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12 março, 2026

Recomendações II - autor Cristiano Jerônimo



Não meça ninguém pela sua própria régua
Cada um de nós tem uma medida e uma cor
Respeite os povos que têm as suas próprias regras
Tente enxergar as coisas com um sentido mais de amor.

 Não deixe que todos vistam a mesma roupa
Nem propague culpa a quem afirma ser pecado
Os seres humanos foram abduzidos pelo consumo
O carro, a casa, os móveis, o trabalho, tudo propagado.

A vergonha, na pauta de costumes, não existe na verdade
As diferenças em cada cruzamento de latitude com longitude
Em cada ponto do planeta há uma cabeça pensando diferente
Há também as atrofias do não desenvolvimento das sementes.

Use o raciocínio lógico para conduzir as suas profundas emoções
Na vida, nenhuma proposição ou posição pode ser diferente do binário
Todas as sentenças são divididas em apenas duas opções: verdadeiro ou falso
Não existe, em verdade, aquela alternativa que configure em vida a terceira opção.

 Não existe mais ou menos uma árvore que canta com os galhos segredos
Ou é árvore ou não é; a vida segue e – no entanto – estamos na relatividade
Mas não somos. Estamos. E seguimos o caminho evolutivo pela nossa educação
Mas, a  gente pensa de uma forma que sufoca e nos atinge desde a mais tenra idade.

 Foi dito na tábua, não julgue o outro; mas muitos se usam como juízes morais
O complexo de subserviência do mais pobre em relação ao rico é algo escravizante
Muitas vezes, preferimos a caverna à luz do mundo de fora e, com isso, nos limitamos
A vida, em seu percurso, às vezes, não é nada do que prometeram nem do que sonhamos. 

Por pensar muito, eu sou vários... Permitam-me.

Cristiano Jerônimo
Recife - março 2026

Para conhecer mais sobre o autor, acesse seu blog:

LITEROMANIA

25 agosto, 2025

Positividade tóxica - Cristiano Jerônimo


Depois que proibiram a tristeza de ser triste
A felicidade tornou-se mais difícil de alcançar
Além de definida e estudada,
É obrigatório na escola da vida.
Então, ser feliz ficou sendo o que se aparenta
Na escola, na igreja ou no mercado
Ah, essa positividade é tóxica;
Força a gente a forjarmos falsidade.

Foi numa multinacional que me perdi
Sucesso: promoções, viagens, bônus…
A cabeça “atrofiava” e a grana aumentava
Todo esse conteúdo me deixou vazio
Eu buscava sentido naquilo e não achava
Era muito pouco para uma alma que existia
Fiz voluntariado na espiritualidade
Investi em projetos paralelos e cases de arte.

Mas faltavam propósito e bem-estar, o bem
nas relações humanas... Eu via e sentia o nada
Faltava a fé que poderia apontar o significado
Da vida, da morte, da sorte, do meio do espaço
Por bem, havia uma conexão com a natureza,
com a coletividade e uma causa para os dias
Eu vi que a felicidade é uma combinação
entre alegria, satisfação e significado de vida.

Mas lá estava o piloto automático da sobrevivência
Redes sociais e necessidade de dopamina automática
De uma gratificação instantânea
numa sociedade impaciente e ansiosa
Sempre em busca de mais estímulo
e cada vez menos satisfeita
Ávida por pequenas doses de prazer:
likes, séries, compras, vídeos curtos e streamings.

E havia sempre uma sensação de cansaço, vazio e tristeza crônica
Diante da ditadura da felicidade, sem poder ficar triste, com raiva
Mesmo frustrado com aquele programa de sol que choveu errado
A dor anestesiada anestesia a alegria genuína do prazer e desafios
Não devemos invalidar a dor; a nossa dor ou a dor do outro próximo
Muita gente está exausta de tentar performar felicidade o tempo todo
Mais conectados, menos acompanhados, numa rede de solitários
Quem se acostumou a viver sozinho, ser forte o tempo todo tem um preço.

