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27 março, 2025

Paulo Peterson comenta "A Baraúna" de José Carneiro, lançado de 2015



Em 2015, recebi um exemplar do então


recém lançado livro de prosa e versos, "A Baraúna", de autoria do conterrâneo José Carneiros de Farias Souza (in memorian). 

Em "A Baraúna", você encontra um excelente resgate do contexto histórico cultural da cidade de Custódia, bem como da comunidade custodiense. Rico em informações sobre o anos 30/40. Citações de diversos moradores, em sua boa parte, amigos particulares. A obra está dividida em quatro partes, conta ainda com Sonetos, Poesias, Canções, Hinos, Motes e Glosas, finalizando com sextilhas.

Dr. José Carneiro, foi um dos inúmeros colaboradores do Blog Custódia Terra Querida, seus textos estão disponíveis na coluna Traços e Retraços. 

Seus 84 anos de idade, se confunde com a história de Custódia com seus 86 anos de Emancipação Política. Seus textos são verdadeiras relíquias, com informações preciosas de uma longínqua época, descritas de forma apaixonada pelo autor. Afirmava que este trabalho era o seu canto do cisne. Que é a síntese do melhor de tudo de bom do seu pensamento. Da Fé de seu espirito e a paz do seu coração. Não tenho dúvidas.

Por fim, fiquei muito feliz pelas várias citações a minha pessoa nesta obra, e pelo reconhecimento ao meu trabalho com o Blog Custódia Terra Querida. A satisfação de um trabalho, é isso, o reconhecimento, e disso, serei eternamente grato ao Dr. José Carneiro, pois foi graças a colaboradores do seu quilate, que o Blog Custódia Terra Querida, tem hoje um acervo que tem em suas páginas.


Paulo Joaquim Peterson Pereira.

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06 fevereiro, 2025

Né Marinho - "Um tabelião de firma reconhecida" - (Por José Carneiro)


Né Marinho
* 15/09/1902
+ 03/2002

Manoel Marinho de Rezende, Né Marinho, era um homem de personalidade marcante, como serventuário de justiça e empreendedor. Tabelião de competência reconhecida como oficial do registro geral de imóveis da comarca e proprietário do bar Fênix, que fez história como o Centro Social de maior importância da cidade por longo tempo.

Uma de suas particularidades era o indispensável uso da gravata. Dizia-se que ele não atirava nem para tomar banho e que para isso tinha uma especial, impermeável. Fez uma viagem de navio ao Rio de Janeiro que na época causou sensação.

Casado com Ester Pires Rezende, uma mulher bonita, simpática, ligeiramente estrábica, que vivia para o lar. Eu gostava muito dela e apreciava o seu modo de ser. Os filhos do casal, Leny,  Ivanise, Laise, Hélio e Herbert eram educados e retraídos, em face da maneira austera de criação do pai. Eu me dava bem com todos eles, em especial com Leny. Quando a família se mudou para o Recife, todos os anos, Herbert vinha passar as férias em Custódia e era hóspede da casa dos meus pais. Sobre ele nada se sabe do seu destino.

Leny era considerada a moça mais vaidosa e elegante de Custódia, no vestir e no andar, afora a caprichada maquiagem. Retraída, mas nem por isso alegre e educada. A vaidade não impediu que adquiriris um bom preparo intelectual, a ponto de, mais tarde conquistar um lugar de destaque no magistério como professora na capital do Estado.

Né Marinho depois de aposentado, sozinho, passou uma temporada em Custódia advogando como rábula. Como se vê era um homem afoito criativo.

Lembro-me das interessantes e espirituosas cartas, com o nome de músicas do cancioneiro popular brasileiro, que troquei com Layse e das serenatas, muitas delas a pedido de Leny.

Hoje só restam saudade e uma convivência sabia de um tempo feliz.


08 novembro, 2024

Joaquim Pereira - "Um velho farmacêutico" (por José Carneiro)


Joaquim Pereira da Silva
* 10/03/1902 (Sertânia)
+ 25/07/1972 (Custódia)

Joaquim Pereira da Silva, farmacêutico licenciado pelo Departamento de Saúde do Estado, casado com Corina Marques Pereira, foi uma personalidade marcante na história de Custódia. Era um homem de tempera e Ação. Inteligente, dinâmico e social. Não perdia de vista o Chernovis (Dicionário de Medicina Popular e das Ciências Acessórias) usado pelas famílias, importante na divulgação do conhecimento e práticas medicinais nos meios Rurais. Único maçom do município, tinha a Maçonaria como centro de sua vida. Moscoso, por pertencer a ordem Rosacruz, com grande afinidade com a Maçonaria, tornou-se amigo dele.

Os dois se encontravam com frequência e decorriam bastante em torno das bases filosóficas das confrarias aqui pertenciam. Às vezes chegavam a se estranhar, cada um puxando a brasa para sua sardinha, isto é, cada qual defendendo a primazia da sociedade sobre o ponto de vista social e doutrinário. Joaquim Pereira, como um bom "pedreiro" de compasso e esquadro na mão, sabia como conservar as duas colunas que sustentavam as obras do Grande Arquiteto Do Universo.

A Farmácia Pereira era das maiores do interior do Estado por possuir único rádio da cidade, todas noites se enchia de gente para ouvir o Repórter Esso, com as últimas notícias da Segunda Guerra Mundial e, às segundas-feiras, assistir ao programa de Jararaca e Ratinho, de audiência Nacional.

O casal teve um filho caçula, Arnaldo Pereira Sobrinho, morto prematuramente, o que deixou a sua mãe inconsolável e sofrendo a dor da separação por muito tempo, só vindo a se conformar com a chegada do neto Arnaldo Pereira Burgos, filho de Zé Burgos e Noêmia Pereira., pois nele via o filho renascido.

