21 dezembro, 2021

Retórica Sentimental - Surgimento do grupo Os Gândavos (autor Fernando José)


                                       Retórica sentimental

Corria o ano de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1974 quando da origem de Os Gândavos, que se deu no final do referido ano com a peça “Loucuras em um São João”. Uma obra adaptada pelos alunos da 4ª série do Ginásio Municipal Padre Leão, tendo como finalidade coroar com êxito o término do curso ginasial. Conclusão obtida com muito esforço, pois naquela época, ensino era coisa séria. Essa peça veio do cordel “Coco verde e melancia” que sofreu sérias modificações feitas por nós. Cada um dava uma ideia, transmudando-a em uma nova engraçada comédia. A peça foi um retumbante sucesso, leve-se em conta que na época inexistia em Custódia a máquina de fazer doido (televisão). 

Naquele tempo os meios de comunicação eram limitados, entretenimento mais ainda. Qualquer atração artística fazia enorme sucesso (circo, cinema de 16 mm de Zé das Máquinas, shows de auditório de Zé Melo no C.L.R.C). Tudo isso atraía muitos expectadores. 

Insuflados por esse êxito momentâneo, resolvemos dar continuidade a atividade teatral. Aí surgindo como por acaso e de formação espontânea “Os gândavos”, termo descoberto por Domingos em uma de suas muitas viagens psicodélicas pelas páginas do “pai dos burros”, como se dizia na época (dicionário). As pequenas letras do dicionário fez Domingos ler gângavos em vez de gândavos, na realidade gandavos. Prevalecendo a palavra gândavos por sua eufonia em relação ao hino do grupo teatral, como acertadamente relata Celêdian em seu texto.

No lusco-fusco de um fim de tarde, inspirado pelo ocaso, Domingos compôs em parceria com Tonho Remígio o hino de Os gândavos, cantado antes das apresentações por todo elenco do grupo teatral. Em seguida, o pano se abria e começava o primeiro ato. 

Entre os muitos talentos que compunham a trupe, o que mais admirava era Domingos por sua capacidade criativa e de improvisação, como se tivesse vivido uma formação circense. Fraco nos ensaios e um gigante nas apresentações (que Deus o tenha!). Lembro-me de um fato surreal na cidade de Iguaraci: teatro completamente lotado, o ator principal tem um coma alcoólico devido a um pileque homérico, chega carregado nos braços dos colegas minutos antes da apresentação causando pânico geral em todos. Domingos salvou a situação substituindo-o em atos divinos de improviso (até hoje não sei onde ele foi buscar tanta criatividade) Com essa façanha cai o pano. 

Fim do primeiro ato.

Tudo começou como uma simples brincadeira. Tínhamos como referência primeira o teatro dos circos mambembes que em suas peregrinações quase messiânicas, naqueles tempos, percorriam as vilas, povoados e pequenas cidades deixando uma forte impressão em suas apresentações. Mesmo depois de ter ido embora os bordões usados pelos palhaços no coroamento das piadas eram repetidos pela população como hoje se repetem os bordões deixados pelas novelas.

Os pequenos circos que povoavam nosso imaginário dividiam o espetáculo em duas partes: palco e picadeiro. Começava no picadeiro com apresentação de equilibristas, malabaristas, contorcionistas, mágicos, números de trapézio (sem rede de proteção), palhaços engraçados que destilavam piadas picantes fazendo enrubescer o mais sisudo dos expectadores. A máxima conhecida era: quanto menor o circo mais “escrotos” eram os palhaços. 

A segunda parte era a peça teatral. Geralmente comédias escrachadas ou românticos dramalhões. As comédias humorísticas protagonizadas pelo palhaço principal tinham começo, mas às vezes não tinham fim. Então eles usavam um artifício bem conhecido da plateia que era terminar a peça com fogo. Consistia num artista correr atrás dos atores com um archote aceso. Todos saíam em debandada enquanto o pano caía. 


Existiam números que se repetiam em quase todas as trupes que chegavam. O “piano” era um caso clássico. Quando começava o quadro, a plateia, pressentindo o que vinha, gritava em uníssono: “o piano, o piano, o piano” e eles às vezes pegos de surpresa, embaralhados, encaixavam um novo tema em cima. Algumas companhias sem essa habilidade simplesmente concluíam o quadro do piano, que era engraçado, porém muito repetido.

Anos depois, conversando com o palhaço Chumbrega indaguei sobre a repetição dos números em todos os circos. Disse ele: “Os números são iguais, a diferença é a fascinante habilidade de cada palhaço.”

A arte primária que representava o circo do palhaço Pinicolino foi uma grande síntese dessa atmosfera mágica que não existe mais. Essa foi uma das nossas inspirações. 


Apesar de ter nascido de forma ingênua e espontânea, Os gândavos posteriormente foi influenciado pelo grupo teatral "Disparada" da vizinha cidade de Sertânia (que era um grupo mais cabeça). Além do teatro, do qual meus dois primos fizeram parte, o "Disparada" possuía um jornal próprio, crítico e irônico nos moldes de "O pasquim". Afinal, era época da ditadura.

Os alunos da quarta série ginasial constituíam o grupo central da formação original de Os gândavos. Além de alunos de outras séries e de professores como Jussara, que fez parte da direção e do núcleo criativo do grupo, que eu lembre, faziam parte meus primos- os irmãos Tonho e Jorge, Paulo de Zezinho Batista, Jéfferson, Gílson Pereira, Pedro de Dona Pura, Carlos Lopes, Janete, Fátima, Soneide, Evanúzia, figurantes das demais séries e outros dos quais não me vêm à memória..

Depois de quase quatro décadas, para meu espanto, quem sabe o destino proporcionou um inusitado encontro. Nós que fizemos parte do grupo original! Esse momento parece mágico, tão emocionante quanto estar em atuação num palco iluminado. Além das pessoas do grupo original (tão distantes), autores desse imenso país (distantes também) se unem sob o nome Gândavos, um encontro para mim antes impensável. 

Lembro-me de uma apresentação no colégio de Dr. Pedro. Que belas recordações!


Enquanto a peça rolava, tinha-se o fundo musical “Rosamund” de Franz Schubert , que dava um ar de atemporalidade ao momento. Vieram outras peças: Rua do lixo, 24, de Vital Santos; Morre um gato na China ou Uma janela para o céu (Pedro Bloch) e outras que adaptamos de sketches e de outras obras, dentre as quais, o drama familiar que começava com a frase de Leon Tolstoi “Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma a sua maneira” cujo título não consigo lembrar, pois parte dessas recordações se perdeu nas noites do tempo, nos recônditos mais sombrios das sinapses cerebrais. Porém algo ficou para sempre. Uma lembrança doce daqueles tempos ingênuos que jamais poderei esquecer. 

