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23 dezembro, 2021

Municípios do sertão correm contra o tempo para substituir lixões por aterros sanitários


Crédito: Géssica Amorim/MZ Conteúdo

por Géssica Amorim (Marco Zero Conteúdo)

Um estudo publicado pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE-PE) mostra que, atualmente, dos 184 municípios pernambucanos, 138 (75%) utilizam aterros sanitários para o depósito dos seus resíduos sólidos e outros 46 (25%) ainda continuam fazendo uso de lixões a céu aberto. Em 2014, quando o TCE começou a buscar as informações sobre o assunto, apenas 29 (16%) municípios do estado davam ao seu lixo o destino correto.

Esta semana, eu estive em Betânia e Custódia, duas cidades do Sertão do Moxotó, para saber em que ritmo está o processo de adequação dos dois municípios à Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS). Promulgada em 2010, a PNRS previa o fim da utilização dos lixões a céu aberto no país até 2014. No entanto, o problema persistiu e, em julho de 2020, o Senado reforçou a medida, aprovando o Novo Marco do Saneamento Básico, pretendendo acabar com os lixões até 2024.

As capitais e regiões metropolitanas tinham até agosto de 2021 para extinguir os seus lixões, e cidades com mais de 100 mil habitantes contavam com prazo até agosto de 2022. Os municípios com menos de 100 mil habitantes, como é o caso de Betânia e Custódia (uma com menos de 13 mil habitantes e outra com pouco mais de 36 mil), têm até 2024 para encerrar as atividades dos lixões a céu aberto.

Acontece que, em 2020, o Ministério Público de Pernambuco (MPPE), em parceria com a Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas), a Agência Pernambucana de Meio Ambiente (CPRH) e o TCE-PE, firmou acordos de não persecução penal com municípios pernambucanos para que prefeitas e prefeitos garantissem acabar com os lixões dentro dos prazos estipulados, que variam de cidade para cidade. Alguns municípios se comprometeram a encerrar os lixões até 31 de dezembro de 2021, outros devem fazê-lo de março a junho de 2022.

Betânia tinha até o último dia 7 de novembro para encerrar a atividade do seu lixão, mas não conseguiu cumprir o prazo, que foi prorrogado até o dia 1º de janeiro de 2022. Segundo o prefeito Mário Flor (Republicanos), a partir dessa data o lixo do município será encaminhado para uma estação de transbordo localizada em Triunfo, a 84 quilômetros de distância ao norte, onde receberá o primeiro tratamento, e, em seguida, será encaminhado para o aterro sanitário da cidade de Ibimirim, no sertão do Moxotó, distante 178 quilômetros ao sul do local de transbordo.

Para os catadores de Betânia, que complementam a renda familiar com a venda de materiais recicláveis retirados do lixão da cidade, a Câmara de Vereadores do Município aprovou um auxílio de R$ 600,00, durante seis meses.

Em Custódia, o prazo para o fim da utilização do lixão do município, firmado no acordo com o MPPE, era de até 24 de novembro de 2021. Em um primeiro contato, o secretário de governo da prefeitura, Jobson Góis, afirmou que Custódia enfrentava problemas para conseguir um aterro sanitário para onde pudesse destinar os seus resíduos sólidos. Segundo ele, os municípios das redondezas que dispõem de aterros não estavam aceitando as solicitações para receber o lixo de Custódia.

Pouco tempo antes da conclusão deste texto, o secretário Jobson Gois informou que o aterro sanitário da cidade de Arcoverde, a 81 quilômetros de Custódia, sinalizou positivamente para um acordo de cooperação técnica, viabilizando uma parceria entre os municípios, para que, ainda durante esta semana, o município tenha para onde enviar os seus resíduos sólidos.



Sem emprego há dois anos, Ferreira cata recicláveis no lixão em Custódia
(crédito: Géssica Amorim/MZ Conteúdo)

Todos os dias, cerca de 20 pessoas buscam no lixão de Custódia objetos recicláveis para vender e complementar a renda familiar. José Ferreira, de 57 anos, é uma delas. Há dois anos, ele costuma ir até o lixão para coletar restos de comida que sirvam para a alimentação dos seus porcos e para procurar latinhas, fios de cobre e garrafas PET. Por mês, ele chega a garantir entre R $300,00 e R $400,00 para ajudar nas despesas de casa. “Eu venho aqui de domingo a domingo. Levo latinha, garrafa. Quando dou sorte, acho um quilo de cobre. Mas o que ganho aqui não é muito dinheiro. A minha sorte é que a minha mulher trabalha em uma loja de roupa lá no centro e nós vamos levando a vida com os dois filhos. Pela minha família, eu não estaria aqui. Mas não consigo arranjar emprego em outra coisa, então continuo”.