Do consórcio houve ainda os filhos José Pereira Neto, Pedro Pereira Sobrinho, Noêmia Pereira e Joana Pereira, mais conhecida como "Joany" Pereira, todos os meus diletos amigos.

Um feito do engenhoso farmacêutico, que despertou a atenção da comunidade, foi ele ter naquela época sem meios adequados, ensinado a um sobrinho mudo e surdo, a ler, escrever e a contar. O povo exagerava dizendo que ele havia ensinado o mudo a falar.

Joaquim Pereira era um farmacêutico competente, inclusive se sobressaindo na área de manipulação. Gostava de ler e era enfronhado nos compostos gregos e latinos.

Para Joaquim Pereira, o nosso alfabeto, como quase tudo o mais, terminava na letra "G".

(*) Texto faz parte do livro A BARAÚNA (PROVAS E VERSOS), página 123-125, de autoria de JOSÉ CARNEIRO DE FARIAS SOUZA, lançado em 2015, em Recife pelo autor.

31 janeiro, 2024

Padre Antonio Duarte - Batistério de um padre

 

Logo ordenado Sacerdote da Igreja Católica Apostólica Romana, foi Pároco de Custódia onde prestou assinalados trabalhos, merecendo registro na História do Município.
Era um homem culto e humilde. Deixou saudades e amigos.


Padre Antônio Duarte, além de o padre mais católico e apostólico que Custódia teve, foi, sobretudo, quem mais animou e movimentou os meios religiosos e sociais da cidade na década de 1935 a 1945. Um sacerdócio cheio de realizações.

Recifense, alto, alvo, de olhos perscrutadores, lembrava um europeu. Alegre e comunicativo, inteligente, memória privilegiada, espírito  criativo e empreendedor, estava à frente do seu tempo.

Procedente da paróquia de Floresta, logo que assumiu os destinos da freguesia de Custódia se tornou um autêntico custodiense. Sabia tudo e tudo fazia. Era, entre outras coisas, poeta, compositor, engenheiro e arquiteto nato, eletricista e um grande orador sacro. Voz de barítono, cantava bem, fazendo com quem suas missas solenes levassem os fiéis ao cântico dos cânticos do rei e sábio Salomão. Trajava normalmente a tradicional batina preta, mas, nas horas vagas e em sua residência, já ensaiava a vestimenta civil, numa antecipação de mudança de costumes clericais.

Padre Duarte fez muito por Custódia. Entre as realizações, destaco: 

1) encaliçou e pintor as paredes externas da igreja, que eram em tijolo batido, ergueu a bela torre e fez a calçada de frente, como ainda permanece; 

2) construiu a casa paroquial; 

3) demoliu a capela que existia onde hoje é a agência do Banco do Brasil, transferindo os pertences para a Igreja Matriz, especialmente a porta de entrada; 

4) o catecismo era memorável, pois que, após a doutrinação vinha a parte recreativa com muitos divertimentos; 

5) o mês de maio era cultuado com capricho e veneração; 

6) o Natal, com quermesses e pastoris, este com os cordões azuis e encarnado sempre foram muito concorridos;

7) o São João com comidas típicas nas barracas, fogueiras faiscantes, fogos de vista e os belos balões enfeitando o firmamento; 

8) por fim, os empolgantes Dramas do Padre Duarte, que eram a parte mais esperada e aclamada pelo povo, bem diversificados, constando de uma peça teatral, esquetes, cantos, poesias e do ponto mais expressivo, A Revista da Cidade, cantada em versos, mexendo jocosamente com as pessoas da sociedade. Lembro-me de uma das peças dramáticas, A louca do Jardim, tendo como protagonista Luzia de Seu Cassiano. Lembro-me também, de um dueto composto por Ildo Nino e Yvette Matos interpretando uma bela canção matuta que dizia: "numa casa bonitinha lá no alto dos oiteiros".

Diante do que fez o Padre Duarte por Custódia, e sua gente nos seus dez anos de sacerdócio, acho que ele, ingratamente, é o grande esquecido de sua história.

Deixo aqui, com profundo respeito, o mais ardeste preito de gratidão ao velho sacerdote.

Por Allan Kardec seria visto como a reencarnação de Cura D'Ars.

(*) publicado originalmente no livro A BARAÚNA, de JOSÉ CARNEIRO, em 2015;  © Todos os Direitos Reservados

14 novembro, 2023

Os três mosqueteiros - por José Carneiro

Arte Alison Alcântara

por José Carneiro

TRAÇOS E RETRAÇOS retocando o retrato de três grandes figuras que posaram com elegância e desenvoltura perante a lente fotográfica no passado em Custódia. Trata-se, a meu ver, das três mais importantes personagens da história literária e social de Custódia, pelo muito que fizeram em prol de sua terra e sua gente. Foram, sem dúvida alguma, os baluartes de uma época, com uma longa e rica folha de serviço prestada ao torrão natal. Sem eles, com certeza, a história de Custódia seria outra bem diferente. São eles: Ernesto Queiroz Júnior (Ernestinho), Sílvio Carneiro de Farias Souza e Pedro Pereira Sobrinho (Pedrinho).

Ernesto Queiroz Júnior, filho de Ernesto Queiroz e Maria Josefina Gomes de Sá, casado com Ana Rosa Queiroz, havendo do casamento numerosa prole. Bacharel em Direito, natural de Custódia, residiu por muitos anos na cidade de Caruaru, onde foi advogado, professor da Faculdade de Direito, membro da Academia de Cultura, Ciência e Letras. Um bom orador. De temperamento irrequieto, não tinha papas na língua nem levava desaforo para casa. Autor de UM CORONEL SEM PATENTE, livro cujo título é o cognome do seu genitor. Era um homem de ação.

