23 setembro, 2021

O tempo obediente à Lei maior traz e leva embora todas as coisas e todos os homens. por Lindinalva "Nenê"

Texto: Lindinalva - Nenê.
Custódia-PE
Setembro/2021

Ele está presente do nascimento à finitude da vida. Está no presente, no passado e caminhando sempre em direção ao futuro, atento a participação de cada um, como personagem da história humana. Baixa a cortina quando o cronômetro para de trabalhar.

 

O tempo passa, a vida muda, mas as pessoas especiais que adormecem na morte jamais serão esquecidas.

Neste Setembro de 2021, Custódia perdeu o grande Dr. Pedro Pereira Sobrinho, o sábio, o intelectual e o dono da mais bela oratória que Custódia já teve. Como intelectual que era, leu os mais diversos clássicos da literatura brasileira. Era apreciador refinado de obras musicais consagradas. Escolheu do seu repertório as músicas “London, London” e “Tema de Lara” para o seu cortejo ser menos dolorido. Contudo, doeu ver que Custódia ficou desprovida de tão fabulosa inteligência. No passo a passo, sabia caminhar com seus alunos, desvelando aos mesmos os segredos e dificuldades da caminhada da escola e da vida na escola. Como mestre, foi profeta, poeta e soube usar de autoridade quando necessário, sem jamais usar do autoritarismo. Mestre por excelência, contribuiu com sua rica experiência pessoal, acadêmica e profissional para a formação de cidadãos críticos, reflexivos e responsáveis na construção de uma sociedade mais justa, fraterna, equânime e democrática.

 

Tela feita por seu ex-aluno Plínio Fabrício

Seu nome, Dr. Pedro, está gravado na mente de cada custodiense, no ontem, no hoje e estará no amanhã, com certeza pela lembrança de suas aulas cheias de aprendizado e enriquecidas com exemplos dinâmicos e espirituosos. Nas fotos dos desfiles cívicos, recordamos sua presença indispensável nas formaturas do Colégio Municipal Ernesto Queiroz e na constante preocupação com a educação. Vanguardista no campo educacional do município, fundou o primeiro colégio técnico de Custódia, o Colégio Técnico Joaquim Pereira da Silva, no ano de 1974 e dessa aquisição, saíram várias turmas de profissionais, com todos os requisitos para o mercado de trabalho. 

Primeira turma formada no Colégio Técnico Joaquim Pereira. Desta turma, vários profissionais se destacaram em Custódia profissionalmente



Na vida social, com uma legião de amigos, se fez presente nos grandes bailes e festas do município. Participou como membro ativo da direção do Centro Lítero Recreativo de Custódia - CLRC. Foi fundador do Lions Clube de Custódia. E ainda se destacou como ator político e influenciador de nossa cidade.

A Paulo Peterson e Paula, deixo minha mensagem de orgulho de ter conhecido seu pai, um portador de inúmeras virtudes e dinamismo.

A Lena, Dona Joany, netos, nora, genro e demais familiares, meu abraço fraterno pela perda do ilustre doutor.


Lindinalva - Nenê.

Custódia, 23 de setembro de 2021.


[Causo] Joventino Feitosa - por Fernando Florêncio



Após o jantar, aquele homem enorme, Joventino Feitosa, devia medir mais de dois metros de altura, sentava-se no banco da Praça Padre Leão, defronte a sua venda, dobrava as pernas, uma de cada vez, apoiava o calcanhar no banco e começava a coçar frieiras, dizia ele.

Era bom papo. Um vozeirão inconfundível e excelente contador de estórias. Ficava ali até as luzes piscarem pela terceira vez. Era Barnabé dando o sinal de que iria desligar o gerador, apagando as luzes da cidade. Era perto das 22 horas. Quando a lua era cheia, o papo se alongava.

Uma das características de Joventino, é que invariavelmente, só andava de chinelos. Chinelos grandes. Devia calçar de 45 pra cima.

A galera dizia que Joventino só calçara sapatos para casar. E de quatro em quatro anos quando havia eleições.

Comerciante, Joventino tinha uma das melhores e mais sortidas Bodegas da cidade. Depois da de Sêo João Miro, que agregava também uma padaria. Era a melhor do quadro, como se chamava o centro comercial de Custódia. Nos dias de feira, a freguesia era grande. Se fosse hoje, seria um Bazar. Tinha de tudo.

Entre muitas mercadorias que Joventino vendia, tinha um produto químico que chamava-se BENZOCREOL, era um larvicida muito usado na cura de bicheiras e também excelente no tratamento de animais com infestação de carrapatos.

Não precisa falar do sucesso do produto. Poderia faltar na bodega de Joventino até Ceará (carne sêca) mas Benzocreol, nunca.

Pedir o produto pelo nome certo, em algumas situações era difícil, porque depois de algumas lapadas da “branquinha” dava um branco na cabeça da matutada e esqueciam o nome do Benzocreol.

Os matutos encostavam no balcão e pediam: Sêo Joventino, ainda tem REMÉDIO para carrapato??? Se tiver me dê um vidro.

Joventino, só de sacanagem devolvia a pergunta:

ÊLE ESTÁ SENTINDO O QUÊ, MEU FREGUÊS ????
 
 

Fernando Florêncio
Ilhéus/BA

22 setembro, 2021

VIII Festival Vamos Fazer Poesia! teve participação de representantes de Custódia

 

Poeta Luiz Gonzaga Maia é TRI CAMPEÃO DO FESTIVAL VAMOS FAZER POESIA!

O Poeta e Produtor Cultural, serra-talhadense, Iranildo Marques, realizou o VIII FESTIVAL VAMOS FAZER POESIA!

O evento aconteceu neste final de semana (18 e 19) no Clube de Campo Rancho das Águas no sítio Jurema, município de São José do Belmonte-PE.

Compareceram ao evento, poetas de todo Brasil, representando os Estados de Pernambuco, Ceará, Rio grande do Norte, Paraíba, Bahia, Piauí, Sergipe, Amazonas…

O evento como em todos os anos homenageia um poeta vivo e o homenageado desse ano foi o grandioso poeta Leonardo Bastião, que se diz orgulhoso de ser chamado de Poeta Analfabeto. “Queria que todo poeta letrado, tivesse 30% da sua verve poética” disse o produtor Cultural Iranildo Marques que realiza há 8 anos o referido Festival, intitulado como o maior FESTIVAL de POESIA do MUNDO.

