetura Centenária

A residência de Seu Cícero Mariano, erguida em 1929, preserva traços marcantes da arquitetura sertaneja do início do século XX. A estrutura destaca-se por sua calçada elevada em relação ao solo e pelo reaproveitamento de materiais de uma antiga edificação colonial. As madeiras e o alvenaria pertenciam ao antigo casarão do Capitão-Mor, situado originalmente no Sítio Capoeiras, antes de serem transplantados para o Sítio Timbaúba.



Geografia Colonial e a Divisão das "Léguas"

Os relatos de Seu Cícero traçam a cartografia de uma vasta propriedade territorial que se estendia por diversos pontos de referência do sertão, como as localidades de Iguaraci, o Poço do Boi, o Poço da Cruz e Jeritacó.

Para assegurar a fixação da família nas terras, o Capitão-Mor dividiu sua imensa propriedade entre seus 12 filhos utilizando o sistema de léguas (cada légua equivalente a aproximadamente 6 km). Cada herdeiro recebia uma faixa de uma légua de largura para casar, construir sua moradia e dar continuidade à exploração agropecuária na região.

O Livro de Registros e a População Escravizada

A rotina e a contabilidade da fazenda colonial eram registradas pelo próprio Capitão-Mor em um documento histórico confeccionado com penas de peru e tinta importada de Portugal.

Entre as informações preservadas pela memória oral, destacam-se:

  • Produção e Tributação: A propriedade registrava uma média anual de 1.000 bezerros. Dez por cento da produção (100 bezerros) eram destinados ao pagamento de dízimos e tributos coloniais.

  • Inventário Humano: O livro contábil listava o inventário de 42 pessoas escravizadas, entre adultos e crianças, categorizadas como patrimônio da fazenda.

  • Rotas e Violência: Os escravizados eram comprados no litoral, em Recife, e forçados a realizar longas caminhadas a pé pelo interior em busca de terras e minérios. Relata-se que eram marcados a ferro quente, vestiam apenas tangas e enfrentavam a escassez de alimentos.

O Destino do Acervo: Entre a Praga e o Fogo

A memória material daquele período sofreu com a ação do tempo e o desgaste natural:

  • A Perda do Livro: O antigo livro de registros foi lido por um padre da cidade de Custódia antes de sua degradação final. Sem conservação adequada, o documento acabou destruído por traças e ratos ao longo das décadas.

  • O Tronco de Punição: Próximo à antiga senzala, ficava o instrumento de castigo: madeira de altíssima densidade. Equipado com rodadeiras e cadeados, o tronco mantinha os escravizados presos pelos pés por dois a três dias consecutivos. A carcaça da madeira resistiu até a geração do irmão mais velho de Seu Cícero, sendo eventualmente consumida pelo fogo.

Entre a Libertação e a Era do Cangaço

A trajetória da família Mariano entrelaça-se com momentos decisivos da história nacional:

  • O Ano da Abolição (1888): O pai de Seu Cícero nasceu em 1888, ano da assinatura da Lei Áurea. Órfão ainda jovem, ele chegou a habitar as ruínas do antigo casarão colonial abandonado.

  • Violência Local e o Cangaço: A memória oral guarda episódios de figuras autoritárias, como o Capitão Chico, na região da Várzea Grande, e relatos das passagens do bando de Lampião pelo Sertão e por Sergipe. Seu Cícero recorda histórias das tropas em combate, onde homens feridos eram abandonados na caatinga, culminando no desfecho do cangaço na Grota do Angico (SE), em 1938.

Preservação do Patrimônio Imaterial

Além de documentar a evolução das famílias tradicionais da região — como os laços dos Mariano com a família Machado, em Carnaíba —, os depoimentos de Seu Cícero Mariano reafirmam o valor da tradição oral. Suas memórias resgatam a complexa rede social, econômica e humana que fundamentou o sertão pernambucano.

Para acompanhar a entrevista completa. 



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01 outubro, 2026

Dr. Jânio Queiroz recebe em novembro, comenda Honra ao Mérito em São Paulo

 




Homenageado:
Jânio Queiroz, destacado na categoria "Advogado em causas de alta complexidade, com atuação nos Tribunais Superiores" com a comenda de Honra ao Mérito
.

  • Data e Hora: 10 de Novembro de 2026, às 18h.

  • Local: Salão Nobre (8.º andar) da Câmara Municipal de São Paulo, localizado no Viaduto Jacareí, 100 – Bela Vista, São Paulo/SP.

  • Apoio e Instituições: Promovido com o apoio da Câmara Municipal de São Paulo e da Vereadora Edir Sales.

  • Realização: Ramildo dos Santos.


  • Encontro durante casamento com personalidades locais (1988)


    Da esq. para dir:

    Seu Romeu Medeiros, Edivaldo Gonçalves de Medeiros (Vada), Zé Duro, por trás Dr. Airton Pereira, Dr. Pedro Pereira, Josenaldo Pereira de Siqueira "Bigode", Dr. José Ivo de Paula Guimarães (Juiz na época, hoje Desembargador), Josué do BB e Urbano Rafael. 

