30 setembro, 2021

Amaro Gonçalves de Lima - por Jason Gonçalves


AMARO GONÇALVES DE LIMA, mais novo entre os numerosos filhos de José Gonçalves de Lima, proprietário rural no município do então “Alagoa do Monteiro”, começou a trabalhar, na segunda década do século XX, ainda adolescente, na agricultura. Como na época mal começavam a chegar ao Brasil os primeiros veículos automotores, enfrentava também, com o pai, longas viagens, tangendo tropas de burros carregados de algodão, de Monteiro até Recife. De lá voltavam, com a mesma tropa, carregada de outras mercadorias, que iam vendendo ao longo do caminho, até Monteiro. 


Aos 18 anos de idade, casou-se com Maria Alves da Silva, então com doze anos de idade e que viria a ser, ao longo da vida, sua grande estimuladora e colaboradora. Como sempre gostou de leituras, exercia certa liderança intelectual, no tosco meio rural em que vivia e cedo imbuiu-se das ideias já então dominantes, de que o futuro do Brasil estava na industrialização. Daí a razão por que vendeu as terras herdadas de seus pais e decidiu investir em atividades industriais. Começou, mudando-se para a cidade de Custódia, onde inaugurou uma pequena fábrica de confeitos. A cidade, ainda muito pequena, não contava com um comércio capaz de absorver a produção. 

Em vista disso, mudou-se para Sertânia (então Alagoa de Baixo), onde prosseguiu na mesma atividade. Durante esse período, seu filho Gérson (que no futuro viria a se tornar proprietário da Fábrica de Doces Tambaú, hoje INDÚSTRIA DE PRODUTO ALIMENTÍCIO TAMBAÚ, e do Hotel Macambira) com pouco mais de nove anos de idade, já dava amostra do que viria a ser, no futuro, agindo como vendedor de balas no comércio de Sertânia. Nisso era auxiliado pelo irmão mais novo Jason, cuja atividade consistia em carregar, na cabeça, um pequeno tabuleiro, com amostras dos produtos oferecidos. 

Não obstante ser maior do que Custódia, a nova cidade também não foi capaz garantir a sobrevivência da incipiente indústria, em que pese à “valiosa” ajuda daqueles dois. Por isso, aumentou atividade, investindo também em uma fábrica de alpercatas e outros calçados regionais. A despeito de todo esforço, estava prestes a se desiludir da atividade industrial e voltar para a agricultura. Todavia, foi convencido pela esposa a retornar a Custódia e adquirir um pequeno hotel de beira de estrada, por indicação de sua irmã Corina Marques Pereira e com o apoio do cunhado Joaquim Pereira da Silva, um dos próceres da cidade, o que ocorreu no início da década de 40. 

Mudou o nome do estabelecimento para Hotel Cruzeiro, que depois passaria a se chamar Hotel Sabá. Como era o único da cidade, era frequentado por juízes, promotores, advogados, professores e altos funcionários estaduais e Federais, que vinham periodicamente à cidade, como também pelas pessoas mais influentes do município, como fazendeiros e políticos. Como a rodovia que corta a cidade era, naquela época a única via de comunicação terrestre do nordeste e do norte do Brasil com o sul, o hotel tinha também a freguesia de numerosos camioneiros, pois era a única opção aceitável, entre Arcoverde e Serra Talhada. De início, o casal teve muitas dificuldades, devido sobretudo à falta de experiência no ramo, mas foram auxiliados e orientados pelos próprios hóspedes, como também sempre contaram com o apoio e o incentivo do casal Pereira e até mesmo do então prefeito Ernesto Queiroz. No Hotel Cruzeiro contaram com a ajuda das filhas adolescentes Mercês e Joaninha, que ajudavam a servir às mesas e lavar pratos, além de algumas sobrinhas vindas de Monteiro e poucas empregadas locais, todas bisonhas e inexperientes, dependentes de orientação para execução de qualquer tarefa. 

