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10 agosto, 2026

[Do chão forrado ao Mercado Público]: A História do Abate de Carne em Custódia


Antigo Matadouro Municipal / Abatedouro Publico
Localizado na descida da Av. Inocêncio Lima, no lado esquerdo de quem desce em direção ao trevo/saída da via, logo após a área do cemitério municipal.


Até meados dos anos 1970, a rotina de abastecimento de carne em Custódia refletia uma realidade comum a grande parte do interior do Brasil: o abate e a comercialização de proteína animal ocorriam sob condições precárias de higiene e sem regulamentação sanitária rígida.

Inicialmente, o abate bovino era realizado diretamente no solo, forrado de forma improvisada com folhagens de ariú ou folhas de bananeira. Com o tempo, a construção de um pequeno pátio de cimento evitou o contato direto das carcaças com a terra, mas não resolveu os graves problemas estruturais. O sangue da matança escorria e se infiltrava no chão, gerando um odor forte e permanente no local.

Após o esquartejamento, a carne era transportada em carros de boi até o antigo Açougue Público. Lá, o cenário não era diferente: piso irregular, bancadas de cimento deterioradas e carcaças suspensas ou dispostas sobre as tarimbas. A esse ambiente somava-se a chegada de suínos e caprinos vindos da zona rural no lombo de animais, abatidos na madrugada das segundas-feiras. Apesar das condições, essa era a principal fonte de proteína animal acessível à população da época.



Na foto:

Dorival Gois, Tenorinho, Adeilda Mariano, Francisquinho Laurentino, 
Francy Abreu e Zé do Fato

Esse panorama começou a mudar radicalmente com a gestão do prefeito Luizito, que viabilizou a construção do Abatedouro Público Municipal dentro das normas sanitárias exigidas na época. Em seguida, a criação do Mercado Público Municipal organizou a comercialização, garantindo instalações adequadas e higiênicas para feirantes e consumidores.

Por quase cinco décadas, essas duas estruturas cumpriram um papel fundamental na saúde pública e na economia local. Com o crescimento da cidade e o avanço das exigências sanitárias, deram lugar a instalações modernas, consolidando uma transformação histórica na forma como o município produz, fiscaliza e consome seus alimentos.

Por José Soares de Melo e co-participação Paulo Peterson. 
Fotos: Acervo Luiz Epaminondas Filho e Adeilda Mariano.

07 agosto, 2026

Roubo de moça - por José Soares de Melo




Acertei meu casamento
C'a fia de Zé Lotero
Eu queria e ela queria
O véio disse: "Eu num quero!
E se rouba a minha fia, vai
Vai morá no sumitero!


O velho patriarcado sertanejo era bastante rígido em relação à manutenção da honra de seu nome, principalmente no seio da família, onde as filhas eram “protegidas” pelos pais enquanto não se casassem. Só que, para isso ocorrer, havia todo um longo e penoso processo. A mãe, geralmente mais tolerante, acompanhava a filha a festas, feira, igreja etc., sempre de olhos e ouvidos atentos a eventuais “conquistadores”. Se aparecesse um jovem se “enxirindo” para a sua filha, a reação poderia ter duas vertentes: seria de defesa por parte da mãe, se o pretendente fosse um “Zé Ninguém”, ou seria alcoviteira, se o dito jovem representasse um bom partido para a filha.

Ocorre que, não raro, aquele pretendente escorraçado pela vigilante mãe não desistia e acabava por conquistar o coração da jovem sertaneja. Começava, então, o namoro “escondido”, sempre auxiliado por amigas da jovem, que serviam de “correio” para recados e bilhetes entre os jovens apaixonados. E tudo corria bem até que os pais descobrissem o namoro proibido. A vigilância era redobrada, os cuidados, apurados, e a jovem coitada vivia “presa” no seu lar.

Mas as amigas “alcoviteiras” se desdobravam em recados, e o casal de jovens resolvia fugir para forçar o casamento. Isso porque o código de honra do sertão daquela época era implacável: a honra da filha fugidia tinha que ser reparada com o casamento ou com sangue.

Aí é que ressurgia uma velha prática iniciada com os homens das cavernas, que consumavam seus “namoros” arrastando com uma mão a sua “amada” pelos cabelos e com um tacape na outra mão para a sua defesa.

Evoluindo com o tempo, a prática se transformou no famoso “roubo de moça”, com costumes mais humanos e modernos. Hoje, a prática se transformou no simples comunicado dos jovens aos pais de que decidiram viver juntos.

Assim, os jovens marcavam dia e horário da fuga, geralmente de madrugada. O jovem, travestido de raptor, chegava a cavalo e fazia um sinal de assobio; em poucos instantes, o casal já estava cavalgando contra o vento frio da madrugada, em busca de um abrigo para servir de ninho de amor.

A tradição mandava que o raptor levasse a amada para a residência de seus padrinhos, uma forma de assegurar a honra — ou o que restou dela — da jovem fugidia. A partir daí, começavam as tratativas para, primeiro, tranquilizar os pais que ficavam desesperados de manhã ao notar a ausência da filha. Depois, vinham as providências para reparar o “erro” do jovem casal: providenciar imediatamente o casamento, única forma de evitar o confronto que terminaria em sangue para “lavar a honra” daquela família ultrajada com o rapto.