    Reunião ocorrida durante festividade do enlace matrimonial entre Adeilda Pereira (filha de Adalberto e Elvira) e Ednaldo Gonçalves de Medeiros (Dida de Zé Duro), realizado em sua residência em 27 de Maio de 1988.


    "Tem alguma foto antiga da cidade ou da sua família? Envie para a nosso e-mail e faça parte deste resgate!"

    Três Décadas de Estrada: A Trajetória de Marcílio Amaral no Podcast Diferente



    Natural de Pernambuco e com mais de 30 anos dedicados à música regional brasileira, o cantor Marcílio Amaral foi o convidado especial do Episódio 48 do Podcast Diferente, comandado por Gabriel e Júnior. Em um bate-papo descontraído e repleto de nostalgias, Marcílio compartilhou momentos marcantes de sua carreira, desde o início humilde como percussionista até se tornar a voz à frente de bandas de grande destaque no cenário do forró

    O Início e a Era "Mauricinhos do Forró"

    Marcílio começou sua caminhada musical ainda muito jovem em Custódia. Suas primeiras experiências ocorreram acompanhando os ensaios da banda Ideologia, até ter a oportunidade de subir ao palco em pequenos shows e bares da região ao lado de Neide Santos.

    O grande divisor de águas em sua carreira aconteceu nos anos 2000, aos 16 anos, quando conheceu a equipe da banda Feras no Rio Grande do Norte. O empresário Adones Antônio o convidou para integrar um novo projeto formado apenas por jovens talentos: os Mauricinhos do Forró.

    Cronologia de sua Carreira

    Início na Percussão e Bandas Locais
    Anos 1990

    Começou tocando percussão na banda Ideologia e formou o grupo 'Os Funis' fazendo apresentações em bares da região.

    Entrada no Mauricinhos do Forró
    Setembro de 2000

    Viajou de carona até Caicó/Parelhas (RN) para integrar a banda, onde permaneceu por uma década.

    Primeiro CD de Sucesso
    2001

    Lançamento do primeiro álbum da banda com o hit Vou Largar Dessa Mulher.

    Projeção Nacional e DVD de Sucesso
    2006

    Gravação do DVD marcante lançado com a faixa duplo sentido Música do Tabaco, expandindo shows para Sergipe, Alagoas e Bahia.

    Durante os 10 anos em que permaneceu nos Mauricinhos do Forró, Marcílio gravou diversos CDs e DVDs, se apresentou em grandes palcos do Nordeste e realizou turnês em São Paulo, participando de programas de TV.

    Projetos Autorais e Bastidores da Indústria

    Após sua saída dos Mauricinhos do Forró em 2010, Marcílio retornou a Pernambuco para criar o projeto Forró do Mato, com uma proposta voltada ao xote e ao vanerão.

    Além de atuar como cantor, Marcílio passou a trabalhar nos bastidores do mercado fonográfico. Durante quatro anos, ele atuou na divulgação, produção e venda de shows de nomes influentes da música nacional:

    • Mano Walter: Auxiliou nos primeiros passos do cantor em Alagoas, Sergipe e Rio Grande do Norte.

    • Calcinha Preta: Trabalhou na circulação de shows da banda pelo estado de Pernambuco e interior do Nordeste.

    • Banda Calypso: Trabalhou diretamente na venda e divulgação da banda no seu último ano de formação original (2014-2015).

    Incentivado por colegas do meio, como o próprio Mano Walter, Marcílio gravou o projeto Forró Mulher de Gado no estúdio da Banda Calypso em Recife, retornando aos palcos com estrutura própria e frota de shows.

    Desafios na Pandemia e Novas Perspectivas

    Como ocorreu com a maioria dos artistas independentes, a pandemia da COVID-19 interrompeu abruptamente a rotina de shows de Marcílio. Para manter os compromissos financeiros, precisou vender o ônibus da banda e os equipamentos. No período de isolamento, concluiu sua graduação em Gestão Pública e atuou no comércio de veículos.

    De volta à música, o cantor aposta agora em um formato atualizado focado no estilo Arrocha/Sofrência. Morando entre Sergipe e Pernambuco, Marcílio gravou o projeto "Bregão dos 600", adaptando seu repertório para o público da Bahia e Sergipe, sem deixar de lado o forró tradicional nos seus shows.

    Ao final da entrevista, Marcílio ressaltou a importância do incentivo aos novos talentos locais e reiterou seu carinho por sua terra natal.

    30 setembro, 2026

    Cativeiro, Fome e Violência: A Realidade da Escravização no Sertão do Nordeste


    Foto e Texto:
    Tiago de Andrade Lima Motta


    A história do sertão nordestino é entrelaçada por relatos transmitidos através das gerações, preservando a memória de um tempo de dor, opressão e resistência. Em depoimento resgatado pela tradição oral, Seu Dezinho Mansidão da Silva (filho de Firmino Mansidão, descendente dos escravos do Capitão Lili, no sítio Carvalho), traz à tona lembranças do tempo da escravização e das violências perpetradas por senhores de engenho e fazendeiros regionais na transição para o período pós-Abolição.