Apesar de informar que o Centro de Referência de Assistência Social (Cras) do município iniciou o cadastro dos catadores, a prefeitura de Custódia não tem nenhum plano de ação para auxiliá-los após a desativação do lixão. O secretário Góis, garantiu informou que, frequentemente, são distribuídos pacotes de leite, caldeirões de sopa e cestas básicas para os catadores. “Essa questão do auxílio não está prevista em lei. Nem estadual, nem federal”, declara Jobson. A prefeitura de Custódia começou a cercar a área do lixão e informou ter enviado para a CPRH o Plano de Recuperação de Áreas Degradadas (PRAD) do município.

Segundo a procuradora de Justiça e coordenadora do Centro de Apoio Operacional de Defesa do Meio Ambiente, Christiane Santos, o apoio aos catadores e elaboração de projetos para a recuperação das áreas degradadas são elementos de extrema importância nos acordos firmados entre os municípios e o MPPE. “Nos acordos, a cláusula de suporte aos catadores e do plano de recuperação das áreas antecede a do prazo de encerramento dos lixões. Isso, para que os municípios tenham tempo para organizar cooperativas e associações que garantam o tratamento adequado do lixo e o trabalho dos catadores de forma segura e remunerada.  Após o encerramento dos lixões, os catadores precisam de suporte durante todo esse processo”, advertiu”.

Dentro dos acordos, os valores e ações para auxiliar os catadores varia de município para município. Depois do encerramento dos lixões, os gestores têm um prazo de 60 dias para pôr em prática o que está no PRAD e iniciar a recuperação da área degradada pelo lixo.

Publicado originalmente: CLIQUE AQUI

28 novembro, 2021

Reportagem de sertaneja é reconhecida em Prêmio Cristina Tavares de Jornalismo


Géssica Amorim
Comunicação - UFPE
Letras - FECLE - SP


A estudante de Jornalismo Géssica Amorim, 27 anos, foi uma das vencedoras do 26º Prêmio Cristina Tavares de Jornalismo (link: https://www.youtube.com/watch?v=_ytEmzGe99s). Promovido pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Pernambuco (Sinjope) e a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), no Recife, o certame é a principal premiação da categoria em Pernambuco.

Nesta quinta-feira (25), a estudante conquistou a distinção na categoria Estudante Texto com a reportagem “Francisca dos Santos, a última umbandista do Quilombo Teixeira”, publicada pela Marco Zero Conteúdo (https://marcozero.org/).

Radicada em Sítio dos Nunes, distrito de Flores, no Sertão do Pajeú, Géssica nasceu em Custódia. No município, ela também cursou parte do ensino básico na Escola de Referência do Ensino Médio José Pereira Burgos (a antiga Escola Polivalente). Neste trabalho premiado, a futura jornalista conta a história da agricultora aposentada Francisca Maria dos Santos, 71. Moradora do Quilombo do Teixeira, na zona rural do município de Betânia, ela vê o futuro de sua prática religiosa ameaçada pela onda neopentecostal que invade o povoado.






Nos últimos meses, Géssica Amorim tem visibilizado histórias da nossa região na Marco Zero Conteúdo, coletivo de mídia independente do Recife. Em sua conta pessoal no Instagram (http://instagram.com/gescamorim), ela revela ainda a paixão pela fotografia e o lugar que desde sempre entendeu como seu.  São objetos de uma iconografia bastante particular: imagens de santos populares, fachadas de casas, fotopinturas. Mas, também, o cotidiano de Sítio dos Nunes, de peladas e pegas-de-boi a personagens comuns à pequena vila.

Por Guto Moraes

Confira a reportagem premiada (https://marcozero.org/francisca-dos-santos-a-ultima-umbandista-do-quilombo-teixeira/)

24 novembro, 2021

Dona Helena: A rezadeira do sertão do Moxotó que atrai gente de todo o Brasil à procura de bençãos, orações e proteção.


Crédito: Géssica Amorim/MZ Conteúdo

Publicado originalmente no site Marco Zero, texto de Géssica Amorim


Dona Helena Alves de Siqueira, 77, é uma das rezadeiras mais famosas do sertão do Moxotó. Moradora do povoado Mulungu, zona rural de Custódia, há mais de 50 anos, ela recebe em sua casa, todos os dias, pessoas que recorrem aos seus conhecimentos espirituais, buscando cura e proteção para o corpo e o espírito.

Segundo dona Helena, o seu dom foi revelado em sonho, quando ela completou 22 anos. “Eu vi uma luz muito forte onde eu estava dormindo com meus filhos. E nesse tempo, não tinha energia, não tinha iluminação. Eu pensei que o candeeiro tinha caído e queimado a casa. Uma mulher muito bonita apareceu em meu sonho e me disse que eu tinha esse dom. Que eu tinha a missão de receber em minha casa pelo menos seis pessoas para rezar, benzer. Eu não sei ler, mas, graças a Deus, sei passar a palavra”.

