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16 fevereiro, 2026

O Combate de Umburanas - Livro Sertão Sangrente de Jovenildo Pinheiro de Souza



Umburanas é uma localidade perto de Custódia, em Pernambuco, onde a Coluna Prestes travou o combate mais importante, quando da passagem por esse Estado. O combate foi travado no dia 14 de fevereiro (primeiro dia de carnaval) de 1926, era, então, Governador do Estado, Sérgio Loreto. A tropa pernambucana era composta de cerca de 200 soldados, comandados pelo "celébre Coronel João Nunes, velho perseguidor de Lampião. Era, portanto, conhecedor da região e aceito a dureza dos combates na caatinga.

Vale salientar a opinião de outros cérebre oficial militar, sobre o colega de farda, o Coronel João Nunes. Segundo optato Gueiros, que foi também por muitos anos Comandante das Forças Volantes contra o Cangaço, "o único comandante da tropa que, de fato, cometeu desatinos, foi o coronel João Nunes. Não tivesse ele mandado fuzilar os pobre rapazes gaúchos que caíram prisioneiros nas mãos das tropas legalistas em floresta, em Nazaré, e determinado que se acabasse de matar um pobre revoltoso, que, além de ferido estava tuberculoso, e se achava moribundo em Campo Alegre, não teria a polícia de Pernambuco adquirido por algum tempo a fama de persividade. 

Em umburanas a Coluna Prestes preparou uma emboscada e na qual caiu a tropa sobre o comando do Coronel João Nunes. Diante da surpresa e do poder de fogo por parte dos revoltosos, a tropa legalista bateu em retirada, desordenadamente perdendo no campo de batalha uma grande quantidade de material bélico, além de ter perdido um quarto do seu efetivo militar entre mortos e feridos.

O Coronel João Nunes já tinha tido a oportunidade de contatar a Coluna, no sul do Estado do Piauí, quando enfrentou o destacamento comandado por Siqueira Campos. Nesta ocasião, João Nunes saqueou incendiou a cidade de Valença.

Em Umburanas, o coronel João Nunes teve o seu Waterloo. Segundo descreve Moreira Lima, "à frente dos fugitivos corria o coronel João Nunes que abandonou seus comandados em pleno combate, com um mísero poltrão, e gastou dois dias para alcançar a Custódia, a três léguas de distância, onde chegou "arrasado" a pé e com a roupa estraçalhada pelos espinhos da caatinga. Anos depois, em 1930, esse veterano perseguidor de Lampião, já aposentado da polícia militar de Pernambuco desde 1927, foi aprisionado por Lampião, quando repousava na fazenda Sueca, de sua propriedade, em Águas Belas, Pernambuco.

Extraído do livro SERTÃO SANGRENTO, lançado em 2012 e no momento se encontra esgotado.

15 fevereiro, 2026

Homenagem marca centenário de PMs mortos em emboscada da Coluna Prestes em Custódia-PE


Foto: Divulgação


Foi realizada no Sítio Pitombeiras, município de Custódia, no Sertão de Pernambuco, uma solenidade que marca os 100 anos em homenagem aos PMs tombados em cumprimento do dever em 14 de fevereiro de 1926, durante uma emboscada promovida pelos militares da coluna Prestes. O movimento político militar brasileiro ocorreu entre os anos de 1924 e 1927, cuja principal motivação era a insatisfação com o governo do Presidente Arthur Bernardes.

O evento que marca 100 anos, contou com a presença do 3º BPM, o BEP - Batalhão Especializado de Policiamento do Interior, o Corpo de Bombeiros Militar e a Polícia Rodoviária Federal e vem resgatar e enaltecer a história e bravura desses heróis que foram mortos em combate.

A Coluna travou seu combate mais violento durante a sua passagem por Pernambuco. Os revoltosos interceptaram uma mensagem nos fios do telégrafo, dando conta do deslocamento de uma tropa da Força Pública do Estado, de Custódia para Serra Talhada. Eram 137 homens distribuídos em cinco caminhões. Foi montada uma emboscada com a colocação de um chapéu de engenheiro na estrada.


Um dos caminhões parou para um soldado verificar do que se tratava, e todo o comboio também parou, quando os policiais foram cercados e atacados pelos insurgentes, em número quase cinco vezes maior. Após 6 horas de combate ao escurecer, a tropa conseguiu furar o bloqueio, e retornar a Custódia. No entanto quatro caminhões foram queimados, escapando apenas aquele onde estavam as munições, facilitando a reorganização da tropa, que no dia seguinte deu início a perseguição dos agressores, que já haviam escapado do local.

Foram oito mortos e três feridos vindo do 1º, 2º e 3º Batalhões, Regimento de Cavalaria e Companhia de Bombeiro da época. As vítimas foram enterradas no local do combate, onde foi erguido o monumento com uma placa de mármore, em homenagem a bravura dos chamados mortos do Riacho do Mulungu, no quilômetro 345 Km da BR-232.

Todos os anos, essa história é lembrada.

Com a leitura do boletim interno, o hasteamento das bandeiras do Brasil, de Pernambuco, do 3º BPM e do Corpo de Bombeiro.

Em 2026 a solenidade foi ainda mais especial: o Centenário desse Marco histórico.

Créditos: Darcio Rabelo

21 maio, 2025

Padre Antônio Duarte. Um Pároco esquecido.


Padre Duarte


Eu ainda criança, por volta dos dez anos de idade, ouvi muito a minha mãe falar de um padre que exerceu o seu sacerdócio em Custódia, na juventude dela. O Padre Duarte, era assim que se referiam a ele. Até por minha pouca idade, não dei muita importância aos seus relatos, mas, na minha juventude, o interesse por esse personagem carismático foi evidente. Ele causou uma revolução na sociedade custodiense durante o seu paroquiato, por volta do ano de 1935 até meados da década de quarenta.