    1. A Punição e a Crueldade Institucionalizada

    As memórias compartilhadas por Seu Dezinho detalham o rigor punitivo aplicado pelas figuras de autoridade locais, como o chamado Capitão Campo. Entre as práticas relatadas pela memória familiar, destacam-se:

    • Castigos Corporais Exacerbados: Punições como o retalhamento e a salga das costas dos escravizados.

    • Acomodação no Tronco e Agilhos: O uso de correntes pesadas nos pés e o confinamento no tronco, instrumento recorrente de tortura e imobilização nas propriedades da região.

    2. Condições de Subsistência e Restrição de Recursos

    A dieta e os meios de sobrevivência oferecidos às populações cativas e submetidas ao trabalho compulsório eram extremamente precários:

    • Alimentação Limitada: A base alimentar consistia em rações mínimas de farinha de feijão, toucinho, xerém e leite.

    • Interdição da Autossustentação: Havia proibições estritas por parte dos proprietários quanto ao aproveitamento de recursos naturais ou caça local (como o peba), impedindo qualquer alternativa de complemento alimentar por conta própria.

    3. A Ilusão da Liberdade e a Manutenção da Dependência

    Embora a promulgação da Lei Áurea pela Princesa Isabel em 1888 tenha marcado o fim jurídico da escravidão no Brasil, Seu Dezinho e os interlocutores locais chamam a atenção para a continuidade das estruturas de dominação:

    • Permanência nas Fazendas: Sem acesso à terra, crédito ou assistência do Estado, muitos libertos e ex-escravizados não tinham para onde ir e permaneceram sujeitos aos mesmos patrões.

    • Submissão às Mesmas Condições: Na prática, o cotidiano no pós-Abolição manteve-se marcado por jornadas exaustivas, alimentação restrita e maus-tratos, perpetuando a dinâmica de exploração sob o pretexto da sobrevivência contra a fome.

    4. Territorialidade e Preconceito Social

    As narrativas conectam essa memória a pontos específicos do sertão (como Poção, Cacimba de Cima e São Sebastião do Umbuzeiro, na Paraíba) e evidenciam a profundidade das barreiras raciais e do preconceito que marcaram as relações sociais na região, onde a miscigenação e os relacionamentos inter-raciais enfrentavam forte oposição das elites locais.

    Estes relatos orais constituem um valioso patrimônio imaterial para a compreensão da história social do sertão, evidenciando as marcas deixadas pelo sistema escravista na formação das comunidades rurais e quilombolas do interior nordestino.

    Com informações colhidas por 
    Tiago de Andrade Lima Motta

    A Fé que Cura e Atravessa Gerações: Dona Helena, Neto Mateus e a Tradição Espiritual no Sertão de Custódia



    Por Sertão Místico (Fevereir/2026)

    No coração do Sertão Pernambucano, no Sítio Caldeirão, em Custódia, a fé popular ganha forma, voz e cura. É lá que vive Dona Helena, rezadeira e parteira quilombola de 81 anos, cuja trajetória de vida confunde-se com a própria essência da religiosidade e do saber ancestral sertanejo. Ao lado de seu neto, Mateus, de 21 anos, ela lidera um trabalho espiritual centrado na devoção ao Padre Cícero, na força da Jurema Sagrada e no auxílio de espíritos de beatas.

    O Chamado no Sonho e a Cura pelas Ervas

    A trajetória de Dona Helena no universo da cura popular não começou por escolha, mas por missão e necessidade de sobrevivência. Embora o chamado espiritual tenha surgido ainda na infância, aos 7 anos, a resistência da família e o medo de preconceitos — como o estigma de ser chamada de "catimbozeira" — adiaram sua aceitação.

    Foi somente por volta dos 20 anos, após ser desenganada pela junta médica no Recife, que o destino tomou seu rumo.

    "Sentia muita dor, desmaiava. Pedi a Nossa Senhora que me levasse, pois não aguentava mais. Foi quando sonhei com uma mulher bem-vestida que me disse: 'Você não vai morrer. Vai fazer um remédio de lambedor e tomar durante um ano, e esses da medicina vai jogar no mato. Quem vai criar seus filhos é você.'"

    Através de revelações em sonhos e intuição espiritual, Dona Helena aprendeu a identificar as propriedades medicinais das plantas e cascas da caatinga. Recuperou a própria saúde e a de seu esposo, assumindo o compromisso de rezar e ajudar o próximo sem jamais cobrar por isso.

    Relatos de Milagres e Acolhimento sem Distinção

    Ao longo de décadas de dedicação no Sítio Caldeirão, milhares de pessoas já passaram pelo oratório da família — herdado de sua avó e de sua mãe, também parteira e rezadeira. Os relatos acumulam histórias impressionantes: pessoas trazidas amarradas que saíram pacificadas, casos desenganados pela medicina convencional e pessoas em cadeiras de rodas que voltaram a andar.

    Apesar dos relatos extraordinários, Dona Helena e Mateus mantêm a humildade e fazem questão de atribuir as curas à fé individual e ao poder divino.

    • Fé sem preconceito: A casa de oração recebe a todos — católicos, protestantes, umbandistas — sem distinção religiosa.

    • Gratuidade: As orações e garrafadas de ervas são oferecidas gratuitamente como ato de caridade.