Essa etapa da aventura era composta de rituais seguidos ao pé da letra. A moça deveria se ajoelhar aos pés do seu padrinho e pedir a sua bênção; o padrinho deveria levar a afilhada até seus pais, explicar a situação e, juntos, iniciarem as providências para o casamento. Até a realização do matrimônio, a moça ficaria sob a guarda de seus padrinhos ou pais, sem contato íntimo com o futuro marido.

No final das contas, tudo acabava bem. Casados, os jovens passavam a — tardiamente — planejar e pôr em prática os seus sonhos. A casa, o trabalho, a normalidade, os filhos, enfim, a reprodução da vida que segue.

O roubo de moça era notícia para ser comentada pela população por semanas. Naqueles tempos sem comunicações, notícias eram coisas raras.



José Soares de Melo
Recife-PE
Agosto/2026

Recordo-me de que assisti a um “roubo de moça” no início da década de sessenta. Morávamos na Travessa Heleno Aleixo e, em certa tarde, ouvi um verdadeiro alarido. Ao procurar ver melhor, observei um cavaleiro em desenfreada carreira no cavalo, com uma moça na garupa, agarrada a ele. Depois surgiu o comentário de que se tratava de um roubo de moça.

04 agosto, 2026

Resgatando a Memória Custodiense: A Arte e a Poesia das Crônicas de José Soares de Melo



Há histórias que o tempo tenta apagar, mas que ganham vida eterna quando contadas com afeto, precisão e o olhar atento de quem ama a sua terra. No Blog Custódia Terra Querida, temos a honra e o privilégio de contar com as contribuições inestimáveis de José Soares de Melo (Zé Melo), um verdadeiro guardião da nossa memória cultural e afetiva.

Através de suas crônicas, Zé Melo nos conduz em uma verdadeira viagem no tempo, trazendo à tona episódios, hábitos, causos e, acima de tudo, as figuras humanas inesquecíveis que moldaram a identidade de Custódia.

A Custódia de Antigamente: Personagens, Causos e Saudade

Com uma escrita leve, bem-humorada e profundamente humana, José Soares de Melo registrou ao longo dos anos perfis marcantes e causos impagáveis do cotidiano custodiense. Entre suas diversas colaborações, destacam-se:

  • Tipos e Figuras Populares: Homenagens e retratos cheios de afeto a figuras inesquecíveis da cidade, como Pedro Maravaia, Zé Preto, Zé Caboclo, Paulino, Doca, Carinhoso, Alaíde do Bloco do Cariri e Seu Nê Marinho.

  • Histórias e Causos do Cotidiano: Narrativas bem-humoradas e curiosas de fatos locais, como em “É Mentira, Terta”, “O Milagre sem o Santo”, “O Louco”, as peripécias de “Jogos nem tanto inocentes” e até mesmo episódios divertidos de autoparódia, como a inesquecível “Gafe de Zé Melo durante a Jecana”.

  • Locais, Tradições e Perfis: A memória dos pontos de encontro e personalidades da cidade, retratados em textos como Cacimba Nova, Bar O Ponto Certo, Caminhoneiros, o perfil de Adamastor Ferraz de Oliveira, José Pereira Burgos, além de reflexões nostálgicas em “Volta ao Passado”, “Eu e o Rei” e “Retalhos de Lembranças”.

A Importância de Preservar a Nossa História

O trabalho de Zé Melo vai além da simples escrita: trata-se de um registro histórico-afetivo essencial para as presentes e futuras gerações de custodienses. Suas crônicas mantêm viva a chama da nossa pertença e fortalecem o orgulho do nosso povo de dizer que pertence a esta Terra Querida.

A você, José Soares de Melo, o nosso mais sincero obrigado e reconhecimento por enriquecer as páginas do nosso blog e o coração da nossa gente!

📌 Relembre e Leia Novamente Algumas Crônicas:

 Para acesso as demais crônica, acesse o link: CLICANDO AQUI 

Você lembra de algum causo ou personagem citado nas crônicas do Zé Melo? Deixe seu comentário e compartilhe essa publicação para mantermos viva a memória de Custódia!



29 maio, 2026

Caminhoneiros - por José Melo




 DEDICADO AO MOTORISTA JUBILINO FERREIRA DA SILVA


Por José Melo                 


A vida de caminhoneiro sempre atraiu muitos fazendeiros do sertão, que não raro, vendiam seus rebanhos e aplicavam todo o dinheiro em caminhões, na maioria das vezes, velhos, que terminavam por arruinar financeiramente os antigos fazendeiros.

Muitas estórias eram contadas sobre a ventura e desventura desses aventureiros. Como a de um fazendeiro que comprou um velho caminhão, depois de ter vendido boa parte de seu rebanho. O caminhão quebrava mais que bolacha Creme Craker, e constantemente o velho fazendeiro tinha que vender algumas rezes para custear os constantes reparos.

Até que sem mais nenhuma rês para vender, com o caminhão quebrado no terreiro da fazenda, tomou uma decisão: mandou o “Chauffer” abrir a boca do “bicho” ( levantar o Capô), e dirigindo-se ao caminhão deu o veredito:

- “ Ô seu infeliz, você já comeu todo o meu gadinho, comeu toda a minha safra de algodão, comeu todo meu rebanho de cabras, e agora num tem mais nada. Se quer comer, agora você só tem as minhas terras. Vender eu não vendo mas se quizer, pode começar a comer!”