Usei a palavra revolução porque ela representa uma mudança radical no estado das coisas, e foi justamente o que ocorreu em nossa cidade. Ele tinha vários talentos, era poeta, compositor, eletricista, tinha noções de arquitetura e engenharia, orador, como também cantava divinamente as músicas sacras.



Igreja Matriz ainda sem a torre e com torre em construção.

O seu antecessor, Padre Leão Pedro Verzeri, que era arquiteto de formação acadêmica, dedicava-se quase exclusivamente às ordens sacerdotais, porém, deixou um grande legado: a construção da bela igreja de São José, iniciada próximo de 1920. Devido a precariedade e dificuldades econômicas, a construção do templo ficou inacabada e não foi possível edificar a torre, ficando assim por mais de dez anos.

Por volta de 1937 ou 1938, o Padre Duarte tomou a iniciativa de reunir várias pessoas de Custódia, autoridades, comerciantes, rapazes e moças, e foram em cima de caminhão até a fazenda São Gonçalo, pertencente ao industrial do caroá, Dr. Aurélio José de Vasconcelos, fazer um pedido, que ele custeasse a obra para conclusão da torre da nossa matriz. O qual, sensibilizado, arcou com todas as despesas, e no ano de 1939, finalmente a igreja ficava exatamente como na sua planta original.

O Padre Duarte, logo apôs a sua chegada, oriundo da paróquia de Floresta, encaliçou e pintou as paredes externas do templo, que eram em tijolos aparentes, construiu a calçada frontal e também a casa paroquial. O sacerdote deu vida e deu alegria à cidade, até então excessivamente monótona. A juventude, chamada à época de mocida
de, raramente tinha diversão. 

O padre contribuiu muito para que as festas tradicionais que se comemoravam durante o ano, tivessem uma maior participação do povo do lugar. A festa do padroeiro São José; o mês de maio cultuado com bastante veneração; o São João com balões, fogueiras, comidas típicas; e as festas do final do ano, Natal e Ano Novo, ficaram repletas de atrações culturais, a exemplo de pastoris; quermesses; dramas, que era uma encenação teatral; jogos e danças.

O salão paroquial, que ficava onde hoje é a Escola Maria Augusta, na Rua João Veríssimo, passou a ser um espaço dedicado à juventude. Alí encenava-se peças teatrais, a exemplo de uma que ficou na memória do povo, comentada por José Carneiro em seu livro, que foi a peça “A Louca do Jardim”, tendo como protagonista Luzia Aleixo, filha de seu Cassiano. Os afinados cantavam com desenvoltura, foi criado um jornal, enfim, todas essas atividades favoreciam a interação dos jovens daquela época.


José Farias na Praça Ernesto Queiroz


O meu tio José Farias (1933) contou-me que aos domingos, após o catecismo, o espaço em frente à igreja enchia-se de gente, todos ansiosos para ver e também participar das atividades criadas pelo Padre Duarte. Ainda não havia a praça, era chão batido em um largo retangular.

A Praça Padre Leão só foi construída na administração do prefeito Joel Inocêncio Gomes de Lima, entre 1952 e 1955. As moças participavam das corridas de sacos, e os meninos disputavam corridas, saindo ao lado da igreja, até o final do largo, onde hoje fica a sorveteria de Olímpio.

O vencedor ganhava, como prêmio, uma sacola grande, com várias guloseimas, feitas na própria cidade. Pirulitos, alfenim, cachimbo, chupeta… feitos de açúcar.

Quem perdia, ganhava uma sacola menor. Zé Farias era o campeão das corridas.

Magro, quando disparava não tinha para ninguém, era um raio, 
adquiriu até a fama de imbatível. 



Juracy Marinho

Um certo domingo, já se achando vencedor, foi batido por Expedito Marinho.

Inconformado, chorando, sem aceitar a derrota, foi consolado pelo padre.

Expedito era irmão de Juracy Marinho(foto) e Edinalva Marinho.

Zé Farias mantinha uma grande amizade com Juracy, o coroinha do Padre Duarte.

Um certo dia, Juracy vestiu a batina de sacristão, reuniu a meninada e trancaram-se no interior da igreja. Ali foi encenada uma missa, onde todas as hóstias foram distribuídas entre eles. Padre Duarte ficou bravo com o ocorrido, pois ficou impossibilitado de comungar os fiéis por mais de uma semana. Levou o coroinha até a presença do pai e relatou a presepada deste. Aquilo foi uma blasfêmia e o castigo foi necessário.

Juracy cresceu, e como era comum aos rapazes da época, foi para a capital tentar uma vaga em uma das Forças Armadas. Conseguiu ingressar na Marinha do Brasil. Não era fácil, até porque a concorrência era grande. Viajou muito, conheceu vários países mundo afora, mas o seu maior desejo era conhecer a Itália. Era ali coladinho que ficava o Vaticano, nem cogitava a possibilidade de ver o Papa João XXIII pela janelinha, porém, já seria muito grato passear pela Praça São Pedro.

Enfim, esse dia chegou, estava no Vaticano. Os marinheiros, divididos em grupos, observavam deslumbrados aquele conjunto arquitetônico barroco, estavam encantados com a beleza esplêndida daquele local. Realmente, estava em êxtase, quando foi chamado por colegas em um grupo à sua frente. “Juracy, tem um padre brasileiro aqui, disse que é do Estado de Pernambuco, queria saber se tinha alguém do Estado dele, venha falar com ele” Juracy se dirigiu às pressas até o sacerdote e este lhe perguntou de qual cidade ele era natural. Falou que era de Custódia. Então, o padre ainda lhe fez outra pergunta. -Você é filho de quem?