Sílvio Carneiro de Farias Souza, filho de Apolônio Carneiro de Farias e Maria de Souza Farias, casado com Creuza Leopoldina de Souza, tendo Isabella Carneiro de Souza como filha única. Nasceu em Custódia no dia 18 de abril de 1940. Técnico de Contabilidade, foi Prefeito de Custódia e Secretário da Prefeitura nas gestões dos Prefeitos Ten. Miguel José e João Miro. Professor de História e Geografia nos educandários de Custódia. Um bom orador. De comportamento austero e temperamento arredio, mas calmo, sereno e atencioso. Era um homem talentoso e tido como a cabeça pensante da família.

Pedro Pereira Sobrinho, filho de Joaquim Pereira e Corina Pereira, nasceu em Custódia no dia 14 de julho de 1940, casado com Maria Lenilda Lins Pereira , havendo do consórcio Paulo Joaquim Peterson Pereira e Paula Corina Peterson Pereira. Bacharel em Direito e Letras, foi advogado e professor em Custódia, fundador do Colégio Técnico Joaquim Pereira, Diretor do Colégio Ernesto Queiroz, da Copercusto e do Lions Clube da cidade. Maçom no mais alto grau maçônico (33). Um bom orador, tendo se projetado como criminalista, com destacada atuação no Tribunal do Júri Popular. Alegre, simpático e de boa palestra, conquistava a amizade de quantos com ele conviviam. De espírito empreendedor, não só tomava parte integrante mas atuava com entusiasmo em todas atividades sociais de sua terra natal. Gostava dele e ele manifestava admiração por mim. Um homem distinto.

Os três tinham muitos pontos em comum. Eram filhos de Custódia, oradores, professores, escritores, bons cidadãos, com sadia formação moral, social e intelectual, casados, pais de família e, sobretudo, homens probos e respeitados.

Ernesto, o mais velho, era uma espécie de comandante em chefe. Político, filho de político, era um pouco temperamental, mas, nem por isso, perdia sua posição de líder e sua condição de respeitabilidade. Além de outras atividades literárias, criou uma espécie de hebdomadário, com o sugestivo título de CUSTODIANAS, que marcou época. Era um periódico inteligentemente preparado, impresso em mimógrafo, que contava com a colaboração, entre outros, de Sílvio Carneiro e Pedro Pereira, sendo aguardado com ansiedade pela população, dadas as interessantes e bem humoradas matérias publicadas. Rendo-lhe minhas homenagens.

Sílvio era uma pessoa simples mas não popular, de comportamento austero e caráter firme e forte. Não obstante, era generoso e de fino trato. Sofreu muito com uma enfermidade que o martirizou a vida inteira, levando-o prematuramente deste mundo. Com a veia poética que Deus lhe deu, compôs o frevo CARCARÁ, que foi sucesso no carnaval mais animado que Custódia já festejou. Lembro-me dele com saudade.

Pedro Pereira homem polivalente, além das várias atividades desenvolvidas, teve a feliz inspiração de criar o SABARZINHO, bar de apurado nome, fincado no centro da Praça Padre Leão, que se tornou famoso, caindo no gosto do povo e fazendo história. Era dotado de espírito criativo. Eu gosto dele e ele gosta de mim. É o único que está vivo. Falo dele com sentimento de amizade.

Essas, em linhas gerais, as características principais desses verdadeiros bandeirantes, que deram muito de si, de forma livre e espontânea, em favor de uma boa causa e por amor à terra mãe e aos legítimos irmãos. Quem quiser saber mais e melhor sobre eles, navegue nas águas mansas e tranquilas do blog CUSTÓDIA TERRA QUERIDA, do abnegado Paulo Joaquim Peterson Pereira.

Com efeito, eles deixaram suas indeléveis pegadas no chão dadivoso de Custódia, que nem o tempo, com toda sua força de transformação, consegue apagar.

Enfim, eles entenderam e puseram em prática a lição passada por Mons. Thiamét Tót no seu consagrado livro O BRILHO DA MOCIDADE: “A ciência da inteligência sem a bondade do coração é um entorpecente que aliviando mata”.

Considero, Ernesto Queiroz, Sílvio Carneiro e Pedro Pereira os três mosqueteiros caboclos do vale do Moxotó, empunhando as espadas do saber e do trabalho em favor dos seus conterrâneos, numa autêntica reprodução dos criados por Alexandre Dumas, que se sente feliz e envaidecido pelo renascimento deles. 

13 novembro, 2023

A alma das ruas (José Carneiro)

 


JOSÉ CARNEIRO DE FARIAS SOUZA

A Baraúna
(Prosa e Versos)
Recife-PE
2015

As ruas são a alma das cidades. Toda rua tem um nome e uma história. Ninguém esquece a sua rua, especialmente aquela onde se viveu na infância. A rua sempre guarda algo que nos acompanha por toda a vida, porque ela faz parte da história de cada um de nós. Da minha rua recordo de muitas passagens agradáveis e deliciosas, especialmente da esquina, onde eu ia esperar minha primeira namorada quando ela vinha da escola e onde eu dei o primeiro beijo.

A Rua 4 de Outubro, hoje Praça Padre Leão, era a artéria principal de Custódia. Era o centro da cidade. Nela estava o grosso comércio e moravam os habitantes mais velhos do lugar.

Encabeçava a rua a Igreja Matriz de São José. As alas de suas casas eram distanciadas da outra e, no meio, onde agora é a Praça Padre Leão, não havia nada. Era aquele vazio.

