A Academia Valparaisense de Letras (AVL) realizou na noite de ontem, a Cerimônia de Posse de seus novos Membros Titulares e Membro Correspondente. Um encontro que celebrou a literatura, a arte e o fortalecimento da cultura naquela cidade.
A custodiense Jussara Burgos, filha do casal José Burgos e Noêmia Pereira, tomou posse como Membro Titular da Cadeira nº 34, que tem como Patronesse Raquel de Queiroz.
Comentou para o Blog Custódia Terra Querida, onde colabora desde do inicio em 2007, sobre a Posse na AVL.
Com alegria serena e o coração tomado de gratidão, compartilho este momento que se inscreve entre os mais significativos da minha trajetória.
A posse na Academia Valparaisense de Letras, ontem, dia 28 de abril de 2026, representa não apenas uma conquista pessoal, mas a celebração de um caminho tecido com dedicação, afeto e perseverança.
Divido, com minha terra querida, este instante de realização, na esperança de que ele também inspire outros a acreditarem na força dos seus próprios sonhos.
Com alegria serena e o coração tomado de gratidão, compartilho este momento que se inscreve entre os mais significativos da minha trajetória.
A posse na Academia Valparaisense de Letras, ontem, dia 28 de abril de 2026, representa não apenas uma conquista pessoal, mas a celebração de um caminho tecido com dedicação, afeto e perseverança.
Divido, com minha terra querida, este instante de realização, na esperança de que ele também inspire outros a acreditarem na força dos seus próprios sonhos.
DISCURSO
Tudo começa com uma história. Antes mesmo de compreendermos o mundo, já somos conduzidos por narrativas aquelas que nossos pais nos contam, que embalam nossos medos, alimentam nossos sonhos e nos ensinam, com delicadeza, a existir. Crescemos ouvindo histórias e, quase sem perceber, passamos também a contá-las: nos palcos, nas páginas, nas telas e até nos silêncios. Porque, no fundo, viver é isso: tecer histórias com o fio invisível do tempo. Eu fui Gandavo, uma contadora de histórias.
E talvez nunca tenha deixado de ser. Era esse o nome do grupo de teatro amador do qual fiz parte, onde entre luzes simples e sonhos imensos, aprendi que toda existência pede voz. Mais tarde, meu amigo Carlos Lopes, também Gandavo, fundou um blog com esse mesmo nome. E foi ali que minhas palavras encontraram abrigo: publiquei contos, compartilhei caminhos, dividi páginas com escritores de todo o Brasil. E assim, pouco a pouco, fui voltando para casa para aquilo que sempre fui.
Mas houve um instante inaugural, desses que a memória guarda como um milagre silencioso. Eu tinha 16 anos, estudava em um colégio interno de freiras, e escrevi um poema que, quase sem perceber, abriu em mim uma fresta de mundo. Uma colega, cujo pai trabalhava no jornal da cidade, pediu para publicá-lo. Dias depois, voltou com ele impresso e, naquele papel simples, recortei um pedaço de sonho e, com todo carinho, nas férias, levei-o como presente à minha mãe. Ela leu e, emocionada, disse: “Quem sabe se não estou diante de uma Rachel de Queiroz…”
Naquele instante, algo em mim despertou para sempre.
Ao chegar a esta Academia Valparaisense de Letras, não escolhi por acaso a cadeira 34. Sobre meus ombros repousa a honra de ter a cearense Rachel de Queiroz como patronesse a primeira mulher a ocupar um lugar na Academia Brasileira de Letras. Fundada em 1897, sob a presidência de Machado de Assis, a ABL levou oitenta anos para acolher uma mulher. Oito décadas para que o silêncio se convertesse em voz e a voz encontrasse imortalidade.
Ao assumir seu lugar, Rachel não apenas ocupou um espaço: deu início a um novo tempo. Raquel de Queiroz recebeu outra honraria , foi também a primeira mulher a receber o Prêmio Camões, consagração que veio pela força incontestável de sua obra e como reconhecimento de um talento que já iluminava gerações. Assim, tornou-se farol para tantas outras mulheres
Escolho esta cadeira como quem faz um gesto de amor e de memória.
É a minha forma de homenagear, com palavras, aquela mulher que um dia me viu antes de mim mesma: minha mãe.
Trago também comigo a presença do meu avô materno, Joaquim Pereira. Foi analfabeto até os 14 anos.
E, depois de aprender a ler, tornou-se um apaixonado pelas palavras, dono da maior biblioteca particular de sua cidade. Ele me ensinou, sem jamais dizer, que nunca é tarde para começar — e que os livros são portas que, uma vez abertas, jamais se fecham.
E, depois de aprender a ler, tornou-se um apaixonado pelas palavras, dono da maior biblioteca particular de sua cidade. Ele me ensinou, sem jamais dizer, que nunca é tarde para começar — e que os livros são portas que, uma vez abertas, jamais se fecham.
A poesia de João do Vale me deu asas para voar até aqui.
Ele compôs Rojão de Brasília — e, no tempo em que a Capital nascia do barro e do sonho, ela ecoava na voz de Jackson do Pandeiro, dizendo:
“O Brasil está construindo mais uma grande cidade
Que antigamente foi sonho e hoje é realidade
Está ficando povoado, todo o meu Brasil central
Riqueza própria e glória trouxe a nova capital.”
E mais adiante, como um sopro de encantamento a música diz:
“O Planalto é tão lindo que a gente tem a impressão
Que bem ali, bem pertinho, o céu encosta no chão.”
Foi essa imagem do céu tocando a terra que acendeu em mim o desejo profundo de conhecer o Planalto Central. Em 1976, conheci Brasília foi amor à primeira vista. Nesse ano celebramos nossas bodas de ouro. Brasília foi a ponte para eu chegar aqui. E, entre todas as conquistas, reconhecimentos e caminhos percorridos, a minha maior premiação é este fardão que agora visto não como adorno, mas como símbolo de uma caminhada
Neste momento tão significativo, agradeço aos amigos e familiares aqui presentes, testemunhas e, muitas vezes, personagens dessa jornada feita de histórias.
Porque tudo gira em torno delas. Uma peça de teatro só respira porque há uma história pulsando em seu coração. Um filme nos atravessa porque reconhecemos nele fragmentos de nós mesmos. E eu estou aqui, diante de vocês, porque acreditei, contei e vivi histórias.
E assim sigo.
Delicadamente tecida por palavras, movida pela emoção, sustentada pela memória.
Porque, no fim, somos isso: histórias que caminham, que sentem, que resistem…e que encontram, na escuta do outro, não apenas abrigo, mas a sua eternidade.
POSSE DOS NOVOS ACADÊMICOS - AVL
Para assistir apenas o discurso de Jussara Burgos, vá até em 1h32min e 09s do video acima.





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