-Sou filho de Olímpio Marinho.

-Ah! então foi você que comeu todas as minhas hóstias

Foi uma gargalhada geral dos seus colegas de farda. Naquela época não se usava o termo bullying, mas Juracy foi importunado toda viagem de volta, com o apelido de “papa hóstia”.



Igreja Matriz em 1944

O Padre Duarte foi transferido de Custódia para a distante região do Norte do Brasil, por determinação do bispo de Pesqueira, no ano de 1945 ou 1946, por denúncia de assédio sexual. Fato não comprovado, ninguém testemunhou e não foi investigado categoricamente nada sobre esse assunto.

Entendo que este episódio, supostamente pode ter tido uma conotação política, uma vez que foi justamente na casa paroquial no ano de 1944, onde se deu o “banquete conspiratório”, com a presença do então Interventor do Estado, Etelvino Lins, que culminou com a ascensão ao poder local do industrial, dono do curtume, José Estrela, em detrimento do então Prefeito Ernesto Alves de Queiroz, nomeado pelo Interventor Agamenon Magalhães no ano de 1939.



Padre Duarte bem velhinho

O que fica claro, é o esquecimento e o não reconhecimento por parte das pessoas influentes da nossa cidade, da grande importância que teve o Padre Antônio Duarte, para nossa comunidade. Não existe nenhuma homenagem edificada ao padre que tanto contribuiu para o progresso da nossa terra. Pessoas que vivenciaram aquela época áurea, quase todas já se foram, logo a sua memória cairá em total desconhecimento para os habitantes da nossa cidade.

Termino essa crônica com uma estrofe de uma poesia em versos, de autoria do Padre Duarte, recitada pela menina Joany Pereira, nas comemorações do aniversário do Prefeito Ernesto Queiroz, no dia 20 de julho de 1940.

“Eu sou bem pequenininha,
mas já sei também, falar;
nesta cena meus senhores,
vem Joany representar;
nós estamos hoje em festa,
hoje em festa estamos nós,
porque é aniversário
do Ernesto de Queiroz!



Jorge Remígio.
Recife-PE
maio de 2025.




Fonte de pesquisa.

Livro. Um Coronel Sem Patente, de Ernesto Queiroz Júnior
Livro. Caminhos do Afeto, de Sevy Oliveira
Livro. A Baraúna, de José Carneiro de Farias Souza.

Agradecimentos a José Farias Souza (1933), Genésia Rezende (1920), Ozanira Farias Remígio (in memoriam, 1922-2010) e Olímpio Marinho pelos importantes relatos e informações preciosas.

01 fevereiro, 2025

[Exclusivo] Custódia - A verdade histórica sobre o nome do município


Saulo de Tárcio Duarte
Advogado e Escritor
(Site oficial do Autor)

Sob a direção do advogado pernambucano Saulo de Tarcio Duarte, a TVM (TV Visão Municipal) se dedica a ser uma fonte confiável e acessível de conhecimento, com o compromisso de melhorar a gestão pública e contribuir para o desenvolvimento sustentável de todas as cidades do Brasil.

Nesta edição especial o articulista demonstra através de documentos e fatos históricos relevantes a origem do nome de Custódia para a próxima edição do Anuário dos Municípios Pernambucanos.

O nome que veio a ser a denominação do município de Custódia remonta com doses bem fundadas na década de 1830. Quanto a esta afirmativa todos os prognósticos, indícios e fontes que direta ou indiretamente apontam para esta assertiva. Entretanto, creio ser esta a data da origem do nome, mas não da povoação como núcleo urbano. O núcleo urbano começou a se formar somente nos finais do século XIX. A prova disto é que o próprio Distrito de Alagoa de Baixo, ao qual Custódia foi desmembrado, somente foi criado em 1842 e a vila e município data de 1873, hoje Sertânia. Em 1908 Quitimbu ainda era a sede do 2º distrito. Mas, como a questão aqui é sobre a origem do nome “Custódia”, vejamos:

Na década de 1830 havia apenas duas povoações que já possuíam certa importância no interior mais adentro da jovem Província de Pernambuco. Era Flores do Pajeú e Cimbres, está menos importante, pois Flores detinha a cabeça da Comarca do Sertão e mais adiante no alto sertão ainda havia mais duas povoações importantes que eram Cabrobó e Boa Vista, esta emancipada em 1838. Era o período regencial instalado logo após a abdicação de Dom Pedro I. Naquela década o Brasil passava, talvez, pelas maiores turbulências deste rio pertenciam outrora a Casa da Torre (BA) por carta de sesmaria de 1658. (*)

(*) Sampaio, Yony, Livro de Vinculo do Morgado da Casa da Torre Centro de Estudos de História Municipal - CEHM, Recife - 2012 - páginas 20,21,22.


A ORIGEM DO NOME

Nos arquivos do IBGE que datam das décadas de 1940/50 os pesquisadores descrevem sobre Custódia: “Diz a tradição que uma das origens do nome Custódia viria do fato dos jesuítas estarem "sob custódia" da população local que os acolheu, já que estavam sendo perseguidos e naquele local ficaram protegidos. Esta versão não tem sido aceita por falta absoluta de lógica e de documentos que corroborem com a verdade dos fatos. Outrossim, na primeira metade do século XIX não há registro que certifique a existência, nas cercanias da hoje cidade Custódia, fazenda com esse nome. Muito menos há registro de mosteiro, convento, abrigo ou até capela que abrigasse jesuítas ou outra congregação religiosa.

