Cristiano Jerônimo
Recife - março 2026
Foi numa multinacional que me perdi
Sucesso: promoções, viagens, bônus…
A cabeça “atrofiava” e a grana aumentava
Todo esse conteúdo me deixou vazio
Eu buscava sentido naquilo e não achava
Era muito pouco para uma alma que existia
Fiz voluntariado na espiritualidade
Investi em projetos paralelos e cases de arte.
Mas faltavam propósito e bem-estar, o bem
nas relações humanas... Eu via e sentia o nada
Faltava a fé que poderia apontar o significado
Da vida, da morte, da sorte, do meio do espaço
Por bem, havia uma conexão com a natureza,
com a coletividade e uma causa para os dias
Eu vi que a felicidade é uma combinação
entre alegria, satisfação e significado de vida.
Mas lá estava o piloto automático da sobrevivência
Redes sociais e necessidade de dopamina automática
De uma gratificação instantânea
numa sociedade impaciente e ansiosa
Sempre em busca de mais estímulo
e cada vez menos satisfeita
Ávida por pequenas doses de prazer:
likes, séries, compras, vídeos curtos e streamings.
E havia sempre uma sensação de cansaço, vazio e tristeza crônica
Diante da ditadura da felicidade, sem poder ficar triste, com raiva
Mesmo frustrado com aquele programa de sol que choveu errado
A dor anestesiada anestesia a alegria genuína do prazer e desafios
Não devemos invalidar a dor; a nossa dor ou a dor do outro próximo
Muita gente está exausta de tentar performar felicidade o tempo todo
Mais conectados, menos acompanhados, numa rede de solitários
Quem se acostumou a viver sozinho, ser forte o tempo todo tem um preço.
Deixei o trabalho mesmo havendo boletos, filhos, insegurança e cartão
E me protegi criando a minha bolha de autocuidado e rede de proteção
Não fui fraco por estar cansado. Pelo contrário, fui muito forte por resistir
Lembrei do Grupo de Hábitos Saudáveis do psicólogo cabeludo do agreste
Nossos Z’s querem mudar o mundo e não podem ficar paralisados
Dizem que dá até para ser feliz a vida inteira sem mesmo pestanejar
Felicidade plena não é a ausência de dor, mas a presença de sentido
Viver boas relações com as coisas que mais nos façam avançar.

Os fluxos e os
refluxos das marés da nossa terra tupiniquim fizeram com que um sábio Pajé, à
beira do mar, abrisse uma janela no céu para entender que o Brasil seria a
repetição das culturas de guerras e domínios do Velho Mundo, o qual ele não
conhecia. Mas via que, no planeta, as forças antagônicas do subir e do descer
da qualidade de vida das tribos da cidade faziam com que os invasores da
América se dividissem em progressistas e conservadores, da esquerda e da direita,
numa miscigenação de brancos, negros e índios. A roda gigante que o ameríndio
não conheceu também não pararia de girar e pagaria para morrer. Foi então que, no
ano de 1501, naquela mesma praia, o Pajé teve uma visagem melhor do futuro do
Brasil. Ele arregalou os olhos como se tivesse dado conta de um pesadelo que o
arrematou e guardava a futura humanidade, mesmo ele já estando acostumado com
animais ferozes nas selvas do tempo. Só não esperava a pólvora cobrindo de
fumaças tribos inteiras.
Dois anos depois, o
Pajé saiu da praia deserta onde sempre meditava e subiu até um monte rochoso.
Do alto, no céu, abriu-se outra tela mostrando que, a partir de então (1503), a
tal “roda gigante sem futuro” não mais pararia de girar. Na montanha, o índio
acessou visões dos anos de 1917, 1945, 1964, entre outros marcantes, e viu que,
toda vez que a dita civilização avançava 20 anos, voltava logo outros 30. O
índio olhou para os dois lados e não viu diferença entre eles, os europeus e os
africanos, apesar do início de um genocídio, a escravidão e execuções sumárias
se agravarem quando eles partiam para defender o que lhes pertencia de fato e
de direito. Foi quando o Pajé viu, do futuro do céu do mar, uma intrigante
manchete de jornal vinda do ano de 2021: “300.000 quilômetros quadrados da
cobertura vegetal da Amazônia foram devastados nos últimos 20 anos”.
Perto do fogo, os líderes perguntavam em
uníssono, naquela época:
– Qual o futuro que vamos enfrentar, então? –
Enfatizou o Cacique dirigindo-se ao Pajé, em 1742.
– Há notícias de que eles vêm massacrando
nosso povo cada vez mais e usurpando as nossas terras, avançando do litoral
para o interior, oeste inteiro –, respondeu o velho índio visionário, com
semblante de tristeza.