“São 8 edições, são 8 obras literárias, são 8 anos lutando para realizar esse Festival que já divulgou e forjou diversos poetas nordestinos e brasileiros. O festival também homenageia um poeta falecido e esse ano foi o REPENTISTA EDEZEL PEREIRA que foi jurado e se apresentou por duas VEZES no referido Festival. EDEZEL PEREIRA participou do VII FESTIVAL como JURADO e REPENTISTA e recentemente, foi vítima da Covid 19.

O Festival consiste em Descobrir, incentivar, premiar e divulgar os poetas brasileiros.

Todos os anos os Produtores Culturais, IRANILDO e EVÂNIA MARQUES, disponibilizam três MOTES e divulgam as inscrições nas redes sociais e cada poeta faz as Glosas e envia por e-mail e paga uma taxa de inscrição que dá direito a um exemplar do livro e o poeta concorre à seguinte premiação:

1° Lugar: 300 exemplares do livro do poeta CAMPEÃO contendo 100 páginas.

2° Lugar: 200 exemplares do livro do poeta Classificado contendo 100 páginas.

3° Lugar: 100 exemplares do livro do poeta Classificado contendo 100 páginas.

Do 4° ao 20° todos receberão troféu.

O campeão esse ano foi pela TERCEIRA VEZ CONSECUTIVA, o poeta cearense do Limoeiro do Norte, LUIZ GONZAGA MAIA.

O segundo lugar ficou com o Poeta ANDRADE LIMA de São José do Egito-PE.

E em terceiro lugar, o poeta MARCIANO MEDEIROS da cidade de Parnamirim-RN, que já foi classificado por diversas vezes e inclusive, também Campeão.

Também foram premiados os Poetas: Alex Alves que percorreu mais de 55 horas utilizando Canoa, Barco e Balsa e 6 horas de avião e mais 6 horas de automóvel, até chegar no evento, vindo do interior do Amazonas e Adalberto Santos que veio de São Paulo para participarem exclusivamente do VIII FESTIVAL.

Postado Originalmente no site Jornal Desafio

Os custodienses Pedro Alves, Izaias Moura e a poetisa Silmara Feitosa foram nossos representantes. 

Pedro Alves

Izaias Moura

Silmara Feitosa

Comentário do poeta Marcos Silva

Parabéns poetas! Voces levaram para a nossa cidade reconhecimento e três troféus esses que vocês apresentam aí. O meu troféu logo vou receber, voces estão sendo vistos no mundo todo através da nossa TV POESIA  no Youtube. Graças a Deus e ao poeta Iranildo Marques de Serra Talhada, que vem nos dando apoio nessa  caminhada da poesia. Salve os poetas. Viva Deus, viva a poesia, vivam os poetas e poetisas.

1ª Turma de Professores do Colégio Normal (1970)


1º fila em pé, da esquerda para direita:
Glorinha Amaral, Iracilda, Moema, Mazé Beltrão, Lindinalva, Salete Amaral, Pipi Germano, Socorro Bezerra e Sebinha.

2º fila em pé, da esquerda para direita:
Nelizinha, Maria do Mudo, Nicinha do Quitimbu, Ednalva Marinho, Sonia Quidute, Dilza Valeriano e Rosa Góis.

3º fila sentados, da esquerda para direita:
Pedro Pereira, Nazinha, Etelvina Rodrigues, Cila Amaral, Zezita Queiroz e Orlando Ferraz.

Arquivo Pessoal: Lindinalva

20 setembro, 2021

Mãe do ano (1963) - por Jussara Burgos

 




Acompanho o Blog Custódia desde o seu início e percebo que existe um tabu entre nós Custodienses sobre desavenças políticas do passado. Ninguém fala, portanto não existem registros, mas isso não muda a natureza dos fatos.

Fatos esses fazem parte da nossa história. Sem querer ferir suscetibilidade de ninguém me atrevo contar um episódio dessa época sombria que vivemos no início da década sessenta.

Custódia era dividida em dois partidos: A UDN de Ernesto Queiroz e o PTB de José Gonçalves Florêncio, mas conhecido como Zé de dona Rosa ou Zé Florêncio, que fazia oposição ao líder do partido adversário. Zé Florêncio começou a fazer trabalhos sociais, festas na sede do PTB, tinha escola e promovia eventos como a escolha da mãe do ano.  O que levou Zé Florêncio ganhar a simpatia de uma parte da população e conseguir se eleger prefeito em 1963.





Lembro-me que na sede do PTB havia uma difusora que tocava a música Flor Mamãe.  A festa era bem organizada, eram oferecidos brindes para as mães Depois da escolha da mãe do ano, a mãe eleita desfilava em carro aberto (Jeep sem capota) enfeitado com flores, percorrendo as principais ruas da cidade, com carreata, com banda de música acompanhando. 

Zé Melo lembra que em uma dessas festas houve um show como o cantor Joaquim Gonçalves, que fazia sucesso em todo Nordeste com músicas de Nelson Gonçalves.

A primeira mãe do ano eleita foi à bela Elvira Campos Moura Oliveira esposa do Sargento Ulisses

Olegário de Oliveira e mãe de Marcos José Moura de Oliveira e Márcio Wellington Moura de Oliveira, nascido em 28 de agosto de 1961.

O Dr. Francisco Sampaio presidiu a festa onde, dona Elvira Moura passou a faixa para dona Quitéria, esposa do Sr. Pedro Mariano. Não temos certeza do ano da fotografia, provavelmente foi em 1963.

Agradeço a foto cedida por Márcio Wellington. As informações de Marcos Moura, Jorge Remigio e de Zé Melo.

Jussara Burgos
Luziânia - GO
Setembro/2021



Dr. Pedro e o Veleiro - por Leônia Pinto Simôes

 


Foto de Conclusão do Curso de Magistério,
em 27 de dezembro de 1980,
em Custódia/PE.

