Né Marinho
Conterrâneo de Custódia e escritor do melhor quilate, Zé
Melo escreveu uma irretocável biografia de Manoel Marinho de Rezende - Seu
Né ou Seu Né Marinho, como era chamado. Quando leio, sempre me emociono,
porque, num estilo que faz o que diz fluir leve, sonoro, livre e bonito, ele
revela traços que identificam fielmente meu pai. Tenho inveja, no bom sentido,
desse texto de Zé Melo. Em Memórias de Né Marinho e Ester Pires, minha irmã Vanise,
escrevendo bem e bonito, acrescentou dados importantes, que me tocam muito.
Resta-me falar do que gosto mais, que é sobre a figura dele nos seus contornos
mais pessoais, no seu jeito de ser e de lidar com o outro.
Na verdade, pra decidir escrever sobre ele, fui
provocada, no melhor sentido da palavra, por alguns dos tantos conterrâneos que
guardam dele tantas e tão importantes lembranças. Lúcia Góis, que tem um
forte sentido de valorização do outro, deu o toque inicial: “Grande homem,
desejaria conhecer mais da sua personalidade íntegra, ser humano bondoso, que
deixou boas recordações.Como é prazeroso falar de alguém que deixou marcas de
amizade, amor e respeito com o outro!” Luciano
Veríssimo escreve: “Lembro dele tomando uma cervejinha só. Muito educado e
atencioso.” E Célia diz que “Gostaria de saber mais sobre ele.” A prima Socorro
relata: “Né Marinho, meu tio avô, lembro dele em Custódia e já no Recife,
quando passava na Av. Guararapes, lá estava ele no Bar Savoy tomando sua
cervejinha e trajando elegantemente com seu impecável terno e gravata.
Realmente foi um grande homem e de suma importância para Custódia.” Josamira
Duarte, filha de Seu Abílio e irmã de Joanita, que
trabalharam com ele por longo tempo, resume: “Um ilustre cidadão que fez a
diferença na nossa Custódia.” E Marcos Moura: “São muitas e marcantes e
boas as lembranças que temos do Sr. Né Marinho, o homem educado, que se vestia
com elegância, sempre de terno e gravata, com aquela forma inesquecível de
pentear o cabelo, eu muito jovem me lembro dele. Tenho lembrança dele no Bar
Savoy em Recife tomando umas cervejinhas com Clodoaldo, esposo de Marival.
Boas lembranças desse ilustre custodiense.” Ele marcou sua presença no seu
tempo, inclusive para esses e outros jovens da época. Como filha, não posso
furtar-me ao que me cabe e que me dá prazer. E ainda, por outras linhas, cumpro
meu desejo de atender a um antigo pedido do querido Paulo Peterson.

Né Marinho e sua esposa Ester Pires.
Meu pai, um homem inteligente e íntegro, era sempre e
naturalmente educado, tranquilo, sereno, manso, pacífico, solidário, generoso e
conciliador. E outros tantos adjetivos caberiam para definir a rica figura
humana que ele foi. Essas características conquistavam todos quantos dele se
aproximavam.
O que toca mais forte em mim é o seu traço generoso e
conciliador, que me vem à lembrança sempre que penso nele. Lembro que havia uma
espécie de “freguesia”, formada por aqueles que o procuravam na certeza de que
podiam contar com ele - porque sabiam do seu grande coração e de ser ele um
“mão-aberta”. Tabelião que foi por toda uma vida, era procuradíssimo para
dirimir contendas as mais diversas, no cartório, vizinho do seu Bar Fênix, que
ficava ali no “quadro da rua” - ou Praça Padre Leão.
Guardo histórias que revelam alguns desses traços de
papai. Certa vez, foi procurado por um proprietário de terras, conhecido por Seu
João Velho. Queria ouvir papai sobre uma questão para poder “brigar na
justiça”. Tratava-se de uma demarcação de terra em que um proprietário vizinho
avançara o sinal: ao colocar a cerca divisória, suprimia uma estreita “tira”
das terras do João Velho. Papai ponderava: - “Mas você tem muitas terras, e
essa faixa não vai lhe fazer a menor falta! Deixe isso pra lá! Pode lhe trazer
problema de inimizade, de briga ... A gente nunca sabe do que o outro é
capaz...” E ele: - “Não, Seu Né, não é pela “tira” de terra que eu estou
brigando, não, que não vale mesmo nada pra mim – é só pelo desaforo!” Mas
acabou cedendo aos convincentes argumentos do meu pai.