Esse evidentemente é um caso que não posso assegurar como verídico, mas muitos outros são verdadeiros, como o que relato a seguir.

Zé Batista sempre foi um fazendeiro muito equilibrado e trabalhador, sempre zelando por sua bela fazenda na Cacimba Nova.

Dado a proximidade da cidade, passou a morar na cidade. E foi contaminado pelo “cheiro da gasolina”.

Mas, precavido, procurou não errar. Antes de mais nada, construiu uma Garagem, na Rua Dr. Fraga Rocha. E quando alguém perguntava que construção era aquela, ele respondia sempre:

- “É uma garagem, pois penso no futuro em comprar um caminhão”.

Os amigos então o aconselhavam a desistir da empreitada, apontando os insucessos de muitos que enveredaram pela vida de caminhoneiro. Mas ele, apesar de analfabeto, era inteligente. Terminou a construção, trabalhou mais algum tempo, e depois comprou um Caminhão Chevrolet Brasil, zero quilômetro. Contratou um motorista e passou a realizar o seu sonho: fazia o transporte de mercadorias do Sudeste para o Nordeste e vice-versa. 

Com o passar dos tempos passou a encaminhar a filharada para a profissão de caminhoneiro. Resultado: todos os seus filhos, à exceção do caçula, o saudoso Ozório, passaram a dotar a profissão de motorista. Foi assim, um dos poucos fazendeiros que migrou para a atividade de transporte com sucesso.

Outros, nem tanto. Meu próprio pai tinha um comércio ativo, bem movimentado, com grande clientela. Caiu na tentação de ser caminhoneiro e viu seu comércio ir a deriva.

Vários “causos” engraçados se contam sobre caminhoneiros sertanejos. Como o de um Fazendeiro das Bandas do Barro Vermelho, que comprou um caminhão, e na primeira viagem, o novo caminhoneiro segui na cabine ao lado tendo o motorista, de nome Valdeci, constatado já no final da descida da Serra do mimoso que o “bruto” perdera os freios, exclamou:

“- Valha-me Deus, faltou freio!”

Ao que o apavorado transportador passa a implorar:

“- Intonce, Sêo Vardemar, pare pra eu descer, qui eu nun quero morrer de virada não!”

Outro fala sobre a arrogância de um motorista que acabara de dar um polimento na pintura do famoso “Marta Rocha” ( Chevrolet 1956, de linhas arrojadas para a época), quando um fazendeiro, encantado com a beleza do bruto passou a mão na pintura, ao que o motorista “chiou”:

“ - Ei, velho, tire a mão e esse saco velho da pintura do caminhão.”

Ao que o pobre coitado, humilhado, pergunta ao motorista:

“- Sêo moço, qui má lhe pregunto: quanto custa mar ou meno um caminhão desse?”

O Motorista, para humilhar ainda mais o velhote, deu um preço bem superior ao real. O velhinho fez as contas, abriu o saco velho e despejou em cima do capô do caminhão, uma verdadeira fortuna, fruto da venda de uma boiada, e cujo valor cobria o valor informado pelo motorista, e deu o troco ao motorista:

“- Apois se o caminhão vale isso e é seu, me passe os papé dele que eu compro ele agora, e pago a vista. Agora se não for seu, dêxe de xalerá o dono e num venha querer passar pito nas pessoa!”

Certa feita, Adamastor foi chamado para consertar uma camionete, em Quitimbu, que fazia semanas que a “bicha” não “pegava” nem no tranco. 

Limpeza do carburador, regulagem do relê, bota em tempo, enfim, faz uma revisão geral. Como a bateria estava arriada, pede aos presentes para dar uma empurradinha na camionete, para ver se ela “pegava”.

Na primeira tentativa, nada, na segunda também não. Depois de várias tentativas e novos ajustes, enfim ela pega, fazendo aquele barulhão tão esperado pelo dono, que não se contendo agradeceu:

“ Viva Santa Luzia, qui graças a ela meu carrim tá bom de novo!!!

Ao que, Adamastor, conhecido por sua fina ironia, não perdoou:

“- Se foi ela que consertou seu carro, porque você foi me chamar pra consertar?”

E o agora feliz proprietário contra argumentou:

“- Você consertou, mas ela ajudou!”

Adamastor aproveitou e concluiu:

“- Então você vai ter que pagar dobrado: além do meu trabalho, que deu certo, você teve a sorte de ter uma Santa ajudando!

E o pobre homem pagou a Adamastor regiamente e ainda faz uma doação para a Padroeira de Quitimbu.

E pra finalizar, nada mais ridículo do que aquele ajudante de caminhão que, para garantir a segurança do veículo e da carga, foi dormir na boleia do caminhão. Quando se preparava para dormir, descobriu um pijama do dono do bruto, e não teve conversa: vestiu aquela roupa “chic”.

Só que na manhã seguinte, quem disse que ele conseguia desamarrar o nó cego que ele deu no cordãozinho do pijama? Pense num sufoco, vendo a hora o dono chegar e ele ali vestido no seu belo pijama!!!

Não sei o final, só sei que isso aconteceu na antiga Bomba, no Posto Shell que lá havia.