Contudo, entretanto, a versão mais aceita é que o nome seria uma homenagem a uma mulher conhecida por Dona Custódia, proprietária de uma pousada/barracão que hospedava e alimentava tropeiros e viajantes. Esta versão sim tem comprovações lógicas e documentais fartas e certamente eliminam quaisquer outras pela força das formalidades. Dito local seria certamente nas imediações do centro da cidade por onde passa um riacho e que aos poucos os transeuntes foram referenciando como o negócio de Dona Custódia e assim por diante até batizá-lo pelo direito consuetudinário. Fui buscar essa história e encontrei.

QUEM ERA DONA CUSTÓDIA?


Litografia de Maria Custódia Osório de Campos baseada em traços familiares. 
Por Karoba N. Salvi



Dona Custódia chamava-se na verdade Maria Custódia Osório de Campos, nascida na Fazenda Conceição, Flores do Pajeú, hoje Betânia, a 5 quilômetros de Sítio dos Nunes, em 1800, filha de Firmiana Barbosa de Aragão e do capitão de ordenanças Manoel José de Campos (marinheiro).

Dona Custódia foi a filha primogênita do casal que deixou uma das maiores descendências do sertão pernambucano. Foram 12 filhos, entre eles o Monsenhor Joaquim Pinto de Campos que foi sem sombras de dúvidas o mais poderoso e maior escritor sertanejo do século XIX. Pinto de Campos, o padre irmão de Dona Custódia chegou a ser tão influente que se tornou amigo do Imperador Dom Pedro II, Duque de Caxias, Machado de Assis, entre tantos escritores europeus a exemplo de Alexandre Herculano e Camilo Castelo Branco e obteve o título de Protonotário Apostólico de dois papas, (Pio IX e Leão XII).



Capitão - mor Aniceto Nunes da Silva
Terras do Sabá até lado do Sertão do Pajeú de Flores


Mestre de Campo Pantaleão de Siqueira Barbosa
Terras do lado lestre ao Sabá até léguas dos dois lados do Rio Moxotó


Dona Custódia, segundo o historiador Nelson Barbalho, citando Ulisses Lins de Albuquerque (em Moxotó Brabo) casou-se com José Joaquim de Siqueira que era neto do mestre de campo e maior latifundiário do Moxotó, Pantaleão de Siqueira Barbosa e não tiveram filhos. Vejam bem, Dona Custódia por um lado era casada com o neto do famoso mestre de campo e do seu lado era neta do sargento-mor Fellipe de Aragão Osório, este cunhado do Capitão-mor Aniceto Nunes, o maior latifundiário do seu tempo no sertão. A irmã de Aniceto, Bibiana Matildes, mulher muito rica, criou a mãe de Dona Custódia e deixou-lhe quase toda a herança em testamente que ainda hoje encontra- se intacto na Igreja Católica de Flores.

Dona Custódia, além de comerciante foi herdeira de terras intermináveis, especialmente para as bandas do pajeú sem contar com as terras deixadas pelo seu esposo. Seu espólio, como dito, certamente abocanhava terras tanto do lado maior proprietário de terras do pajeú como do Moxotó.

Seu estabelecimento em Custódia devia ter um movimento estupendo pois pegava a rota da estradas das boiadas que ia de Olinda até Cabrobó como era rota entre o médio pajeú de Flores, Baixa Verde e Serra Talhada rumo à capital.


VEIO DA EUROPA


O avô português de Dona Custódia era Custódio José de Campos (**), natural de Penedo da Comarca de Penafiel, sua mãe chamava-se Ana da Silva. Naqueles tempos era ainda mais comum homenagear ancestrais e certamente o pai de Custódia, Manoel José de Campos, saudoso do seu pai resolveu batizar a sua primogênita em solo brasileiro com o nome do avô paterno do rebento. Vale salientar que o pai de Custódia, Manoel José de Campos chegou ao Brasil no ano de 1792 precisamente no Porto do Recife. Não se sabe se sequestrado pelos marujos, segundo relato de Pinto de Campos, que merece crédito, ou se veio fugido de sua casa fraterna em busca de aventuras. Acredito na primeira versão, pois Pinto de Campos relatou ao Jornal Ilustrado em 1880 e era comum raptar crianças naquele tempo para servir de grumetes ou pajens(***) nos porões dos navios. Ditos raptos eram tão importantes que eram tratados até de forma comum e ignorados pelas autoridades constituídas.

(**) Certidão de Batismo de Manoel José Campos de 1780.

(***) Grumetes e Pajens: Adolescentes que faziam serviço de embarcações

Sobre documentos que atestam a existência inconteste de Dona Custódia há uma infinidade de citações em sites, livros, jornais e escritos de Pinto de Campos. Mas, registro oficial encontra-se seu nome na página 42 do testamento de Bibiana Matildes da Silva, arquivado na Igreja de Nossa Senhora da Conceição em Flores (PE) e no batistério de Pinto de Campos quando ela foi a sua madrinha de batismo ao lado de Manoel Francisco da Silva, este o filho mais velho do Capitão Aniceto Nunes.

Custódia tornou-se a filha prendada do casal, maior herdeira de Bibiana Matildes, casou-se com um neto de Pantaleão Siqueira Barbosa que, segundo Nelson Barbalho em Cronologia Pernambucana (2688), livro 11, página 129 que morava ali nas terras onde hoje fica a cidade de Custódia onde certamente Dona Custódia fez o seu hotel, seu armazém, seu negócio, seu comércio que se tornou um ponto de parada obrigatória por todos aqueles transeuntes que circulavam pelos sertões adentro. Daí a expressão “vamos fazer uma parada descansar, se alimentar e alimentar os animais lá em Dona Custódia”.

Ela faleceu e o lugar ficou batizado: Custódia.até hoje.

AGRADECIMENTOS:

Quero agradecer imensamente a SAULO DE TARCIO DUARTE pelo envio desse trabalho ao BLOG CUSTÓDIA TERRA QUERIDA. Ambos temos compromisso de levar até a população informações importantes, esse material, de grande relevância histórica.