Do lado direito, o primeiro imóvel, esquina com a rua da Várzea, o Açougue Público Municipal, seguindo-se a casa de Solidônio Medeiros e Marta Rodrigues, proprietários da Fazenda Serrote e tidos como os mais ricos do município; a casa de dona Dondom, mão do tabelião Né Marinho; a casa de Apolônio Carneiro e Maria Farias; a Casa Paroquial; a Casa de Né Marinho e Ester; um grande bangalô, alpendrado, que, transformado inteiramente, foi a loja de tecidos e residência do casal Valentim e Eva Simões; a loja de tecidos de Elpídio Pires, que veio a se casar com Alzira Pires; a loja de tecidos de Zuzu Pires, casado com Filomena Pires; a Casa Góis, comercial, dos irmãos Sebastião e Domingos Góis; a Padaria Confiança, de João Miro, casado com Jovelina Góis; a Padaria de Cícero Gomes, casado com a dona Bela; a casa de Pordeus Pires, casado com Dona Lica; e a Prefeitura Municipal, onde hoje é a agencia do Banco do Brasil.

O flanco esquerdo começava com o Hotel Sabá, de Izabel Mafra, atualmente a Prefeitura Municipal, seguindo-se a mercearia e casa residência de Joventino Feitosa, casado com Analrelina Góis/; o “Vapor”, bolandeira de descaroçar algodão, de Antônio Junco; o Bar Fênix, de Né Marinho; a loja de tecidos de Zé Daniel, casado com Laura Florêncio; a casa residencial e cartório de Luiz Amaral, oficial do Registro Civil; a Farmácia Pereira, de Joaquim Pereira, casado com Corina Pereira; e, por fim, a sapataria de Duquinha de Antônio Cota.

Na Rua 4 de Outubro nasci e passei a infância e juventude. Ela foi a fonte das minhas inspirações. Nela senti as primeiras manifestações da natureza e vivi os melhores dias de minha vida. Provei o sabor de viver e vi as belezas do mundo. Enfim, construí os mais coloridos sonhos de minha existência.

A Rua 4 de Outubro permanece viva na minha memória e retina como a mais sadia e promissora arrancada das realizações da minha vida pública e privada.

Eis parte da história da rua mais bela da face da Terra.

 

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18 julho, 2023

Carta de amor - Autor José Carneiro

 

José Carneiro
Recife, 12 de junho de 2013

Amiga Martha:

Hoje, dia dos namorados, acordei pensando em ti. Apesar de todo esse tempão, ainda me lembro de ti e de um período de minha vida que o tempo não conseguiu varrer de minha memória. Por isso estou te escrevendo esta carta.

De lá para cá pouco sabemos um do outro. Isto não tem nada a ver conosco e com a nossa vida. Estamos muito distante dos caminhos de um passado que se perdeu na voragem do tempo.

Bons tempos aqueles que andamos juntos por um bom trecho de uma estrada florida e cheia de cantos de passarinhos. Seguramente a quadra mais alegre e prazerosa de minha vida. Faz muitos anos, éramos jovens mas ainda guardo na memória agradáveis momentos de nossa história de amor.

Eras uma moça risonha, bonita e simpática quando nos aproximamos um do outro. Hoje eu não diria que houve entre nós um verdadeiro amor, mas uma ardente paixão, nos moldes da época. Reconheço e confesso, minha amiga, que foste uma das grandes paixões de minha adolescência. Vivemos instantes de real encanto, com juras de amor e troca de carinhos. Formávamos um par harmonioso e fomos felizes.

Todavia, como tudo passa neste mundo de incertezas e desilusões, o nosso tempo se foi, deixando uma saudade que teima em permanecer comigo, dentro do meu coração. Nenhum lamento. Só recordação. É bom lembrar e faz bem relembrar as coisas boas da vida. Daí a razão desta correspondência.

Por que carta em vez de e-mail, facebook ou outro recurso eletrônico tão em voga nos dias de hoje? Primeiro, em respeito ao nobre veículo que tanto utilizamos na época, o qual nos proporcionou muito contentamento. Depois, pelas suas próprias características, uma vez que as cartas falam diretamente ao coração. Além disso, um bom, belo e salutar exercício literário, proporcionando alegria a quem escreve e prazer a quem ler. As cartas se foram, mas bem que poderiam voltar, para o bem-estar de todos e proveito geral do mundo sentimental.

Martha, nosso namoro foi encantador, com encontros inesquecíveis. Em particular aquele que aconteceu na casa de uma minha prima, foi o mais significativo de todos. Talvez nem te lembras dele. Não vem ao caso. O que importa é que não o esqueço, considerando-o o de maior expressão de toda nossa convivência. Pois, o que me fizeste sentir naquele dia eu não encontrei em nenhuma outra mulher no decorrer de toda minha existência. É um segredo que trago escondido no recôndito do meu ser, lamentando, profundamente, não ter alcançada a graça de provar do sabor de um alimento tão maravilhoso.

Tenho para mim, minha amiga, no final de contas, que o destino, injusto e impiedoso, nos negou o direito de uma vida melhor. Diante disto, só nos resta pedir a Deus que nos proteja dos males deste mundo atualmente cheio de perigo e perversidade. O mais, tudo é silêncio!

Deixo claro que não abomino o passado, não descuido do presente e não descreio do futuro, contentando-me com o que fui e com o que sou. Vivo em paz e feliz. 

Sem tristeza e sem mágoa me despeço, confidenciando que ainda ouço o eco de nossa música - POR TI - e sinto saudade.