Enquanto o pano cai.

Texto e foto: Fernando José (Gândavos)

Acesse outro texto sobre a origem do grupo teatral Os gândavos: Clique Aqui

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A minha história nas mãos - por Vanise Rezende



Há momentos, na vida, em que não se consegue escrever ou falar – pode-se apenas viver. Grandes são aqueles que na literatura, na dança, no teatro, nas artes em geral tocam, engenhosamente, alguns acordes da experiência do amor e da dor.

A música me parece ser mais fiel, delicadamente nascida para nada dizer, mas para sugerir à alma os acordes do sentimento de amor ou revelar-lhe a sonoridade sufocante do sofrimento. Sua fidelidade será tanto mais próxima, quanto mais irmanada alguém se fizer do artista, com o seu próprio momento de vida...

Isso me reporta, mais uma vez, ao grande escritor uruguaio, Eduardo Galeano, que inventou o verbete“sentirpensador”.

Escrevi essas pequenas ideias há anos atrás, quando me parecia rever, tal como um filme ao revés, uma história que, então, se eu não a tomasse nas mãos e não lhe desse um nome e um destino, poderia deixá-la tornar-se mais uma estúpida novela, com cenas repetidas e infiéis ao roteiro e ao autor.

Tomar a própria história nas mãos é graça, é coragem de conhecê-la até onde se viveu e, talvez, reconhecê-la mesquinha. É perceber que não se sabe claramente o para onde, embora o para quê reclame atitude e esperança.

A história nas mãos é assumir a liberdade de escolha do rumo do próprio caminho, que não exclui o aprendizado adquirido na convivência com o outro, o diferente de si, nem o desejo de realizar, um dia, a experiência da reciprocidade. 

A realização da liberdade de escolha não é coisa tão simples, especialmente quando a nossa atitude recai em uma história que se realizara a dois, no exercício do afeto, da atenção pelo outro, da cumplicidade. 

É na cumplicidade que a liberdade individual adquire o seu maior impulso, para deitar-se em espaços mais amplos e auspiciosos. É assim que a liberdade deixa de significar, na vida de cada um de nós, apenas poder realizar o que se quer. 

A minha liberdade atinge o seu próprio sentido, quando consigo engendrar valores que promovam, para mim, e também para os outros, situações de bem-estar e serenidade. Sem deixar que esvaeça o que mais importa: a nossa fidelidade, no silencioso cuidado, que nutre abenevolente compreensão, na convivência com o outro.

Publicado Originalmente em seu blog:

19 dezembro, 2021

Onde estão os dessalinizadores de Arraes? - Autor Cristiano Jerônimo

*Cristiano Jerônimo é custodiense, jornalista, escritor e mestrando em Desenvolvimento Humano: Formação, Políticas e Práticas Sociais, na Universidade de Taubaté, UNITAU, São Paulo.

Quando eu era pequeno havia muito mais água do que agora nos grotões sertanejos.

Nitidamente, eu me lembro de todas as cercas devoradas pela força da tromba d’água alimentando o Riacho do Mimoso que, temporariamente, ficaria perene até o próximo inverno.

No sertão nordestino, clima semiárido, com áreas em processo de desertificação, a paisagem substituiu a tática e os benefícios o trabalho, ambos aquém da condição humana e sanitária que deve estar disponível a todas as pessoas. Lembro que quando eu era pequeno – há cerca de 40 anos – todos os invernos enchiam os riachos de forma volumosa, atolavam-se carros-de-bois, a safra chegava a se perder por não haver como secá-la. Por décadas havia um ou dois anos de seca.

Hoje, nós estamos com uma seca estrutural. Em Custódia, a 342 quilômetros do Recife, não corre mais água nos riachos do Mimoso, Quitimbu, Barra, Lamarão, entre outros afluentes que abastecem o Açude do Dnocs, próximo ao centro da cidade. Tomando como referência o Riacho do Mimoso, por experiência própria, ele está praticamente morto há mais de 20 anos. Não corre nem mais aquele fio d’água típico da seca. Agora chove, e até chove bem (muito sazonalmente e de forma inesperada). Eu sempre tenho perguntado ao pessoal que vai ao sítio no sertão: - E riacho? Botou água?

- Não, a chuva só deu para molhar a terra.

- E o barreiro, o açude enchegaram?

- Pegou uma aguinha.

Uma aguinha é muito pouco para o Sertão do Nordeste, que tem um dos maiores graus de evaporação de água do planeta. Uma aguinha é muito pouco para eu conseguir outra vez entrar no riacho rebelde e ser levado pela correnteza até por trás da casa de Marães, em frente à casa do meu tio-avô Pedro Raimundo Rezende. Aliás, havia um ótimo local, com riacho mais calmo, por trás da Bodega de Zé Lopes, ali próximo. Quando secava, não ficava esturricado, mas deixava correr aquele pequeno leito com pedras para as pessoas passarem sem se molhar. Tratávamos as caças ali (minha avó Marina Rezende e Madrinha Etelvina não deixavam fazer na cozinha delas). Depois íamos para os fundos da casa de Tio Toinho Rezende e assávamos nas pedras. Havia muita caça (há décadas não como caça e sou contra a caça, incluindo as onças que comem nossos bobes). Aliás, da quantidade de bode que se cria, 20% fica com a tal dessa onça que ninguém vê.

Voltando à sede, sou um dos que defendem que a principal solução para a convivência com a seca (por não mais usar o termo “combate à seca”), é a dessalinização da água abundante que corre no subsolo sertanejo. Nunca se furaram tantos poços quanto nos últimos anos. Só que a água que jorra é muito salobra, imprópria para o cultivo de lavouras. Apenas algumas espécies da flora se dão bem com a água semi-subterrânea do Moxotó.

No dia em que a água que jorra para a superfície, vindo de uma profundidade de cerca de 100 metros, for dessalinizada, as terras férteis do sertão poderão parir muito feijão, milho, abacaxi, goiaba, mandioca, batata doce, algodão, hortaliças e tudo o que o sertanejo sabe extrair da terra. Lembro que, em 2001, encontrei uma iniciativa que achei fascinante. O governador era Miguel Arraes e, dentro das suas ações no interior do estado, o Governo havia instalado dessalinizadores comunitários e eu fui lá ver. Tinha uma caixa d’água grande, sempre cheia, abaixo um sistema que não parecia complexo e o melhor de tudo: havia um local para colocar uma ficha de dez centavos, que processava a liberação de duas latas d’água, destas do tipo Querosene Jacaré. Água doce, água de beber. Fiquei maravilhado. Antes disso, as caixas d’águas de Quitimbu criavam escamas de sal, o sabonete e shampoo sequer faziam espumas, devido ao alto teor salobro.