Deixei o trabalho mesmo havendo boletos, filhos, insegurança e cartão
E me protegi criando a minha bolha de autocuidado e rede de proteção
Não fui fraco por estar cansado. Pelo contrário, fui muito forte por resistir
Lembrei do Grupo de Hábitos Saudáveis do psicólogo cabeludo do agreste
Nossos Z’s querem mudar o mundo e não podem ficar paralisados
Dizem que dá até para ser feliz a vida inteira sem mesmo pestanejar
Felicidade plena não é a ausência de dor, mas a presença de sentido
Viver boas relações com as coisas que mais nos façam avançar.



Cristiano Jerônimo
Recife-PE
 25.08.2025

30 julho, 2023

Soneto para Custódia-PE - por Cristiano Jerônimo


CUSTÓDIA

No Moxotó, sua guarda fez história
Bem vizinho ao sertão do Pajeú.
Levou o nome de princesa, de Custódia
Com muita história guardada no baú.

Com suas brisas e clarões tão repentinos
Nas trovoadas que alegram essa gente;
A fantasia dos cangaços nordestinos
E os calores dos grotões bem reluzentes.
A poesia dos amores agora esquecidos
Com a saudade latejando nos ouvidos;
Se farão bem, não sei quem pode saber.
Com a água cristalina que brota do Sabá
E a terra seca que em mim se faz brotar
É a esperança que eu ainda posso ter…
 30.01.2008
Escritor e jornalista que sou, além de custodiense, não poderia deixar de escrever um soneto para a minha terra natal. Esse é o meu hino para Custódia.
Cristiano Jerônimo, Jornalista e escritor filiado à UBE-PE desde 1994, Cristiano tem 50 anos, quatro livros lançados e escreve involuntariamente poemas e contos desde os 12 anos de idade.

31 maio, 2023

Sertão no mês de Junho - por Cristiano Jerônimo

Foto: Cristiano Jerônimo/Custódia-PE


A serração lava a serra
Leva o frio dos vapores
Que gelam minha alma.

As canafístulas
Estão amarelas.
Os caldeirões
Repletos.

Cada grota
Tem seu córrego,
Água límpida,
Brotando
Dos serrotes.

Riachos
E açudes
Cristalinos,
Pleno o Sertão.

De belezas
Contrastantes;
Porém belas.
Das aranhas
Às libélulas.

Cristiano Jerônimo

04 novembro, 2022

Esqueça a dor... Ela passa



Eu aprendi com a própria dor que ela passa.
E há alegria iluminada nos rostos sem graça;
Com a tranquilidade de ficar deitado na praia
E esperar que o mundo se levante; ou que caia...

Tu passaste numa vereda passaralho,
Em meu sonho havia um espantalho
Que beijava uma boneca montada num cavalo;
Destroiado com desejo de copular a dor.

Esqueça a dor... Que ela passa. Seja feliz!
Nas mãos do divino me entrego a você...
No que seria parceria foi incompreensão,
Mas fazer o quê? Nada é em vão, nem à toa.

Eu aprendi ver o sol e saber que horas são.
Meu avô me ensinou de onde vem a chuva
E eu só conseguia enxergar a desertificação.
Mas existe muita beleza nesse imenso grotão.

Embora todas as culturas tenham sido consumidas
O povo que foi embora levou consigo as tradições.
Onde sobra terra, falta gente. Mas germina a semente!
Onde a energia é pura, pessoas costumam andar tão sorridentes.

Cristiano Jerônimo
Recife-PE
Abril

12 julho, 2022

O caminho das serras de Custódia - Cristiano Jerônimo




Objetivo: circundar as serras, as elevações montalhosas e longas que existiam ao lado da Fazenda Mimoso, de propriedade dos meus avós maternos (Odilon Jerônimo de Oliveira e Maria Marina Rezende). Não dava para ser a pé, logicamente. Era de moto e moto grande 200cc. Que beleza. De um lado fica a Serra do Sabá, em seguida tem a Serra do Urubu, Serra da Zabumba, Serra do Mimoso e Mata Grande (pertencente outrora a Osório Valeriano - meu bisavô paterno).

Ainda tínhamos num outro dia que percorrer o lado oposto, das serras opostas às outras. Tudo começou subindo a Serra da Velha Chica. Uma paisagem fotográfica. Descamba no município de Iguaraci. Pega a estrada sentido Iguaraci-Quitimbu. Entre à direita e vai para o Lajedo. A história eu continuo amanhã com o Rachadão do Caroá, em Carnaíba, e o Leitão da Carapuça, Afogados da Ingazeira.