13 setembro, 2024

Um dos três mosqueteiros - (80 anos)

Dr. Pedro Pereira Sobrinho

Alguém designou um trio de jovens custodienses de OS TRÊS MOSQUETEIROS. Era formado pelo brilhante advogado tributarista e escritor Ernesto Queiroz Júnior, professor, membro de diversas academias, popularmente conhecido por Ernestinho, Sílvio Carneiro, Contador, Professor,  Prefeito de Custódia, e por Pedro Pereira Sobrinho, advogado, odontólogo e professor.

Hoje, dos três resta o Dr. Pedro, o último dos TRÊS MOSQUETEIROS. E é sobre ele que dedico estas mal traçadas, pelo muito que representou, como os outros dois,  para Custódia e paria várias gerações de jovens custodienses.

Nascido em 14 de julho de 1940, o garoto Pedrinho era o xodó de seus pais, o austero e estudioso Joaquim Pereira, e essa mulher extraordinária que foi Dona Corina. Ambos se dedicavam ao ramo farmacêutico, o que lhes proporcionava grandes oportunidades de ajudar os seus semelhantes, numa época em que a assistência à saúde praticamente não existia. 

Dona Corina era a salvação das pobres mães custodienses, quando aflitas não sabiam o que fazer com seus pequenos filhos acometidos de vários males. Sua experiência salvou muitas vidas, ao prescrever medicamentos para as mais diversas doenças dos pequeninos custodienses de então.

Levado pelo extremo zelo que seus pais dedicavam aos filhos, Pedrinho foi encaminhado nos estudos na capital pernambucana, onde adquiriu o diploma de Odontólogo, sempre retornando à terrinha durante as férias para rever os familiares, amigos e a cidadezinha que ele tanto ama.

Com o canudo na mão e mil ideias na cabeça, iniciou uma trajetória que rendeu muitos frutos, mais para Custódia e sua gente do que para si. Idealista por natureza, não se contentou com o diploma de odontólogo, ingressando na Faculdade de Direito de Caruaru, sendo um dos componentes das primeiras turmas daquela instituição.

Com o curso, dedicou-se mais ao Direito, onde destacou-se como um excelente orador, um dos melhores da região na sua época de ouro.

Agora com dois diplomas de cursos superiores, dedicou-se de corpo e alma ao que ele mais amava: educar. Antes de odontólogo ou advogado, Doutor Pedro Pereira foi um Educador na expressão exata da palavra. Lecionou por décadas, no Ginásio Municipal Padre Leão, Colégio Normal Municipal Ernesto Queiroz, e no seu Colégio Técnico Joaquim Pereira.

Não só a educação de Custódia deve muito ao dr. Pedro Pereira. Seu apego às coisas da nossa terra o fez Vereador, muito contribuindo para a mudança na forma de atuação dos edis custodienses. Durante sua gestão, desenvolveu ações junto ao então Prefeito – outro dos TRES MOSQUETEIROS, o Professor Sílvio e Carneiro, e com sua participação Custódia ganhou o seu estádio de futebol, o famoso Carneirinho, nome por ele dado ao nosso conhecido estádio.

Lembro do lançamento da “pedra fundamental” do Carneirinho. Um quatorze de julho, de ano que não recordo, dr. Pedro me convida para junto a outros amigos, fazer uma vistoria numa área de terra que ficava distante da cidade, cerca de dois quilômetros, no então Sítio Pindoba. Recordo que foi no dia 14 de julho por seu aniversário. 

Debaixo de uma jurema preta, sentamos formando uma roda em torno de um gravador mine cassete, última tecnologia da época, para registrar aquele momento. Recordo que estávamos, eu, o Dr. Pedro Pereira, Djalma Moisés, se não me engano presidente da Câmara de Vereadores na época, além de outras pessoas que não consigo lembrar. E alí foi lançada a ideia de transformar aquela área plana no campo de futebol, o que foi concretizado graças a ação do então Prefeito Sílvio Carneiro. 

Na ocasião dr. Pedro já batizou o estádio, homenageando o Prefeito Sílvio Carneiro,   afirmando que diferente da mania de grandeza de muitos da época, ao invés de chamar de CARNEIRÃO, o estádio seria o CARNEIRINHO, nome que “pegou” e ficou marcado para sempre.

Mas não foi só na educação e nos esportes que o dr. Pedro deixou sua marca. Muitas outras ações por ele desenvolvidas marcaram sua atuação. Criou e fez funcionar o curso de contabilidade, através do COLÉGIO TÉCNICO JOAQUIM PEREIRA, colaborou e muito na criação do Lyons Club de Custódia, na implantação de uma pequena repetidora de TV, instalada no Macambira, na criação e instalação da COOPERCUSTO, cooperativa agrícola com muitos serviços prestados aos agricultores, junto aos dois outros MOSQUETEIROS, Ernestinho e Sílvio  manteve por um bom período o semanário CUSTODIANAS, jornalzinho sensação da época, sempre colaborou na realização de eventos culturais, esportivos, recreativos, a exemplo de formação de equipes de futebol, participação nas festas populares, Carnaval, São João etc., 

Coletou centenas de causos do nosso folclore (pena se não os tem escritos), sempre colaborou com os gestores municipais, quer com orientação legal, quer como mestre de cerimonias, em suma, viveu intensamente a vida na acanhada Custódia de antigamente.