Eis que em 2002, Jarbas Vasconcelos vence as eleições para governador e modifica as políticas públicas voltadas para o semiárido. Em 2003, fui visitar o ilustre Dessalinizador de Arraes e encontrei o campo mais limpo. Perguntei a um dos meus primos: - Cadê o aparelho? -, Ele disse que “levaram para consertar e não trouxeram mais”. Andando pela zona rural (minha praia) fui apresentado ao prêmio de consolação: um poço com motor e uma cisterna com torneira. Que bom! Bebi da água e achei purgante. Grossa, salgada, me deu mais sede depois que eu tomei. Mais uma vez nega-se o passaporte para o sertanejo plantar: a água dessalinizada. E a transposição do Rio São Francisco não resolveu nada. O aqueduto corta Custódia sem deixar uma gota d’água na cidade. A transposição, na verdade, está levando a água para encher açudes no interior do Rio Grande do Norte, da Paraíba, do Ceará. E se alguém se atrever a pegar um lata d’água no canal, vai preso por ter usado o próprio instinto de sobrevivência. Quanto custa investir nos dessalinizadores que Arraes implantou? O riacho continua seco. Os barreiros e os açudes também. Agora veja o quanto vale um voto, além de 10 vinténs? 2022!


(*) Todo e qualquer texto publicado não reflete necessariamente a opinião deste blog. Refletem apenas a opinião do autor

[Biografia] José Ferreira Gomes (Zé Cavaco)



José Ferreira Gomes, vulgo Zé Cavaco, nasceu dia 15 de junho de 1931. A primeira viagem foi com quatro anos de idade, deslocando-se da sua cidade natal, Arcoverde-PE para Carnaíba-PE, em 1935.

De Carnaíba mudou-se para Samambaia, município de Custódia, passando a morar na Fazenda Lage, a partir de 1939. Ano em que ele perderia seu pai, que era agricultor e barbeiro, João Gomes dos Santos, que morreu com 35 anos. Sua mãe Quitéria Felícia Ventura morreu no dia 1º de maio de 1987, com 83 anos. João Gomes está sepultado em Samambaia e Quitéria em Paulo Afonso.

Zé Cavaco, chegou em Algodões, município de Sertânia-PE, em 1946, lugar onde conheceu Edite Ferreira Ventura, paraibana, nascida 03 de fevereiro de 1929, sua esposa a partir de 17 de abril de 1956, ano que foi para o Piauí, vivendo no Sítio Morro dos Cavalos, município de Simplício Mendes.

No dia 07 de abril de 1958, passou a trabalhar na CHESF em Paulo Afonso – BA, durante 33 anos e três semanas, até 14 de abril de 1991. Já com 61 anos, foi morar em Custódia – PE, onde vive até hoje e, pelo ano de 1994, conheceu o professor e artista plástico Pedro Cezar, o qual passou a auxiliá-lo nas pesquisas dos objetos do seu Museu. Foi também em Paulo Afonso, que nasceu Cícero Ferreira Ventura, 18 de maio de 1964, único filho do casal.

O senhor João Chaves trouxe uma cavalhada de Camalaú-PB para Algodões em 1934. Ainda em suas férias do trabalho, Zé Cavaco organizou e ampliou a Cavalhada de Algodões, de 1979 até janeiro de 1982. O registro de sua passagem em Algodões está na pilastra colocada em frente da capela de São Sebastião, feita em 1994, contendo quatro significados: a cavalhada, o vaqueiro, a religião e a política. Após esses 5 anos de experiência ele planejou ter sua própria cavalhada na vila Samambaia. O que veio acontecer em 23 de janeiro de 1988.

A primeira tinha apenas 12 cavaleiros, que usavam as cores verdes e vermelhas em fardas muito bem estilizadas. A próxima apresentação aconteceu em 1994 com 16 componentes. Neste mesmo ano tratou de deixar para as gerações futuras um registro definitivo: fundou a sede da Cavalhada, a qual contém o seu busto de pedra. Adquiriu serviço de som e imagem, além de muitas fotografias que atestam seus eventos. José Ferreira Gomes, ainda com preocupações históricas, fez doação de uma placa que registra a fundação da capela de Caiçara.

Um ano depois o número de componentes passaria para 24 cavaleiros, divididos em dois grupos de 12. Os espetáculos aconteceram até 1997, quando ele desistiu do evento e passou a se dedicar mais ao Museu Zé Cavaco, fundado em janeiro de 2000. Os equipamentos de sua Cavalhada foram destinados para Umbuzeiro-PB, cujo responsável é Chico Vereador local.

Até o momento, não obteve ajuda de ninguém, pois achava que o acontecimento deveria ser o mais naturalmente possível, inclusive pedia a participação dos moradores da vila na aquisição dos cavalos, o que aconteceu de bom grado até certo momento, pois os cavaleiros, não entendendo o sentido cultural do evento, passaram a exigir um prêmio ou um pagamento pela participação na festa.

Zé Cavaco, por sua vez, não obteve mais o prestígio por parte dos cavaleiros, que em vez de simples participantes, achavam-se verdadeiros profissionais, já que queriam ganhar pelo evento. Foi esse o principal motivo que levou esse senhor a desistir de toda a movimentação e construção desse maravilhoso espetáculo folclórico. Esvaziado de prestígio e incompreendido pela maioria da população que o tinha, e o ainda tem, como verdadeiro “besta”, lamentou muito não poder manter o espetáculo, que acontecia uma única vez por ano, não era uma ocupação de todos os dias, era uns pedacinhos de horas perdidas, dedicadas a pré-animação da tradicional festa de São Sebastião, sem fins lucrativos, pois não obtinha nenhum benefício vindo da organização da cavalhada, pelo contrário, todos os anos, tirava do seu salário o suficiente para manter todos os equipamentos desde as botas, vestimentas dos cavaleiros e adornos dos cavalos, até os mastros(doação de seu primo José Gomes da Silva), serviço de som, imagem e locução voluntária de Tiburtino ou Pedro Cezar, além do registro dos pontos feito por Damião e o apoio caseiro de João Pieta e sua esposa Josefa.

Zé Cavaco pensava que os cavaleiros iriam segurar as suas participações na Cavalhada, com a intenção de valorizar Samambaia e transformá-la num evento cultural grande, para atrair mais gente para as comemorações da Festa do Padroeiro, o que beneficiaria, até economicamente os comerciantes da vila, tornando-a conhecida fora dos limites de Custódia e região. Seria uma espécie de marca registrada, pois o local é conhecido apenas pela Usina de Caruá Vasconcelos & Cia, comprada por Numeriano de Freitas e, ainda hoje de pé, graças a Clodoaldo eAristóteles.