Um dia, criança ainda, fui procurá-lo no cartório,
chorando, pra me queixar de Seu Antônio Mataverde, que geria sua “banca
de bicho”. Eu tinha jogado no macaco, e ele não quis me pagar, dizendo que deu
borboleta. Papai fez aquele sorriso, pôs a mão na minha cabeça e disse: - “Vá
lá e diga a ele que eu mandei dizer que ele se enganou, pois o bicho que deu
foi macaco - e que pague o prêmio agora.” Vitoriosa e enxugando as lágrimas,
fiz o que ele disse. Seu Antônio Mataverde curvou-se, me escutou, olhou pra mim
de um jeito de quem percebe o outro na sua inteireza - e que ficou gravado para
sempre na minha lembrança - sorriu e cumpriu o recado. Meu pai era o máximo,
pensei.
Numa de suas idas ao Recife, que nos deixava sempre na
expectativa do que traria na volta, me contemplou com um casaco de frio, que
vejo ainda hoje nítido na minha lembrança – era de um vermelho “puxando pra cor
de jerimum”, com listras brancas nos punhos e na gola alta. Caí no choro! Como
merecia tanto? E por que só eu ganhei presente? Essas questões me dividiram: em
vez de só envaidecida, fiquei preocupada, embora feliz.
Nesta última foto, eles estão com a primeira neta - Letícia -
e com o último neto - Danilo.
Ele
tinha o hábito de dar um cochilo após o almoço, numa antiga espreguiçadeira que
ficava na sala de jantar. Cobria o rosto com aquele lenço branco de que Zé
Melo fala com tanta propriedade, e cada uma das filhas, num rodízio por dia
da semana, assumia ao lado dele a tarefa de fazer cafuné, mais na careca do que
nos cabelos, que o tempo ia rareando cada vez mais. Ganhávamos alguns trocados,
mas a preguiça e a aflição, por perder tempo sem ir pra rua brincar, geravam
algumas vezes aquelas típicas discussões de que “ontem fui eu - hoje é você!” E
quando calculávamos mal, achando que ele já dormia, e saíamos de mansinho, ele
apertava nossa mão, mostrando que ainda não pegara no sono. E reassumíamos
nosso posto.
Os
juízes e promotores que atuaram em Custódia, na época de papai, tinham a maior
admiração por ele - porque com ele aprendiam muito exercitando as lições
teóricas que tinham recebido na faculdade. Um deles, Dr. Mauro Jordão de
Vasconcelos, juiz talvez na primeira comarca que assumiu antes de vir a ser
o ilustre desembargador, tempos depois, foi meu professor de Processo Civil, na
Universidade Católica de Pernambuco. Certo dia, em plena aula, falou sobre meu
pai, tecendo-lhe os maiores elogios, sobretudo por sua impressionante
inteligência, pois, com um mal concluído curso primário, tinha um nível de
saber capaz de ensinar importantes lições de Direito. E, comovido, disse da sua
enorme gratidão a “Seu Né Marinho de Custódia”. Foi uma das maiores emoções que
tive na minha vida.
Essas
e outras histórias do meu pai traçam um pouco o seu jeito de ser. As
características e a rica experiência dele o levaram, aposentado, a continuar
trabalhando, no exercício da advocacia, como rábula, no bom sentido da palavra
– “pessoa que advoga sem ser formada em Direito”. E era uma incontestável razão
para, morando no Recife, continuar indo sempre à sua amada Custódia, servindo e
defendendo o direito do mais fraco. Esse ofício caía como uma luva no seu
perfil.
Seu
traço generoso e conciliador acho que ele imprimiu em nós, filhos, e repercutiu
nas nossas relações. Até hoje, não registro qualquer séria desavença. Sempre
fomos amigos, nossa relação é pacífica - o afeto tece as linhas que nos ligam
uns aos outros. É uma herança dele e da minha mãe, Ester, esse lidar
respeitoso e amoroso com o outro e com a vida. Ela deixou singulares marcas de
genuína ternura e incontáveis lições de resiliência, fortaleza e fé - bastaria
lembrar as prematuras e traumáticas partidas dos meus irmãosCecéu e Hélio.
Recentemente,
numa conversa em que tecíamos certas lembranças de mamãe, seu neto Petras,
filho mais velho de Herbert, disse: “Quando a gente fica triste pelas
nuances da vida, eu ‘miro’ em vovó Ester, e a leveza dela me acalma.” E Diogo,
meu filho mais velho: “Eu pude refazer essas imagens e vejo Dona Estar e Seu Né
sempre presentes com o seu legado.” Ele lembrou que eu gostava muito do “imbu
com leite”, a inesquecível imbuzada que ela fazia - “sumo de imbu, fervido e
passado na peneira, com leite e açúcar” -mas a preferência dele era o seu doce
de mamão. Essas doçuras repassavam pra nós aquelas que nutriam abundantemente
seu coração.