Ao completar oitenta anos, o Dr .Pedro Pereira lega aos seus filhos um exemplo raro de dedicação e amor a nossa terra, o que os obriga a continuar o seu histórico; aos custodienses, o respeito e a admiração pelo muito que fez por nossa terra e a todos pelo carinho e amizade sincera que sempre devotou a seus familiares e amigos. 

Sinceros parabéns meu compadre e amigo, o Bidoutor Pedro, como sempre o chamava.

Texto por
 José Melo
Recife-PE
Julho/2020

11 setembro, 2023

As Muitas Custódias - José Melo

 

Texto:
José Melo
Recife-PE
Setembro/2020

Hoje, é o aniversário das muitas Custódias. Da Custódia da Fonte de Sabá, recanto poético e de uma paisagem rusticamente bela; Custódia da Tambaú, orgulho dos Custodienses; Custódia do Café da Hora, ponto de encontro dos madrugadores da cidade de antigamente; Custódia de sua feira, incomparável pelo dimensão e diversidade de produtos nela expostos; Custódia da Rua da Várzea, recanto que abrigou a primeira fábrica de tanino da América do Sul; Custódia de seus bacamarteiros, que preservam a cultura local; Custódia do samba de côco, das toadas e aboios dolentes de vaqueiros; Custódia de artistas anônimos que preservam o verdadeiro Forró Pé de Serra, e daqueles que se projetam no cenário artístico regional e nacional; Custódia das memoráveis festas de São José; do São João autêntico, festejado anualmente em todos os sítios e fazendas; das festas de fim de ano, com a população enchendo a Praça Padre Leão, durante várias noites; das missões religiosas do Capuchinho Frei Damião, das missas e procissões que ainda hoje congregam milhares de fiéis. Custódia dos desfiles cívicos de 07 e 11 de Setembro, com a estudantada garbosa acompanhando a Banda Marcial Mauro César; Custódia dos profissionais famosos, que contribuíram para o seu crescimento: Mestre Ozório, na marcenaria; João Prefeito na mecânica; Duda Ferraz, na mecânica, eletricidade e muitas outras atividades; Toinho de Osório, na construção Civil; inúmeros profissionais que fizeram a história da indústria de calçados, os famosos sapateiros: Zé de Zaqueu, Cláudio Moisés, Israel, Manoel, Raimundo, Vavá, Alípio, Nezinho, e tantos e tantos outros que se torna impossível lembrar todos; Custódia da “Duas Américas”, a primeira “rádio” da cidade; Custódia de tantas figuras populares inesquecíveis: Zé Preto (do oito baixos), Pedro Dotô, os Gino (numerosa família do Alto), Paulino Caititu, Iôiô, Mila, Luiz Maraváia, Doca, Luiz Doido, e tantas pessoas que fica impossível citar todas; Custódia dos carnavais inesquecíveis: dos blocos do Cariri, de Alaíde, de Zé Motorista, das Canções carnavalescas “O Carcará” e “A Volta do Carcará”; dos craques do futebol, Toreba, Branco, Pelado Zequinha de Mestre Alfredo, Edmundo, Alfredo, Brasília e muitos outros. 

Essa a Custódia que hoje completa mais um ano de sua emancipação política, trilhando caminhos que a levam a um futuro promissor. Sempre amada, adorada, idolatrada por seus verdadeiros filhos. 

Parabéns, Custódia, rumo ao seu Centenário!!!



05 julho, 2023

LUIZITO E CORRELIGIONÁRIOS EM COMEMORAÇÃO INTERNA.


Foto: José Melo (Acervo particular)


Nosso colaborador José Melo, enviou foto de uma comemoração de fim de ano (provavelmente entre 1977 e 1978), realizada no gabinete do então prefeito, Luiz Epaminondas Filho. Hoje funciona no mesmo local, a Câmara Municipal de Vereadores. 

Aparecem na foto em ordem: Luizito (prefeito), Arnaldo Burgos (Vereador), Tenente Expedito (Delegado de Polícia), Djalma Moisés (ex-vereador), Zé Melo (Secretario de Administração), e Dr. Antônio Medeiros (Assessor Jurídico da Prefeitura).

Luizito, Djalma Bezerra e Zé Melo na Convenção do Arena

 


 
Sebastião Oliveira – na época Prefeito de Serra Talhada, Djalma Bezerra, então Prefeito de Custódia, José Rodrigues, então Prefeito de Triunfo, Luizito – candidato a Deputado Estadual, Gustavo Krause, governador em exercício na época, entre outros. 

O evento foi a convenção da ARENA, quando Luizito foi candidato a Deputado Estadual. O candidato a Governador foi José Múcio.

Colaboração: José Soares de Melo.

16 junho, 2023

Paulino "Caititu" - por José Melo


Texto: José Soares de Melo

Parece que estou vendo aquela cena, repetida tantas e tantas vezes, à beira da cacimba, escavada as margens do Riacho Custódia. A longa fila de latas, a meninada pintando o sete, as “ botadeiras d’ água” fofocando, enquanto aguardavam a vez de encherem suas latas da água que serviria para beber nos lares da cidadezinha que mal acordara. A grande maioria dos meninos vinha buscar água, em pequenas carroças improvisadas de caixotes, para o consumo doméstico, pois a água do Banheiro, como era chamado o chafariz público, era imprestável para beber, pelo alto teor de sal. Além deles, as “botadeiras”, com suas rodilhas e latas que equilibravam com maestria na cabeça, e alguns homens que ganhavam algum dinheirinho abastecendo os lares mais abastados, com seus galões, equipamento composto de duas latas dependuradas por cordas em um pau – pau-de-galão, que eles carregavam sobre os ombros.