A Cavalhada de Samambaia seria uma marca, assim como a usina é e será sempre. A Cavalhada só viria a contribuir para engrandecer as artes e a cultura da Vila, considerada hoje, pelos próprios moradores, um local parado, esquecido, lento, com tendência ao esquecimento de sua própria história.

Para que isso não acontecesse, veio novamente a idéia, a perspicácia, a coragem, a sensatez, a visão de mundo de Zé Cavaco, que a partir do ano 2000, começou a perseguir o seu grande sonho, iniciou a construção do Museu Zé Cavaco, em prédio próprio e localizado na Vila de Samambaia, sob número 1931, data de nascimento do fundador. E agora em 2002, sente seu sonho realizado, mesmo que ainda falte algumas pequenas coisas.

De início o Museu era para contar a História das Cavalhadas organizadas por José Ferreira Gomes. Mas com o acúmulo de material, o local se tornou polivalente e Zé Cavaco passou a valorizar as coisas do homem do campo, a história local, com objetos de uso doméstico e educacional, como as lousas usadas pelos antigos alunos da região, máquinas de costurar antigas e muitos outros objetos interessantes. Também possui temas alusivos às histórias do Brasil e do mundo, história do cangaço e Antônio Conselheiro (Canudos), de Luiz Gonzaga, de Padre Cícero e Frei Damião e, também de Delmiro Gouvêia, que foi o primeiro a construir uma usina na cachoeira do “Grutião”(sic!), na parte alagoana do rio São Francisco, idéia esta que serviu de base para Apolônio construir a grande usina de Paulo Afonso-BA, provida pela CHESF.

Todo esforço de José Ferreira é para que a cultura não morra, para que ela seja preservada para as futuras gerações de moradores de Samambaia e região. É um pouco de conhecimento geral, uma ínfima parte da biblioteca da humanidade, porém feito com carinho e dedicação.

PS: Trabalho elaborado pelo artista plástico PEDRO CEZAR, cedido gentilmente para o blog Custódia Terra Querida. Para que mais trabalhos desse porte sejam publicados com mais frequencia no blog, pedimos as pessoas caso usem o texto em algum trabalho ou site, cite o nome do autor, pois, trata-se de um projeto feito com muito carinho, e de uma riqueza cultural de grande valor para o município.

15 dezembro, 2021

Marcos Freire - Comício em Custódia (1982)






Trecho do Documentário "MARCOS FREIRE - SEM ÓDIO E SEM MEDO", disponível para download no site da TV Câmara dos Deputados.

Fonte: AQUI

Nesse trecho, o fotografo oficial da campanha ao governo do Estado do candidato, cita fato curioso durante passagem pelo município de Custódia em 1982.

Ficha técnica do documentário:


A TV Câmara apresenta o documentário Marcos Freire - sem ódio e sem medo. O vídeo conta a trajetória política e pessoal do ex-ministro Marcos Freire, suas idéias e realizações, até o trágico acidente aéreo que causou sua morte, em 1987.


A histórica renúncia à prefeitura de Olinda, a chegada à Câmara dos Deputados, a formação do grupo dos Autênticos do MDB, a atuação como senador, presidente da CEF e ministro da Reforma Agrária são alguns dos relatos que pontuam a narrativa. A história foi reconstruída por meio de depoimentos de familiares, amigos, políticos e pessoas que estiveram com Freire nos momentos mais marcantes de sua vida.

Baú de fotos do futebol Custodiense


Da esquerda para à direita: Toreba, Branco Góis, Rió e João Bosco.


13 dezembro, 2021

O dia em que Custódia dançou ciranda com Almir Mello



Um dos momentos mais marcantes durante a Festa de São José em 2011, foi certamente  a apresentação do músico Almir Mello e convidados, no último dia de evento. A ciranda conduzida por dona Nicinha (Mãe do músico), num momento ímpar, familiares em frente ao palco com a trilha sonora do espetáculo RAÍZES BRASILEIRAS.

Almir comentou sobre a Ciranda "Um show atrativo, cultural, de alegria contagiante".


Almir com familiares e amigos




Almir Mello era músico, compositor, produtor cultural, arte-educador e pesquisador da cultura musical. Seus trabalhos são reconhecidos no Brasil e no exterior. Era professor e pesquisador, com mais de 20 anos dedicados aos ritmos e sons, em viagens por todo o Brasil e exterior.

Criou vários métodos de bateria e percussão, utilizados atualmente em países, como Porto Rico, Itália, Estados Unidos e Espanha. Foi autor de vários projetos de inclusão social, como Música na Escola, Música no Parque e Batucando. Foi Idealizador e realizador do premiado espetáculo Tambores: A voz da África. Foi Diretor fundador da Orquestra Brasileira de Ritmos (OBR) de São José dos Campos e do Instituto de Bateria e Percussão (IBP).

Nos deixou precocemente aos 52 anos de idade :(

Um custodiense que deixou um legado por onde passou.

Um ser especial II - por Silmara Feitosa



UM SER ESPECIAL II 
Menino homem, Homem menino.
Muitas histórias um só destino,
Ora pai, ora filho, amigo sempre.
Anjo envolvido, anjo envolvente,
Encantamento, poesia, sentimento e energia,
Mãos que afagam noite e dia,
Luz que reluz e ilumina,
Pés que guiam e me ensina,
És o caminho sou caminhante,
Anos vividos em um instante,
Imensurável é seu sorriso,
Transmite a paz que eu preciso,
Quando estou triste, você me diz: 
- AMO MAMAÃE, sorrio feliz,
O seu olhar purifica e acalma,
Fortalece e salva, a minha’lma,
Agradecida escuto tudo,
Que em ações você me diz,
Menino homem, Homem menino 
Neste seu mundo sou aprendiz.

(AO MEU FILHO PAULINHO DEDICO)
(SILMARA FEITOSA)

10 dezembro, 2021

Rios da minha vida - por José Melo


Por José Soares de Melo

Do alto do prédio onde moro, gosto de contemplar as águas mansas do Rio Capibaribe. Uma vasta lâmina prateada, com leves ondulações, um barco solitário na manhã que promete muito sol completa o cenário que mais se parece do interior. Na calmaria do horário de um sábado, quedo-me a recordar outros rios que passaram em minha vida.Foram poucos, mas alguns ficaram enraizados na minha mente. 

Antes do Capibaribe, tive o Riacho Custódia, com água apenas no período das chuvas. Grandes cheias que devastaram ruas e casas, levaram cercas e até mesmo ponte. Quando criança, ficava absorto na ponte da Bomba, olhando a força das águas arrastando plantas,madeiras, tudo o que encontrasse pela frente. 