    • Guia dos caboclos: A medicina tradicional da caatinga conta com o auxílio do Mestre Cauã e do Rei dos Índios, protetores das matas.


    A Continuidade com Mateus: A Sucessão da Linhagem

    O trabalho espiritual da casa tem uma tradição guiada por espíritos de beatas vinculadas à doutrina do Padre Cícero. Historicamente, a missão foi acompanhada por três figuras doutrinadoras:

    1. Beata Maria: Acompanhou Dona Helena nos primeiros 18 anos de trabalho espiritual.

    2. Beata Mocinha: Assumiu o guia espiritual da casa durante 24 anos.

    3. Beata Kinô: A atual mentora espiritual que atua nos atendimentos.

    A sucessão familiar, no entanto, já é uma realidade. Previsto anos antes por revelações espirituais, o jovem Mateus assumiu a liderança das rezas coletivas nos últimos anos, permitindo que sua avó poupe as forças devido à idade avançada.

    "No começo foi um martírio grande por causa das regras e da minha idade. Mas quando olho para trás e vejo uma pessoa triste sair sorrindo, desenganada sair curada, tenho certeza da minha missão. A recompensa maior é ver a fé agir." — Mateus

    Com cânticos de Jurema, orações ancestrais e a botânica sertaneja, a história de Dona Helena e Mateus reafirma o papel essencial das rezadeiras na preservação do patrimônio imaterial do Sertão.

    Para assistir ao vídeo completo, abaixo o link:



    Outra matéria foi postada anteriormente sobre Dona Helena, escrita por Géssica Amorim, pode ser acessada clicando: AQUI

    A Pernambucana que Cozinhou para Luiz Gonzaga e Viveu Tempos do Cangaço


    Foto: Sertão Mamoeiro 


    CUSTÓDIA (PE)
    — Entre as paisagens do interior nordestino, que conectam Monteiro, na Paraíba, a municípios sertanejos de Pernambuco como Santana do Congo e Custódia, histórias centenárias permanecem vivas na memória de seus moradores. Aos 97 anos de idade, Dona Maria de Lourdes, popularmente conhecida como Dona Maria Morena, guarda em suas lembranças encontros marcantes com ícones da cultura popular e episódios históricos do sertão.

    O Almoço para o Rei do Baião em Custódia

    Durante a juventude, enquanto trabalhava na cozinha de um tradicional hotel no município de Custódia, Dona Maria Morena teve a oportunidade de preparar refeições para o cantor e compositor Luiz Gonzaga. Na ocasião, o Rei do Baião cumpria uma agenda na cidade, dividindo-se entre apresentações musicais e eventos de campanha eleitoral. A passagem do artista marcou a trajetória da cozinheira, que relembra com carinho a experiência de servir uma das maiores figuras da música brasileira.

    O Pavor do Cangaço e a Passagem de Lampião

    Além dos bastidores da música regional, a história de Dona Maria Morena também se entrelaça com o período do cangaço. Embora não tenha chegado a ver Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, pessoalmente, sua irmã já falecida, conhecida como Dica, testemunhou a chegada do famoso bando a uma pequena cidade paraibana.

    De acordo com o relato, o clima de tensão tomava conta das populações sertanejas sempre que a presença dos cangaceiros era anunciada. Naquele dia específico, a movimentação fez com que moradores buscassem abrigo às pressas:

    • Esconderijo no beco: Dica correu para o beco de uma bodega para proteger um irmão pequeno que havia ficado exposto na rua.

    • Tensão sem confrontos: Apesar do pavor generalizado, a ocasião terminou sem trocas de tiros ou saques violentos registrados na localidade. A criança permaneceu escondida até ser resgatada pela família.

    Resgate Histórico e Lucidez Centenária

    A trajetória de Dona Maria Morena foi registrada em entrevista ao repórter Antony Rufino, no projeto Sertão Mamoeiro. Aos 97 anos, a sertaneja demonstra lucidez ao reconstituir episódios do cotidiano e das transformações sociais do Sertão do Pajeú e do Cariri paraibano ao longo do século XX.

    Para mais conteúdos, acesse o canal: SERTÃO MAMOEIRO

    29 setembro, 2026

    A História do Engenho do Sítio Caldeirão em Custódia



    No coração do Sertão do Moxotó, no município de Custódia (PE), a rotina rural no Sítio Caldeirão preserva memórias vivas de trabalho na terra, educação comunitária e tradição açucareira. A história da família formada pelo saudoso Pedro Cícero do Amaral e pela professora aposentada Dona Maria do Carmo exemplifica a identidade e a resistência cultural sertaneja.

    A Origem do Engenho e a Vida no Sítio Caldeirão

    A história do engenho remonta ao trabalho de Zé Camilo, morador da comunidade vizinha de Queimada Nova, que havia trazido a estrutura da cidade de Triunfo. Em 1985, Seu Pedro Cícero adquiriu a moenda e a instalou no Sítio Caldeirão.