Entre estes, um era a diversão da garotada. Paulino, caboclo de pele curtida pelo sol, que tinha uma mão deformada, consequência de um acidente em um equipamento das antigas fábricas de Caroá. Equipamento esse que era conhecido por Caititu, o que rendeu a Paulino esse apelido, que ele detestava e quando algum garoto gritava esse nome próximo dele, ele ficava literalmente louco. Jogava pedras, paus, o pau-de-galão, a cuia, o que estivesse próximo servia de arma.

Nessas ocasiões eram comuns as brigas entre os usuários da cacimba. Um dos motivos de constantes brigas, era o desaparecimento de cuias, que serviam para captar a água da cacimba e levá-la para a lata. Numa dessas, um gaiato botou a culpa do desaparecimento da cuia em Paulino e ele ganhou mais um apelido: “Ladrão de Cuia”. Não se sabe com qual apelido ele se enfurecia mais, se “Caititu” ou “Ladrão de Cuia”. Qualquer um dos dois era motivo para carreiras, pedradas atiradas a esmo, gritos enfurecidos, xingamentos às pobres mães dos trelosos garotos. Muitas vezes, não satisfeitos, eles seguiam Paulino, e em cada esquina gritavam os apelidos, corriam, se escondiam e esperavam ele se acalmar para em seguida voltar a provocar o pobre coitado.

E assim viveu Paulino até o dia em que o progresso acabou com a profissão dos “botadores d’água”: a chegada da água encanada encerrou aquele ciclo de vida em Custódia. E Paulino ficou na dependência de familiares até que o advento da aposentadoria do trabalhador rural trouxe para Paulino – acredite a sorte e o azar. A sorte porque ele pode viver durante algum tempo independente, com seu dinheirinho próprio para se manter. Azar porque a mesma aposentadoria que lhe dava o sustento, fez com que numa madrugada após o dia do pagamento do FUNRURAL, seu corpo aparecesse estirado sobre seu sangue numa ruela escura da cidade, vítima da violência que o progresso trouxe. Segundo dizem, foi morto pelo dinheiro da aposentadoria.


12 junho, 2023

Cacimba Nova - autor: José Melo

 


José Soares de Melo
Recife-PE
Março/2012

O título não tem nada a ver com a excelente música de Zé Marcolino, eternizada na voz do também eterno Luiz Lua Gonzaga. É apenas um rasgo de lembranças de um passado distante, sepultado que foi pelas águas do Açude Marrecas. Cacimba Nova era o sítio em que vivi memoráveis dias de felicidade na minha infância, dias que conseguiram gravar imagens indeléveis daquela paisagem, que começava na Fazenda Guarani, hoje transformada pela invasão urbana da cidade em ruas que compõem o Bairro da Redenção. Quantas vezes não fiz o percurso de nossa casa, nos fundos da mercearia de minha família, na esquina da Avenida Manoel Borba, com a Avenida Onze de Setembro! Cruzava a Rua deserta, cedinho, sob a névoa que dominava as manhãs da cidade, pegava a calçada do velho Grupo Escolar General Joaquim Inácio, e no final do seu muro cruzava o antigo campo de futebol, onde hoje funciona o Posto Tamboril.

A partir daí, um sombreado corredor composto por cercas de avelozes, com a estradinha macia, coberta de uma areia branca, muito fina, levava até a velha casa de meus avós, distante cerca de três quilômetros da cidade. Poucas casas no trajeto. A primeira, de um senhor,cujo nome era algo como Manoel Conceição; a seguir, uma pequena sequência de casebres de taipa, onde moravam a família de “Seu” Porfírio, e de uma senhora já centenária, cujo nome minha memória teima em não lembrar. Depois, já chegando ao Guarani, após uma curva, um pequeno quarto, onde funcionava a Bodega de João de Zumba. Mais a frente, a Fazenda que dava nome ao lugar, Guarani, com seu bangalô moderno, e um imponente Eucalipto ao lado. Agora a estrada já era mais estreita, com a vegetação quase que a recobrindo. Ao final daquele corredor, um velho umbuzeiro era parada obrigatória, quando em safra, para a colheita de umbus. A Casa de Henrique, meu parente, como quase todos que residiam naquelas bandas. Pertinho, o casarão de Tio Anízio Batista, que na verdade era tio de meu pai. Outras casinhas mais adiante, sempre de parentes. Os Raimundo, a “Tia Miné”, Minervina, outra tia do meu pai, a enorme Casa de “Tio Zé Batista”, que anualmente promovia o mais animado São João da região.