22 junho, 2023

José Carneiro comenta livro FOI ASSIM II de Fernando Florêncio

Livro Foi Assim II

P R E F Á C I O
J.Carneiro

Fernando Florêncio de Sousa, primo e conterrâneo, pede-me que, à guisa de prefácio, fale sobre o seu segundo livro – FOI ASSIM II – ainda em preparo.

Li o esboço do livro e atendo o pedido com gosto e emoção.

Fernando Florêncio é um escritor nato. Tem estilo próprio e escreve de forma peculiar. O seu primeiro livro - FOI ASSIM - me surpreendeu deveras. Li-o de um fôlego só, pois consegue prender a atenção do leitor do princípio ao fim. Tem vida e originalidade. Além de fugir do convencional, ele tem um toque especial de graça e singeleza. Eu diria que o estilo simples, as frases suaves, o pensamento solto e o linguajar espontâneo, sem preocupação semântica e literária, faz com que sua leitura se torne agradável e prazerosa. Esta assertiva pode despertar uma certa estranheza e curiosidade. Todavia, no decorrer da leitura se conclui que o segredo do mérito reside na sinceridade da palavra e na firmeza do pensamento. Por outro lado, a forma como expõe os fatos e o modo como vive as situações, cria um clima de franca comunicabilidade. Com efeito, tudo que diz agrada e desperta, por que sabe transmitir e convencer. Fiel às raízes, sem esconder as origens, faz um retrospecto de sua vida, exaltando sua terra e sua gente, notadamente amigos e familiares. Sua memória privilegiada não deixa que esqueça nada e conta tudo, chegando ao ponto de descer ao lugar mais profundo de sua privacidade, revelando o que vem da alma, numa exteriorização fora do limite. O livro, além de tudo, é abrangente, havendo, inclusive, lances históricos, beirando a romance. Entre os incontáveis casos e passagens, destaco o que refere ao movimento militar de sessenta e quatro, o qual, entre tantas coisas descritas, redundou na sua desditosa expulsão da Marinha de Guerra do Brasil; sobre a chegada de tio José Daniel em Nova Iguaçu e da doença e morte da prima Darcira, que quase me levam às lágrimas; e o caso estranho e misterioso envolvendo Severo de Lulu do Lambedor do Ingá.

Inicia o livro, contando que partiu de Custódia em cima da carroceria de um caminhão carregado de carvão e ganhou as estradas poeirentas do mundo em busca de novos horizontes. E destemido, próprio do sertanejo, enfrentou as vicissitudes da vida, transpôs os obstáculos do tempo e conquistou um lugar ao sol.

FOI ASSIM é a cara de Fernando Florêncio, seu retrato fiel de corpo inteiro, de frente e de perfil, em preto e branco, sem pose e sem retoque, de um tempo que se escondeu nos escombros do passado.

Agora é a vez de - FOI ASSIM II – o segundo livro, com outra feição e diferente roupagem. É outro o livro e outro é o autor, na essência e natureza. Assim é a vida, em sua constante evolução, em que a gente assiste aos seus lances e procura conhecer os seus meandros.

Sim, outro livro, por que sua leitura é amena e agradável. Já não cuida dos tormentos da vida e inquietudes do mundo, mas da beleza das coisas e dos encantos da natureza. E, de modo especial, do valor do bom combate, da grandeza do bem comum e do poder do trabalho.

Sim, outro é o autor, por que solto e desimpedido, alegre, contente e feliz com tudo e com todos, embalado pelo canto harmonioso da liberdade, vivendo na doce paz do lar, no convívio acalentador de uma família organizada e na companhia festiva de bons amigos e velhos companheiros. E, de quebra, a reparação de boa parte do direito que lhe foi usurpado, propiciando o sossego de um porto seguro.

É um outro homem, num momento auspicioso, não mais amargando a incerteza do futuro, mas saboreando as delícias do presente e usufruindo os prazeres da vitória conquistada a duras penas. E qual certo pedreiro, vestindo apropriado avental, se sente realizado por ter conseguido construir um edifício sobre sólidas colunas. Um verdadeiro exemplo de vida. Uma afirmação de que só através do bom trabalho se pode conquistar a terra e ganhar os céus. Que somente servindo bem a Deus e aos semelhantes se pode ter felicidade, por que ninguém é feliz sozinho.

Como se não bastasse, depois de tanto tempo, como num passe de mágica, encontra-se de volta à sua terra natal. Quanta alegria! Quanta recordação! Quanta saudade! Só que, agora, em vez de uma carroceria de um caminhão carregado de carvão, por estradas esburacadas e poeirentas, em automóvel moderno e por rodovias asfaltadas. E, para gáudio seu, numa Custódia completamente diferente de quando a deixou. Pois que, também uma nova terra, risonha e pacífica, inteiramente isenta das agruras do passado. E, mais do que isso, cheio de si, cantando vitória, revendo as mesmas paisagens e trilhando os mesmos caminhos, rodeado dos velhos companheiros e de braços dados com os custodienses ausentes, que também voltaram ao inesquecível torrão. Quanta felicidade!

