08 maio, 2026

[Causos] Quando o telefone chegou no sertão - por Jussra Burgos



Invenção de Alexander Graham Bell chegou ao sertão como quem traz o futuro nas mãos. O aparelho, pesado e invariavelmente preto, pousou na sala como um oráculo moderno desses que não preveem destinos, mas os convocam. Era a década de 70, e na cidade pequena tudo acontecia devagar, como se o tempo também precisasse pedir licença. Mas naquele dia, não: havia pressa no ar, curiosidade nas janelas, gente inventando motivo para passar à porta só para espiar o aparelho. O disco giratório, do 1 ao 0, numa volta quase cerimonial, parecia um relógio medindo não as horas, mas as distâncias.

Poucos tinham telefone. Por isso mesmo, ele não era apenas um objeto: era ponto de encontro, ponte invisível. Ao lado, repousava a lista com nomes e números escritos com capricho, como se cada linha guardasse uma promessa de voz.

Quando tocava, era um acontecimento. Era um som ao qual nossos ouvidos ainda não estavam acostumados. Eu atendia com toda a importância que o momento exigia:

— Residência dos Burgos.

Do outro lado, um silêncio breve, seguido de estranhamento:

— O quê?

E eu repetia, firme, como quem defende um território:

— Residência dos Burgos.

Já meu irmão preferia brincar com o mundo. Se o telefone era novidade, por que não reinventar também o modo de atender? Atendia com entusiasmo irreverente. Primeiro, ficava em silêncio, provocando quem estava do outro lado da linha a dizer “alô”.

Então ele disparava:

— Não diga alô, diga Transbrasil! Ganhe uma passagem aérea e vá pra… (pqp)

E, antes que o destino fosse completado com palavras pouco elegantes, já se podia imaginar o susto ou o riso atravessando o fio.

O telefone, que veio para encurtar distâncias, acabou revelando outras coisas: o jeito de cada um, a voz que se oferece ao desconhecido, a pequena coragem de falar com quem não se vê. Outro dia, puxei pela memória, como quem gira novamente o disco do tempo. Quando contei esse fato ao meu irmão, ele perguntou:

— Tu te lembras disso?

Riu do outro lado — não do telefone, mas da lembrança:

— Claro que lembro.

Houve ainda outro episódio. Meu pai, comerciante, partiu cedo, vítima de um enfarte fulminante. Tinha apenas cinquenta e cinco anos. Pessoas de outras cidades ainda ligavam para ele. A senhora que auxiliava minha mãe nas tarefas domésticas não era dada a delicadezas. Se alguém perguntava por meu pai, a resposta vinha sempre a mesma:

— Ligue para o cemitério.

E naquele instante entendi: o grande acontecimento não foi apenas a chegada do telefone. Foi o modo como, entre fios e vozes, a vida passou a se contar de outro jeito mais próxima, mais sonora e, às vezes, deliciosamente atrevida.




Jussara Burgos
Luziânia-GO
Maio/2026

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