Cruzando o Rio da Marreca, logo após um pequeno trajeto, chegava a casa dos meus avós. Velho casarão cujas paredes mais pareciam as de uma igreja: cerca de cinqüenta centímetros de espessura. Porta larga e muitas janelas na frente. Um verdadeiro salão era na verdade a parte mais movimentada da casa: modestamente mobiliada – apenas um imenso e pesado banco de baraúna, algumas cadeiras, uma mesinha com o oratório, alguns quadros com gravuras de santos e fotografias da família e mais nada, além dos indispensáveis “armadores de rede”, feitos em madeira e encravados na largas paredes, servia como sala de visitas, capelas para as novenas, dormitório de redes estendidas quando a família se reunia, área de diversão da criançada quando o sol estava muito forte ou chovia, sem falar nos verdadeiros saraus literários que eram realizados nos finais de semana, com a família reunida para ouvir a leitura obrigatória do mais autêntico meio de propagação da cultura da época, e que era conhecido por “Romance”, como era conhecido o hoje famoso Cordel. Um corredor escuro separava aquele salão da Sala de jantar, e dividia a casa em duas alas com suas “camarinhas”, duas de cada lado, que era como chamavam os quartos. Na sala de jantar, uma comprida e pesada mesa, com duas cadeiras nas testadas e dois bancos nas laterais era o local das várias refeições diárias: o café da manhã, sempre a seis horas, o almoço, as dez horas, a ceia, as quinze horas e o jantar as dezessete horas, além dos lanches das crianças.

Nada me agrava mais do que após as primeiras travessuras do dia, ir para o “Reveso”, como chamavam um pequeno pomar que ficava em frente à casa, as margens do Rio.Colhia Goiaba, manga, banana, Graviola – que conhecíamos como “Coração da Índia”, caju e muitas hortaliças e verduras. No mesmo ficava a cacimba, a fonte de abastecimento da casa, durante o período de seca.

Achava interessante a minha avó preparar o xerém, moendo o milho numa espécie de moenda, composta por duas rodas de pedra, uma sobre a outra. A de cima dispunha de uma espécie de maçaneta e de um buraco, onde eram colocados os grãos. Girando a parte de cima, o atrito entre as duas pedras quebrava o milho, produzindo o xerém.

Da mesma forma era interessante quando minha avó ia “torrar” café. Os graus do café, misturados a pedaços de rapadura em uma panela fumegando espalha o cheiro forte do café por centenas de metros. Depois de torrado, o café se transformava no massa pastosa, extremamente preta, que era espalhada também sobre uma pedra lavrada, em formato de tábua, para esfriar e endurecer. Depois de frio, o café se transformava em uma espécie de pizza preta, que era quebrada e jogados os pedaços no pilão para ser socado até virar aquele pozinho amarronzado e de cheiro forte.

Na cozinha, o velho “Meu Louro”, que não escapava das brincadeiras da meninada. Tio Dué o ensinou a assoviar. Anos depois, não sei como, ele ensinou o papagaio a perguntar, sempre que alguém assoviava:

-“ Foi eu ou foi tu?”

Tio Dué caía na gargalhada, dizendo que o papagaio estava “caducando”.

No cercado que ficava após o curral, as margens de um riacho, um frondoso sombrião, com suas flores vermelhas era o abrigo certo para as brincadeiras da meninada, quando o sol queimava de quente. Algumas fruteiras, como pinha, manga e graviola nos forneciam preciosos frutos.

No terreiro da frente, a velha quixabeira, que abrigava do sol o velho e encardido carro de bois. Deitado nele sonhei muitos sonhos de criança livre, despreocupada e feliz.

Ao entardecer, não sei por que, mas sempre me sentia como que angustiado, naquele momento de paz, de solidão, no lusco-fusco da passagem do dia para a noite. Os pássaros iam encerrando suas sinfonias, o sol esmaecia no poente, os únicos barulhos perceptíveis eram os dos chocalhos que com seu som monótono anunciavam a chegada das vacas leiteiras do pasto, para a separação noturna de seus bezerros, que ficavam, no linguajar do sertanejo, “apartados” para preservar o leite da manhã seguinte.

E a noite assumia o lugar do dia, não raro com a presença mágica da lua, que enfeitava o céu azulado com sua claridade prateada derramando-se pelos terreiros, estradas e roçados. Estrelas brilhantes enfeitavam aquele cenário espetacular, deixando a todos embalados pela brisa fresca que varria os campos e chegava até a calçada do velho casarão, verdadeiro encantamento que me fazia teimar em permanecer até tarde observado aquele cenário.

Velhos tempos, belos dias que teimam em não sair da minha lembrança.


10 junho, 2023

Carí - Autor: José Soares de Melo

 


José Soares de Melo
Recife-PE
Março/2012


Anteriormente já falei de Carí, de sua participação no Bloco do Cariri. Como disse ali, efetivamente ela chefiava as mulheres de vida fácil no Sepitinga. Eram inúmeras, que viviam basicamente do faturamento que obtinham nos dias de feira, nas festas de São José, ou em incursões por outras cidades.


Mas o tempo foi passando, o crescimento da cidade foi aumentando, as habitações se aproximavam do Sepitinga, que era relativamente afastado do resto da cidade – ficava por trás das Avenidas Manoel Borba, Onze de Setembro, e da Rua Dr. Fraga Rocha. Com o passar do tempo as construções invadiram o que um dia fora a zona, e a profissão mais antiga do mundo teve que se render ao progresso: acabou a zona. As mulheres espalharam-se pela periferia, outras mudaram de cidade, e a chefe tomou uma decisão: abandonou a vida fácil e foi ser fazendeira, num pedaço de terra no sítio Catolé.