Custódia é e sempre foi uma cidade diferente das demais. Ela tem algo a mais que as outras. Difere em graça e riqueza, sobressaindo-se no folclore e literatura, com muita história para contar. Tem características próprias e singulares, valendo destacar: as belas e tradicionais festas de São José; as fervorosas novenas do mês de maio; o velho cruzeiro no homônimo morro; as sentimentais serenatas ao clarão da lua cheia; os movimentados dramas de Padre Duarte; os animados bailes nos salões do Fênix; a insubstituível zabumba de Zé Biá; as impagáveis lorotas de Jovino Costa Leão; a bela fonte do Sabá; a Serra da Torre; a Serra da Velha Chica; a grande e rica fazenda do Dr. Aurélio Vasconcelos no distrito São Caetano; as conceituada s parteiras mãe Delmira e Sá Manoela; os geniais Duda Ferraz e José Perfeito; os inflamados discursos de Catonho Florêncio; os inconfundíveis leilões de seu Floriano Pinto; as enternecedoras crônicas de José Melo; as marcantes participações culturais de Paulo Peterson e Jussara Burgos; a várzea e o eclipse, saborosas produções de Jaílson Vital; a feira de Custódia de Fernando José, uma peça literária; a chegado do bispo, de Jorge Remígio, de forte sabor humorístico; os justos e perfeitos traços, feitos sob o prumo do compasso e do esquadro, no desenho de Joaquim Pereira, por seu filho José Neto; os líricos livros de Ernesto Queiroz Júnior, Maria José do Amaral França, Sevy Gomes de Oliveira, Odete de Andrada Alves e Fernando Florêncio de Sousa, com referência especial ao historiador Jovenildo Pinheiro, são manifestações intelectuais que elevam e dignificavam a comunidade.

Custódia é um celeiro de profissionais qualificados: médicos, veterinários, dentistas, enfermeiros, advogados, bacharéis de várias áreas, padres, professores, cinco juízes de direito e categorias outras.

O blog de Paulo Joaquim Peterson Pereira - Custódia Terra Querida – merece menção especial, por ser de utilidade pública e pelo zelo como é administrado, projetando a cidade e concidadãos.

Enfim, os livros de Fernando Florêncio, tanto um como o outro, mais do que aventuras de um velho marinheiro, são o testemunho vivo da personalidade de um homem de fibra, de fé e de coragem, que, com esforço próprio e mercê de Deus, combateu o bom combate e conquistou o lugar que lhe foi reservado na seara do Senhor. E, mais do que isso, movido pelo mais puro sentimento de amor e gratidão, deu tudo de si por aqueles que lhe deram nome – José Daniel e Laura Florêncio.

12 junho, 2023

Um cego que via - autor José Carneiro


José Major e Dona Firmina


José Major só tinha de militar o nome. Um homem alto, robusto, moreno, educado, fala mansa e pausada, sempre bem trajado, sereno e de palestra agradável. Fumava. Mas, infelizmente, por culpa do destino, não via onde pisava nem sabia por onde seguia, dependendo dos outros. Era cego. Morava na Várzea (atual Rua João Veríssimo do Amaral), numa casa cercada de árvores, um sítio de onde tirava o sustento da família, com criação de gado. Nunca soube o seu nome por inteiro. Era casado com a dona Firmina, e o pai de Socorro, Nizinha e Zélia Sá.

Zé Major era cego de ambos os olhos, mas via mais do que muita gente de boa visão e achava que o pior cego é aquele que não quer ver. Dona Firmina, além de extremosa esposa, foi a mulher mais trabalhadeira que conheci, e as filhas as mais amorosas da face da Terra, sem deixar de mencionar o servo fiel, seu eterno guia, Dema. Não resisto a tentação de falar da beleza de Socorro, um morenaço de fechar comércio, como se rotulava na época uma mulher formosa, que se assemelhava às mulatas do Rio de Janeiro, tão decantadas por Chacrinha e Sargentelli. Com os meus olhos de namorador mirim, era assim que a via, com muita simpatia, apreciando sua maneira de ser e admirando seu corpo escultural, cujas pernas, me lembro bem, eram um capricho da natureza, com todo respeito.

Zé Major costumava fazer ponto numa casa perto da minha, parece-me que na casa de Dona Dondom, mãe de Né Marinho, e, quando eu assomava à porta ele dizia: "Zé Carneiro?" Reconhecia-me pelas pisadas. Nunca o vi lamentando a cegueira. Era um homem notável. Visitei-o muitas vezes na Estrada da Imbiribeira, em Recife, onde morava com a mulher e as filhas Nizinha, e Zélia. Ele se alegrava com a minha presença e falava muito de Custódia, perguntando por tudo e por todos, com um profundo sentimento de amor e saudade de sua terra e de sua gente.

Zé Major, uma legenda viva de Custódia.

Autor: José Carneiro de Farias Souza (In memoriam)
Livro: A Baraúna (Prosa e Versos) - Recife - 2015


10 junho, 2023

Mesa de Bar - Por José Carneiro


MESA DE BAR
J.Carneiro

Não vale nada ser rico ou ser pobre
Ser branco ou negro conta não se faz
E muito menos ser plebeu ou nobre
Em mesa de bar todos são iguais.

Na mesa do bar nada a gente encobre
E tudo vem à luz sem mais nem mais
A mágoa oculta logo se descobre
E o fel do amor no vinho se desfaz.

Na mesa do bar se faz o que sente
O que se sente se diz à vontade
E quanto mais se fala mais se mente.

Mas mente sem sentir que estar mentindo
Ou mente mas sentindo ser verdade
Não mente quem diz o que estar sentindo.

20 maio, 2023

Recordações de Custódia


 

Avistados de longe, os coqueiros do sítio de Dona Anita Remígio indicavam que Custódia era ali. Plantada no sertão bravio de Pernambuco, banhada pelo Rio Moxotó, na região homônima, foi lá onde nasci e passei a infância e juventude. Um lugar aprazível em que vivi os mais risonhos e felizes dias de minha existência. 

Dela guardo muitas e gratas recordações. É bom e faz bem volver ao passado, pelo prazer da volta e pela necessidade de rever atitudes e refazer decisões. E mais, por que dá gosto falar das coisas belas do mundo e das passagens alegres da vida. E mais ainda, por que as coisas boas devem ser lembradas e revividas. Daí a razão deste escrito, que tem como escopo lembrar fatos, lugares e pessoas de minha terra, para a preservação da sua história. A história é a vida e a alma de um povo.