Cristiano Jerônimo

17 março, 2022

[Conto] Que futuro nos aguarda - por Cristiano Jerônimo Valeriano

 


Cristiano Jerônimo
Recife-PE
Março/2022

Os fluxos e os refluxos das marés da nossa terra tupiniquim fizeram com que um sábio Pajé, à beira do mar, abrisse uma janela no céu para entender que o Brasil seria a repetição das culturas de guerras e domínios do Velho Mundo, o qual ele não conhecia. Mas via que, no planeta, as forças antagônicas do subir e do descer da qualidade de vida das tribos da cidade faziam com que os invasores da América se dividissem em progressistas e conservadores, da esquerda e da direita, numa miscigenação de brancos, negros e índios. A roda gigante que o ameríndio não conheceu também não pararia de girar e pagaria para morrer. Foi então que, no ano de 1501, naquela mesma praia, o Pajé teve uma visagem melhor do futuro do Brasil. Ele arregalou os olhos como se tivesse dado conta de um pesadelo que o arrematou e guardava a futura humanidade, mesmo ele já estando acostumado com animais ferozes nas selvas do tempo. Só não esperava a pólvora cobrindo de fumaças tribos inteiras.

Dois anos depois, o Pajé saiu da praia deserta onde sempre meditava e subiu até um monte rochoso. Do alto, no céu, abriu-se outra tela mostrando que, a partir de então (1503), a tal “roda gigante sem futuro” não mais pararia de girar. Na montanha, o índio acessou visões dos anos de 1917, 1945, 1964, entre outros marcantes, e viu que, toda vez que a dita civilização avançava 20 anos, voltava logo outros 30. O índio olhou para os dois lados e não viu diferença entre eles, os europeus e os africanos, apesar do início de um genocídio, a escravidão e execuções sumárias se agravarem quando eles partiam para defender o que lhes pertencia de fato e de direito. Foi quando o Pajé viu, do futuro do céu do mar, uma intrigante manchete de jornal vinda do ano de 2021: “300.000 quilômetros quadrados da cobertura vegetal da Amazônia foram devastados nos últimos 20 anos”.

Perto do fogo, os líderes perguntavam em uníssono, naquela época:

– Qual o futuro que vamos enfrentar, então? – Enfatizou o Cacique dirigindo-se ao Pajé, em 1742.

– Há notícias de que eles vêm massacrando nosso povo cada vez mais e usurpando as nossas terras, avançando do litoral para o interior, oeste inteiro –, respondeu o velho índio visionário, com semblante de tristeza.

O diálogo e as reflexões dos representantes do povo “ameríndio” primitivo e a condição de povo colonizado geográfica e culturalmente também levaram os negros à escravidão, refletia o Pajé. Foi quando o líder negro Zumbi facilitou a vinda de irmãos de outra galáxia para tentar explicar o que estava acontecendo nas “Américas”. Os misteriosos seres do futuro levaram o Pajé do ano de 1545 para se encontrar com Zumbi, no Quilombo dos Palmares, no ano de 1685, no estado de Pernambuco, onde hoje é o estado de Alagoas. Era uma avançada tecnologia de viagem no espaço e no tempo, inexplicável, que somente os irmãos intergalácticos usavam.

A oportunidade era de saber como seria o futuro daquele turbilhão de bandeirantes e caçadores de escravos, matadores de índios e degoladores de árvores, de florestas, de gente, rios e bichos. E o Pajé falou mais uma vez:

– Irmão, em dois séculos eles já terão formado cidades, coisas urbanas, e reclamarão muito da vida, sendo tão escravos como os negros, num sistema de trabalho herdado da escravatura. Não haverá saídas para estas cidades... Elas ficarão cada vez mais mortas. O que vai sobrar e parecerá vida serão apenas resquícios da vida indígena que por muito tempo habitou estes espaços. A consciência dos povos de que você pode viver, habitar, a salvo do inferno de automóveis é fundamental para se criar cidades saudáveis; e a consciência popular é que pode contribuir para isso.