Bem antes ainda, passou um rio em minha vida, cujas lembranças ficaram marcadas na mente da criança que fui, no Bairro do Lavapés, na cidade de Capivari, no interior de São Paulo. Era um rio perene, caudaloso, que cortava a cidade, atingia o Bairro de Lavapés e invadia os canaviais que sucediam à cidade. 

Quantas vezes não fui fazer o rio justificar seu nome, lavando os pés em suas águas, nas proximidades de uma passagem de nível do trem. Nesse local, era comum juntar as crianças para brincar nas suas águas, quando não ocorriam as cheias. 

Foi nele que realizei uma aventura que me custou algumas chineladas de minha mãe: certa feita,peguei carona em um dos barcos que conduziam trabalhadores para o corte da cana, e depois de algum tempo, chegando em casa recebi o corretivo. Também pudera: com pouco mais de seis anos, minha peraltice rendeu grande apreensão na minha mãe. 

No entanto o rio efetivamente mais me marcou, hoje não existe mais. Pelo menos no local em que eu costumava brincar, tomar banho, pescar piabas – com anzóis, ou com uma garrafa emborcada, com o fundo quebrado e com farinha que servia de isca. As piabas entravam e não conseguiam sair, sendo depois espremidas – para tirar as vísceras, salgadas e colocadas ao sol para secar. Nada mais gostoso que essa iguaria frita, sequinha, salgada. 

Falo do Riacho da Marreca, nome do mesmo riacho que se chama do Quitimbu, e que na região da Cacimba Nova deu lugar a Bacia do Açude Marrecas, sepultando assim uma boa parte dos locais onde vivi meus melhores dias na infância. 

Nas grandes cheias, o Riacho criava redemoinhos na correnteza, provocando a escavação de poços fundos, cujas águas givaram com velocidade. A meninada se divertia pulando no “remanso”, como chamávamos, e sendo devolvidos pelo mesmo, que nos jogava a uma boa distância, porém dentro do rio, ainda. 

Passado o período das chuvas, o riacho secava. Em vez de lugar para brincadeiras da meninada, passava a ser o salva-vidas da população e dos animais. Com a falta de água nos barreiros, eram abertas cacimbas para retirar água de seu leito para o consumo e higiene da população, e mais distante era escavado um bebedouro, para saciar a sede dos animais de criação. 

Máquinas para abrir poços ou bebedouros era coisa inexistente. Recordo que a areia retirada da escavação era conduzida em cima de um couro de boi, e puxada por uma junta de bois. Só muitos anos depois é que a tecnologia chegou, com máquinas que abriam bebedouros em poucas horas. Recordo perfeitamente que isso ocorreu na década de setenta, na gestão de Luizito frente à Prefeitura, que requisitava tais máquinas ao DNOCS, e cedia aos pequenos agricultores para abertura de poços ou bebedouros. 

Esse pedaço de rio que não mais existe, é exatamente o que mais está vivo dentro de mim. Jamais se apagará de minha memória as brincadeiras, os banhos, e até mesmo as viagens perdidas que fiz, da cidade até suas margens, sendo impedido de atravessar o mesmo, devido ao volume das águas. Aquele pequeno pedaço de riacho teima em continuar vivo dentro de mim, mesmo quando estou contemplando a imponência de um rio permanente, famoso, cantado em prosa e versos pelos Recifenses: o conhecido Rio Capibaribe.

Paisagens da memória - "A feira" - por Fernando José

  Tela do artista Edmar Salles - Feira de Custódia

            
No início dos anos 60 a pequena cidade de Custódia, como toda cidadezinha do sertão pernambucano, vivia em relativo isolamento quebrado apenas pelas ondas do rádio (Rádio Cardeal Arcoverde e Rádio Pajeú de Afogados da Ingazeira). Ainda não chegavam aos remotos lugarejos deste sertão os jornais e a televisão. Esse meio isolamento preservou uma cultura ímpar. Resquícios da idade média ainda podiam ser sentidos na religião, no comportamento, nas paródias, nas histórias de cordel, nos cantadores de viola, nas ladainhas e nos cantos populares. Tudo isso sintetizado num acontecimento extraordinário: a feira. 

No seu fundamento histórico, versa uma das tradições que Custódia nasceu da necessidade de um ponto de apoio entre o vale do Pajeú e o vale do Moxotó. 

Havia necessidade de uma ligação por terra entre um vale e outro. No intercurso entre essas duas ribeiras, surgiu a estalagem de Dona Custódia, propiciando aos tropeiros uma pausa restauradora do cansado caminhar nas veredas sertanejas da época. O crescimento rápido da localidade deveu-se à sua localização devido à passagem de almocreves e viajantes, pois Custódia tem grande parte do seu território encravado no vale do Moxotó e uma pequena porção no Pajeú (Pajeú: lendário rio sertanejo e um dos poucos rios do mundo que tem parte do seu curso correndo em sentido contrário ao mar). Isso favoreceu o aparecimento de pessoas de outras localidades para habitar o sítio. Foram erguendo-se habitações e novos comércios. Com isso o povoado foi se formando. Os fazendeiros mais abastados ergueram casas na vila para virem aos domingos à missa e fazerem compras. Custódia cresceu das feiras livres que até os dias atuais são de grande importância para sua economia. 

Aos domingos ia dormir com ansiedade do dia seguinte: era a segunda, dia da feira! Dia extraordinário, atípico, o único em que qualquer um podia se perder na multidão. A monotonia era regra, quebrada apenas por esse evento semanal que virava a cidade de ponta cabeça. 

Logo cedo saltava da cama com o barulho daquele acontecimento que toda semana quebrava a quietude e pasmaceira do lugarejo. Tomava um café rápido e corria para a rua. Nessa época, para mim o tempo era tão relativo quanto à teoria de Einstein. O tempo não existia!(Oh que saudade). Primeiro ia namorar os caçoás de frutas que vinham dos brejos de Triunfo, nos contrafortes da Serra da Borborema. Depois corria para o pátio do bar Fênix onde malandros e otários se enfrentavam nas mesas de esplandim e bacará. Passava horas absorto naquele jogo de malandragens em que os competidores diziam frases manhosas. 

Em seguida descia pela Rua Nemésio Rodrigues, onde no seu terço final ficava a feira das verduras e, incompreensivelmente, no meio daquelas barracas e toldos verdes encontrava-se a barraca do raspa-raspa cuja coleção de litros de cores vivas e atraentes prendiam minha atenção (naquela época em cada rua comercializava-se um só tipo de produto ). Uma grande pedra de gelo era retirada de um caixote, envolta por pó de madeira, usado como isolante. Esse gelo era raspado, colocado num copo e misturado com essências de cores vivas. Perdia horas olhando aqueles movimentos (ou ganhava). 