Sem muito tempo para as redes sociais, só agora me deparei com a notícia da partida de Dr. Pedro. Isso me fez lembrar um  texto do rabino, Henry Sobel, que faz uma analogia entre partida e chegada, sobre a morte e a Vida Eterna. compartilho com vocês... 

"Quando observamos, da praia, um veleiro a afastar-se da costa, navegando mar adentro, impelido pela brisa matinal, estamos diante de um espetáculo de beleza rara. O barco, impulsionado pela força dos ventos, vai ganhando o mar azul e nos parece cada vez menor.

Não demora muito e só podemos contemplar um pequeno ponto branco na linha remota e indecisa, onde o mar e o céu se encontram.

Quem observa o veleiro sumir na linha do horizonte, certamente exclamará: "Já se foi !".

Não, certamente. Apenas o perdemos de vista. O barco continua do mesmo tamanho e com a mesma capacidade que tinha quando estava próximo de nós. Continua tão capaz quanto antes de levar ao porto de destino as cargas recebidas. O veleiro não evaporou, apenas não o podemos mais ver.

E talvez, no exato instante em que alguém diz: "já se foi", haverão outras vozes, mais além, a afirmar: "lá vem o veleiro!!!"

Assim é a morte."

Seu Joaquim, dona Corina, dona Noemia, Hiran e tantos outros que já atravessaram o mar, agora aguardam com alegria a chegada de Dr. Pedro.

A Paulo Peterson, familiares e amigos, pela tristeza de verem o veleiro se afastar, meu abraço fraterno e solidário.

"Ao Mestre com Carinho"

Leônia Simões
Recife/PE
Setembro/2021

19 setembro, 2021

Dr. Pedro Pereira Sobrinho foi para mim - por Rogéria Marília Campos

Foto: Rogéria Marília Campos

Dr. Pedro Pereira Sobrinho foi pra mim:

O Compadre Pedrinho e amigo de infância de minha mamãe;
Meu Dentista;
O maior Jurista;
Meu inspirador (como sonhei um dia seguir a carreira de advocacia!); 
Uma enciclopédia viva;
Meu Paraninfo de conclusão do 1° grau;
Meu melhor Diretor e Professor;
O maior contador de casos e causos...

Eita, Dr. Pedro, sua hora foi chegada, o tempo de Deus é para todos...
e, encerrou sua tão brilhante trajetória.

Fostes um ícone!
Como educador fostes ímpar.
Austero!

Nós que tivemos a oportunidade, e o privilégio, de receber seus ensinamentos.
Só agregamos para nosso futuro, como pessoa e profissional.
És um orgulho pra Terra Querida,  e sempre serás lembrado.

Suas narrativas eram de nos deixar de "queixo caído" e sem pestanejar.
Suas aulas de Direito passavam tão rápido!
Aulas essas, que não perdia a oportunidade de falar de sua LENILDA, a Madalena,  e de seus filhos PAULA CORINA E PAULO JOAQUIM, além de mais familiares...

Como o senhor era além do tempo!
Eras uma sumidade!
Fostes primeiro sem segundo, em oratória.
Entretanto,  não eras imortal!
Eras um humano! Que será perpetuado nos corações e mentes daqueles que, através de ti, aprenderam e cresceram pela sua maestria.

Hoje, Custódia fica mais pobre, por te perder!
Sofrem os familiares,  amigos, a  Educação e a advocacia.  
Descansa em paz, Doutor!

Aos familiares PEREIRA, deixo aqui registrada,  nossas sinceras condolências, pela perda desse Ilustre amigo.

Que Deus, na sua infinita bondade o receba na Cidade Celestial.

Que envie o Consolador para preencher a lacuna que ficará nos corações dos seus amados filhos e familiares.

Recebam nosso abraço fraterno.
 


Nilda Campos e filhas.
 

 

 


 

Num aceno de despedida para Dr. Pedro - Por Elba Feitosa

 

Foto: Acervo Familiar

Num aceno de despedida quero deixar registrado aqui o apreço imenso pelo Senhor.

Ainda criança fui submetida aos seus cuidados de odontólogo e mesmo com o medo natural que tínhamos de Dentista, ao terminar o Senhor pergunta:

- E aí, doeu? E eu prontamente respondi: O Senhor é um grande “Extrator”!

E essa história repetidamente foi contada kkkk

Na direção do Colégio Ernesto Queiroz era impecável em aliar estudo e disciplina, tendo como base uma educação de qualidade para todos. Se nos pegasse de farda passando na rua, botava pra casa com direito a uma “chamada” na sala de aula.

No Colégio Técnico Joaquim Pereira, nas suas aulas de Direito, nos fez passear por Custódia e conhecer tantos causos de sua gente, sabia que assim a aplicação da lei seria mais fácil de entendimento. A prova era oral, a nota 5 ou 10!

Júri com Dr Pedro era sinal de fórum cheio até pelo corredores, eu fui a muitos. Sua oratória, até hoje não encontrei igual.

Sempre deu aula em tudo!

Mestre na Escola, Mestre na vida!

O amigo das noitadas de longas conversas, pena que a hora parecia voar diante de suas palavras.

O amigo de todas as horas!

Quando em Custódia chegou a notícia da morte de meu pai, foi a primeira pessoa a ir para Betânia encontrá-lo, acho que na esperança de socorrer o amigo e como não teve essa oportunidade se manteve ao seu lado até chegarmos.

Dr Pedro foi a mão amiga que tocou meu ombro no pior momento da minha vida.

Foi o abraço que manteve de pé quando na minha frente meu pai estava sem vida.

Minha Gratidão agora se eterniza com sua partida.

Obrigada Dr Pedro!

Ah, as vezes que nos encontramos me reconheceu e eu sou muito grata por isso.

Meu querido amigo, segue na luz!

Esse céu ganhou o melhor contador de histórias.

Os seus amores e seus amigos, Custódia, sua gente, o Sport hoje ficam mais órfãos.

Descansa em paz, amor e luz, Mestre!