E o Pajé continuou. Presente, Zumbi permanecia ouvindo o sábio índio:

– Nesta terra de tanta riqueza, homens portugueses, espanhóis, aventureiros e mouros vão passar por vários governos, vários regimes e parecerão não saírem do mesmo lugar. Os humanos vão viver mais e o Estado, no final do século XX e início do século XXI, irá transformar num tormento o sistema de saúde pública; desmontarão o trabalho, a assistência social e a previdência, das quais todos precisarão de alguma forma um dia. Escravos de um trabalho cada vez mais escasso, os humanos terão que se reinventar muito. 2021. País em crise, pandemia, o deboche ganhará status de liderança. O futuro é de reivindicação, de mais lutas pelos direitos que tentarão sempre usurpá-los e nos oprimir em prol do capital. 2022: o planeta em pé de guerra.

E os dois foram transportados novamente aos seus lugares e tempo, ambos esquecendo aquele encontro. Ficaram, no entanto, com a consciência de lutar pelos seus próprios direitos e contra a opressão sobre a parte mais fraca desta equação, para imprimir no DNA do povo brasileiro o gene da luta, da resistência, do espírito de avanços sociais.

Cristiano Jerônimo é custodiense, escritor, jornalista e professor assistente do curso de Publicidade da Universidade de Taubaté (UNITAU) – SP.


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19 dezembro, 2021

Onde estão os dessalinizadores de Arraes? - Autor Cristiano Jerônimo

*Cristiano Jerônimo é custodiense, jornalista, escritor e mestrando em Desenvolvimento Humano: Formação, Políticas e Práticas Sociais, na Universidade de Taubaté, UNITAU, São Paulo.

Quando eu era pequeno havia muito mais água do que agora nos grotões sertanejos.

Nitidamente, eu me lembro de todas as cercas devoradas pela força da tromba d’água alimentando o Riacho do Mimoso que, temporariamente, ficaria perene até o próximo inverno.

No sertão nordestino, clima semiárido, com áreas em processo de desertificação, a paisagem substituiu a tática e os benefícios o trabalho, ambos aquém da condição humana e sanitária que deve estar disponível a todas as pessoas. Lembro que quando eu era pequeno – há cerca de 40 anos – todos os invernos enchiam os riachos de forma volumosa, atolavam-se carros-de-bois, a safra chegava a se perder por não haver como secá-la. Por décadas havia um ou dois anos de seca.

Hoje, nós estamos com uma seca estrutural. Em Custódia, a 342 quilômetros do Recife, não corre mais água nos riachos do Mimoso, Quitimbu, Barra, Lamarão, entre outros afluentes que abastecem o Açude do Dnocs, próximo ao centro da cidade. Tomando como referência o Riacho do Mimoso, por experiência própria, ele está praticamente morto há mais de 20 anos. Não corre nem mais aquele fio d’água típico da seca. Agora chove, e até chove bem (muito sazonalmente e de forma inesperada). Eu sempre tenho perguntado ao pessoal que vai ao sítio no sertão: - E riacho? Botou água?

- Não, a chuva só deu para molhar a terra.

- E o barreiro, o açude enchegaram?

- Pegou uma aguinha.

Uma aguinha é muito pouco para o Sertão do Nordeste, que tem um dos maiores graus de evaporação de água do planeta. Uma aguinha é muito pouco para eu conseguir outra vez entrar no riacho rebelde e ser levado pela correnteza até por trás da casa de Marães, em frente à casa do meu tio-avô Pedro Raimundo Rezende. Aliás, havia um ótimo local, com riacho mais calmo, por trás da Bodega de Zé Lopes, ali próximo. Quando secava, não ficava esturricado, mas deixava correr aquele pequeno leito com pedras para as pessoas passarem sem se molhar. Tratávamos as caças ali (minha avó Marina Rezende e Madrinha Etelvina não deixavam fazer na cozinha delas). Depois íamos para os fundos da casa de Tio Toinho Rezende e assávamos nas pedras. Havia muita caça (há décadas não como caça e sou contra a caça, incluindo as onças que comem nossos bobes). Aliás, da quantidade de bode que se cria, 20% fica com a tal dessa onça que ninguém vê.

