Mostrando postagens com marcador Artigos Daniel Feitosa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Artigos Daniel Feitosa. Mostrar todas as postagens

21 julho, 2026

Baú do Blog: Desabafo Apressado e Meio 'Sem Tempo'



Por: Daniel Feitosa 



Nota do Editor: Resgatamos hoje dos nossos arquivos esta belíssima e necessária reflexão escrita por Daniel Feitosa. Em um mundo que parece girar cada vez mais rápido, reler estas palavras é um convite obrigatório para desacelerar e recuperar a nossa essência.

É que nessa correria de poucas horas, a gente esquece o quanto de vida há pra ser vivida. Os pequenos gestos, tão simples e tão grandiosos, olvidam-se num ostracismo ingrato. Pouco se percebe e pouco se aproveita da riqueza do cotidiano. É uma pena.

Os relógios correm, frenéticos em seu ofício regulador; já não há quase tempo para olhar para o céu; e os dias vão se repetindo num calendário tedioso, nos deixando empoeirados, cansados e carcomidos pelo que se habitou a chamar de “estresse”. Há tantas pessoas, tantas coisas, tanto ar a nossa volta; e acabamos por deixar a parte mais bonita de cada um abandonada em meio às poluições sonoras, visuais e industriais deste mundo.

"O que me angustia, apressadamente, é essa sistematização que toma conta das pessoas, numa padronização medíocre, em que tudo se repete num ciclo hipócrita."

Parece que cada vez mais se esquece do quanto vale um sorriso, um abraço ou um mero aperto de mãos. Cada vez menos eu vejo as pessoas serem solidárias, agirem com humildade ou se esforçarem para ao menos esboçar um mínimo de boa educação, de respeito, de consideração. É desgastante conviver com tamanha brutalidade do animal social que nos tornamos; é ensurdecedor o grito insensato da falta de tato das pessoas para com os sentimentos; é triste constatar que cada vez mais tudo se banaliza.

Quase sempre esquecemos o que nós mesmos podemos representar, mas só pra rapidamente exemplificar: nós somos a alegria de quem nos quer bem, somos as rimas dos versos de quem nos ama, somos o bem mais precioso de nós mesmos.

E podemos ser sempre mais, basta querermos: corramos, então, para recuperar a essência perdida, ainda há tempo pra se andar devagar.

Fico por aqui, e volto aos meus prazos.

Abraços saudosos àqueles que sumiram no ’sem-tempo’.

15 novembro, 2023

Fotografia da Solidão - por Daniel Feitosa


De logo já se via o jardim, provido de flores murchas, um banco de balanço branco, já um pouco desgastado, deixando-se embalar pela brisa matinal. Um caminho de pedras cravejadas que seguia desde a calçada até a entrada. Uma escada de poucos degraus dava acesso ao alpendre muito bem desenhado, com detalhes outonais encravados nas pilastras. Logo adiante, a porta – de comprimento e largura avantajados, composta de uma parte em vidro e outra de madeira de lei.

Por dentro, a figura residencial colonial rústica, as paredes cobertas de uma cor já sem muita definição, que deixava transparecer a longevidade embarcada pelo tempo. Era uma casa, mas não uma casa qualquer. Ali tanto se viveu, como também tanto se morreu. Foram longos verões, infindáveis invernos e muitas resenhas a definhar.

Uns poucos retratos figuravam sobre um móvel de madeira – o único que ainda havia ali, já aos cacos. Em cada imagem, numa força de expressão espantosa, as figuras humanas, em seus humildes trajes surrados por tantas secas, transpareciam suas marcas de expressão lapidadas pela amargura. O acervo de uma época em que vidas retratavam a vida em branco e preto. Resistindo à poeira, às numerosas teias de aranha e ao brusco efeito das horas, eram como os componentes vivos que ali viviam, intactos e eternos.

Os quartos escondiam os gritos abafados de misericórdia, num zumbido inconstante, entre soluços e palavras alternadas que desembocavam no corredor e se perdiam na escassez de ar que ali circulava. No chão, os resquícios de lágrimas derramadas eram representados pelas marcas escuras de mofo. E nos cantos, a presença fiel dos tocos de vela, com as pontas dos rastilhos inteiramente carbonizadas.

A luminosidade rara ali enfocada era explicada pela ausência de janelas. Havia apenas uma, disposta num pequeno ambiente, formatando a retangular entrada do vento brando e seco. Numa respiração ofegante, o ar e a luz disputavam espaços apertados para adentrarem o esquálido recinto.

Tudo estava a se manter inerte, entregue aos caprichos do estado atmosférico, estaticamente exposto aos desígnios naturais. Um pedaço de chão, entre paredes e sobre um teto abarroado, marcado pelo destino dos seus antepassados habitantes. Um vazio cheio de conteúdo, contendo a marca registrada daqueles que viveram sem ter vivido, num espaço cerceado de flores ávidas por florescerem, fez o cenário cruelmente perfeito à fotografia da solidão.