Com o tempo, adicionou à atividade hoteleira, o da indústria, voltando a investir na fabricação de doces, queijo e manteiga. Essas atividades acabaram por se transferir para o filho Gérson, que, dotado de grande talento empresarial, transformou-as nas empresas já citadas acima. 

Sempre preocupados com o futuro, proporcionaram a todos os nove filhos a oportunidade de estudar no Recife, como faziam várias outras famílias, já que, na época, a cidade só contava com o curso primário (hoje primeiro ciclo do nível fundamental). Incutiu neles, mais com seu exemplo do que com palavras o amor e a consciência de que é necessário estudar e trabalhar, para viver condignamente. Com seu esforço, o casal conseguiu fazer dos filhos: um grande, a nível local, industrial, um bancário, que chegou a gerente de agência do Banco do Brasil, um auditor fiscal e um engenheiro da Petrobrás. As filhas empregaram-se no serviço público, bem como em empresas comerciais, no Recife. 

Amaro Gonçalves de Lima e sua mulher Maria Alves da Silva foram dois lutadores, trabalhadores incansáveis, sem esperar benesses do Estado. Venceram na vida, com esforço próprio, conseguindo formar e garantir um futuro para os nove filhos. Criaram empreendimentos, com os quais beneficiavam produtos primários locais, proporcionando o ingresso na cidade de recursos financeiros, que contribuíram para impulsionar as atividades econômicas do município. Dessa forma, podem também, ser considerados construtores da pujante Custódia que hoje conhecemos.

Por Jason Gonçalves
 

 

Rodovia com nome de custodiense




Placa da Rodovia Joaquim Tenório Sobrinho, também conhecida como MS-306. Esta rodovia liga os estados de Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, tem aproximadamente 200 quilômetros e é um importante corredor de saída de produtos primários de MS e MT para os estados de São Paulo, Paraná e Rio de Janeiro e entrada de produtos industrializados de São Paulo para as regiões Centro Oeste e Norte de nosso pais.  
Joaquim Tenório Sobrinho, é pai de Luizinho Tenório, custodiense radicado em Cassilândia desde de 1955. Era conhecido como “Pernambuco”, nasceu no sítio Lajedo, distrito de Quitimbu. Após falecimento de seu pai, assumiu as responsabilidades de sua família, rumou como chefe de família com seus familiares para Cassilândia/MS, lá construiu sua saga na política local, sendo prefeito por duas vezes, no período de 1963 a 1967, e de 1973 e 1977. A prefeitura de Cassilândia e um bairro levam seu nome,
Agradecer a Luizinho Tenório e a sua filha Mariane Tenório, pela foto e pelas informações sobre a rodovia.

 

O dia que falei com Rei - por Jussara Burgos


Conto publicado no livro do amigo Carlos Lopes.

A cidade de Custódia cresceu do sítio de dona Nita, um verdadeiro oásis com altos coqueiros no meio do Sertão do Moxotó. Era lá que eu morava. Quando tínhamos de ir ao comércio, costumávamos dizer que íamos à rua. Em uma dessas idas à rua, chegando à Praça Padre Leão, encontrei pouca gente circulando e o chão coberto de panfletos de propaganda eleitoral. Houve um comício, ou melhor, um showmício, e algumas pessoas ainda estavam por lá. Eis que vejo em minha frente: ele! Estava acompanhado por outro homem; os dois andavam em direção a um carro estacionado na praça.

Olhei surpresa sem acreditar no que eu estava vendo e turbilhões de pensamentos invadiram minha cabeça.

– É ele sim. Vai lá. Pede um autógrafo.
– Não, tenho vergonha.
– Pede, porque você não sabe se terá outra oportunidade. Vai!
– Não vou. 

Nisso, ele entrou no carro e bateu a porta. O companheiro era o condutor.

É agora ou nunca. Fui. Com as pernas tremendo feito vara verde, o coração acelerado e a voz embargada de emoção. Corri até a janela do carro, que já estava com o motor funcionando, e disse timidamente: 

– O senhor pode me dar um autógrafo? 

Ele, imponente como todo rei, perguntou-me: 

– Qual seu nome? – Pegou uma caneta e um pedaço de papel no porta-luvas e escreveu: “Para Jussara, um abraço de Luiz Gonzaga”.