Um
outro traço importante e bonito do meu pai foi a preocupação permanente que
teve com a educação dos filhos, prioridade absoluta na lista do apoio que deu a
todos nós. Procurou fazer o melhor pra cada um, sem deixar de cobrar, ainda que
discretamente, numa visão rara de futuro – a questão estudo era inegociável. A
regra valia para todos: de Leny, mais entusiasta, a Marilda, mais
relutante. E todos, cada um a seu modo, seguiram essa diretriz. Ele estimulava
cada passo e vibrava intensamente com as nossas conquistas – até além do que
queríamos. O orgulho de nós fazia brilharem os seus olhos e abrir aquele
sorriso de puro prazer - tão característico dele.
Lembro
de quando concluí o curso pedagógico, inevitável caminho para as jovens da
época, após o curso ginasial. Eram três anos. Como fiz o primeiro no Santa
Doroteia, em Pesqueira, e os dois últimos no IEP-Instituto de Educação de
Pernambuco, eu não tinha direito, pelas regras vigentes, ao prêmio de uma
“cadeira de professora” com que se contemplava quem conseguisse o 1º lugar,
pelas melhores notas no curso, desde que cumprido integralmente no IEP. Meu pai
soube e “comprou a briga” – não admitia que eu, tendo as melhores notas, não
ganhasse aquele prêmio por ter cursado o 1º ano em outro colégio. Garibaldi
Sá, jornalista amigo dele e sobrinho de Dona Maria de Seu Ernesto,
defendeu esse meu direito no Diário da Noite – e eu morri de vergonha! Em três
edições desse jornal, Garibaldi e o secretário do IEP discutiram a questão.
Fiquei numa silenciosa torcida contra, pois não estava nos meus planos ensinar,
mas aprender. Graças a Deus, a norma foi mantida – e eu pude seguir meu
caminho. O resultado é que ele teve, lá na frente,um motivo de orgulho maior quando
fiz concurso para Auditor Tributário, na época Fiscal de Rendas – e resgatei,
mesmo sem ser meu propósito, aquela classificação, então fortalecida pelo
sucesso de serem duas mulheres ocupando os dois primeiros lugares. Ele exultou
e se comoveu, porque sequer sabia que eu ia fazer o concurso - não contei, com
medo de não conseguir e deixá-lo triste. Quando um amigo viu a notícia no
jornal, ligou pra ele dando os parabéns – ele disfarçou e curtiu aquela enorme
alegria.
Dos muitos amigos que sempre teve, Gerson
Gonçalves foi um dos mais chegados. Apesar da diferença de idade, os dois,
que eram compadres, se davam muito bem. Por conta dessa diferença, me
impressionava quando os via em frequentes, longas e animadas conversas.
Avesso a cargos políticos,
na sua postura discreta dava apoio ao grande amigo Ernesto Queiroz,
sempre que este se candidatou a prefeito da cidade – e sempre ganhou. Num certo
ano, meu pai foi instigado a se candidatar a prefeito de Custódia. Em nota no
jornal Diário da Manhã, se não me engano, o jornalista dizia que ele seria o
candidato “a reunir maiores simpatias”, mas que não queria “nem ouvir falar no
assunto”, pois, se não quis quando jovem, não iria, quando já gozava da
aposentadoria, entrar nessa história. Desvencilhou-se rapidamente da tentativa,
no seu jeito silencioso e convincente de agir – e não se falava mais nisso.
Impregnada no seu coração e
na sua mente, Custódia estava presente em quase todas as conversas da família –
tudo convergia para aquele espaço onde se fincaram as raízes de nossa família,
a partir do encontro de meu pai com a minha mãe, que veio de Tabira. Ali em
Custódia nascemos, ali crescemos, ali se consolidou o nosso núcleo familiar. E
ali aprendemos a ser cidadãos de bem. E ali descobrimos um jeito de ser amigo que
hoje é uma coisa rara de se ver.
Até os últimos dias de sua
vida de praticamente um século – partiu em março de 2002 e faria 100 em
setembro – o vínculo afetivo de meu pai com a nossa terra-mãe manteve-se firme
e forte. Custódia era uma palavra mágica, que circulava naturalmente entre nós,
especialmente com ele, pois a lembrança desse lugar trazia sempre o prazer que
marcava o seu inesquecível sorriso. Até o médico dele, nas visitas regulares
que lhe fazia, entrava contando que tinha acabado de chegar de Custódia. E dava
as notícias que ele queria ouvir: estava chovendo por lá, e os conterrâneos,
felizes, porque tudo se cobria de verde. Ele abria aquele sorriso, e seu rosto
se iluminava – era o melhor sinal da alegria que enchia o seu coração.
Texto
Laíse Rezende
(filha) com Danilo seu filho
Recife-PE
Setembro – 13.08.2021