LEMBRETE

Peço encarecidamente as pessoas que puderem divulgar esse material, compartilhem com todos. E claro, deêm crédito ao autor do material, Saulo de Tárcio Duarte. 

Complementando, citem também o Blog Custódia Terra Querida e seu colaborador JORGE REMIGIO, outro grande incentivador, colaborador e pesquisador sobre o tema. 

Apoio Cultural






06 maio, 2023

[Fato Histórico] Nomeação de Delegado de Policia (1929)




Antigamente, os Atos Oficias e Portarias do Governo Estadual, era publicadas em Jornais da época. Confiram essa que envolveu nossa cidade:
Secretario de Justiça baixa as seguintes Portarias

Nomeando de acordo com a proposta do Sr. Chefe de Polícia, Henrique Tenório de Mello e Francisco Gonçalves de Lima, para exercerem respectivamente, os cargos de Delegado de Polícia e 1º Suplente do Município de Custódia. 

Publicado no Jornal de Recife, em 06 de Janeiro de 1929.

22 março, 2023

[História Política de Custódia] A Posse de Prefeito e Vereadores eleitos em 1936

 
Sob a presidência do desembargador Nevea Filho e de vários desembargadores, se reuniram no Tribunal Regional de Justiça Eleitoral para serem tomadas as últimas providencias relativa as eleições municipais de 1936. Restava apurações em alguns municípios e isso deixava entravado a ação do Tribunal para Posse dos eleitos. Depois de receber um relatório, de uma Comissão formada, foi proclamado assim os resultado finais deste pleito, definindo assim, o dia 15 de Setembro de 1936, para ser dado Posse aos Eleitos.


Custódia - 39ª Zona Eleitoral


Prefeito -

Progresso de Custódia: Inocêncio Gomes de Lima com 299 votos.

Vereadores -

Progresso de Custódia: Ernesto de Queiroz com 105 votos; Sabino Lacerda com 62 votos; Euclides do Amaral Filho com 39 votos; Francisco Gonçalves Lima com 38 votos e Osório Valeriano da Silva com 30 votos.

Partido Social Democrático de Pernambuco: José Marinho do Rego com 51 votos; Henrique Tenório de Mello com 50 votos; Horácio Pires Ferreira com 36 votos e Cicero Gomes de Oliveira com 24 votos.

Suplentes -

Progresso de Custódia: 
Joaquim Pereira da Silva com 13 votos; João Pires Ferreira com 8 votos; Lourenço Cavalcanti Albuquerque Maranhão com 8 votos e  José Miguel da Silva pela legenda.

Partido Social Democrático de Pernambuco: José Gregório da Silva com 22 votos; José Rodrigues de Mello com 21 votos; Manoel Pordeus Pires com 19 votos; José Gonçalves Lima com 15 votos e Izaias de Queiroz Amaral com 11 votos.

Câmara Municipal -

Ernesto Queiroz (Presidente), Henrique Tenório de Mello (Vice), José Marinho do Rego (1º secretário), Francisco Gonçalves de Lima, José Gregório Lima e José Rodrigues de Melo (2º secretário).

Fonte: Jornal Diário da Manhã, edição de 1 de Agosto de 1936.

26 dezembro, 2022

Pela primeira vez a Câmara de Vereadores tem uma mulher Presidente: Anne Lira


Na última semana, dia 15, foi realizada Sessão Extraordinária para votação da nova Mesa Diretora para o II Biênio 2023-2024 para Câmara Municipal de Vereadores de Custódia, foi eleita e definida a chapa 1, com unanimidade dos votos.


Ficando definido assim:

PRESIDENTE: ANNE LIRA
VICE-PRESIDENTE: NEGUINHO DA MARAVILHA
1º SECRETÁRIO: MANOEL MESSIAS
2º SECRETÁRIO: BITCHO GÓIS


Sendo assim a partir do dia 1 de Janeiro, pela primeira vez, a Casa João Miro da Silva será presidida por uma mulher, a vereadora Anne Lira de 57 anos, atualmente exercendo seu segundo mandato como vereadora. Já exerceu cargo de Secretária de Saúde em Custódia e em Flores-PE. Deixa seu nome marcado na História de nossa cidade.

12 dezembro, 2020

Governador Manoel Borba em Custódia (1917)


Na edição do dia 04 de Janeiro de 1917 do jornal Diário de Pernambuco, trazia a seguinte manchete:

"A Excursão do governador a Triunfo. O regresso. As impressões de sua excelência". 

De regresso de sua excursão a Triunfo, onde fora inaugurar a estrada carroçável recentemente construída entre Rio Branco, ponto terminal da estrada central e aquela importante cidade sertaneja, chegou ontem ao Recife o sr. dr. Manoel Borba, governador do Estado, em companhia das pessoas que até ali o acompanharam.

Daqui haviam partido no dia 28, em trem especial até Rio Branco. No dia 29, conforme noticiamos telegraficamente, s. exe. dirigiu-se a Buíque, tendo feito à cavalo o trecho do percurso ainda não servido pela estrada federal em construção. Acompanharam-no até ali e no regresso, que se fez no mesmo dia, 153 cavalheiros, proprietários e fazendeiros residentes naquela zona.

Partiram de Rio Branco (Arcoverde), em automóvel, s. exe. e a comitiva, pela nova estrada, com estações em Custódia, a 82 quilômetros, a Flores, a 134 quilômetros. Ai pernoitaram.

No dia imediato partiram para Triunfo, galgando a Serra da Baixa Verde, num percurso de 24 quilômetros. 

Sobre Custódia falou "“Em Custódia não encontrei escola estadual. Vou providenciar quanto esta falta."