Os visitantes de dona Helena, que ela costuma chamar de “pacientes”, são fiéis. Fazem visitas frequentes e chegam de toda parte. O povoado Mulungu recebe pessoas de outras cidades, de outros estados e até de outras regiões. “ Vem gente de Recife, Serra Talhada, Juazeiro do Norte, de Minas Gerais e também São Paulo. Se eu for dizer a você o tanto de gente que frequenta aqui, você não vai acreditar ”, conta a rezadeira.

Essa não é primeira vez que visito a casa de orações de dona Helena. Quem primeiro me levou até lá foi o meu amigo e conterrâneo Augusto Moraes, jornalista de sensibilidade admirável. Desde a nossa última visita, muita coisa mudou. O local onde acontecem as reuniões, que, no início, era improvisado num pequeno quarto pegado à casa de dona Helena, foi reformado e ganhou mais espaço. As fotografias de fiéis que tomavam as paredes do antigo quartinho – agora todo pintado de branco – foram retiradas e guardadas.

Parece uma casa nova, onde, inclusive, dona Helena se prepara para encerrar a sua missão. Ela pretende passar o seu posto para José Mateus, um de seus 17 netos. Dos descendentes da rezadeira, ele é o único que, segundo ela, demonstra ter nascido com o mesmo dom. “Ela me descobriu quando eu tinha 12 anos. Eu via e escutava muitas coisas, quando era pequeno. Cansava de ver. Era vulto, voz. Sonhava com muitas coisas. A minha mãe dizia que era coisa da minha cabeça, até eu contar a vó Helena. Quando comecei a frequentar as reuniões, os guias espirituais dela me revelaram como o sucessor”, conta Mateus.


 


O neto José Mateus, de 17 anos, é o herdeiro espiritual de dona Helena.
Crédito: Géssica Amorim/MZ Conteúdo

Quando conversamos, Mateus estava se preparando para ir até Custódia, fazer a primeira prova do Enem deste ano. Ele quer ser psicólogo e deseja manter a casa de orações ativa mesmo depois de se formar. “Acredito que eu não poderei atender todos os dias, como minha vó atende, mas quero manter a casa aberta. E ela também vai continuar rezando de olhado, benzendo as pessoas. Só não vai poder mais fazer os trabalhos com os seus guias espirituais”.

Os guias espirituais a que Mateus se refere seriam os espíritos de duas das oito beatas que viviam em torno do padre Cícero Romão, Maria de Araújo e Joanna Tertulina de Jesus (a beata Mocinha), frequentemente citadas como testemunhas dos supostos milagres do padre do Juazeiro. Dona Helena “trabalhou” com a beata Maria Araújo durante 18 anos e, depois, seguiu com a beata Mocinha, com quem “trabalha” até hoje. Quanto aos guias espirituais de Mateus, que são outros, o rapaz diz que só poderá revelá-los quando assumir o lugar de sua avó.

Mateus não demonstra insegurança quando perguntado se está pronto para levar adiante a missão, o prestígio e a confiança que dona Helena conquistou. “Na verdade, eu não acho que estou pronto. Eu tenho certeza. Como a minha avó Helena sempre fala, eu nasci pronto pra isso. Eu também já não tenho escolha, tenho que estar preparado”.

Mesmo com o sol forte e as condições precárias das estradas de terra que dão acesso à casa da rezadeira, o seu espaço de oração nunca está vazio. Há mais de dez anos, o agricultor Manoel Oliveira, 58, morador de Rio da Barra, distrito do município de Sertânia, visita dona Helena com frequência. “Quem vem pra cá, tem que ter fé, mesmo. As estradas do jeito que estão, fica ruim pra passar carro baixo. Além da necessidade, tem que acreditar. Hoje eu vim do Rio da Barra trazendo o meu neto para fechar o corpo. Com dona Helena, tudo sempre dá certo”.

Dona Helena não cobra nenhum valor pelas consultas espirituais que oferece a quem lhe procura. Cada um retribui como quer ou como pode. “Nunca cobrei um centavo de ninguém. Já vi várias pessoas chegando aqui amarradas até com corrente de arado. Quem me deu a missão não me permite fazer isso e eu também não quero cobrar. Eu vivo pra ajudar as pessoas”.



Dona Helena preparou sua casa para “encerrar sua missão”.
Crédito: Géssica Amorim/MZ Conteúdo

 Todos os Direitos Reservados desta matéria ao Marco Zero, e a autora Géssica Amorim.

Matéria Publicada em: https://marcozero.org/a-rezadeira-do-sertao-do-moxoto-que-atrai-gente-de-todo-o-brasil-a-procura-de-bencaos-oracoes-e-protecao/