Elba Feitosa
Custódia-PE
Setembro/2021

Postado Originalmente em seu perfil no Facebook



14 setembro, 2021

Livro "O Mapa da Rima" da custodiense Shirley Rodrigues

 


“O Mapa da Rima” e “O Cordel de Escrita Feminina em Pernambuco”, das pesquisadoras Eulina Fraca e Shirley Rodrigues, resgatam a história de cordelistas e documenta a presença feminina no gênero literário

 

Patrimônio Imaterial Cultural Brasileiro, o cordel agora ganha memória pelas mãos das pesquisadoras e escritoras Eulina Fraca e Shirley Rodrigues. Elas assinam os livros “O Mapa da Rima” e “O Cordel de Escrita Feminina em Pernambuco”. A linguagem poética popular, que tem a rima como uma de suas principais características, sempre esteve presente na vida das autoras, que se conheceram durante a graduação em XX, quando decidiram desenvolver projetos com a temática. “Nesse tempo de atividade, percebemos a ausência de memória em nossa literatura que retratasse a trajetória do cordel, seus escritores pioneiros e também a presença feminina nesse universo”, conta Shirley.

Assim, nasceram as duas obras, que são editadas pela Coqueiros, única editora que trabalha com esse gênero literário e têm arte desenvolvida pelo cordelista Leandro de Farias leal. As narrativas, que trazem alguns versos e mesclam harmonicamente conteúdo e poesia, já foram apresentadas na Europa e integram o acervo de bibliotecas de Portugal, Espanha e França.

Durante um ano e oito meses, elas realizaram pesquisas quantitativas e qualitativas, imersões em acervos e aproximações e conversas com cordelistas em Pernambuco, no Rio de Janeiro, Ceará e Rio Grande do Norte que permitiram costurar as informações e criar um arranjo das narrativas. “É um trabalho pioneiro e necessário porque documenta quem somos e reconhece os principais nomes que deram origem a essa expressão”, comenta Eulina.

Em 84 páginas, “O Mapa da Rima” (R$ 20) resgata a história e as obras dos poetas pernambucanos que escrevem, ou seja, de bancada, como Silvino Piruá, criador do romance, e João Matias de Ataíde, um dos maiores tipógrafos brasileiros. No entanto, o mapeamento se volta, em especial, a Leandro Gomes de Barro. Foi ele quem identificou o potencial mercadológico do cordel e deu início à produção da arte impressa no formato já familiar da cultura nordestina.

A soberania masculina encontrada ainda no cordelismo é o mote do livro “O Cordel de Escrita Feminina em Pernambuco” (R$15), concebido a partir da inquietação das escritoras ao perceber a ausência das mulheres em encontros culturais. Na obra, de 40 páginas, elas descortinam a autoria dos cordéis de Maria das Neves Batista. Primeira cordelista brasileira, ela utilizava o nome de seu esposo – Francisco das Chagas Batistas – para assinar suas criações.  Ao todo, são aproximadamente 13 mulheres que ganham o reconhecimento por suas obras e têm suas vidas apresentadas aos leitores.

Escolas – Além da produção de livros, Eulina e Shirley desenvolvem projetos na área educacional com o objetivo de expandir o conhecimento sobre o cordel. A ideia é estimular e fortalecer um ecossistema que envolve editoras, centros acadêmicos e escolas. Por isso, elas estão em desenvolvimento do projeto “Cordel: novos tempos, novos leitores”. O objetivo é trabalhar a poesia e o cordel em forma de oficinas, buscando ser um atrativo cultural e motivador da leitura, como também difundir a cultura popular do cordel.

 


 

Passagem de Lampião por Custódia


Quando esse fato ocorreu, Custódia ainda era uma vila pertencente a atual Sertânia, antiga Alagoa de Baixo. Lugar aconchegante e simpático, de uma gente bastante ordeira, dedicada ao comércio, a agricultura de subsistência e criação de bode.

É uma das cidades sertanejas que mais têm se destacado como lugar de paz, mesmo quando o restante da região sofre com atormentadas encrencas de famílias, que levam muitos à morte. Em Custódia, mesmo com os problemas que lhe são pertinentes por ser uma cidade igual às outras em qualquer parte do Brasil, o sossego reina.

O dia vinha amanhecendo – 11.02.1925 – como outro qualquer. Mas quem ia abrindo a janela ou a porta de casa ia tendo uma grande surpresa ao se deparar com um grupo de cangaceiros em plena praça. Uns sentados no chão, outros escorados nas árvores, na maior tranqüilidade que se possa imaginar. Quem vinha passando para ir ao açougue comprar carne ou verdura apressava o passo com receio que pudesse acontecer ao dar de cara com Lampião e seus quarenta cabras.

Nos arredores que dão acesso as estradas da vila encontravam-se pequenos grupos de três ou quatro cangaceiros para dar segurança aos que entraram na rua principal.Essa tranqüilidade dos cangaceiros devia-se a Lampião estar informado, misteriosamente, não se sabe como, que os praças do destacamento local haviam fugido logo antes do amanhecer, na chegada dos visitantes, avisados por alguém. Ficaram apenas dois, que naquela noite não estava dormindo no quartel, e sim em suas residências. Eram eles, João de Paula e Pedro Soares. Esse último era um negro apelidado de Capuxu.

As autoridades do campo da política também haviam fugido sem tomar nenhuma medida. Eram os senhores Ernesto Queiroz e Dr. Tenório. As poucos as pessoas foram se chegando e conversando com os cangaceiros, a meninada com toda sua curiosidade fazendo mil e umas perguntas e eles respondendo, contando histórias para impressionar os presentes que ima se aglomerando mais e mais a cada instante. Quando a cidade já estava totalmente acordada os cangaceiros se espalharam em turmas e foram para as bodegas fazer compras, beber cachaça, e tudo era pago corretamente.

Lampião, acompanhado de seus irmãos Antônio e Livino, e de seus cabras Luiz Pedro, Félix da Mata Redonda, Fato de Cobra, Chá Petro, Chumbinho, Sabino, Sabiá, André e Jurema se dirigiram para os maiores comerciantes do lugar, Zé Moura e Zé Rouxinol, deixou claro que aquelas passagem por ali era apenas para aquisição de munição, mas casa não tivesse a munição aceitava o dinheiro para comprar posteriormente. Em toda casa ou pessoas que encontravam e pediam dinheiro, explicava o Rei do Cangaço:

“-Arrepare não a gente ta pedindo assim. É porque o governo num dêxa nóis trabaiá”.