Link da matéria: Clique Aqui

A passagem de Agamenon Magalhães por Custódia (1940)

Fonte:
Biblioteca Nacional Digital
Fundação Biblioteca Nacional


Em 03 de Agosto de 1940, o Jornal Pequeno(jornal de grande circulação no Recife, Pernambuco, nascido no final do século XIX e de grande circulação durante a primeira metade do século XX.), divulgou em suas páginas, a visita do Interventor Federal Agamenon Magalhães ao Sertão do Estado. 

Viajaram em sua companhia, dos Secretários de Viação, Obras Públicas e Agricultura. Motivo dessa visitas as principais cidade do sertão do Estado foi, inspecionar melhoramentos de vultos e inaugurações. 

Primeira parada foi em Pesqueira, onde foi 
recebido pelo industrial Manoel Britto & Cia e autoridades locais. Depois seguiram para Rio Branco (Arcoverde) onde fizeram inspeção de algumas construções. Pernoitou na Fazenda de criação do Estado, naquele município. 

Após inspecionar as instalações da Fazenda de Criação pela manhã do dia seguinte, foi para Custódia, onde almoçou com Dr. Aurelio Limeira, na Fazenda São Gonçalo, localidade que tinha fábrica de caroá. À convite do proprietário da localidade, pernoitou nesta propriedade.

Encerrando o giro pelo sertão do Estado. No outro dia foi a Serra Talhada, sua cidade natal.  Cidade que não visitava a bastante tempo, seus conterrâneos prepararam um festa para sua chegada. 

Depois das comemorações, e homenagens por parte da classe conservadora local, inaugurou Usina de Beneficiamento de Algodão, Seção de Fomento Agrícola Federal. A Usina levou o nome do Ministro da Agricultura. Ainda foi inaugurada a Escola Braz Magalhães na zona rural daquela cidade. 

09 dezembro, 2020

[Jornal do Comércio] Aos heróis da Polícia Militar

 

Publicado no Jornal do Comércio em 05 de Maio de 2008, 
escrito por Jorge Luiz de Moura.


No km 345, da BR-232, entre Custódia e o Sítio dos Nunes, existe um monumento branco, com a seguinte placa: “Homenagem da Polícia Militar de Pernambuco à memória dos seus heróis que, em 14/02/1926, aqui tombaram no cumprimento do dever, combatendo a Coluna Prestes”.

Mas, que combate foi aquele ocorrido há mais de 81 anos?

O combate em si, foi uma grande armadilha urdida pelos oficiais da Coluna Miguel Costa-Prestes, seu nome correto, tenentes-coronéis Djalma Dutra e João Alberto. (Livros: A coluna prestes, de Neill Macaulay, página 205, e o Cavaleiro da esperança, de Jorge Amado, página 149). Assim, os rebeldes dessa Coluna (que estavam na área esperando uma ligação com o tenente Cleto Campelo, que acabou falecendo em Gravatá), haviam interceptado nos fios do telégrafo, uma mensagem sobre o deslocamento de Custódia para Vila Bela (Serra Talhada) de uma tropa da Força Pública de Pernambuco, de 137 homens, transportada em cinco caminhões dos efetivos dos 1º, 2º, 3º Batalhões, Regimento da Cavalaria e Companhia de Bombeiros, (Boletim Geral da Força Pública, de 12 de fevereiro de 1926), sob o comando do coronel João Nunes, comandante Geral. No terceiro caminhão, vinham o tenente da PM José Coutinho da Costa Pereira, no quinto, o tenente da PM Olímpio Augusto de Oliveira e o capitão Luiz Sabino de Azevedo e, na retaguarda, o comandante João Nunes, em automóvel.

Na localidade Umburanas ou Imburanas, os rebeldes arquitetam uma emboscada, colocando na estrada um chapéu de tipo engenheiro, de cortiça, como isca! Por volta das 9h de 14/02/1926, (domingo de Carnaval), um soldado mandou parar o veículo para apanhá-lo. Em seguida, todo o comboio parou. O coronel João Nunes, vinha à retaguarda, em companhia, do seu secretário, tenente Sidrak de Oliveira Correia e outros oficiais. Imediatamente, dos serrotes laterais, surgiram os fogos cruzados das metralhadoras inimigas, ceifando a vida de inúmeros soldados.

Após seis horas de combate, o coronel João Nunes, ao escurecer, conseguiu romper o cerco dos rebeldes, (em número quase cinco vezes superior, e entocados) rumo à Custódia, perdendo quatro dos cinco caminhões, que foram queimados. No dia seguinte, em Custódia, a tropa, reorganizou-se e partiu ao encalce da força rebelde (História da PMPE – major da PM Roberto Monteiro, página 78, e revista APMP 1985 – página 10). A munição que se achava no quinto caminhão, que regressou a Custódia com o capitão Luiz Sabino de Azevedo, não foi perdida (Jornal A Província, de 27/02/1926, e Diário de Pernambuco de 27/02/1926).

De acordo com o Boletim Geral da Força Pública, de 12 de março de 1926, morreram oito soldados: Isídio José de Oliveira, (2º Batalhão), Castor Pereira da Costa, Ercias Petronillo Fonseca e Manoel Bernardino Fonseca (Regimento de Cavalaria), José Sebastião Bezerra, Pedro Cosme Alexandrino, Antônio Cassemiro Ferreira e Luiz José Lima Mendes, (Companhia de Bombeiros). (Livro: Epopéia de bravos guerreiros – Jorge Luiz de Moura e Carlos Bezerra Cavalcanti). Os feridos foram três soldados, Amaro do Espírito Santo e Benevenuto Cardoso Silva, (do 2º Batalhão) e Severino Lino dos Santos, (do Regimento de Cavalaria). No mencionado Boletim, o comandante João Nunes enaltece suas bravuras e sacrifícios no campo de luta, em defesa da legalidade.