Um dos mais interessantes era o homem da cobra. Falava o dia todinho, mas não mostrava a cobra. Esta ficava num caixote de madeira no meio da roda formada pelos matutos que tão ansiosos quanto eu esperavam pelo momento máximo. Esse intervalo de expectativa e espera era maliciosamente aproveitado para a venda da banha do peixe boi e outros produtos afins, destinados à cura de todos os males. 

O ventríloquo me encantava, pois era incompreensível e ao mesmo tempo fantástico para um menino de sete anos que um boneco de madeira falasse. Porém sua voz até hoje repercute em minhas lembranças como um Pinóquio sertanejo dos contos de fadas. 

A dupla de irmãos cegos. Um tocava sanfona, o outro, pandeiro. Formavam uma enorme roda na Praça Padre Leão onde interpretavam músicas do cancioneiro popular. Uma me marcou para sempre. A música chama-se “Fogo do Paraná”. Uma história trágica em que uma família de imigrantes sertanejos é envolvida por um grande incêndio e o caçula da família, Toinho, morre nesse sinistro. Até hoje, jamais, vi interpretação igual. 

A malícia do vendedor de remédios, porque antes de apresentar o produto, ele nos deliciava com lúdicas brincadeiras para atrair os curiosos. Plateia formada, enormes lombrigas enroladas e expostas em garrafas de vidros transparentes eram apresentadas e impressionavam os nativos. (Até hoje sou reticente em comer macarrão). Cenas medonhas dessas verminoses eram expostas em páginas retiradas de revistas diversas sem um contexto lógico, mas que impressionavam e ajudavam a vender os medicamentos contra vermes. 

A poética do declamador de cordel. Enorme multidão se formava em torno desse poeta popular. Muitos até analfabetos, mas em poses de poeta dissertavam os versos simples e envolventes das fantásticas histórias do imaginário sertanejo. Eram versos modestos, às vezes com rimas pobres, tendo grande apelo emocional e começando por temas apaixonantes. Lembro que ouvi numa das vezes em tom teatral a declamação do cordel “A chegada de Lampião no inferno”. O próprio título já impressionava e o desenrolar da história nem se fala. O contador gesticulava tentando dar uma interpretação verossímil aos fatos narrados. No intervalo entre os versos, o orador tecia alguns comentários aguçando ainda mais a curiosidade dos ouvintes para o desenrolar da trama. Contudo a história não chegava ao fim. No melhor da narrativa, em que praticamente todos prendiam a respiração para ouvir o desfecho final, a leitura era interrompida causando frustração momentânea aos espectadores. Quem quisesse saber como terminava a história, teria de comprar o cordel. Que decepção! Eu saía caminhando absorto em devaneios imaginando qual seria o grande final. Naquela época, através do cordel, era como as notícias de fatos importantes chegavam às comunidades rurais. Por muito tempo foi um dos meios de comunicação entre essas populações. 

O romantismo da malandragem. Os malas me fascinavam pela destreza e astúcia com que ludibriavam os mais incautos. Nunca usando a violência, apenas a lábia. “Essa ganha, essa perde” é a lembrança mais viva que tenho dos irmãos Chia e Dadá pela sua nobre arte de “ganhar o outro”. Quando questionados sobre a lisura de suas ações, respondiam com presteza que a intenção do adversário era derrubá-los. Com esse jogo de cartas marcadas, eram invencíveis e sobreviviam dessa prática. 

As bancas de rolos de fumo de Arapiraca. Enfileiradas, ficavam em frente ao bar da sinuca de Jurandir. Atraía-me o olhar aqueles enormes rolos negros de fumo parecendo cobras pretas enrodilhadas. Às vezes com os colegas fazíamos cigarro de fumo e íamos fumar escondido. O efeito entorpecedor nos causava náuseas e o forte cheiro nos deixava impregnados. A volta para casa era adiada para que ninguém percebesse. Ao chegar em casa, todos já tinham almoçado. Levava uma tremenda bronca, como acontecia toda segunda-feira. 

Hoje, nos anos dois mil e tanto, a feira subsiste. Ainda é de grande importância, porém sofreu modificações impostas pelas transformações que o mundo moderno impõe. Rareiam essa miríade de tipos característicos cuja magia de suas atuações em breve ficará como uma simples lembrança. 

Custódia, 04 de dezembro de 2011
Fernando José Carneiro de Souza
Dedico a Jussara 

09 dezembro, 2021

Banda Marcial de Custódia (1989)

Concentração da Banda Municipal de Custódia, 
1989 na Escola Municipal Ernesto Queiroz.

Foto: Allana Simões Gisolfi


Olha que turma! Nadieth Medeiros, Flavia Freire, Jefferson Cordeiro, Diogo Souza, Antonio Galdino Galdino, Marcílio Anderson, Valdenice Rezende, Ana Paula Simões, Ana Paula Alexsandra Siqueira, Ana Paula Siqueira Siqueira, Rivaneide Riva.

Comentário do Maestro Galdino:

Alana, que bom rever meus primeiros alunos em Custódia, essa turma entrou sem dúvidas para a História da BAMUC, guardo muitas saudades e carinho todos os meus ex-componentes, mais você sabe que uma vez da BAMUC sempre BAMUC! 

Se você tiver ou souber de alguém que tenha fotos das Bandas que eu comandei por favor peça que me envie, pois estou fazendo um acervo de imagens da BAMUC.

Obrigado uma grande beijo e um grande abraço!

Maria Vanete - "Guerreira da Paz"



O trabalho pioneiro que a pernambucana Vanete Almeida desenvolve há mais de 30 anos nos movimentos de trabalhadores rurais, e no Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais no Sertão Central de Pernambuco, é reconhecido mundialmente. A prova é que a ativista ganhou o Prêmio Cláudia, em 2002, e foi selecionada para concorrer coletivamente com mil mulheres de 154 países ao Prêmio Nobel da Paz, em 2005.


A história da pernambucana que nasceu há 63 anos no sítio Cachoeira, no município de Custódia, pode ser conferida no livro Brasileiras Guerreiras da Paz, que tráz a biografia das 52 mulheres do País indicadas ao prêmio Nobel. Publicado pela Editora Contexto, com coordenação de Clara Charf, textos de Carla Rodrigues, Fernanda Pompeu e Patrícia Negrão, a obra foi lançada no Museu da Casa Brasileira, em São Paulo.

Vanete começou a atuar nos sindicatos dos trabalhadores rurais do Sertão Central na década de 80. Ao notar que não existia a participação feminina, ela partiu para a mobilização das mulheres do campo. “Aos poucos, elas começaram a aparecer em reuniões, duas, três, mas não falavam, tinha medo“, diz ela.