Ao chegarem numa casa encontraram o soldado Capuxu e pediram a arma.

“-Só eu indo buscar no quarté”.

Respondeu, sem titubear, o milico.

Lampião disse:“- Se tivesse mais macacos com você, era capaz de brigar com meus meninos?”

Como se diz aqui no sertão, a resposta foi em cima da fivela.

“- Sim. Cumpriria meu dever até a morte”.

E acrescentou:

“- Se estivesse num grupo de cangaceiros também faria a mesma coisa”.

Lampião sorriu e mandou o soldado ir embora sem constrangimento. Assim que o militar retirou-se, o chefe dos cangaceiros virou-se para seus cabras e disse:

“- Home desse tipo tem que ficar vivo para tirar raça de gente valente”.

Enquanto Lampião circulava pela vila conversando com os comerciantes e pessoas influentes do lugar, o restante da cabroeira, pelas bodegas, no meio da praça ou onde estivessem, eram alvo de admiração de muita gente. Aqui e acolá alguém pedia para dançarem um pouco de xaxado, e dançavam com satisfação. Alguns rapazes e meninos procuravam imitá-los arrastando o pé no ritmo da “dança de cabra macho”.

Ao atravessar a rua encontrou Valdevino Alfaiate abrindo sua alfaiataria. Cumprimentou e pediu para olhar o mostruário. Enquanto olhava os tecidos o mestre da tesoura perguntou:

“- Lampião, é verdade que esses homens são muito valentes?”

Rindo, respondeu:

“- Home, qui us cabras são atrevidos, lá isso são. Mas comigo eles já sabem como são as comidas…I têm que comê sem inguiá”.

Agradou-se de um certo brim e perguntou ao alfaiate se seria possível confeccionar um terno para entregar ainda naquele dia, puxando até a boca da noite. Respondeu que sim. Em tom de voz bastante calma e branda, Lampião teve o cuidado de dizer:

“- Se você acha que fazendo esse trabalho pra mim, pode causar problemas pra sua vida, então não faça. Não tem problema nenhum”.

O profissional disse apenas que faria aquele terno com o maior prazer e iria, a partir daquele momento, mobilizar toda a sua equipe para entregar na hora desejada. Foram tiradas as medidas e puseram mãos a obra.

Saiu da alfaiataria e rumou com seu grupo para a mercearia de Jovino Costa Leão, onde estava outros cangaceiros bebericando e cantando, ritmando com palmas. Lampião dançou um dos passos de xaxado para umas moças que estavam olhando de longe.

Agora se dirigia para a farmácia quando encontrou o coletor José Guilherme, que a partir desse momento andaram todo tempo juntos, fazendo as visitas.

Na farmácia, pertencente ao farmacêutico Joaquim Pereira da Silva, comprou mercúrio, gases, comprimidos Bayer, pagou e pôs o pacote das comprar no bornal. Pediu ao mesmo que verificasse uns dois cangaceiros que já poucos dias foram feridos num tiroteio acontecido em Cachoeira dos Galdinos, contra volantes de Betânia e Nazaré. Os ferimentos não eram graves. Vinham tratando até ali com casca, raízes e folhas, mas se agora estavam numa farmácia, nada como um especialista. Joaquim justificou que para cuidar de ferimentos, seu amigo e também farmacêutico, era mais preparado, e assim, chamou o colega, que tinha o nome de Manoel Cristovão dos Santos. Este demonstrou muita habilidade no que fazia. Cuidou dos ferimentos dos cangaceiros com muita maestria.

Lampião, que a tudo assistia, ficou admirado com a presteza, atenção e, sobretudo, com a aptidão em tratamentos desta natureza que o jovem Manoel demonstrava, que de imediato convidou a ingressar no cangaço, para ser o médico oficial do seu grupo.

A resposta foi negativa, mas mesmo assim, agradou mais uma vez ao Rei do Cangaço:

“- Lampião, hoje tenho família pra cuidar. Mas toda vez que precisar de mim pode me procurar. Se for o caso, pode mandar um dos seus meninos me avisar que irei na hora”.

Sempre acompanhado, Lampião chega agora à residência de um cidadão chamado Zé de Moura, cumprimentou toda sua família gentilmente, comeu uns doces e sentou-se numa espreguiçadeira na calçada. Disse bonachão:

“- Ô Zé, tu vive dizendo que eu num entro em Custódia, qui si eu vim aqui, morro”.

Antes do trêmulo pai de família dizer uma palavra, ouviu o complemento:

“- Deixe de ser besta, Home. Agora tô eu aqui na tua espreguiçadeira, na tua calçada…”.

Após uns quarentas minutos conversando a vizinhança e curiosos que vinham lhe visitar e prosear, viu passando uma pessoa que disseram ser o telegrafista. De fato, era o agente do telégrafo Kepler Lafaiete. Lampião chamou o rapaz e foram todos para o posto e enviaram uns telegramas para o Governador do Estado, Sérgio Loreto, com uma série desaforos, chamando o chefe do Estado de covarde e que mandasse o chefe do birô dando ordens, empurrando os soldados no fogo. Interessante, esse telegrama foi a única coisa que Lampião não pagou quando esteve em Custódia. Disse debochadamente ao telegrafista:

“- Não vou pagar esse telegrama porque o telégrafo é do governo. Além do mais estou enviando para o próprio governo. Se eu pagar estou roubando eu mesmo”.

Todos que estavam ai riram da caçoada do Comandante das Caatingas.

A noite vinha chegando e a maioria do bando, com Lampião à frente, chegaram na casa do comerciante Zé Rouxinol. Como fora combinado previamente, um farto jantar foi servido, com os cangaceiros se revezando na mesa com os que estavam montando guarda.

Já estava dando horas da noite quando Lampião chegou à alfaiataria e o Valdevino estava sentado em sua confortável cadeira aguardando seu famoso cliente. Este chegou, verificou a roupa, gostou. Não queria experimentar tirando o que estava vestindo. Abriu o bornal e tirou uma nota alta e pagou conforme combinado.