Aqueles soldados foram sepultados no local, numa cova única, à beira da estrada, de acordo com o major da PM João Rodrigues da Silva, em artigo publicado na Revista Guararapes, em janeiro de 1950, – Os mortos do Riacho do Mulungu, onde assinala que pela voz do povo, o número de mortos se eleva a mais de 40 praças. Esse monumento foi construído durante o Comando Geral do Coronel Manoel Expedito Sampaio, em 1961 (Informação do coronel Cícero Laurindo de Sá).

Na fria placa de mármore, ficou o registro da reação daqueles heróis, que precisam ser lembrados e nominados todos os anos, àquele 14 de fevereiro de 1926, pois, transpuseram os umbrais da glória e precisam ser inseridos nos anais da grande história da PM e de Pernambuco.


» Jorge Luiz de Moura é coronel e ex-comandante-geral da PMPE.

Matéria enviada por José Soares de Melo 

FOTOS DO LOCAL





04 dezembro, 2020

Jornal A Província de 1928 mostrou a Criação dos novos municípios, entre eles Custódia.


Fonte: Biblioteca Nacional Digital Brasil
Jornal A Província

Em edição imprensa do Jornal A Província, em 15 de Agosto 1928, durante sessão dos deputados, foi lido um parecer da comissão de estatística e divisão de projeto do Estado de Pernambuco, relativo a criação de novos municípios.

O relatório apresentado pela Comissão Especial nomeada pelo Governo do Estado, pela Lei nº 1.837 de 29 de Dezembro de 1926, autorizava organizar um projeto com uma nova divisão administrativa no Estado. Dessa forma o Estado passaria a ter 25 novos municípios a partir daquela data, ficando assim no total com 84 municípios.

Custódia na verdade foi desmembrado de outros municípios dos quais fez parte, como Sertânia.

“O município de Custódia, que fica constituído com a parte Norte do distrito de seu nome, desmembrando do Município de Alagoa de Baixo, e territórios desmembrado de Flores e Floresta, dos quais se divide pelas seguintes linhas: partindo das proximidades de Samambaia, ponto onde a atual divisória de Floresta com Jatobá encontra a de Alagoa de Baixo, dirigi-se para o Poente, seguindo um caminho existente, até encontrar com o riacho Quixaba, e por este até a sua foz, no riacho do Navio; dali a linha tomará a direção de Noroeste, em busca de um ponto situado entre as serras das Cunhãs e das Areias, de onde rumará para o Nordeste, pelo planalto das serras das Areais, passando pelas serras Vermelha, Tamboril e do Sítio, até encontrar com a linha divisória de Alagoa de Baixo com Flores.

A parte do distrito de Custódia que lhe fica pertencendo fica limitada da parte sul, que fica para o novo Município de Moxotó pela seguinte linha: Partindo do Poço da Cruz, ponto de convergência dos Municípios de Floresta e Alagoa de Baixo com o novo Município de Moxotó, até Poço Comprido, na Foz do Riacho, Custódia, e dali em direção ao riacho do Mel, no ponto onde tem o inicio as divisas do distrito de Gameleiras, do Município de Buique, e que passou a ser parte do município novo de Moxotó.”

O parágrafo único deste projeto dizia: Até 21 de Dezembro do corrente ano, os novos municípios não teriam administração autônoma, continuando sem interrupção a dos municípios de que foram desmembrados, e somente em 1 de Janeiro de 1929 se considerarão definitivamente deles separados, iniciando-se então as suas próprias  administrações municipais.

 

22 setembro, 2020

[Fato Histórico] Acidente com a professora de Belmonte (1918)

 

Foto: 
“A jovem professora Dona Rosalina”. 
Do álbum de recordações da professora Maria de Lourdes Pires de Alencar.

Texto: Valdir José Nogueira de Moura


ACIDENTE COM A PROFESSORA DE BELMONTE

(Memórias da Educação do Município de São José do Belmonte)

Na próspera cidade de Belmonte, antes que se construísse na década de 1940, o Grupo Escolar Professor Manoel de Queiroz, existiam na localidade as Escolas Públicas Estaduais e a Escola Municipal. Para as respectivas escolas as professoras, naquela época, em sua maioria, vinham de Recife, e quase sempre, se faziam acompanhar por alguém da família para não virem sozinhas, o que em muitas vezes onerava o salário. 

Quando chegavam, às vezes se hospedavam na casa de Seu Terto Donato, às vezes no hotel de dona Manú, ou então em casas de pessoas conhecidas, destinadas quase sempre pelo prefeito, sendo que algumas alugavam casa. Vindas de meio adiantado, gozavam de grande prestígio social e movimentavam a comunidade com festas, piqueniques, dramas, ginásticas, canto, etc. Naquele tempo, funcionando as escolas em armazéns alugados ou casas de família, as professoras desempenhavam um bom trabalho com seus alunos.

Durante todo o período imperial e início do período republicano, a maior parte das escolas brasileiras eram separadas por sexo. Nesse período, a reunião de meninos e meninas em uma mesma sala de aula era uma prática muito pouco comum nas instituições de ensino do país. O costume e a lei determinavam a separação das escolas, tanto públicas quanto particulares, em femininas ou masculinas.

A cadeira da instrução primária do sexo masculino da Povoação de Belmonte, Comarca de Vila Bela, foi criada no período imperial, através da lei nº 598 de 13 de maio de 1864. Em seguida, através de portaria, o presidente da Província de Pernambuco nomeou como primeiro professor da dita cadeira o Sr. João Batista de Oliveira, mediante gratificação anual de R$600:000 (seiscentos mil réis). 