    Durante anos, o local tornou-se referência na fabricação artesanal de rapadura, mel e mel batido. As moagens reuniam trabalhadores e vizinhos em percursos produtivos que duravam meses:

    • Funcionamento técnico: A moenda era tracionada por motor, despejando o caldo no parol. A fornalha, alimentada por lenha e pelo próprio bagaço seco da cana, aquecia os tachos onde o caldo apurava até atingir o ponto. O melaço era virado na gamela de madeira para esfriar e ser modelado.

    • Convivência comunitária: Enquanto Dona Maria do Carmo preparava o almoço para os ajudantes, Seu Pedro distribuía caldo de cana e rapadura quente para as crianças que estudavam na escola vizinha.

    Educação e Marcenaria: Legados da Família

    Além do trabalho no campo, a trajetória da família destaca-se pela contribuição à educação e aos ofícios artesanais da região:


    Dona Maria do Carmo
    (nascimento 1939) — Educação Rural

    Trajetória: Formou-se em Custódia e iniciou a carreira no magistério entre as décadas de 1970 e 1980.

    Atuação: Atuou na alfabetização de adultos pelo Mobral no armazém da família e lecionou na Escola José Pereira da Silva (originalmente batizada como Francisco Camilo da Silva, em homenagem ao seu sogro).


    Antônio de Pedro Cícero — Ofício e Marcenaria

    Trajetória: Aprendiz do próprio pai, domina a carpintaria desde os 8 anos de idade.

    Atuação: Baseado no Sítio Buenos Aires, é artesão do trabalho em madeira maciça (como o tamboril). Constrói e restaura carros de boi, fabrica móveis rústicos e opera máquinas de beneficiar milho e feijão.



    Após a morte de Seu Pedro Cícero em 2015, Antônio e seu irmão Derivan reformaram a estrutura da fornalha e reativaram as moagens temporárias.

    Com informações de Antão Rufino ("Repórter Matuto") do Canal Sertão Mamoeiro.
    11 de novembro de 2023


    [Cordel] Paulo Peterson um sertanejo nota mil - autor: Jussara Burgos



    Se existe um cabra no mundo
    Que merece um cordel,
    É Paulo Peterson,
    Figura de muito papel!
    Gosta de rock pesado,
    Mas tem coração afinado,
    E escreve bonito e fiel.

    É dono de um grande blog,
    Que Custódia faz brilhar:
    Custódia Terra Querida,
    Um lugar pra recordar
    A história da nossa terra,
    Que tanta memória encerra
    E não podemos deixar passar.

    Mas quando o rock começa
    Com guitarra a estrondar,
    Paulo esquece até do blog
    E começa a acompanhar.
    Se o vizinho perguntar:
    “Que barulho é esse no ar?”
    “É cultura a se espalhar!”

    Tem Vanessa do seu lado,
    Companheira de jornada,
    Que conhece muito bem
    Essa figura apaixonada.
    E João Paulo, seu rebento,
    Que faz parte desse invento
    De família bem-amada.

    Paulo é desses que conseguem
    Misturar, sem confusão,
    Rock, memória e poesia,
    Sertão e recordação.
    Não  toca guitarra,
    Mas quando o assunto é Custódia,
    Ele toca o coração.

    Se perguntarem lá em casa:
    “Paulo, hoje vai descansar?”
    Ele diz: “Só mais um texto,
    Que eu preciso publicar!”
    E quando pensa que terminou,
    Outro assunto já brotou:
    “Tenho um blog pra alimentar!”

    Vanessa olha e já sabe:
    “Lá vem ele outra vez…”
    João Paulo dá risada,
    Pois conhece o freguês.
    E Paulo, muito contente,
    Vai escrevendo novamente
    Pela quarta, quinta, sexta vez!

    Que viva Paulo Peterson,
    Com seu rock e seu jornal,
    Defendendo suas raízes
    Com carinho especial.
    Que nunca falte inspiração,
    Nem guitarra, nem paixão,
    Nem Custódia no seu quintal!

    Felicidades meu primo querido, saúde e vitorias!

    Jussara Burgos
    Luziania-GO
    Setembro/2026



    Memória, Forró e Cultura: Bastidores Imperdíveis com Janúncio Siqueira no Podcast Diferente




    Se você gosta de boa música sertaneja, histórias inspiradoras e um resgate emocionante da cultura de Custódia e de Pernambuco, não pode deixar de conferir entrevista no Podcast Diferente foi feito sob medida para você!

    Nesta edição especial, o apresentador Gabriel recebe no estúdio duas figuras de grande relevância cultural: o cantor e compositor Janúncio Siqueira e o historiador e blogueiro Paulo Peterson do Blog Custódia Terra Querida.

    O que você vai encontrar na entrevista completa?

    A conversa passou por momentos marcantes da carreira de Janúncio e da história da região.

    Confira alguns dos destaques que tornam esse bate-papo imperdível:

    • Veia Musical e Herança Familiar: Janúncio relembra como suas raízes entre a Paraíba e Pernambuco influenciaram seu talento, destacando figuras marcantes como o tio Joãozinho Benício e o primo Mazinho de Arcoverde.

    • Momentos Inusitados no Rádio: Uma história hilária de quando Janúncio participava de um programa ao vivo com Fábio Santos na Custódia FM e seu tio invadiu o estúdio só para prestigiar o sobrinho.