Da primeira reunião em dezembro de 1982, em Serra Talhada, realizada com mais de 10 mulheres, o movimento das trabalhadoras rurais se expandiu para as cidades vizinhas, para o Nordeste e para América Latina. Hoje o movimento liderado por Vanete, que também coordena a Rede de Mulheres Rurais da Amérca Latina e Caribe, articulando 25 países, reune mais de 100 grupos, com cerca de 400 mulheres, de 12 municípios pernambucanos.

Elas estão à frente de sindicatos, coordenam encontros e têm consciência e reivindicam direitos trabalhistas, saúde, educação, respeito ao corpo e conservação ambiental. “Nesses anos, sofri muito por ver um povo tão trabalhador muitas vezes não ter o que comer. Mas me alegro com o progresso das trabalhadoras rurais“, conclui Vanete.

Matéria originalmente publicada no Jornal de Serra, em maio de 2006.

Maria Vanete faleceu em 09 de Setembro de 2012

08 dezembro, 2021

Empresário Hugo Gonçalves é homenageado pela Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil


 

A Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB/PE) promoveu dia 4 (quinta-feira) o seu primeiro evento presencial pós-pandemia. O Happy Hour Empresarial foi realizado no Intercity Suape Costa Dourada, no Cabo de Santo Agostinho, com o lançamento de duas iniciativas para a modernização e o fomento do ambiente de negócios do município, além de homenagens a personalidades do meio empresarial que fizeram a diferença em 2021.

No primeiro bloco do evento, cujo tema foi  “Empreendedorismo e Tecnologia, o prefeito Keko do Armazém apresentou o “Programa de Modernização do Cabo”, que promete acelerar o processo de licenciamento, reformas e construções na cidade, integrando em plataforma online todas as atividades que envolvem meio ambiente, controle urbano e vigilância sanitária da cidade.

“A partir do site da prefeitura o empresário poderá fazer a renovação do alvará de funcionamento e tirar licenças sem precisar se deslocar à sede do município para entregar formulários e plantas. Será tudo online e integrado para todo o tipo de empresa, de uma Amazon ao dono da padaria”, explica o secretário de Planejamento do município, Alex Gomes. O novo sistema deverá reduzir pela metade o tempo de abertura de novas empresas e vai dar maior transparência ao processo.

O município também lançará, durante o evento da ADVB, o “Guia do Cabo”, um grande catálogo de indústria, comércio e serviços do município. A plataforma tem o objetivo de relacionar todo e qualquer estabelecimento jurídico para compor uma lista maior do Território Estratégico de Suape, dando real dimensão da economia local. “A partir destes dados, a prefeitura poderá pensar de forma assertiva em políticas públicas, promover ações que gerem mais empregabilidade e incentivar, também, o networking construtivo entre empresas de portes diversos”, explica a presidente da ADVB, Veronica Dantas.

Como a principal missão da ADVB é promover o networking e os negócios, as novidades do Cabo serviram como incentivo para a instituição homenagear o município.

Além de uma pessoa jurídica, a ADVB sempre escolhe uma pessoa física para ser consagrada pelas atividades desempenhadas. Neste caso, o escolhido foi o empreendedor do Shopping Costa Dourada, Ayrton Cardoso. “Ele se destaca por ser um dos maiores, não só do varejo, mas também na hotelaria, no ramo imobiliário e na logística. É uma das pessoas mais ousadas do Cabo de Santo Agostinho e uma fonte de inspiração para os empreendedores mais jovens”, diz Veronica, lembrando que suas atividades impactam positivamente toda a economia do município.

O outro nome é o do empresário Hugo Gonçalves de Souza, presidente da Tambaú Alimentos, recebeu o Prêmio Destaque de Vendas do Ano. Em 2021, o grupo alimentício se destacou pela expansão dos negócios para outros mercados, lançando um braço logístico de transportes de cargas, em plena crise da pandemia. O superintendente do Sebrae Pernambuco, Francisco Saboya, também participou da tarde de homenagens, que contou ainda com a apresentação da cantora Bella Schneider, ex-participante do The Voice Brasil.

SOBRE A ADVB – A Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB), entidade com mais de seis décadas de existência e 22 anos de atuação em Pernambuco, acredita no desenvolvimento do networking construtivo como ferramenta para gerar novas e sólidas oportunidades de negócio. Desde 2017, a ADVB em Pernambuco é liderada por Veronica Dantas, primeira mulher a ocupar a presidência da entidade no estado.

O compartilhamento do conhecimento, com a participação ativa de corporações, lideranças empresariais e gestores públicos, se dá por meio de cursos, qualificações, palestras e outros eventos de relacionamento. Entre as novidades implementadas pela entidade neste ano está a qualificação gratuita e online em marketing digital e vendas, que já beneficiou mais de 3,5 mil empreendedores. Para tanto, a ADVB contou com o apoio da Prefeitura do Recife e do Banco do Nordeste.

A associação também destaca a criação do núcleo “ADVB Innovation”, diretoria formada por jovens executivos, empresários e profissionais liberais ligados às áreas de tecnologia, inovação e marketing digital. Além disso, a entidade lançou a plataforma de marketing colaborativo CIDCARD, focada na geração de renda e promoção do desenvolvimento de negócios locais.

Fala PE


 

[Cordel] História de João Vicêncio e Luzia Samanta - Autor Marcos Silva

 


140 estrofes de 6 versos (sextilhas)
 
01
Vou pedir pra meu bom Deus,
Só Ele que me acalanta
Para fazer um relato
O qual aqui se adianta
Falar de JOÃO VICÊNCIO
E de LUZIA SAMANTA.

02
JOÃO VICÊNCIO chegou
Em Ilhéus lá na Bahia,
Pronto para trabalhar;
Tinha terras de valia.
E, jamais ele pensou
Encontrar sua LUZIA.

03
Então, o JOÃO ficou
Naquele belo rincão
Trabahando com cacau
Para ser rico e patrão,
Bem ali na sua terra,
Ele enfiou seu facão.

04
Em seguida ele gritou
Com fé no poder sagrado,
Enquanto esse meu facão
Ficar aqui enterrado,
Sei que não irei morrer:
Nem morrido nem matado.

05
Mas ele foi perseguido
Na sua terra querida
Por um grupo de capangas,
O amarraram em seguida.
Um caixeiro viajante
Foi quem salvou sua vida.

06
Quem mandou lhe dar a surra
Talvez para o amedrontar,
Já morreu logo em seguida,
Mas JOÃO pode esperar.
Que o tal herdeiro do homem
Um dia vai lhe caçar.

(...)


QUER SABER O FINAL DESSA BELA HISTÓRIA? FALTAM 134 ESTROFES.

