22 maio, 2023

Meu sertão é mais mió


 

Sêo minino preste atenção
Num gostei de seu falá
Qui no sertão só tem fome
Confusão e fuzuá
Briga di terra e ingrisia
Pois tomém tem aligria
Arrepare o qui tem lá

Num tem coisa mais bunita
Qui o amenhecer do dia
A passarada cantano
Contente, cum aligria
A bizerrada berrano
As vaca a eles chamano
Nas menhã de brisa fria

Si num tem pão no café,
Tomém in compensação
Tem bolo feito de mio
Tapioca num farta não!
Tem a coiada iscurrida
Apois pra infrentá a lida
É perciso dispusição

No armoço tem fartura
Cum feijão bem temperado
Cum nata de leite e quêjo
De cuáio bem perparado
Cum farinha quebradinha
Rebate cum a caninha
E o cabra fica animado.

Si come carne de bode
Cum toda a famiança
Toicim de poico e galinha
Pra mode dar a sustança
Pois infrentando a batáia
O sertanejo trabáia
Disposto Cuma criança

De tarde inda tem mais
Pruquê a parada é dura
No mei da roça se come
Quêjo de Cuái e rapadura
Bebe a água friinha
Tirada de uma quartinha
Lá tudo é cum fartura

Di noite lá na varanda
Uma rede é armada
E junto cum a famia
As istóra são contada
Tirada dos foietim
Conta tim tim por tim tim
As istóra incantada

Di vez in quando inda tem
Um forró nos pé de serra
Cum a zabumba roncano
A sofona veia berra
Aquerdite si quizé
Mas eu li digo qui é
O mio qui tem na terra

As cabôca profumada
Cum o chêro das fulo
Vistido novo di chita
Junto cum o dançadô
Parece qui tão vuano
Os dois coipo se roçano
Tudo no maió amo

Tem mio não, sêo minino
Qui um forró arretado
Num é Cuma as dança nova
Qui se dança separado
É as moça dano sarto
Macho balançano os quarto
Isso é coisa di viado

Dispois desse desabafo,
Já fiquei mais sastifeito
Pois prifiro meu sertão
Mermo qui tenha defeito
Num quero mudernidade
Nem loucura da cidade
Eu sô assim desse jeito

Me adiscurpe si pudé
Num goto de lero lero,
Pru mode falá verdade
Nem um minuto ispero
Posso ter os meu defeito
Mas sou assim desse jeito
Inguinorante e sincero.

28 anos sem Luizito


Texto
Flávia Epaminondas (Filha)
Custódia-PE
Maio/2020


Hoje, 22/05, faz 28 anos que meu pai Luiz Epaminondas Filho - Luizito - encerrava seu ciclo terreno e partia nos deixando um vazio imenso....

Mesmo depois de 28 anos, a saudade não acaba, só se transforma ao avançar dos dias, as lembranças viram companheiras de estrada, e quando o abraço faz falta é só revirar as páginas das nossas lembranças e lá está o abraço forte, o alicerce....

Tenho um grande e valioso baú de lembranças, graças a Deus eu tive um pai inesquecível, não só pra mim, mas para muitos dos meus irmãos conterrâneos... 

Há 28 anos eu perdia meu pai e Custódia perdia um filho que tanto a amava e que foi um grande administrador.

Tento todos os dias alcançar só um pouquinho o que ele foi e fez e representa pra mim na convivência com as minhas filhas e netas.

O meu maior orgulho é ser filha de Luizito!!!

Grandes heróis deixam saudades.
Muitas saudades Pai...

Que a luz seja tua companhia na eternidade.

Um grande beijo

 

21 maio, 2023

Lampião: Vento de Liberdade (por Jovenildo Pinheiro)


Jornal Quatro Cantos
Olinda-PE
Janeiro/1992

Texto:
Jovenildo Pinheiro de Souza (Historiador)
Custodiense colaborador do Blog Custódia Terra Querida



A historiografia oficial falsificou e falsifica todos os fatos de nossa história, tentando ocultar e manipular o fato de que o nosso povo sempre lutou e foi derrotado por uma minoria dominante. Segundo José Honório Rodrigues, em discurso pronunciado na Academia Brasileira de Letras, no dia 5.12.1969, por ocasião de sua posse como imortal, a história do Brasil “sempre glorificou os vitoriosos, baniu os derrotados, esqueceu o trabalho do povo, memorizou o desgoverno, louvou Caim, desamou Abel, hostilizou Benjamim. E conclui: “Sempre uma liderança soturna e aterradora impôs ao povo grandes medos, desfez seus sonhos, aniquilou suas aspirações e esperanças".