    • Preservação da Memória Cultural: Reflexões nostálgicas sobre o histórico CLRC (Clube Literário e Recreativo Custodiense) e a importância da recuperação de fitas VHS antigas para manter viva a história dos grandes eventos da cidade.

    • A Jornada na Capital Pernambucana: A transição de Janúncio para o Recife no final dos anos 1980, conciliando a vida no serviço público (SUCAN) com os shows em barzinhos, casas de recepção e eventos locais.

    No podcast, Janúncio Siqueira conversa abertamente sobre sua trajetória como compositor, o sucesso de suas músicas e o processo de registro e arrecadação de direitos autorais.

    1. O Grande Sucesso: "Esse Alguém Sou Eu"

    • Carro-chefe da carreira: Lançada no seu primeiro disco há mais de 25 anos, a canção "Esse Alguém Sou Eu" é sua composição de maior destaque e projeção nacional.

    • Mais de 28 regravações: Janúncio revela que a música já foi gravada por cerca de 28 artistas pelo Brasil inteiro, adaptando-se a múltiplos gêneros como forró pé de serra, forró estilizado, sertanejo, axé music e brega.

    • Diversidade de intérpretes: Entre os artistas que interpretaram a canção, ele destaca:

      • Paulo Márcio (conhecido como o "Príncipe do Brega" em Recife)

      • Mito / Banda Labaredas

      • Luan Santana (que a cantou em shows pelo Mato Grosso)

      • Dupla Marlon & Maicon (do Paraná, que a executava frequentemente no circuito sertanejo) .

      • Além de nomes como Amadeus, Betão, Kevos Duran e André Viana 

    2. Processo Criativo e Quantidade de Obras

    • Mais de 130 composições: Janúncio conta com um acervo de mais de 130 músicas compostas, tendo gravado cerca de 90 delas em seus trabalhos.

    • Criação sem instrumentos: Ele explica que, no início, criava arranjos simples no violão. Hoje em dia, cria a melodia e a letra diretamente "na cabeça", gravando a guia pelo celular para depois estruturar o arranjo em estúdio com parceiros como o músico Isaías.

    3. Registro e Direitos Autorais (ECAD e UBC)

    • Formalização do artista: Janúncio reforça a importância de o compositor estar devidamente registrado na Ordem dos Músicos do Brasil (OMB) e filiado a uma associação/editora — no caso dele, a UBC (União Brasileira de Compositores).

    • Recebimento via ECAD: Explica que não precisa ir ao cartório registrar partituras; basta enviar o áudio com o arranjo simples para a associação. Por conta do acompanhamento do ECAD, ele recebe os relatórios impressos detalhando em quais rádios e cidades do país suas músicas foram executadas, garantindo o retorno financeiro em direitos autorais .

    4. Parcerias e Homenagens

    • Parcerias com grandes nomes: Destaca parcerias marcantes e trocas de composições com Zezito Doceiro (autor de "Chá de Costas"), Dogival Argolo, Omar Cavalcante e Flávio Leandro (com quem regravou a faixa "Anjo da Guarda" autorizada com adaptações nos nomes dos filhos).

    • Homenagens a Custódia: Janúncio também compôs músicas em homenagem à sua terra natal, como a canção "Custódia" (feita em parceria com Zezito) e "Estou de Passagem" (com Mazinho de Palmares).

      Assista ao Episódio Completo no YouTube!

      Abaixo você pode conferir a entrevista na íntegra no canal do programa:

      👉 Clique aqui para assistir ao Podcast Diferente no YouTube

      Não perca a chance de conferir esse bate-papo cheio de nostalgia, causos sertanejos e muita valorização da nossa gente!

    Árvore Genealógica - Chiquinho de Elizeu e Dona Lia



    Francisco Moura Leite (Chiquinho de Elizeu) e
    Maria do Carmo Lima Leite (Dona Lia)



    Chiquinho de Elizeu (30/05/1918-18/11/1979) nasceu no Sítio Fazendinha, município de Custódia-PE, filho de Elizeu de Moura Leite (05/05/1882-20/01/1963) e de Maria Eugênia do Amaral ( - 13/04/1941).

    Trabalhou na Prefeitura Municipal de Custódia, como fiscal, durante vários anos, e nos Correios e Telégrafos até se aposentar, sendo seus colegas de trabalho na época, Sr. Fontino (Pai de Dr. Humberto e Antônio (Totonho) Medeiros), Sr. Manoel Moura (Pai de Tonho Moura da Prefeitura), Srª. Neide Campos (Irmã de Seu Zé de Isaías), e outros que não me lembro no momento.

    Dona Lia (27/11/1918-08/08/1966) nasceu em Floresta-PE, filha de João Inocêncio Gomes Lima (João Inocêncio da Betânia) e de Elisa Correia Lima.