Entre em contato com o poeta Marcos Silva
e-mail: marcosas74@gmail.com ou
(11) 98245-6202 (WhatsApp)



07 dezembro, 2021

Ô coisa boa da peste! - (Gândavos)

Autor: Jailson Vital - Custódia/PE

Coisa boa de se ler...

A palavra "coisa" é um bombril do idioma. Tem mil e uma utilidades. É aquele tipo de termo-muleta ao qual a gente recorre sempre que nos faltam palavras para exprimir uma ideia. Coisas do português.

A natureza das coisas: gramaticalmente, "coisa" pode ser substantivo, adjetivo, advérbio. Também pode ser verbo: o Houaiss registra a forma "coisificar". E no Nordeste há "coisar": "Ô, seu coisinha, você já coisou aquela coisa que eu mandei você coisar?".

Coisar, em Portugal, equivale ao ato sexual, lembra Josué Machado. Já as "coisas" nordestinas são sinônimas dos órgãos genitais, registra o Aurélio. "E deixava-se possuir pelo amante, que lhe beijava os pés, as coisas, os seios" (Riacho Doce, José Lins do Rego). Na Paraíba e em Pernambuco, "coisa" também é cigarro de maconha.

Em Olinda, o bloco carnavalesco Segura a Coisa tem um baseado como símbolo em seu estandarte. Alceu Valença canta: "Segura a coisa com muito cuidado / Que eu chego já." E, como em Olinda sempre há bloco mirim equivalente ao de gente grande, há também o Segura a Coisinha.

Na literatura, a "coisa" é coisa antiga. Antiga, mas modernista: Oswald de Andrade escreveu a crônica O Coisa em 1943. A Coisa é título de romance de Stephen King. Simone de Beauvoir escreveu A Força das Coisas, e Michel Foucault, As Palavras e as Coisas.

Em Minas Gerais, todas as coisas são chamadas de trem. Menos o trem, que lá é chamado de "a coisa". A mãe está com a filha na estação, o trem se aproxima e ela diz: "Minha filha, pega os trem que lá vem a coisa!"

Devido lugar: "Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça (...)". A garota de Ipanema era coisa de fechar o Rio de Janeiro. "Mas se ela voltar, se ela voltar / Que coisa linda / Que coisa louca." Coisas de Jobim e de Vinicius, que sabiam das coisas.

Sampa também tem dessas coisas (coisa de louco!), seja quando canta"Alguma coisa acontece no meu coração", de Caetano Veloso, ou quando vê o Show de Calouros, do Silvio Santos (que é coisa nossa).

Coisa não tem sexo: pode ser masculino ou feminino. Coisa-ruim é o capeta. Coisa boa é a Juliana Paes. Nunca vi coisa assim!

Coisa de cinema! A Coisa virou nome de filme de Hollywood, que tinha o seu Coisa no recente Quarteto Fantástico. Extraído dos quadrinhos, na TV o personagem ganhou também desenho animado, nos anos 70. E no programa Casseta e Planeta, Urgente!, Marcelo Madureira faz o personagem "Coisinha de Jesus".

Coisa também não tem tamanho. Na boca dos exagerados, "coisa nenhuma" vira "coisíssima". Mas a "coisa" tem história na MPB. No II Festival da Música Popular Brasileira, em 1966, estava na letra das duas vencedoras: Disparada, de Geraldo Vandré ("Prepare seu coração / Pras coisas que eu vou contar"), e A Banda, de Chico Buarque ("Pra ver a banda passar / Cantando coisas de amor"), que acabou de ser relançada num dos CDs triplos do compositor, que a Som Livre remasterizou.

Naquele ano do festival, no entanto, a coisa tava preta (ou melhor, verde-oliva). E a turma da Jovem Guarda não tava nem aí com as coisas: "Coisa linda / Coisa que eu adoro".

Cheio das coisas. As mesmas coisas, Coisa bonita, Coisas do coração, Coisas que não se esquecem, Diga-me coisas bonitas, Tem coisas que a gente não tira do coração. Todas essas coisas são títulos de canções interpretadas por Roberto Carlos, o "rei" das coisas. Como ele, uma geração da MPB era preocupada com as coisas.

Para Maria Bethânia, o diminutivo de coisa é uma questão de quantidade (afinal, "são tantas coisinhas miúdas"). Já para Beth Carvalho, é de carinho e intensidade ("ô coisinha tão bonitinha do pai"). Todas as Coisas e Eu é título de CD de Gal. "Esse papo já tá qualquer coisa...Já qualquer coisa doida dentro mexe." Essa coisa doida é uma citação da música Qualquer Coisa, de Caetano, que canta também: "Alguma coisa está fora da ordem."

Por essas e por outras, é preciso colocar cada coisa no devido lugar. Uma coisa de cada vez, é claro, pois uma coisa é uma coisa; outra coisa é outra coisa. E tal coisa, e coisa e tal. O cheio de coisas é o indivíduo chato, pleno de não-me-toques. O cheio das coisas, por sua vez, é o sujeito estribado. Gente fina é outra coisa. Para o pobre, a coisa está sempre feia: o salário-mínimo não dá pra coisa nenhuma.

A coisa pública não funciona no Brasil. Desde os tempos de Cabral. Político quando está na oposição é uma coisa, mas, quando assume o poder, a coisa muda de figura. Quando se elege, o eleitor pensa: "Agora a coisa vai." Coisa nenhuma! A coisa fica na mesma. Uma coisa é falar; outra é fazer. Coisa feia! O eleitor já está cheio dessas coisas!

Coisa à toa. Se você aceita qualquer coisa, logo se torna um coisa qualquer, um coisa-à-toa. Numa crítica feroz a esse estado de coisas, no poema Eu, Etiqueta, Drummond radicaliza: "Meu nome novo é coisa. Eu sou a coisa, coisamente." E, no verso do poeta, "coisa" vira "cousa".

Se as pessoas foram feitas para ser amadas e as coisas, para ser usadas, por que então nós amamos tanto as coisas e usamos tanto as pessoas? Bote uma coisa na cabeça: as melhores coisas da vida não são coisas. Há coisas que o dinheiro não compra: paz, saúde, alegria e
outras cositas más.

Mas, "deixemos de coisa, cuidemos da vida, senão chega a morte ou coisa parecida", cantarola Fagner em Canteiros, baseado no poema Marcha, de Cecília Meireles, uma coisa linda.

Por isso, faça a coisa certa e não esqueça o grande mandamento: "amarás a Deus sobre todas as coisas".

ENTENDEU O ESPÍRITO DA "COISA" ?

Gente, ótimo final de semana! Eta,
COISA boa

Texto de Propriedade do Blog Gândavos - 
http://gandavos.blogspot.com.br/2013/04/coisa-boa-de-se-ler.html