Só deu tempo dizer “obrigada” e sair dali correndo com minha nova aquisição.

Fui mostrar para meu pai o que havia conseguido; ele nada falou, mas sorriu bondosamente compartilhando minha felicidade.

Em casa, os meninos estavam no quintal agachados jogando bila. Entrei eufórica dizendo alto o que tinha conseguido. A brincadeira deles foi interrompida, e o autógrafo passou de mão em mão.

Todos examinaram o pedaço de papel e alguém falou: 

– Não sei por que você está tão feliz, isso não serve para nada.

Esbravejei: 

– Como assim não serve para nada? Só eu tenho a assinatura do maior cantor do Nordeste e vocês não têm. Tão é com inveja. 

Eles voltaram para suas brincadeiras e eu fui guardar minha preciosidade em meu bauzinho junto com minha medalha de Nossa Senhora e outras relíquias de meu mundo infantil. E ali o autógrafo permaneceu por muitos anos. 

Em 1976, mudei-me para o Planalto Central. De volta ao sertão anos depois, meu guarda-roupa ainda estava lá e dentro dele, meu baú. Mas o autógrafo sumiu. Lamento muito, gostaria que ele estivesse comigo enquanto eu viver. Sem dúvida, foi um fato marcante para uma menina franzina que venceu a timidez e falou com o Rei do Baião.

Jussara Burgos

Defronte de Catonho Florêncio - por José Carneiro

Iaiá Florencio (Irmã mais velha da família), Zé Daniel (sentado),
Laura Florencio (sentada, Irmã), Catonho(Antonio) Florencio (Em pé) e
Gercina (Esposa).

            Catonho Florêncio era um gênio. Sabia das coisas muito além dos seus parcos conhecimentos intelectuais. Corpulento, com cerca um metro e noventa de altura, de compleição atlética, rosto anguloso, ruivo, cabeleira desgrenhada e completamente despojado de qualquer espécie de vaidade. Lembrava um centurião romano. Mas, acima de tudo, uma pessoa alegre e simpática, de palavra fluente, palestra agradável e bem humorada, bom contador de causos e de fino trato. Querido e admirado por gregos e troianos.

Seu Catonho, entre outros predicados, destacava-se como orador, considerado o maior orador da história de Custódia. Sua estatura, vozeirão, gesticulação e, sobretudo, os recursos oratórios, com belas imagens e tiradas filosóficas, faziam dele um gigante da retórica e dialética. Consta que era portador de memória privilegiada, a ponto de decorar, palavra por palavra, longos trechos literários, inclusive fazendo pausa nas vírgulas, com entonação própria nas reticências, exclamações e interrogações. Comentava-se que tinha Rui Barbosa (Oração aos Moços), e Frei Mont’Alverne (Sermões) como paradigma, dos quais colhia as pérolas que ornavam seus discursos.

Era um filósofo a seu modo. Um fenômeno! Tenho para mim, que seu Catonho, fiel à tradição, todos os anos, no dia 19 de março, sob os olhares de Nossa Senhora e acompanhado por coro de anjos, faz um discurso para São José, daqueles que ele costumava fazer, enquanto Rui Barbosa e Frei Mont’Alverne, na platéia, deleitam-se com os seus ingênuos plágios.

A saída de seu Catonho de Custódia, por circunstâncias dolorosas, deixou a cidade e a maioria dos habitantes tristes e amargurados. Os desígnios de Deus são insondáveis e não devem ser postos em dúvida por nós pobres criaturas. Aceitá-los é dever de todo cristão. As consequências ficam por conta da lei natural do retorno.