“- Lampião, pra mim o trabalho só é completo quando o freguês testa”, disse o alfaiate.

Lampião não contou conversa. Foi na camarinha, se desequipou todo e vestiu a roupa nova:

“- Está ótima!”.

Disse Lampião abrindo um sorriso. Foi motivo de alegria também para o mestre.

Despediram-se.

Em seguida o alfaiate fechou seu estabelecimento e foi apressadamente pra casa.

Quando os cangaceiros foram beber nas bodegas e mercearias, bater pernas pelas calçadas, conversar com as pessoas, até a madrugada chegar.

Quando Custódia dormiu, os cangaceiros desapareceram dentro das caatingas.

Trecho retirado do livro LAMPIÃO nem herói nem bandido A História, de Anildomá Willians de Souza, lançado em 2007 pelo escritor que é membro da Academia Serra-talhadense de Letras e da União Brasileira de Escritores/PE.

Contato do autor:
Rua Virgolino Ferreira da Silva, 06 – Cohab
56.909-110
Serra Talhada-PE
Telefone: (87) 3831-2041
E-mail: cabrasdelampiao@bol.com.br

13 setembro, 2021

[Biografia] Atanael Rezende - Grupo Atan

Divulgação


Atanael Rezende nasceu na zona rural de Custódia, interior de PE. Sua família vivia da renda do pequeno sítio, que possuía para a própria subsistência. Aos 5 anos se muda para uma vila a 3 km do sítio, percurso que sempre percorria a pé. A 35 km da sede município, cujo acesso se dava por "estrada de chão”. Só aos 6 anos entra na escola. Aos 7 anos, o seu pai teve um problema de saúde e por recomendação médica, não poderia mais andar desacompanhado. 

Por ser o filho mais velho, Atanael passou a ter a responsabilidade de acompanhá-lo e por isso precisou sair da escola. Voltou a estudar apenas aos 8 anos, época em que um evento marca a sua vida: a caminho do sítio com o seu pai, Atanael comenta sobre a compra de um carro por um vizinho da família e pergunta se eles não poderiam fazer o mesmo e escuta como resposta: "Vamos trabalhar, quando você estiver com 15 anos eu compro um carro e você será o motorista". 

Mesmo aos 8 anos, aquele momento foi impactante para Atanael. Refletiu e chegou a conclusão que fazendo o que o seu pai fazia, jamais teria um carro. Naquele momento percebe que precisa ser independente da família para conquistar o que queria. Passou a vender chocolates na escola em que estudava para ajudar em casa. 

Aos 12 anos começou a frequentar a serraria do pai de um amigo e acabou convencendo-o a produzir máquinas diferentes para fabricarem móveis. Após 2 anos trabalhando com a produção de móveis, juntou algum dinheiro e, aos 14 anos, montou sua própria marcenaria. Novamente, sabia que o negócio dificilmente lhe proporcionaria o futuro que gostaria. Muda-se para a cidade de Custódia para poder concluir os estudos passando a morar na casa de familiares. 

Aproveitando suas habilidades comerciais passa a vender consórcios de eletrodomésticos. Em 1997, aos 21 anos, abre um pequeno comércio de eletrodomésticos, a Atan Eletro. Passa a vender também móveis e em alguns anos abre mais 2 lojas na região. 

Em 2010, percebendo uma oportunidade na distribuição de eletrodomésticos no interior, funda a Atan Distribuidor para atender ao pequeno e pulverizado varejo do interior. A equipe comercial era Atanael e um funcionário. 

Em 2017 amplia a área de atuação para outros Estados do Nordeste. Nos primeiros 6 meses a operação não só deu prejuízo como consumiu todo o lucro do varejo. 

Em 2015 funda a Atan Engenharia que atua com loteamentos e condomínios residenciais para os segmentos Minha Casa Minha Vida e empreendimentos de médio padrão. 

Hoje, o Grupo Atan emprega 350 pessoas em 3 negócios, a incorporadora, 4 lojas de varejo e a operação de distribuição. Tem 1 Centro de Distribuição em Custódia para atender ao varejo e outro em Campina Grande para a distribuição. 

Projeta 10 lojas até o final de 2022, incluindo 2 lojas com 10.000m2 de área. Deve abrir mais 1 Centro de Distribuição em 2021 e outro em 2022. 

Atua em todo o nordeste e é considerado um dos principais distribuidores do segmento. Trabalha com marcas como Arno, LG Electronics, Whirlpool Corporation, dentre outras.

Texto:
Fábio Gonçalves de Oliveira
Headhunter | Sócio na Audens - Recrutamento de Executivos

Postado Originalmente no Linked In

Né Marinho meu pai - Por Laíse Pires

 

Né Marinho

Conterrâneo de Custódia e escritor do melhor quilate, Zé Melo escreveu uma irretocável biografia de Manoel Marinho de Rezende - Seu Né ou Seu Né Marinho, como era chamado. Quando leio, sempre me emociono, porque, num estilo que faz o que diz fluir leve, sonoro, livre e bonito, ele revela traços que identificam fielmente meu pai. Tenho inveja, no bom sentido, desse texto de Zé Melo. Em Memórias de Né Marinho e Ester Pires, minha irmã Vanise, escrevendo bem e bonito, acrescentou dados importantes, que me tocam muito. Resta-me falar do que gosto mais, que é sobre a figura dele nos seus contornos mais pessoais, no seu jeito de ser e de lidar com o outro.