    Veio para Custódia, por intermédio do seu avô, Major Inocêncio Lima, primeiro prefeito eleito no município (15/08/1936–15/05/1939), onde trabalhou como Tesoureira da Prefeitura Municipal, por mais de 25 anos, nas gestões dos prefeitos:

    - Ernesto Queiroz - (15/05/1939–25/07/1944)
    - José Estrela - (25/07/1944 –23/03/1946)
    - Francisco Pereira da Nóbrega Sobrinho - (23/03/1946–07/12/1946)
    - Jerônimo de Souza Neto - (07/12/1946–10/08/1947)
    - Felicíssimo Lima Pires - (11/08/1947–15/11/1947)
    - Ernesto Queiroz - (15/11/1947–15/11/1951)
    - Joel Inocêncio Lima - (15/11/1951–15/11/1955)
    - Luiz Epaminondas Nogueira de Barros - (15/11/1955–11/12/1957)
    - Adauto Pereira de Souza - (11/12/1957–15/11/1959)
    - Ernesto Queiroz - (15/11/1959–15/11/1963)
    - José Gonçalves Florêncio - (15/11/1963–10/10/1964)
    - Ten. Miguel José da Silva - (10/10/1964–28/02/1966)
    - João Miro da Silva - (28/02/1966–31/01/1969)

    Tenho muito orgulho de ser filho de Chiquinho de Elizeu e Dona Lia, pois os mesmos me ensinaram a respeitar todas as pessoas sem discriminação; ricas, pobres, pretas, brancas, velhas, jovens, etc., também ajudar as pessoas carentes quando solicitado, com paciência, amor e carinho.

    Por isso, distribuo todos os meses do ano 100(cem) cestas básicas, para população carente da nossa Custódia, na zona urbana e rural, como também no Hospital da Mirueira (Leprosário) e no NACC (crianças com câncer) em Recife-PE, doação do meu irmão Luiz Leite, em memória dos nossos pais.

    Do casal houve 11 (onze) filhos:

    01 - Maria Eugênia Leite
    02 - João Elizeu Leite (Foi o Primeiro Gerente da Caixa Econômica Federal em Custódia-PE)
    03 - Maria Elisa Leite (In Memorian)
    04 - José Eraldo Leite
    05 - Maria de Lourdes Leite
    06 - Maria José Lima Leite
    07 - Joel Lima Leite
    08 - Francisco Lima Leite (Chico Elizeu)
    09 - Francisca Maria Lima Leite
    10 - Fátima Maria Lima Leite
    11 - Luiz Lima Leite


    Custódia, 06 de maio de 2009
    Francisco Lima Leite
    (Chico Elizeu).

    28 setembro, 2026

    Da Trave de Gol aos Microfones: A Trajetória de José Orlando




    A história de José Orlando é um exemplo de dedicação, paixão pelo esporte e pioneirismo na comunicação do Sertão do Moxotó. Muito antes de comandar estúdios digitais ou transmissões ao vivo, sua caminhada começou nas traves de futebol.

    1. Os Tempos de Goleiro "Mosquito"

    Atuando como goleiro amador, José Orlando defendeu equipes em diversos municípios pernambucanos — como Custódia, Petrolina, Arcoverde e Sertânia —, além de passagens pelo futebol do Mato Grosso, em cidades como Cuiabá e Várzea Grande. Na região de Custódia, ficou popularmente conhecido pelo apelido de "Mosquito", marca da sua baixa estatura combinada com grande agilidade e elasticidade debaixo das traves. Essa forte ligação com o esporte amador tornou-se a ponte natural para sua entrada nos meios de comunicação.

    2. A Estreia no Rádio e a Comunicação Esportiva

    Sua trajetória no rádio teve início na Rádio Panorama FM, em Custódia. Convidado para cobrir o cenário esportivo local, criou o programa Panorama nos Esportes. Ao lado de colaboradores como Fabiano Santos (o "Mãozinha"), o programa consolidou grande audiência na zona rural e urbana.

    Com o passar do tempo, ampliou sua experiência ao colaborar com outras emissoras regionais, como a Rádio Cardeal de Arcoverde e a Betânia FM, além de buscar capacitação profissional em cursos de locução e comunicação de rádio.

    3. Pioneirismo Digital: A Criação da Jonet Brasil

    Atento às transformações tecnológicas do início dos anos 2000, José Orlando começou a explorar a internet por meio do Orkut e de blogs de notícias locais, como o Custódia News.

    Em 2008, idealizou um projeto inovador para a época: a criação de uma rádio via internet voltada para o interior pernambucano.

    Assim nasceu a Rádio Jonet Brasil — denominação derivada do seu próprio nome (José Orlando na Net) —, considerada por ele a pioneira do gênero no Sertão do Moxotó. O projeto contou com o apoio de parceiros locais, como Ferreira Campos e a arte visual desenvolvida por Valmir da Gráfica.

    4. As Transmissões ao Vivo e a TV Web

    Com a evolução das redes sociais, migrou para transmissões ao vivo em vídeo e a implementação da TV Web Jonet, canal que mantém programação contínua com transmissões, reprises e divulgação cultural. Um dos marcos desse período foi a cobertura em tempo real do show da dupla Zezé Di Camargo & Luciano em Custódia, cuja transmissão bateu picos de cerca de 7 mil espectadores simultâneos.

    Ao longo de sua jornada, a Jonet Brasil consolidou parcerias comerciais com empresas da região — a exemplo da Tambaú Alimentos — e estabeleceu sua sede própria na Rua Antônio José de Moura, em Custódia, de onde opera seus serviços de mídia e atendimento.