O diálogo e as reflexões dos representantes
do povo “ameríndio” primitivo e a condição de povo colonizado geográfica e
culturalmente também levaram os negros à escravidão, refletia o Pajé. Foi
quando o líder negro Zumbi facilitou a vinda de irmãos de outra galáxia para
tentar explicar o que estava acontecendo nas “Américas”. Os misteriosos seres do
futuro levaram o Pajé do ano de 1545 para se encontrar com Zumbi, no Quilombo
dos Palmares, no ano de 1685, no estado de Pernambuco, onde hoje é o estado de
Alagoas. Era uma avançada tecnologia de viagem no espaço e no tempo,
inexplicável, que somente os irmãos intergalácticos usavam.
A oportunidade era de saber como seria o
futuro daquele turbilhão de bandeirantes e caçadores de escravos, matadores de
índios e degoladores de árvores, de florestas, de gente, rios e bichos. E o Pajé
falou mais uma vez:
– Irmão, em dois séculos eles já terão formado
cidades, coisas urbanas, e reclamarão muito da vida, sendo tão escravos como os
negros, num sistema de trabalho herdado da escravatura. Não haverá saídas para estas
cidades... Elas ficarão cada vez mais mortas. O que vai sobrar e parecerá vida
serão apenas resquícios da vida indígena que por muito tempo habitou estes
espaços. A consciência dos povos de que você pode viver, habitar, a salvo do
inferno de automóveis é fundamental para se criar cidades saudáveis; e a
consciência popular é que pode contribuir para isso.
E o Pajé continuou. Presente, Zumbi permanecia ouvindo o sábio índio:
– Nesta terra de tanta riqueza, homens
portugueses, espanhóis, aventureiros e mouros vão passar por vários governos,
vários regimes e parecerão não saírem do mesmo lugar. Os humanos vão viver mais
e o Estado, no final do século XX e início do século XXI, irá transformar num
tormento o sistema de saúde pública; desmontarão o trabalho, a assistência
social e a previdência, das quais todos precisarão de alguma forma um dia.
Escravos de um trabalho cada vez mais escasso, os humanos terão que se
reinventar muito. 2021. País em crise, pandemia, o deboche ganhará status de
liderança. O futuro é de reivindicação, de mais lutas pelos direitos que
tentarão sempre usurpá-los e nos oprimir em prol do capital. 2022: o planeta em
pé de guerra.
E os dois foram transportados novamente aos
seus lugares e tempo, ambos esquecendo aquele encontro. Ficaram, no entanto,
com a consciência de lutar pelos seus próprios direitos e contra a opressão
sobre a parte mais fraca desta equação, para imprimir no DNA do povo brasileiro
o gene da luta, da resistência, do espírito de avanços sociais.
Cristiano
Jerônimo é
custodiense, escritor, jornalista e professor assistente do curso de
Publicidade da Universidade de Taubaté (UNITAU) – SP.
Oferecimento:
Quando eu era pequeno havia muito mais água do que agora nos grotões sertanejos.
Nitidamente, eu me lembro de todas as cercas devoradas pela força da tromba d’água alimentando o Riacho do Mimoso que, temporariamente, ficaria perene até o próximo inverno.
No sertão nordestino, clima semiárido, com áreas em processo de desertificação, a paisagem substituiu a tática e os benefícios o trabalho, ambos aquém da condição humana e sanitária que deve estar disponível a todas as pessoas. Lembro que quando eu era pequeno – há cerca de 40 anos – todos os invernos enchiam os riachos de forma volumosa, atolavam-se carros-de-bois, a safra chegava a se perder por não haver como secá-la. Por décadas havia um ou dois anos de seca.
A sequência de serras que circunda o limite do município de Custódia com os de Carnaíba, Afogados da Ingazeira e Iguaracy é um espetáculo para quem tem oportunidade de subir até seus brejos de altitude e chapadas com caldeirões de pedras repletos d’água, gelada o dia inteiro por ser coberta com pastas verdes. Para beber a água usamos a palha em forma de concha do coco catulé (também conhecido como coco-da-quaresma). A criação de cabras, como chamamos, anda pelas trilhas das serras e quando o fruto maduro do catulé cai, os bodes põem na boca e começam a remoer um caroço pequeno, mas com casca igual a de coco normal. Eles comem a carnosidade externa, amarelada e doce. Os caprinos trazem os caroços duros, na boca, até os arredores da fazenda, onde quebramos com pedras e encontramos uma amêndoa deliciosa do tamanho de um caroço de azeitona grande.