Sempre que fazíamos serenatas, uma das paradas obrigatórias era em frente da casa de seu Catonho, onde cantávamos e declamávamos. Todas as vezes seu Catonho assomava à porta e nos brindava com uma poesia ou discurso. Naquela noite foi tudo diferente. Cantamos e declamamos e nada. A porta permanecia trancada e o silêncio acentuava a brancura da lua cheia. O solo de uma valsa dolente e a invocação do seu nome fez com se abrisse a parte de cima da porta e ele, tronco desnudo, pelos ruivos do peito refletidos pelo clarão da lua, cabelos assanhados, calado, imóvel, parecia Hércules com toda sua força e grandeza. Por alguns instantes ele olha, com olhar perscrutador, e voz fanhosa e pausada, diz: 

“Por que não passas calado violão? Por que vens despertar sentimentos adormecidos?” 

Em seguida fechou a porta e se recolheu ao silêncio. Era a retirada de um rei que saia do reinado sem perder a majestade. Tristonhos, encerramos a serenata e fomos afogar no vinho a saudade de um homem inesquecível.

Foi a última vez que vi seu Catonho. 

JCarneiro 

29 setembro, 2021

Jogos nem tantos inocentes - Por José Melo


Texto
José Melo
Recife-PE
Outubro/2013



Quando adolescente, vítima da ociosidade que reinava na então Custódia, terminei viciado em jogos. Primeiro, a inocente sinuca de Jurandir, no Bar Fênix. Depois, o Esplandim e o Caipira, na Banca que funcionava todas as segundas-feiras, no muro do referido Bar Fênix, que nesse dia se transformava num verdadeiro cassino: além do Esplandim – jogo de três dados em uma espécie de globo que depois de feitas as apostas era acionado e mostrava o resultado, apresentado na face superior de cada dado. O jogador que acertasse cada ponto mostrado em cada dado, receberia o equivalente ao que apostara, também o Caipira, este apenas um dado em uma espécie de caneca, que depois de agitada ficava encobrindo o dado, a espera das apostas. Quem acertasse receberia seis vezes o valor apostado. Também havia a Roleta, a espingarda de ar comprimido para tiro ao alvo, isso sem falar nas mesas de baralho, onde não raro aconteciam brigas em decorrência da disputa.


Nesse tempo, eu tentava aprender mecânica, na Oficina de Luizinho, que ficava no então Bairro do Texaco, onde hoje fica a Tambaú. Era, como se dizia na época, “Lambe-Ferro”, pois o aprendizado começava com a lavagem das peças a serem consertadas, com gasolina, para retirar o óleo, a graxa e a sujeira das peças. Recebia por esse trabalho, uma gorjeta, cujo valor não recordo. Recordo, isso sim, que ao meio-dia das segundas-feiras, após receber o “pagamento” corria direto para o Bar Fênix, em busca da sorte. Só iria pra casa almoçar, quando “alisava”.

Mas um dia, a sorte virou. Comecei a jogar, e fui ganhando, juntando as fichas correspondentes aos prêmios, até que chegou ao ponto em que o banqueiro ficou sem nenhuma ficha. Então decidi parar o jogo e trocar as fichas por dinheiro vivo. Foi aí que o banqueiro, espertalhão e antevendo o prejuízo, se negou a pagar, alegando que eu deveria continuar jogando. Queria, isso sim, era reverter o prejuízo. Foi então que me lembrei que o jogo, além de ser proibido para todos, era mais ainda para menores. E fiz a ameaça:

-“Se você não me pagar, vou dar parte a Dr. Josué, o Juiz Direito!”

Foi um santo remédio. Recebi o polpudo valor, que foi suficiente para comprar roupas, calçados, ajudar no pagamento de uma prestação de um fogão de casa, e ainda ficar com algum dinheirinho.

E a partir daquela data, jamais joguei a dinheiro toda a minha vida.

Por José Soares de Melo

Biografia: Ednalva Marinho da Silva Cordeiro

* 22.10.1935
+ 04.05.2012

Ednalva Marinho da Silva Cordeiro nasceu em Custódia em 22 de Outubro de 1935, filha do casal Olímpio Raimundo da Silva e Maria Marinho da Silva, conhecida por Maria Caju. Tinha dois irmãos: Juracir Marinho (falecido) e Expedito Marinho que muito jovens foram embora em busca dos seus sonhos, ingressando na marinha. 