Voltando à sede, sou um dos que defendem que a principal solução para a convivência com a seca (por não mais usar o termo “combate à seca”), é a dessalinização da água abundante que corre no subsolo sertanejo. Nunca se furaram tantos poços quanto nos últimos anos. Só que a água que jorra é muito salobra, imprópria para o cultivo de lavouras. Apenas algumas espécies da flora se dão bem com a água semi-subterrânea do Moxotó.

No dia em que a água que jorra para a superfície, vindo de uma profundidade de cerca de 100 metros, for dessalinizada, as terras férteis do sertão poderão parir muito feijão, milho, abacaxi, goiaba, mandioca, batata doce, algodão, hortaliças e tudo o que o sertanejo sabe extrair da terra. Lembro que, em 2001, encontrei uma iniciativa que achei fascinante. O governador era Miguel Arraes e, dentro das suas ações no interior do estado, o Governo havia instalado dessalinizadores comunitários e eu fui lá ver. Tinha uma caixa d’água grande, sempre cheia, abaixo um sistema que não parecia complexo e o melhor de tudo: havia um local para colocar uma ficha de dez centavos, que processava a liberação de duas latas d’água, destas do tipo Querosene Jacaré. Água doce, água de beber. Fiquei maravilhado. Antes disso, as caixas d’águas de Quitimbu criavam escamas de sal, o sabonete e shampoo sequer faziam espumas, devido ao alto teor salobro.

Eis que em 2002, Jarbas Vasconcelos vence as eleições para governador e modifica as políticas públicas voltadas para o semiárido. Em 2003, fui visitar o ilustre Dessalinizador de Arraes e encontrei o campo mais limpo. Perguntei a um dos meus primos: - Cadê o aparelho? -, Ele disse que “levaram para consertar e não trouxeram mais”. Andando pela zona rural (minha praia) fui apresentado ao prêmio de consolação: um poço com motor e uma cisterna com torneira. Que bom! Bebi da água e achei purgante. Grossa, salgada, me deu mais sede depois que eu tomei. Mais uma vez nega-se o passaporte para o sertanejo plantar: a água dessalinizada. E a transposição do Rio São Francisco não resolveu nada. O aqueduto corta Custódia sem deixar uma gota d’água na cidade. A transposição, na verdade, está levando a água para encher açudes no interior do Rio Grande do Norte, da Paraíba, do Ceará. E se alguém se atrever a pegar um lata d’água no canal, vai preso por ter usado o próprio instinto de sobrevivência. Quanto custa investir nos dessalinizadores que Arraes implantou? O riacho continua seco. Os barreiros e os açudes também. Agora veja o quanto vale um voto, além de 10 vinténs? 2022!


(*) Todo e qualquer texto publicado não reflete necessariamente a opinião deste blog. Refletem apenas a opinião do autor

27 outubro, 2021

O caminho das serras no inverno - por Cristiano Jerônimo


 

A sequência de serras que circunda o limite do município de Custódia com os de Carnaíba, Afogados da Ingazeira e Iguaracy é um espetáculo para quem tem oportunidade de subir até seus brejos de altitude e chapadas com caldeirões de pedras repletos d’água, gelada o dia inteiro por ser coberta com pastas verdes. Para beber a água usamos a palha em forma de concha do coco catulé (também conhecido como coco-da-quaresma). A criação de cabras, como chamamos, anda pelas trilhas das serras e quando o fruto maduro do catulé cai, os bodes põem na boca e começam a remoer um caroço pequeno, mas com casca igual a de coco normal. Eles comem a carnosidade externa, amarelada e doce. Os caprinos trazem os caroços duros, na boca, até os arredores da fazenda, onde quebramos com pedras e encontramos uma amêndoa deliciosa do tamanho de um caroço de azeitona grande.