Porém, 25 anos depois, a Lei Provincial nº 2079, de 25 de outubro de 1889, no seu artigo 1º, “estabelece a cadeira de ensino do sexo feminino na Freguesia de São José de Belmonte”, sendo nomeada através de portaria, em maio de 1890, como primeira professora dona Leopoldina Maria Teixeira Jacobina.

Por ato do governo de Pernambuco, no dia 27 de novembro de 1916, foi nomeada professora da cadeira de ensino do sexo feminino da cidade de Belmonte, que se encontrava vaga há dois meses, dona Rosalina Maria da Conceição, jovem, recém formada na Escola Normal de Recife.

Porém, como chegar a Belmonte se só havia trem até Rio Branco (Arcoverde)? Naquela época, o automóvel não havia chegado ainda por estas bandas do nosso vasto sertão. Rio Branco até então era o ponto final da Estrada de Ferro Central de Pernambuco; desta estação para as demais localidades sertanejas, o trajeto comumente era feitos em carros de bois e animais de sela. 

E foi em um carro de boi que dona Rosalina chegou, em finais do mês de janeiro de 1917 na cidade de Belmonte. O carreeiro havia deixado uma carga de borracha de maniçoba do coronel Gonzaga Ferraz, de Belmonte, em Rio Branco, para ser escoada até o Porto do Recife através do trem. Dona Rosalina, cheia de medos e apreensões, aproveitou a oportunidade do carro de boi, e embarcou para Belmonte, no sertão do Pajeú, continuando assim a sua longa viagem. 

O sol nem havia clareado, e, com o silêncio da caatinga, se ouvia, a uma légua de distância, um cantar choroso, deprimente e triste. Era o carro de boi levando dona Rosalina com destino a Belmonte. Enfim, depois de uma exaustiva viagem, entra a nova professora de forma triunfante na acolhedora cidade. Na “rua da Igreja”, o coronel Sá Moraes, prefeito da localidade, que mobilizou o povo do lugar para receber de forma calorosa, a professora Rosalina, tão esperada por pais e filhos quanto uma rainha por seus súditos.

No dia 2 de fevereiro de 1917, dona Rosalina iniciou o ano letivo apenas para as meninas. Nos primeiros dias de aulas, observando as crianças sentadas ainda em bancos e cadeiras, realizando as tarefas e deveres feitos na perna, a professora procurou o prefeito e solicitou que o mesmo providenciasse algumas carteiras para a escola. Mas que de repente, o prefeito solicitamente atendeu ao pedido, trazendo-lhe logo uma dúzia de carteiras em seis burros encangalhados, duas em cada lombo.

O tempo enfim foi passado, até que chegou o mês de novembro com os exames do fim do ano e em seguida a festa de encerramento das atividades da escola do ano de 1917. O evento reuniu várias pessoas da comunidade entre pais, alunas e autoridades convidadas. Para abrilhantar o fim da solenidade, a professora entoou um belo canto natalino, sob os acordes de um violão tocado pelo jovem Sinhozinho Alencar, fechando tudo com chave de ouro. No dia seguinte a professora seguiu então para férias na sua cidade Recife.

Rompeu-se algures alvissareiro o ano de 1918. Decorria o mês de janeiro, quando uma estarrecedora notícia estampou a primeira página do Diário de Pernambuco, edição 22, de 23/01/1918:

“ACIDENTE COM A PROFESSORA DE BELMONTE

No dia 16 do corrente, na fazenda Umburanas, do município de Alagoa de Baixo, a professora estadual de Belmonte, dona Rosalina, foi vítima de uma lamentável queda de um burro, recebendo vários coices.

Dona Rosalina, em conseqüência desse desastre, sofreu feridas contusas pelo corpo vindo a falecer pouco depois.

A polícia local tomou conhecimento do fato que causou ali geral consternação.

Ao senhor desembargador, chefe de polícia, foi comunicado o ocorrido.”

Causou profunda desolação em Belmonte, a notícia quando chegou através do telégrafo, da morte trágica da professora estadual da localidade dona Rosalina Maria da Conceição. A mesma tinha ido passar as férias do Natal com a família em Recife. Todavia, depois que desceu do trem na estação de Rio Branco, seguiu seu itinerário de regresso para Belmonte, sede de sua cadeira de instrução primária, montada em um burro. Ao chegar no lugar Umburanas, próximo a povoação de Custódia, o animal de sua montaria espantou-se, disparando em vertiginosa carreira. 

Dona Rosalina, que nenhuma prática tinha de montaria, perdeu o equilíbrio, e, caindo, ficou dependurada pelo estribo que era uma laçada de corda. Na queda o laço apertou-se no tornozelo ficando a desventurada vítima tolhida de se desembaraçar de pronto. Arrastada cerca de quatrocentos metros por cima de paus e pedras, recebendo além disso, coices mortais do animal desenfreado, que foi a custo contido; a professora apenas arquejava ao ser encontrada, vindo a falecer momentos depois. 

O Diário de Pernambuco em outra edição sobre o ocorrido detalhou: “Era horroroso o cadáver da professora Rosalina, de Belmonte, osso frontal fraturado, olhos fora das órbitas, membros desarticulados e completamente despidos, dava a impressão de um ser disforme, sendo difícil conhecer-lhe a identidade”.

Em sufrágio da finada professora, o Delegado de Ensino de Belmonte, Dr. Felisberto Pereira e o Padre Joaquim de Alencar Peixoto, fizeram celebrar uma missa no dia 16 de fevereiro, trigésimo dia do falecimento de dona Rosalina, em cujo ato religioso, além da presença maciça de suas alunas, a comunidade belmontense muitíssimo abalada compareceu em peso.

Ainda como homenagem, na década de 1930, dona Umbelina Menezes, professora leiga municipal colocou na sua escola o nome da inesquecível professora Dona Rosalina.

Enviado por Jorge Remígio