Na verdade, pra decidir escrever sobre ele, fui provocada, no melhor sentido da palavra, por alguns dos tantos conterrâneos que guardam dele tantas e tão importantes lembranças. Lúcia Góis, que tem um forte sentido de valorização do outro, deu o toque inicial: “Grande homem, desejaria conhecer mais da sua personalidade íntegra, ser humano bondoso, que deixou boas recordações.Como é prazeroso falar de alguém que deixou marcas de amizade, amor e respeito com o outro!”  Luciano Veríssimo escreve: “Lembro dele tomando uma cervejinha só. Muito educado e atencioso.” E Célia diz que “Gostaria de saber mais sobre ele.” A prima Socorro relata: “Né Marinho, meu tio avô, lembro dele em Custódia e já no Recife, quando passava na Av. Guararapes, lá estava ele no Bar Savoy tomando sua cervejinha e trajando elegantemente com seu impecável terno e gravata. Realmente foi um grande homem e de suma importância para Custódia.” Josamira Duarte, filha de Seu Abílio e irmã de Joanita, que trabalharam com ele por longo tempo, resume: “Um ilustre cidadão que fez a diferença na nossa Custódia.” E Marcos Moura: “São muitas e marcantes e boas as lembranças que temos do Sr. Né Marinho, o homem educado, que se vestia com elegância, sempre de terno e gravata, com aquela forma inesquecível de pentear o cabelo, eu muito jovem me lembro dele. Tenho lembrança dele no Bar Savoy em Recife tomando umas cervejinhas com Clodoaldo, esposo de Marival. Boas lembranças desse ilustre custodiense.” Ele marcou sua presença no seu tempo, inclusive para esses e outros jovens da época. Como filha, não posso furtar-me ao que me cabe e que me dá prazer. E ainda, por outras linhas, cumpro meu desejo de atender a um antigo pedido do querido Paulo Peterson.

 

Né Marinho e sua esposa Ester Pires.

Meu pai, um homem inteligente e íntegro, era sempre e naturalmente educado, tranquilo, sereno, manso, pacífico, solidário, generoso e conciliador. E outros tantos adjetivos caberiam para definir a rica figura humana que ele foi. Essas características conquistavam todos quantos dele se aproximavam.

O que toca mais forte em mim é o seu traço generoso e conciliador, que me vem à lembrança sempre que penso nele. Lembro que havia uma espécie de “freguesia”, formada por aqueles que o procuravam na certeza de que podiam contar com ele - porque sabiam do seu grande coração e de ser ele um “mão-aberta”. Tabelião que foi por toda uma vida, era procuradíssimo para dirimir contendas as mais diversas, no cartório, vizinho do seu Bar Fênix, que ficava ali no “quadro da rua” - ou Praça Padre Leão.

Guardo histórias que revelam alguns desses traços de papai. Certa vez, foi procurado por um proprietário de terras, conhecido por Seu João Velho. Queria ouvir papai sobre uma questão para poder “brigar na justiça”. Tratava-se de uma demarcação de terra em que um proprietário vizinho avançara o sinal: ao colocar a cerca divisória, suprimia uma estreita “tira” das terras do João Velho. Papai ponderava: - “Mas você tem muitas terras, e essa faixa não vai lhe fazer a menor falta! Deixe isso pra lá! Pode lhe trazer problema de inimizade, de briga ... A gente nunca sabe do que o outro é capaz...” E ele: - “Não, Seu Né, não é pela “tira” de terra que eu estou brigando, não, que não vale mesmo nada pra mim – é só pelo desaforo!” Mas acabou cedendo aos convincentes argumentos do meu pai.

Um dia, criança ainda, fui procurá-lo no cartório, chorando, pra me queixar de Seu Antônio Mataverde, que geria sua “banca de bicho”. Eu tinha jogado no macaco, e ele não quis me pagar, dizendo que deu borboleta. Papai fez aquele sorriso, pôs a mão na minha cabeça e disse: - “Vá lá e diga a ele que eu mandei dizer que ele se enganou, pois o bicho que deu foi macaco - e que pague o prêmio agora.” Vitoriosa e enxugando as lágrimas, fiz o que ele disse. Seu Antônio Mataverde curvou-se, me escutou, olhou pra mim de um jeito de quem percebe o outro na sua inteireza - e que ficou gravado para sempre na minha lembrança - sorriu e cumpriu o recado. Meu pai era o máximo, pensei.

Numa de suas idas ao Recife, que nos deixava sempre na expectativa do que traria na volta, me contemplou com um casaco de frio, que vejo ainda hoje nítido na minha lembrança – era de um vermelho “puxando pra cor de jerimum”, com listras brancas nos punhos e na gola alta. Caí no choro! Como merecia tanto? E por que só eu ganhei presente? Essas questões me dividiram: em vez de só envaidecida, fiquei preocupada, embora feliz.

 

 Nesta última foto, eles  estão com a primeira neta - Letícia -
e com o último neto - Danilo.

Ele tinha o hábito de dar um cochilo após o almoço, numa antiga espreguiçadeira que ficava na sala de jantar. Cobria o rosto com aquele lenço branco de que Zé Melo fala com tanta propriedade, e cada uma das filhas, num rodízio por dia da semana, assumia ao lado dele a tarefa de fazer cafuné, mais na careca do que nos cabelos, que o tempo ia rareando cada vez mais. Ganhávamos alguns trocados, mas a preguiça e a aflição, por perder tempo sem ir pra rua brincar, geravam algumas vezes aquelas típicas discussões de que “ontem fui eu - hoje é você!” E quando calculávamos mal, achando que ele já dormia, e saíamos de mansinho, ele apertava nossa mão, mostrando que ainda não pegara no sono. E reassumíamos nosso posto.

Os juízes e promotores que atuaram em Custódia, na época de papai, tinham a maior admiração por ele - porque com ele aprendiam muito exercitando as lições teóricas que tinham recebido na faculdade. Um deles, Dr. Mauro Jordão de Vasconcelos, juiz talvez na primeira comarca que assumiu antes de vir a ser o ilustre desembargador, tempos depois, foi meu professor de Processo Civil, na Universidade Católica de Pernambuco. Certo dia, em plena aula, falou sobre meu pai, tecendo-lhe os maiores elogios, sobretudo por sua impressionante inteligência, pois, com um mal concluído curso primário, tinha um nível de saber capaz de ensinar importantes lições de Direito. E, comovido, disse da sua enorme gratidão a “Seu Né Marinho de Custódia”. Foi uma das maiores emoções que tive na minha vida.

Essas e outras histórias do meu pai traçam um pouco o seu jeito de ser. As características e a rica experiência dele o levaram, aposentado, a continuar trabalhando, no exercício da advocacia, como rábula, no bom sentido da palavra – “pessoa que advoga sem ser formada em Direito”. E era uma incontestável razão para, morando no Recife, continuar indo sempre à sua amada Custódia, servindo e defendendo o direito do mais fraco. Esse ofício caía como uma luva no seu perfil.