Seus pais, pequenos comerciantes, possuíam uma mercearia onde hoje funciona a panificadora Delícia do Pão (Rua Dr. Manoel Borba). Com 9 anos de idade, perdeu seu pai e a partir desta data, passou a viver com sua mãe que lhe cobria de amor, atenção e não mediu esforços para que ela estudasse e realizasse o sonho de ser PROFESSORA

Mesmo muito humilde Dona Maria Caju valorizava uma boa educação e para complementar sua renda ainda fazia doces caseiros para vender. 

Em 1960 perdeu sua mãe, passou a morar com Luiz Caju e Dona Maroquinha, pais de Zezito Caju. Ednalva estudou nos colégios internos de Triunfo e Bom Conselho. Cursou duas faculdades. Fez Licenciatura curta de Estudos Sociais na Faculdade de Arcoverde e Licenciatura Plena em História a Faculdade de Professores de Caruaru. Mesmo com as dificuldades em conseguir transportes, enfrentava caronas e riscos, não desistiu. 

Iniciou sua carreira de educadora no ano de 1964, no distrito da Maravilha, lecionando lá por 2 anos. Em 1966, passou a lecionar no Grupo Escolar General Joaquim Inácio, tendo sido admitida na rede estadual através de concurso público. Foi professora também do antigo Colégio Padre Leão (atual Colégio Municipal Ernesto Queiroz). 

Casou-se com o comerciante do ramo de sapataria José Cordeiro dos Santos, mais conhecido por Duquinha. Mesmo com sua elevada jornada de trabalho na educação ainda tinha disposição para ajudar na administração do comércio de seu esposo, que na época tinha 40 funcionários. 

Netos: José, Rafael e Junior, filhos de Antônio e Claúdia

Da união matrimonial com José Cordeiro dos Santos, tiveram seis filhos: Olímpio (comerciante), Antônio (comerciante) ambos residem até hoje em Custódia; Maria Inês (Psicóloga e comerciante) residente em Recife; Poliana (Cirurgiã Dentista formada pela Universidade de Pernambuco e Auditora Fiscal da Receita Estadual da Paraíba); Juraci formado em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco, com Pós Graduação, comerciante na cidade de Águas Belas; e Herbet, comerciante na cidade de Petrolandia. 

Olímpio, esposa Lúcia e filhas Jéssica e Jussana

Tinha 14 netos e 3 bisnetos. 

Bisneto Luis Henrique

No ano de 1984 foi vítima de um grave AVC. Pela gravidade da sua doença, precisou residir em Recife, em busca de tratamento médico, levando consigo seus três filhos caçulas(Poliana, Juraci e Herbet). 

Mesmo com sua saúde fragilizada e as dificuldades de morar em uma grande cidade, deu a todos uma boa educação ensinando principalmente amor e respeito ao próximo. 

Em 21 de maio de 1988, ficou viúva e continuou assumindo com mãos de ferro a dura responsabilidade de mãe e pai, mantendo o patrimônio deixado por seu marido, sem de nada desfazer. 

Dona Ednalva costumava dizer que um dos maiores prazeres da sua vida foi ter sido professora. Porque lecionava por amor e vocação e que cada vez que encontrava um ex-aluno tinha uma imensa satisfação. Dizia também que a escola era seu segundo lar. 


Gostava muito de vir para Custódia passear, assistir as missas na Paróquia de São José, rever seus amigos e conterrâneos. Era prima legitima do inesquecível Padre Assis. 

No dia 02 de abril de 2012, submeteu-se a uma complicadíssima cirurgia cardíaca, com duração de mais ou menos de 9 horas. Como guerreira, lutou pela vida com todas as suas forças, acreditando em Deus, jamais perdendo a esperança. 

A sua grande vontade de viver era percebida e elogiada pela equipe médica. Faleceu no dia 04 de maio de 2012. 

Texto enviado pela família

28 setembro, 2021

Distrito de Maravilha-PE




Origem do nome

Deu-se o nome Maravilha por ter sido um lugar acolhedor e transbordado, deixando todos os visitantes encantados que chegavam a falar: “Que Maravilha!”. E assim teve inicio a história da Maravilha.