Autoria: Daniel José Feitosa Santos

04 setembro, 2020

O último romântico - Daniel José

Por
Daniel Feitosa
Recife-PE
Novembro/2006

Tenho tentado manter esse fio de romantismo que teima pairar sobre os meus princípios, sobre a minha essência. De tal forma que luto, desbravadoramente, contra a descrença de um coração puro e verdadeiro. Não é nada fácil. É como nadar contra a maré; é como ir de encontro a um exército em vantagem de soldados e armas; é como medir forças com um ser sobrenatural.

Sempre costumei intitular-me "o último romântico" não por outro motivo senão a raridade da existência de seres ainda com o espírito arraigado nos tempos antigos. Tempos estes em que se ouvia um bolero letrado, em que se escreviam cartas de amor, em que se permitiam as mais profundas declarações revestidas de um vasto e sincero conteúdo; tempos, enfim, que traduziam a fiel natureza humana e permitiam que as pessoas não se sentissem alienígenas ao admirar as estrelas, sob um céu estrelado, recitando versos de Fernando Pessoa à pessoa amada.

Falta sentimento, falta coragem. É medo de amar, é medo de se magoar. É a real escassez dos corações sentimentais e dos olhos chorões. Uma Era glacial que invadiu os tempos modernos e apagou o fogo que dantes aquecia as relações humanas.

Daí, surgem as crises existenciais banais com uma força avassaladora e nos deixam num verdadeiro estado de sítio para com as regras que ditam as nossas ideologias e sentimentos. Bate o desespero, a vontade de encontrar uma solução à emergente situação, uma agonia sem fim. Você fica perdido, à mercê do tempo e da memória.

As pessoas, então, revestem-se de capas invioláveis e individualizantes e partem pro abraço fingido com um sorriso pintado no rosto. Tudo perde o valor. As preciosidades pretéritas são desmoralizadas e reduzidas a nada. A figura lírica dos adoradores de romances e quimeras esvai-se gradativamente, deixando assim um espaço cada vez maior aos devastadores 'corações de pedra'.

Não sei de quem é a culpa ou qual o motivo, talvez até saiba, mas o que para mim importa é o modo triste e medíocre como costumam viver a maioria das pessoas - dotadas de uma covardia crua e desprezível. É isso que me entristece e me faz sentir o cansaço de viver.

Eu vivo numa geração em que poucos sentimentos são levados a sério e que a ética interna dos grupos etários não mais existe. Eu vivo numa época em que as músicas são horrendas, sem letra nem ritmo. Eu sei que eu vivo numa sociedade que repudia o preconceito da forma mais hipócrita possível. Ainda sei que a tendência dessa situação é piorar, pois não mais se lêem literaturas de conteúdo, assim como não mais há noções pregadas pelo profeta Gentileza. 

Eu quero só continuar a aliar o amor ao romantismo, como assim há de ser. Quero, também, manter viva a alegria e a felicidade de acreditar, ludicamente, que amar é mesmo tudo. 

~Daniel Feitosa


24 agosto, 2012

Desabafo apressado e meio 'sem tempo' - por Daniel Feitosa

Foto: Rodrigo Dantas


É que nessa correria de poucas horas, a gente esquece o quanto de vida há pra ser vivida. Os pequenos gestos, tão simples e tão grandiosos, olvidam-se num ostracismo ingrato. Pouco se percebe e pouco se aproveita da riqueza do cotidiano. É uma pena. Os relógios correm, frenéticos em seu ofício regulador; já não há quase tempo para olhar para o céu; e os dias vão se repetindo num calendário tedioso, nos deixando empoeirados, cansados e carcomidos pelo que se habitou a chamar de “estresse”. Há tantas pessoas, tantas coisas, tanto ar a nossa volta; e acabamos por deixar a parte mais bonita de cada um abandonada em meio às poluições sonoras, visuais e industriais deste mundo. O que me angustia, apressadamente, é essa sistematização que toma conta das pessoas, numa padronização medíocre, em que tudo se repete num ciclo hipócrita. Parece que cada vez mais se esquece do quanto vale um sorriso, um abraço ou um mero aperto de mãos. Cada vez menos eu vejo as pessoas serem solidárias, agirem com humildade ou se esforçarem para ao menos esboçar um mínimo de boa educação, de respeito, de consideração. É desgastante conviver com tamanha brutalidade do animal social que nos tornamos; é ensurdecedor o grito insensato da falta de tato das pessoas para com os sentimentos; é triste constatar que cada vez mais tudo se banaliza. Quase sempre esquecemos o que nós mesmos podemos representar, mas só pra rapidamente exemplificar, nós somos a alegria de quem nos quer bem, somos as rimas dos versos de quem nos ama, somos o bem mais precioso de nós mesmos. E podemos ser sempre mais, basta querermos: corramos, então, para recuprar a essência perdida, ainda há tempo pra se andar devagar.

Fico por aqui, e volto aos meus prazos.

Abraços saudosos àqueles que sumiram no ’sem-tempo’.
Daniel Feitosa