Seu traço generoso e conciliador acho que ele imprimiu em nós, filhos, e repercutiu nas nossas relações. Até hoje, não registro qualquer séria desavença. Sempre fomos amigos, nossa relação é pacífica - o afeto tece as linhas que nos ligam uns aos outros. É uma herança dele e da minha mãe, Ester, esse lidar respeitoso e amoroso com o outro e com a vida. Ela deixou singulares marcas de genuína ternura e incontáveis lições de resiliência, fortaleza e fé - bastaria lembrar as prematuras e traumáticas partidas dos meus irmãosCecéu e Hélio.

Recentemente, numa conversa em que tecíamos certas lembranças de mamãe, seu neto Petras, filho mais velho de Herbert, disse: “Quando a gente fica triste pelas nuances da vida, eu ‘miro’ em vovó Ester, e a leveza dela me acalma.” E Diogo, meu filho mais velho: “Eu pude refazer essas imagens e vejo Dona Estar e Seu Né sempre presentes com o seu legado.” Ele lembrou que eu gostava muito do “imbu com leite”, a inesquecível imbuzada que ela fazia - “sumo de imbu, fervido e passado na peneira, com leite e açúcar” -mas a preferência dele era o seu doce de mamão. Essas doçuras repassavam pra nós aquelas que nutriam abundantemente seu coração.

Um outro traço importante e bonito do meu pai foi a preocupação permanente que teve com a educação dos filhos, prioridade absoluta na lista do apoio que deu a todos nós. Procurou fazer o melhor pra cada um, sem deixar de cobrar, ainda que discretamente, numa visão rara de futuro – a questão estudo era inegociável. A regra valia para todos: de Leny, mais entusiasta, a Marilda, mais relutante. E todos, cada um a seu modo, seguiram essa diretriz. Ele estimulava cada passo e vibrava intensamente com as nossas conquistas – até além do que queríamos. O orgulho de nós fazia brilharem os seus olhos e abrir aquele sorriso de puro prazer - tão característico dele.

Lembro de quando concluí o curso pedagógico, inevitável caminho para as jovens da época, após o curso ginasial. Eram três anos. Como fiz o primeiro no Santa Doroteia, em Pesqueira, e os dois últimos no IEP-Instituto de Educação de Pernambuco, eu não tinha direito, pelas regras vigentes, ao prêmio de uma “cadeira de professora” com que se contemplava quem conseguisse o 1º lugar, pelas melhores notas no curso, desde que cumprido integralmente no IEP. Meu pai soube e “comprou a briga” – não admitia que eu, tendo as melhores notas, não ganhasse aquele prêmio por ter cursado o 1º ano em outro colégio. Garibaldi Sá, jornalista amigo dele e sobrinho de Dona Maria de Seu Ernesto, defendeu esse meu direito no Diário da Noite – e eu morri de vergonha! Em três edições desse jornal, Garibaldi e o secretário do IEP discutiram a questão. Fiquei numa silenciosa torcida contra, pois não estava nos meus planos ensinar, mas aprender. Graças a Deus, a norma foi mantida – e eu pude seguir meu caminho. O resultado é que ele teve, lá na frente,um motivo de orgulho maior quando fiz concurso para Auditor Tributário, na época Fiscal de Rendas – e resgatei, mesmo sem ser meu propósito, aquela classificação, então fortalecida pelo sucesso de serem duas mulheres ocupando os dois primeiros lugares. Ele exultou e se comoveu, porque sequer sabia que eu ia fazer o concurso - não contei, com medo de não conseguir e deixá-lo triste. Quando um amigo viu a notícia no jornal, ligou pra ele dando os parabéns – ele disfarçou e curtiu aquela enorme alegria.

Dos muitos amigos que sempre teve, Gerson Gonçalves foi um dos mais chegados. Apesar da diferença de idade, os dois, que eram compadres, se davam muito bem. Por conta dessa diferença, me impressionava quando os via em frequentes, longas e animadas conversas.

Avesso a cargos políticos, na sua postura discreta dava apoio ao grande amigo Ernesto Queiroz, sempre que este se candidatou a prefeito da cidade – e sempre ganhou. Num certo ano, meu pai foi instigado a se candidatar a prefeito de Custódia. Em nota no jornal Diário da Manhã, se não me engano, o jornalista dizia que ele seria o candidato “a reunir maiores simpatias”, mas que não queria “nem ouvir falar no assunto”, pois, se não quis quando jovem, não iria, quando já gozava da aposentadoria, entrar nessa história. Desvencilhou-se rapidamente da tentativa, no seu jeito silencioso e convincente de agir – e não se falava mais nisso.

Impregnada no seu coração e na sua mente, Custódia estava presente em quase todas as conversas da família – tudo convergia para aquele espaço onde se fincaram as raízes de nossa família, a partir do encontro de meu pai com a minha mãe, que veio de Tabira. Ali em Custódia nascemos, ali crescemos, ali se consolidou o nosso núcleo familiar. E ali aprendemos a ser cidadãos de bem. E ali descobrimos um jeito de ser amigo que hoje é uma coisa rara de se ver.

Até os últimos dias de sua vida de praticamente um século – partiu em março de 2002 e faria 100 em setembro – o vínculo afetivo de meu pai com a nossa terra-mãe manteve-se firme e forte. Custódia era uma palavra mágica, que circulava naturalmente entre nós, especialmente com ele, pois a lembrança desse lugar trazia sempre o prazer que marcava o seu inesquecível sorriso. Até o médico dele, nas visitas regulares que lhe fazia, entrava contando que tinha acabado de chegar de Custódia. E dava as notícias que ele queria ouvir: estava chovendo por lá, e os conterrâneos, felizes, porque tudo se cobria de verde. Ele abria aquele sorriso, e seu rosto se iluminava – era o melhor sinal da alegria que enchia o seu coração.

  Texto
Laíse Rezende (filha) com Danilo seu filho
Recife-PE
Setembro – 13.08.2021