MARAVILHA, Distrito o Município de Custódia, Pernambuco tem uma história. Tudo começou no ano de 1934, assim descrito:

Chegou a primeira professora a Maravilha, vindo de Custódia, sendo a mesma irmã de Chinelôn, conhecido como homem da “lei”. Em seguida veio outra, chamada Conceição, esposa de Zé Quebra Unha, e assim, foram chegando outros professores.

Primeiros Moradores

A primeira família a morar neste lugar foi a Cruz. Marcos e Rosa, há cerca de duzentos anos atrás, vieram do Sítio de Dona Rosa. Em seguida tivemos: Raimundo Pedro Juvenal, Manoel Leandro, Justino Leite, Cicero Inato Nogueira, Sebastião Bezerra e Miguel Justino. Os mesmo com suas famílias formadas necessitavam de uma professora.

Primeiros trabalhos

Surgiram do Armazém Bulandeira de descaroçar algodão. Nessa época, plantava-se algodão preto, a lã, extraída, descia para Arcoverde, Sertânia, Recife etc. para fabricação de tecidos. O caroço era jogado fora para os animais comer, pois ainda não se sabia das utilidades e comercialização desta semente. Depois veio a usina de caroá para fazer roupas, barbantes, etc. As roupas ficavam ótimas, prontas para usar. Mas logo veio a praga do algodão, tomando conta de toda plantação, trazendo assim para a região um grande prejuízo para todos os seus moradores.

Agricultura

Os agricultores ficaram plantando feijão e milho, para custear as despesas e para seu próprio consumo. Os a nos mais favoráveis ao agricultor foram: 1934, 1935,1937 e 1940, com boas colheitas para todos. E os menos favoráveis foram: 1936 1938 e 1939 onde muitos agricultores deixaram suas propriedades e de deslocaram para outros centros. Seus transportes eram os próprios animais, até alcançarem uma cidade mais desenvolvida e assim pegar o primeiro “Pau de Arara”.

Surgiu então o primeiro veiculo em Maravilha. Era o meio de transporte do Padre de Floresta, que vinha celebrar as missas. O veiculo foi apelidado de vinte e nove, pois era o ano de sua fabricação. O primeiro morador da Maravilha a possuir veiculo, foi o Sr. Sebastião Bezerra, em seguida o Dr. Adauto Pereira e assim sucessivamente vieram muitos outros.

Apelido

Chegaram duas moças muitos bonitas, de Mata Grande, uma delas chamava-se Madalena...dai então as pessoas ficavam chamando de Madalena da Maravilha.

Igreja

Foi construída pelo Sr. Adelino, com a ajuda de outros moradores, como: os Srs.: Antônio Pedro da Silva, Elias “o motorista” do Padre, Padre Luiz e muitos outros. Também foi construído um chafariz e um armazém, por um mestre de obras chamado Patrício. O primeiro mecânico chamava-se Augusto, e também fez parte da história da Maravilha, colaborando com os consertos que iam surgindo, bem como os marceneiros: Augusto Libório e José de Souza, estes fizeram os primeiros trabalhos utilizando a madeira.




Os primeiros fatos ocorridos

Fazendeiros: Zé Mataverde, Francisco Cachoeira Paraibano, Lourenço da Malhada, etc.

Vaqueiros: João Pereira, esposo Dona Demessa, Antônio Mata Verde e Augusto Honório.

Sanfoneiros: Vicente Bastos Medeiros, Pedro Bilicarte, etc.

Médico: Dr. Natalício, da cidade de Sertânia.

Cirurgia: Diolina Braz.

Prefeito: Inocêncio Lima, de Betânia, pois Custódia pertencia a este município.

Energia: a motor no ano de 1961.

Relógio: Sr. Antônio Joaquim

Feira: foi em uma quarta feira, 06/12/1933.

Rádio: foi o primeiro meio de comunicação, pertencia ao Sr. Adalberto. Muitas famílias iam a sua casa para ouvir o repórter.