Ao contrário do que afirmam os historiadores de fancaria, os tartufos de província e os covardes aduladores do poder, o povo brasileiro sempre lutou ao longo de sua história, uma história de lutas continuas e sem desfalecimento e que tem sido deliberada e criminosamente falsificada pela historiografia oficial, a qual tenta apagar de toda as formas a palavra luta da memória coletiva de nosso povo.

Lampião mais do que qualquer outro combatente,  sintetiza o significado da palavra luta em todas as suas implicações. Optato Gueiros, ex-comandante das forças militares que combateram Lampião ao longo de anos, escreveu o seguinte no seu livro de memórias: “A argúcia de Lampião e sua sorte, a par da admirável resistência física e lucidez de raciocínio, valeram-lhe a reputação de ser considerado como o único guerrilheiro da sua espécie, que fez o maior número de vitimas e que empenhou-se em combates sem conta, não havendo outro que o igualasse nos anais do crime, não somente no Brasil e na América do Sul, mas também nas outras Américas”. 

A historiografia oficial tenta escamotear os feitos militares de Lampião, suas brilhantes vitórias contra as forças militares do Nordeste, afirmando que tais combates não passaram de simples escaramuças, sem maiores significados. A história oficialesca não gosta de mencionar dois combates, nos quais a estratégia e a valentia pessoal de Lampião ficou demonstrada de forma soberba e magistral. Foram as batalhas de Serra Grande, nos arredores da atual cidade de Serra Talhada, em 1926 e o combate de Maranduba, em Sergipe, no ano de 1932, no qual foram quase que totalmente aniquilados os terríveis nazarenos.

A rebeldia social de Lampião, opõe-se a tese cavilosa de que ele não passava por duas décadas foi o palco onde surgiram e desenvolveram-se antigas raças indígenas, tais como os tapera, os tremembe, os potiguara, os atikun, os pankarard, os kukurú, os fulniô e os kariris, para cintar somente estas.

Portanto, a região percorrida por Lampião já tinha sido palmilhada por gerações e gerações de índios, antes da chegada dos colonizador português. E Lampião soube ler, genialmente, o que estava escrito na natureza e na sociedade, onde lhe tocou viver seu drama e sua epopeia. 

A esse respeito, poderíamos ilustrar a relação de Lampião com a paisagem tórrida e desértica do Raso da Catarina, uma das  mais estranhas e curiosas regiões do país.

Considerando como sendo o grande deserto brasileiro, o Raso da Catarina tem cerca de 5 mil km² e é uma área praticamente desabitada, a não ser pelos caboclos-índios, como eles mesmo se denominam. São descendentes  diretos de uma antiga nação indígena - os pankarakú - que se miscigenaram há muito tempo com negros e quilombos da região e formaram um tipo peculiar de sertanejo, bem marcado pelos costumes e tradições dos seus ancestrais. Foram eles que mostraram os caminhos do Raso da Catarina a Lampião e seu grupo, que ali se abrigavam da policia, que não tinha condições de persegui-los no interior do Raso, tornando-o numa espécie de santuário para o lendário chefe guerrilheiro. 

As forças militares, depois de 50 anos da morte de Lampião, foi que atentaram para o fato de que as roupas dos guerrilheiros eram as mais apropriadas para enfrentar a rudeza dos sertões. E assim foi que em 1987 o ex-presidente José Sarney, durante as comemorações do Dia do Soldado, conheceu o primeiro uniforme genuinamente nordestino e que passou a ser utilizado pelas unidades baseadas na caatinga. Muito semelhante a vestimenta tradicional do sertanejo, o uniforme da caatinga é composto por um chapéu de couro, blusa caqui com proteção em couro, como um jibão, calça caqui com perneiras em couro, cinto verde com fivela preta, luvas e coturnos especiais. (Fonte: Jornal do Brasil, 20.8.1987).

A morte de Lampião pode ser ilustrada pela poesia feita por um guerrilheiro basco, horas antes de ser fuzilado pelo antigo regime do ditador Franco:

“Amanhã me enterrarão
Não venham chorar por mim
Eu não estarei ali
Serei vento de liberdade..."


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