    Quem Foi o Major Inocêncio Lima? A História de um dos Primeiros Líderes de Custódia

     

    Major Inocêncio Gomes de Lima (conhecido popularmente como Inocêncio Jurubeba) foi um fazendeiro, comerciante, militar da Guarda Nacional e importante líder político do sertão pernambucano, notadamente na história do município de Custódia.

    Trajetória e Destaques

    Vida e Família: Nascido em Tacaratu em 1867 e falecido em 19 de outubro de 1940 (aos 73 anos), em Serra Talhada, era filho de Francisco Gomes Jurubeba e Ana Gomes Lima. Casou com Maria Gomes de Souza Ferraz, em 02 de Fevereiro de 1889, em Petrolandia. Tiveram cinco filhos: José Inocêncio Lima (1892–1937), Joaquim Inocêncio Lima (1894-1987), João Inocêncio Gomes Lima (1897–1984), Júlio Inocêncio Lima (1900–1977), Joel Inocêncio Lima (1904–1974).


    Patente Militar: Alcançou a patente de Major da Guarda Nacional do Brasil, título muito expressivo durante o período coronelista e da República Velha.

    Atuação Política: Foi o 5º prefeito do município de Custódia, primeiro prefeito eleito do municipio, governando a cidade após ser eleito de 15 de agosto de 1936 a 15 de maio de 1939.

    Legado

    Sua influência na região do Moxotó/Pajeú estendeu-se também pelas gerações seguintes da família; seu filho, Joel Inocêncio Lima, também viria a ser eleito prefeito de Custódia na década de 1950 (1951–1955).

    Atualmente, sua memória é homenageada no município com o nome da Avenida Inocêncio Lima, uma das principais vias do centro de Custódia.

    Guardião da Tradição: Manoel Padeiro e a Força do Bacamarte em Custódia e Quitimbu




    Nascido em Tabira no dia 3 de junho de 1937, pertinho dos festejos de São João, Manoel Padeiro carrega no nome um apelido curioso dado pelas voltas da vida — já que nunca fez um único pão. Seu alimento e vocação sempre foram outros: a amizade, a poesia e a fumaça de pólvora subindo aos céus do sertão.

    As Raízes e o Primeiro Contato

    A infância no interior pernambucano foi marcada pelas brincadeiras de roda e pela expectativa das noites juninas. Povo do campo esperava acordado a chegada dos bacamarteiros de Tabira, Itacambira e Solidão. Ao som dos disparos espocando para o alto, a comunidade vibrava em palma, oração e sorriso.

    Essa cultura centenária — remonta a 1842 na região, com histórias como as de Zinha da Mata Verde na Serra do Sababá — foi transmitida a Manoel pelo próprio pai. O aprendizado começou como brincadeira no meio da noite, mas o amor pela tradição fincou raízes profundas. A partir da década de 1960, ele já estava totalmente imerso nesse universo.

    Organização, Liderança e Disciplina

    Por volta de 2001, Manoel assumiu a responsabilidade de organizar o grupo de bacamarteiros de Custódia. Uniu atiradores que antes participavam de forma isolada, formando uma tropa com mais de trinta companheiros.

    À frente da associação, assumiu o compromisso com o rigor e a segurança exigidos pelo manejo da reúna (arma tradicional):

    - Exigências Legais: Intermediação e gestão direta com as autorizações do Exército.

    - Segurança Estreita: Respeito absoluto ao manuseio da pólvora e ao carregamento com a vaqueta.

    - Conduta Rigorosa: Proibição de fumar ou beber perto do equipamento; o bisac precisa ser entregue a outro companheiro e o atirador deve se afastar para fumar.

    A Família do Bacamarte e a Resistência Cultural

    Mais do que o tiro ou o barulho seco, o que mais move Manoel Padeiro é o convívio humano. Para ele, o Bacamarte construiu uma grande família sem fronteiras. Guardou memórias marcantes ao longo das viagens, como o carinho recebido no Horto do Padre Cícero, em Juazeiro do Norte, e a cena de uma senhora de 72 anos dançando o samba de coco com o bacamarte na mão em Serra Talhada.

    Mesmo ciente de que o bacamarteiro enfrenta o esquecimento e a falta de valorização — assim como o poeta popular de feira —, ele se orgulha de defender essa tradição. Manoel costuma ressaltar que a manifestação do bacamarte na região é mais antiga do que o bumba meu boi, o samba de coco e o reisado.

    Para Sr. Manoel, o Bacamarte não é apenas uma festa ou um esporte, é a sua própria vida. Vestir a farda, segurar a reúna e ouvir o estalo subir ao céu na companhia dos irmãos de farda permanece sendo sua maior alegria e missão

    O Contexto em Quitimbu e Custódia

    O distrito de Quitimbu, uma das localidades mais antigas e de marcante relevância histórica para a formação do município de Custódia, abriga raízes culturais fortes no campo e no sertão. É nesse ambiente comunitário e rural que a figura de Mestre Manoel se consolida como referência e guardião da identidade sertaneja local.