Tudo isso é sertão para mim. Estou escrevendo sobre a cadeia de montanhas e o campo porque tenho dois filhos – Victor Valeriano, 10 anos, e José Pedro Valeriano, 5, e eles pouco conhecem das entranhas daquele bioma chamado de caatinga. Entre os altos, estão as serras da Mata Grande, Minador, Leitão, Mimoso, Zabumba, Urubu, Brejinho, Travessão do Caroá, entre outras. Estava pensando como faço para levar meus filhos até lá. Cheguei a pensar em reabrir o caminho onde, um dia, vi estrada e carros subirem até o topo. Isso foi por volta de 1994, no governo de Belchior Nunes, que construiu um posto de saúde ao lado da Escola Municipal Francisco Domingues de Rezende (meu tataravô materno por parte de Vó Marina). Embora meu tio Djaniro Jerônimo de Rezende (Dejo de Odilon) fosse vereador já no quinto ou sexto mandato consecutivo pela Arena, PDS, PFL e, em oposição, Belchior era Arraesista de carteirinha, mesmo assim o prefeito socialista mandou abrir o caminho do Mimoso de baixo (sede da fazenda) até o topo da serra de mesmo nome.


Vivi minha infância andando nestas subidas e descidas de grotas e montanhas ora verdes ora secas. Saí de 7h da manhã para o Leitão da Carapuça, voltando para casa às 9h da noite. Lá, encontrei cavernas com pedras de calcita multicoloridas que, geladas, podiam ser extraídas da base, no sopé de um paredão de pedra. Acima do que chamamos de pedra do giz, tem as pinturas rupestres que meus avós e tios-avó citavam como existentes, mas não sabiam do que se tratava. Tio Tonhinho Rodrigues Rezende disse, certa vez, que eram estrangeiros. Perguntei a ele sobre o caminho. Confirmei com meu avô Odilon Jerônimo, que alertou: “Mas já faz 40 anos que não ando por lá. É melhor vocês não irem” –. Fomos e descobrimos. Soube, anos mais tarde, que tratava-se do Sítio Arqueológico da Serra da Carapuça, com pinturas datadas de cerca de 2.300 anos, de acordo com pesquisadores da UFPE.

Os momentos paradisíacos de água no sertão reacendem o tempo inteiro na minha memória. Agora mesmo a região está assim. Encharcada, verde, florida de canafístulas amarelas e flores de todas as cores. Borboletas vestidas de tonalidades fantásticas de desenhos perfeitos de simetria. A natureza em sua forma de vida mais abundante. Quitimbú (berço de Custódia) está frio. O açude de Brotas, em Afogados da Ingazeira, está sangrando, ainda neste mês de julho, desde a Semana Santa. Uma Traíra (de uns 30cm) assada na brasa está por R$ 3,00 (duas por R$ 5,00) na beira do sangradouro da parede da represa, nas corredeiras de água entre pedras. Quero levar meus filhos, meus irmãos, meus pais. Quem quiser ir, vamos embora! Uma infinidade de outros açudes, barragens, barreiros, poços estão cheios. E o sertão não virou mar. Será?

Por Cristiano Jerônimo

02 setembro, 2021

Asfalto de Feira - por Cristiano Jerônimo


É quando eu sei que o Sertão está molhado que o conterrâneo do Moxotó, Paulo Joaquim Peterson Pereira, convida para escrever no blog mais movimentado da região. O de Custódia, minha terra natal. Sou do mato. Sempre andei pouco na rua. Sempre gostei de ir em cima da camionete, 24 quilômetros, da Fazenda Mimoso para a Feira de Custódia, imaterializada às segundas-feiras. 

No domingo era dia da Feira de Quitimbú que, praticamente, acabou no final da década de 1980 e início da de 1990. Agora, de três anos para cá, é que a feira de Quitimbú está sortida e movimentada. Bolsa tudo para as famílias, a economia aquece. Mas há quem diga que a mão-de-obra esteja escassa e mais cara, por incrível que pareça. Lula lá é rei.

O povo do Alto Pajeú, além da população que vive em função dos quase 45 quilômetros que ligam a BR-232, no Centro de Custódia, ao município de Iguaracy, aguarda ansiosa e sonha com o calçamento da rodovia, uma PE, que dá acesso a Afogados da Ingazeira, Paraíba ou Sertânia e suas saídas. O secretário de Transportes de Pernambuco, Sebastião Oliveira, que manda nas estradas, além de ser nosso vizinho de Serra Talhada, é primo e afilhado político do veterano deputado federal Inocêncio Oliveira, serra-talhadense que sempre gozou de muitos votos nos locais que precisam da obra.