Lembro perfeitamente do visual adotado por Carí, quando passou a cuidar de seu rebanho caprino: calça e camisa masculinas – coisa rara naquela época, botas de vaqueiro, chapéu de couro, transformando-se assim numa autêntica sertaneja masculinizada.
Dava duro, plantava sua lavoura, cuidava de seu rebanho, enfim, levava uma vida igual a de milhares de bravos sertanejos.
Não se sabe como, surgiu no seu rebanho de caprinos, uma raça de bode com uma característica absurdamente estranha: os Bodes, apesar de Machos e bons reprodutores, davam leite! Sim, davam leite, sim senhor. É verdade que era pouco leite, mas dava. Isso chamava a atenção de quantos vissem, e não raro, muitos faziam questão de ir conhecer aquela coisa estranha para todos dali.
Recordo que em frente a sua casinha, à beira da Estrada que ia para Maravilha, havia uma cancela, que obrigavam os veículos a parar para poder abrir a cancela e passar. Sempre que passava lá eu ficava imaginando como é que Carí se adaptara a uma vida tão difícil como aquela. Hoje, creio que entendo porque ela se adaptou: é que a “as mulheres de vida fácil” que é como chamavam as profissionais do sexo, na verdade tinham uma vida muito pior que a dura vida do homem do campo.
Não sei o final dessa história. O tempo se encarregou de apagar o roteiro de uma vida que marcou tantas pessoas naquela cidadezinha. Talvez porque essas pessoas não quisessem ser lembradas como alguém que viveu àquela época, como se aquela vida fosse amaldiçoada. Ela foi uma líder coerente com sua condição de prostituta enquanto ralou na chamada “vida fácil”, e foi uma cidadã perfeita quando resolveu deixar aquela vida para trás.

José Soares de Melo

25 maio, 2023

São Pedro na Terra - por José Melo


 

Nosso Senhor Jesus Cristo
Chamou São Pêdo outro dia,
Dixe, vá na terra, essa sumana
Prum trabáio de valia
Vêja cuma tá o meu povo,
Me contá o qui há de novo
E vortá cum sete dia.

São Pedro chegou na terra,
Cum muita disposição,
Vêi parar im Pernambuco,
Bem no mêio do Sertão.
Pamode tudo obiservá
E vortar para contá,
Cuma tá a situação.

Duas sumana já passou,
São Pedro nun deu nutiça
Deus intão mandou pra ele
Um recado sem maliça
“Pedro, vorte ligêro
Sinão eu mando traze-lo,
Nem qui seja cum a puliça

São Pedro intão resolveu,
Pru Paraíso vortá.
Chegou pra Deus e passou,
As nuvidade a contá:
“No sertão tá bom danado,
Eita povo animado,
Achei bom tê ido lá”.

Lá tá tudo muito bom,
Tem fartura de cumida,
Buxada e sarapaté,
Tem quaiada iscorrida
Cuscuz cum leite e jabá,
Di tudo do mundo há,
Tá tudo uma boa vida.

São Pedro No Sertão

Quando é nas sexta-fêra
Tem forró no pé de serra,
Cum a sanfona gemendo
Cum a zabumba qui berra,
Digo cum satisfação,
Qui, hoje, lá o sertão
É o mió lugá da terra.

Tem festa de vaquejada,
Casamento e pescaria,
Futibó e pega de boi,
Samba, coco e cantoria
Lá ninguém vê a tristeza,
Muita fartura na mesa
Tudo cum muita alegria!

Intão Deus lhe perguntou,
Intão lá num tem mais fome?
Tu qui passasse esses dia
Junto cum aqueles home,
Me arresponda agora,
Tu visse arguma hora
Eles falá no meu nome?”

São Pedro li respondeu:
“Ingraçado, eu num vi.
Nuca falaro im seu nome
E se falaro eu num uvi
Mas isso eu agaranto,
Num falaro in nem um santo
De todos qui tem aqui.”

No outro ano, de novo,
São Pedro foi chamado.
Prá vortá de novo a terra
Aí ficou logo animado
Deus disse, vá, passe um mês,
Ou se quizer, passe três.
E me traga o resultado.

Saiu numa sexta-feira,
Logo no sabo vortô.
Foi direto ao Gabinete
Do nosso Pai Criadô.
E com o seu falatóro
Fez logo o relatóro
De tudo qui incontrou.

“Meu Senhor lá no sertão,
Ta uma seca danada
Num tem água pra bebê,
De comê num tem mais nada
Só tem sufrimento e peleja
Muita miséra e tristeza
A vida quaji acabada.

Deus então li perguntou:
Se São Pedro ouviu falá,
O nome de Deus ou de Santo,
Pur argum home de lá.
Respondeu: “É toda hora,
Quando resa ou quando chora
Tão sempre a se lembrá.

Tem resa missa e novena
Ladainha e Procissão
O povo muito contrito,
Cum o rusáro na mão
Clama pro nosso sinhô
Eita povo rezadô!
Veve só de oraçãqo

Isso prova qui o povo,
Quando tá no sufrimento
Se lembra de Deus e reza
Pra suportar o tormento
Mas se tá cum a vida boa
Brinca, pula e sorta loa
De Deus num lembra um momento.

José Melo
(Baseado em anedota popular)