Antes de tudo me vem a imagem da Igreja Matriz de São José, considerada um dos templos mais belos da região. Nela iniciei minha caminhada católica, apostólica, romana que continuo até o presente momento. Não entendo um homem sem espírito religioso e sem Deus no coração. A fé é um dom divino e deve ser e alimentada permanentemente pela esperança e caridade.

A Fonte de Sabá, vertente da Serra da Torre, é o ponto culminante do Município. Sua água pura e cristalina, rica em sais minerais é, segundo análise do Departamento de Saúde do Estado, uma das mais completas de Pernambuco. Um fato curioso, que chama a atenção de todos, é que, um pouco acima da fonte, em torno de uns duzentos metros, há uma outra fonte de água magnesiana. Até hoje, em que pesem as inúmeras tentativas, a fonte nunca foi explorada devida e convenientemente. Não sei se pelo seu difícil acesso, se por deficiência de vazão ou se por falta de meios financeiros. É lamentável, sob todos aspectos, especialmente pela frustração da bíblica rainha que a ela emprestou o nome. Que o diga o sábio rei Salomão.



O Bar Fênix, de propriedade do competente e empreendedor tabelião Né Marinho, era o principal ponto de atração da cidade, onde se realizavam os bailes e a rapaziada se reunia para comes e bebes, jogar sinuca, falar das aventuras amorosas, ouvir as lorotas de Jovino Costa Leão e os discursos de Catonho Florêncio. Mas o que mais empolgava a turma da fuzarca eram os bailes, mormente pela oportunidade de ter as moças nos braços, sentindo o arfar dos seus seios e as batidas dos seus corações. E, para completar o quadro, no sereno, as vitalinas, com olhares maliciosos, acompanhavam os dançarinos nos seus rodopios. Outros tempos! Outros costumes!



Um lugar bastante movimentado era a Farmácia Pereira do farmacêutico licenciado Joaquim Pereira, onde havia o único rádio da cidade, que se enchia de gente todas as noites para ouvir o Repórter Esso, programa radiofônico de maior audiência nacional, com as notícias da 2ª Guerra Mundial (1939 a 1945), deflagrada pela Alemanha nazista sob o comando do sanguinário Adolfo Hitler, com o holocausto de mais de vinte milhões de judeus e que culminou com a deflagração dos bombardeios atômicos pelos Estados Unidos, destruindo as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, que, ainda hoje, causam danos. 

E, nas noites das quintas-feiras, a farmácia se enchia novamente de gente para assistir ao consagrado programa de rádio de Jararaca e Ratinho. Joaquim Pereira, como um bom pedreiro, de compasso e esquadro à mão, sabia como conservar intactas as colunas que sustentam as obras do Grande Arquiteto do Universo. Rendo as minhas homenagens ao velho farmacêutico pelo espírito de benevolência e solidariedade. 

Houve uma época em que os estudantes de Custódia tinham predileção pelo Aprendizado Agrícola de São Bento. Ficava localizado no Município de Vitória de Santo Antão-PE., em meio a campos verdejantes e floridos. Era um colégio agrícola, constituído de quatro imponentes prédios, com linhas arquitetônicas de rara beleza, entre os quais dois com mais de um pavimento, neles funcionando diretoria, cozinha, refeitório, dormitórios, salas de aula, sanitários e banheiros, enfermaria, gabinetes médico e odontológico, aposentos dos professores, quartos para internamentos, sapataria, rouparia e um suntuoso parlatório. Sua entrada, de fino gosto, era uma bela alameda margeada de palmeiras imperiais. 

Os eucaliptos, altos, lisos, linheiros, perfumavam o ambiente. Tudo muito bonito e bem cuidado. Havia um extenso pátio, inteiramente gramado e cheio de rosas e flores. Um lugar verdadeiramente encantador. Estabelecimento federal de ensino, gratuito, propiciava aos alunos, além de estudos teóricos e práticos, comida, roupas, calçados e tudo o mais necessário a uma boa formação educacional. 

De características militares e rígida disciplina, tinha uma banda marcial completa e primava pela ordem unida, proporcionando desfiles espetaculares. Fundado por Apolônio Salles, Senador por Pernambuco, um político atuante e de grande prestígio, que teve ativa participação no funcionamento da hidrelétrica da Cachoeira de Paulo Afonso. As atividades desenvolvidas pelos alunos eram de uma magnitude fora do comum. 

Na parte agrícola havia extensas áreas de terras massapé, com cultivo de milho, feijão, melancia, abóbora, mandioca, macaxeira e, especialmente, uma estação experimental de cana-de- açúcar com predominância das variedades caiana, demerara, p.o.j. e fita, a qual, pela reconhecida importância, era alvo, todos os anos, de aulas prática para os alunos de agronomia do Recife. Um apiário modelo, de abelhas italianas, com cerca de duzentas colméias, produzindo o mais puro mel centrifugado. 

Um aviário bem estruturado, com criação de galinhas das raças leghorn brancas, poedeiras, e ligtht sussex vermelhas, de corte, chocadeiras e pinteiros, com um plantel de mais de mil aves, considerável produção de ovos e pintos comercializados na capital do estado. Um estábulo, com criação de gado das raças holandesas e red-poli. 

Uma pocilga que primava pelo asseio. Uma horta, com cultivo de flores, verduras e hortaliças de várias espécies. Um verdadeiro festival de operações. Com um agrupamento em torno de duzentos alunos, tinha como matérias principais as cadeiras de Veterinária e Zootecnia, lecionadas por Dom Agostinho Ikas, frade beneditino alemão do mosteiro local, de reconhecida cultura humanística. 