Com isso, as crianças, adolescentes, adultos e idosos do mato poderão ir para a rua, no dia de feira ou outro qualquer, bem mais rápido e de forma desenvolvida. O acesso escolar dá um salto de qualidade fora de série, como diz meu pai. Só não terão o prazer de rechear o cabelo de poeira no verão. Quando chegava do sítio em Custódia, batia no cabelo e caía dois quilos de barro amarelo em forma de poeira. Batia na roupa, caía outro tanto. Hoje, não quero mais andar à cavalo ou égua. Prefiro o barulho de uma 200 cilindradas. Faz tudo o que um cavalo faz e um pouco mais. Bem mais. Movida à gasolina. É. Cavalo do matuto agora é moto. Só não anda de motocicleta quem está de besta. É brincadeira, mas o negócio da estrada é o asfalto da feira!

Cristiano Jerônimo é jornalista e escritor pernambucano.
 

 

04 novembro, 2020

Caminhão - por Cristiano Jerônimo



O meu juízo tem um para-choque mutante de caminhão;
A minha boca é um megafone horizontal de ideais;
Só acredito nos aprendizes que aprendem tudo sempre;
Eternamente, os mestres formam mestres e não súditos.

O medo do saber é uma ferramenta para manter o poder.
Em vão, porque, após algumas tentativas mais difíceis,
A manutenção de um estado permanente ainda não vinga.
Eu só creio em sementes que só insistem em brotar sempre.

O meu conciso é tão relativo quanto o retrato do nunca;
Infelizmente, o que vejo e o que calo não fazem muito bem.
Mas deixei de andar nas espirituais e negativas espeluncas;
Sem, por isso, ficar dando explicações a quase ninguém.

Sabemos de tudo o que nos faz mal e também do que faz bem.
O protagonismo é uma linha inevitável na independência do ser.
Nem sempre fazem o que, na verdade, melhor lhe convém.
Confundem a beleza de ser humano com a crueldade do ter.

Nem tudo aquilo que se aprende trata-se de um saber.
Se você não acredita, não imagino que possa ter.
Não adianta se enganar e partir para dizer foi sem querer.
Nós sabemos da verdade e não esperamos ver pra crer.

Cristiano Jerônimo


21 outubro, 2020

Voltar só para votar - autor Cristiano Jerônimo


Uma homenagem a Geraldo Vandré

Gente que num pisa no chão;
Que não conhece o sertão,
O sofrimento do povo nordestino
Vivendo desde menino
Indo atrás de caminhão...

Pra tentar ganhar dinheiro
E votar no coronel
Que conseguiu algum papel
Para ele viajar;
Conseguir trabalho, emprego,
E só voltar para votar.
Quando o dono mandar chamar.

(Cristiano Jerônimo)

26 junho, 2015

[POESOFIA DO ANTAGONISMO] Irmãos intergalácticos...



Eu quis ver o mar...

Do Sertão para cá.
No caminho,
De tão quente,
Amadureci...
Tão pequeno,
Cresci...

Fui conhecer
A vizinhança.
E descobrir
O que é esperança,
Quando o mal avança.

O Nobre Paracleto
Teve trabalho comigo.
Sobrevivi. Somos amigos,
Irmãos intergalácticos...
Me ensinou que somos
O nosso próprio castigo
E o bem que fazemos a alguém.

E é assim que vos digo:
Foi voltando o olhar
Que vi onde eu estava
E, há quantos anos,
Automático caminhava.
E, enquanto voltava,
Me reencontrei
Para seguir adiante.

(Cristiano Jerônimo)

18 abril, 2012

Cristiano Jerônimo foi homenageado no Vozes de Aço (2009)


Todos os anos a Editora Poet Art, de Volta Redonda (RJ), imprime uma coletânea com os melhores poemas selecionados no concurso Vozes de Aço, que tem abrangência nacional. 

Na edição de 2009, o homenageado no projeto foi o poeta custodiense CRISTIANO JERONIMO com o poema Necessárias, faço a ponte Nordeste-Sudeste de Poesia, á que a maioria esmagadora dos poetas é do Sul-Sudeste.