Estávamos no ano de 1982, porém não lembro qual o mês. Finalmente os irmãos Farias Remígio estavam morando juntos na capital. Não era fácil, para muitas famílias do interior, manter os filhos estudando na universidade. Mesmo esta sendo pública, havia gastos que muitos pais não podiam arcar.
Vamberto era um empresário com familiares em Custódia, inclusive, a sua irmã era amiga das minhas irmãs, e isso facilitou todo o processo do contrato de aluguel do imóvel onde fomos morar. Era um apartamento vizinho ao dele. A juventude é festiva por natureza, e creio que a nossa era até demasiada. Então, nos finais de semana não faltavam festas e encontros com amigos da nossa cidade do interior.
Quando não íamos para a Praia de Boa Viagem, sempre tinha opção nos bares da Ilha do Leite, Boa Vista e principalmente no Derby, onde reinava a feirinha na praça, sempre aos domingos. Olinda era um programa raro, até porque ninguém era motorizado. Vamberto era de outra geração, mas muito ligado a todos nós, e em muitos momentos participava das bebedeiras e batucadas que fazíamos. Ele tinha um carro que eu achava o maior “barato".
É uma gíria da época. Carro esportivo, de playboy como se referiam ao famoso Puma. Conversível, pois arriava a capota, um verdadeiro charme. Porém, tinha um detalhe, só havia dois bancos. Eu desejava muito andar de carona naquele Puma, mas Vamberto quando saia era sempre com a noiva. Claro que sempre mantive a esperança, não dizem que é a última que morre? Pois em um final de tarde de um domingo qualquer, tive uma grata surpresa. Vamberto me perguntou.
-Jorge, você conhece a feirinha do Alto da Sé?
-Não
Eu ia em Olinda no carnaval ou em outro momento esporádico. Ele estava se arrumando para sair, então me veio a interrogação. “Será que ele vai me convidar para ir para essa feirinha? Claro que eu pensei no Puma, como não! Que felicidade quando ele perguntou.
-Queres ir comigo lá?
-Oxe! só se for agora. Eu vou trocar de roupa rapidinho.
Quando retornei, Vamberto falou que havia esquecido uma coisa, entrou no quarto, pegou um revólver e colocou no cós, na parte de trás.
-Jorge, tu estás armado?
–Tô nada, tu sabes que eu entrei a pouco tempo na Polícia Civil, e um revólver é caro.
Atualmente eu estou trabalhando no arquivo, depois eu penso nisso. Nessa época, muitas pessoas andavam armadas, bastava ter condições financeiras para comprar, e também gostar de portar. Não era difícil adquirir o porte de armas. Enfim, o sonho realizado. Entramos no Puma e logo pegamos a grande Avenida Agamenon Magalhães com destino a Olinda. Realmente era uma sensação prazerosa, aquele vento na cara e as pessoas nos seus Fuscas, Brasílias, Chevettes e Corcéis, olhando com admiração para o Puma. Usando um neologismo, era um “amostramento” mesmo, da minha parte. Quando chegamos em Olinda, cidade que respira cultura e contracultura também, já era noite, e, após estacionarmos o carro, nos dirigimos para o bar, Cantinho da Sé. Muito conhecido e, naquele local, era o mais badalado e concorrido. Quando adentramos, já havia bastante pessoas, pois em seu interior não havia mesas vazias. Mas, o nosso interesse era ficar no terraço, pois havia uma excelente vista para o Recife ao fundo. Ficamos fitando o local para descobrir uma mesa vazia. Encontramos, porém não havia tamboretes. “E
agora?” Ficamos em pé ao lado da mesa, esperando o garçom para tomar uma providência.
Foi nesse exato momento que Vamberto viu dois tamboretes sem uso, em uma mesa próxima. “Eita! resolvemos o problema” Será? Tinham dois rapazes na mesa, e quando Vamberto pegou um dos tamboretes, um dos rapazes levantou-se rápido e pegou na outra perna do banco. Puxou forte, mas Vamberto não se intimidou e também deu um solavanco.
Ficaram os dois agarrados ao mesmo tempo no banco, e a troca de impropérios foi grande. O outro rapaz da mesa ficou de pé, mas não interveio. Foi tudo muito rápido, eu fiquei ao lado de Vamberto, e a cabeça estava a mil. Pensava: “Que B.O. pesado da gota” Porque aquilo poderia tomar proporções gigantescas. Vamberto estava armado e qualquer atitude da outra parte que configurasse uma ameaça com arma, o desfecho seria fatal. Eu tinha poucos meses como policial, estava no estágio probatório, que são dois anos, então se me metesse em uma confusão daquela, tinha plena consciência que as consequências seriam problemáticas demais. Todas as pessoas que estavam naquela área externa do bar ficaram na expectativa. Muitas de pé, na iminência de se retirar do local. A bala perdida sempre existiu. Os dois rapazes eram louros e de estatura alta, mas Vamberto os enfrentou de frente, com uma coragem que me surpreendeu. Tenho certeza que os dois rapazes também foram surpreendidos por aquela atitude, pois, após soltar o banco, pediram a conta ao garçom, que observava tudo, próximo onde estávamos. Quando os dois saíram, peguei um banco e sentamos na mesa. Vamos relaxar um pouco, baixar a tensão. Mas, fiquei com a “pulga atrás da orelha”.
-Vamberto, não vamos dar as costas para a entrada do bar, porque pode haver surpresa, esses caras podem retornar.
Momento tenso. Pedimos uma cerveja ao garçom, para aliviar o estresse que foi grande. O bar estava cheio, mas fomos atendidos rapidamente. Quando o garçom chegou à mesa, abriu um grande sorriso para Vamberto, e falou.
-Parabéns! Você foi o único que enfrentou esses caras. Eles são Tenentes do Exército, são gaúchos e já causaram vários problemas aqui no bar. Todo final de semana é um tumulto.
São uns quatro que vem sempre.
Eita! gota, pensei no ditado que diz.”Nada é tão ruim que não possa piorar”. Eu sabia que havia um Quartel do Exército na PE 15 e não era muito distante dalí. Então, falei para Vamberto.
-Vamos sair daqui rápido, é muito provável que esses Tenentes cheguem aqui com a Polícia do Exército. Com certeza eles se sentiram desmoralizados e vão querer a desforra
Vamberto ainda quis argumentar que não poderíamos sair correndo dali, mas convenci ele, dizendo que não precisava correr, mas pagar a conta e ir para outro local. Estávamos vivendo em um regime ditatorial, e sabíamos como as coisas eram resolvidas, principalmente quando se envolvia algum militar. Fomos pagar a cerveja, mas o dono do estabelecimento falou que já estava paga. Nem questionei quem havia pago, mas com certeza foi uma cortesia. Saímos do Cantinho da Sé, e seguimos para o outro lado da igreja, e entramos em um bar muito convidativo, até pela bela decoração. Sentamos em uma mesa sem o menor problema, local aconchegante, e pedimos uma cerveja. É como se a poeira tivesse baixando, a normalidade dando as caras. Que tensão, ufa! Agora estava tudo bem, a luz não muito forte, exigia uma melhor observação do ambiente. Olhei os abajus as plantas, e há poucos metros de onde estávamos, uma radiola de ficha luminosa, tocava AS VITRINES, música e letra de Chico Buarque de Holanda.
Excelente. Você impecável como sempre. Viajei no tempo
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