Dispondo de um serpentário, o estudo do ofidismo era a preferência dos alunos, com muitos deles criando cobras e mantendo intercâmbio com o Instituto Butantã de São Paulo. 

Ao lado do colégio o Mosteiro de São Bento da ordem dos Beneditinos. O prédio e a capela de tamanha imponência lembravam os similares da Europa. O carrilhão, composto de enormes sinos, era um número à parte, cuja sonoridade era ouvida a léguas de distância. Até hoje não vi em lugar nenhum algo do gênero que o igualasse. 

Os alunos tomavam parte nas cerimônias religiosas do convento, muitos deles pertencentes à Congregação Mariana, dos moços, movimento católico correlato à Associação das Filhas de Maria, das moças. Fazia gosto ouvir os piedosos cantos gregorianos pela voz dos velhos frades. 

Entre os alunos de Custódia, cito José Florêncio, Murilo Remígio, Valdemar Pires, Milton Aleixo, José Carneiro, Expedito Maranhão, Demócrito Queiroz, José Lopes, Alcântara e Amadeu Gonçalves, salientando que somente José Florêncio, Murilo Remígio, Milton Aleixo e José Carneiro conseguiram concluir o curso de Técnico Agrícola. 

Assim era o velho e tradicional Aprendizado Agrícola de São Bento, do qual guardo grandes e inesquecíveis lembranças. Nunca entendi a razão da demolição daquelas obras para a construção da barragem de Tapacurá. O Aprendizado tinha ares de universidade. 

Na mesma fase o Ginásio Cristo da Diocese de Pesqueira, na época sob o pastoreio do Bispo Dom Adalberto Sobral e dirigido pelo Padre João de Sousa Lima, natural de Tacaratu-PE., sacerdote à frente do seu tempo, depois Bispo e Arcebispo, foi outro centro de atração dos estudantes de Custódia. 

O Cristo Rei, pela capacidade e dedicação dos seus professores e, notadamente, pela qualidade do ensino, era apontado como um dos melhores educandários do estado. Por ele passaram Ernesto Queiroz Júnior, José Elídio de Queiroz, José Carneiro, José Veríssimo e Carlos Pires, evidenciando que José Pereira Neto e suas irmãs Noêmia e Joany Pereira foram estudar no Colégio Americano Batista do Recife. Sílvio Carneiro, Pedro Pereira, Adalberto Lopes, Antônio Medeiros, Jovenildo Pinheiro, Fernando Florêncio, José Melo, Fernando José, Paulo Peterson, Jailson Vital, Jorge Remígio, Airton Bezerra, Hélio e Herbet Pires, Assis Moura, João Elizeu, Luizito Epaminondas e Zezito Caju, entre outros, vieram depois. 

Quanto às moças, das quais menciono Djanira, Maria do Carmo e Dondom Pires, Neuza, Neuma e Darcira Florêncio, Elizete e Zefinha Lopes, Zezita e Gracinha Queiroz, Leny, Vanise e Laíse Pires, Cacilda Andrade,Terezinha Amaral, Dineuza Carneiro, Sevy Gomes, Jussara Burgos, Maria José Amaral (Zezé), Odete Andrada, Ednalva Marinho e Sila Veríssimo se distribuíram pelos colégios de Triunfo, Pesqueira, Caruaru e Vitória de Santo Antão. 

Como se vê, os jovens de Custódia já naquela longínqua época deixavam sua terra e ganhavam o mundo em busca de novos horizontes, numa demonstração de fé e esperança no porvir.

O Aprendizado Agrícola de São Bento e o Ginásio Cristo Rei de Pesqueira foram os melhore sonhos e as maiores realizações da minha existência. Daí a razão destas manifestações sentimentais, que são, antes de tudo, um depoimento do muito que representaram e ainda representam na minha vida pública e privada.

Não resisto à tentação de prestar merecida homenagem a Carlos Alberto dos Santos Lopes pelo seu nobre idealismo, em se dedicando de corpo e alma na feitura e publicação de livros, os melhores amigos. 

Embora não seja ele filho de Custódia é, no entanto, um custodiense de coração, tendo nela vivido boa parte de sua vida e a ela oferecendo o que de melhor um filho pode dar à terra mãe. Tenho-o, assim, como o novo Mecenas caboclo das caatingas do Pajeú e Moxotó. Pois que,”bendito o que semeia livros... livros à mão cheia e manda o povo pensar”, como pontificou Castro Alves. 

Apraz-me encerrar este arrazoado mostrando Custódia na melhor fase de desenvolvimento econômico da sua história, na década de 1935 a 1945, em que era o município maior produtor de algodão e mamona da região. Contava com duas bolandeiras, uma fábrica de tanino, única da espécie no país, exportando o produto para o exterior, cinco usinas de caroá, pioneira no ramo, sobressaindo-se a Fazenda São Gonçalo de propriedade do caruaruense Aurélio Vasconcelos, com grande extensão de terras, explorando a agricultura e o criatório, além da maior e mais bem aparelhada usina de caroá do território, dando-se ao luxo de dispor de um teco-teco e de uma moderna aparelhagem de transmissão radiofônica.

Custódia sempre foi uma cidade em constante desenvolvimento social e econômico. Rica em folclore e afeita à prática do saber e da cultura, tem dado filhos ilustres, muitos deles ligados à literatura como escritores, poetas, artistas, além de bons profissionais nas mais variadas áreas do conhecimento. De clima ameno e agradável, com gente simples e hospitaleira, é uma terra boa de se viver em paz e sossegadamente.

Custódia, sou um feliz escravo do teu passado!

José Carneiro (In Memorian)