Bicicleta: foi Sr. Adalberto o primeiro a comprar, por dois contos de réis, o mesmo alugava ao preço de dois, três e quatro tostões dependendo do passeio.

Televisão: foi trazida por Zefinha Dina, que veio de São Paulo e trouxe de presente para sua mãe, e assim abriu o caminho da modernidade, trazendo a imagem do mundo lá fora.

Hoje, podemos desfrutar de outros meio de comunicação, como: Correios, telefones, parabólicas, cinemas, computadores etc.

Maravilha é realmente um encanto, uma MARAVILHA!

Vendas

As primeiras vendas para servir a comunidade de Maravilha e seus arredores era dos senhores: Raimundo Pedro, Antônio Simão e Manoel Leandro. A bodega do Sr. Raimundo Pedro foi atacada pelos cangaceiros, mas quando os mesmos chegarem, o Sr. Raimundo se afastou deixando seu cunhado Sebastião Braz para assumir seu lugar. Os cangaceiros fizeram as compras e pagaram direitinho. Logo que os cangaceiros foram embora, Raimundo assumiu a bodega novamente. Lampião começou a frequentar Maravilha em 1935 e todos os anos a visitava. Sempre respeitando os seus moradores, até ir embora de Pernambuco em 1938, para a Bahia. Manoel Neto Capitão prendeu Antonio Joaquim e Manoel Leandro porque eles apoiaram Lampião. Eles foram presos em Serra Talhada.

Participaram EspecialRaimundo Pedro, Sebastião Braz e Manoel Prefeito

EscritorasMaria Sueli N.P. da Silva e Josefa da Silva Rezende



Zé Caboclo - Só lembrando de Custódia



AOS CUSTODIENSES

Peço aos internautas que dediquem apenas pouco mais de três minutos, para ouvir a música que foi lançada recentemente por um artista filho da terra.

Fiz a letra e Zé Caboclo de Custódia musicou, a qual era apresentada em shows e comícios no inicio da década de oitenta.

Quase três décadas depois, Zé Caboclo me deu o melhor presente de aniversário: no dia sete de Setembro de 2010, recebi um CD gravado – cuja edição já está esgotada, na qual ele conseguiu recuperar aquela música, dando uma nova roupagem e um arranjo mais aprimorado.

Ouça e comente.

José Melo

27 setembro, 2021

Boneca Susi e Palhaço Belezinha em Custódia

Arquivo José Melo

Nos começo dos 80's, um programa de TV fez bastante sucesso no Estado, na TV Universitária de Recife, era o Palhaço Belezinha e a boneca Suzy. O prefeito Luiz Epaminondas Filho (foto), durante sua gestão, trouxe a dupla para a cidade. Foi o maior sucesso o show da dupla. 
 

 

A arte de Edmar Sales em Sketchbook

Pedro Pereira Sobrinho
 
 
 Dulce Pereira Fonseca (avó)
 
 Paulo Fonseca Gonçalves (avô)
 
 Jussara Burgos
 
 Carlos Lopes
 
Fernando José
 
Carro de boi

Sketchbook é um livro ou uma almofada com página em branco para desenhar e é frequentemente usado por artistas para desenhar ou pintar como uma parte de seu processo criativo. 

Edmar Salles usou recentemente esse recurso para ilustrar páginas do Blog Gândavos e dos contadores de história, projeto capitaneado por Carlos Lopes e diversos colaboradores. 

Site Edmar Sales: Aqui
Blog Gândavos: Aqui




26 setembro, 2021

Os medos de cada um - por Jailson Vital


Texto
Por Jailson Vital de Souza
Jalvital@gmail.com

Alma do outro mundo, alma penada; eu morria de medo. Ainda muito criança fui morar na Rua da Várzea. A casa tinha um quintal comprido, cercado por uma cerca de varas a pique. Atrás tinha um caminho que passava por trás de todos os quintais daquele lado da rua e mais adiante levava às ruínas do “cemitério velho”, como o chamávamos.

Essa proximidade da nossa casa com a porta do além me apavorava, principalmente nas noites em que vítima de um ataque de asma não podia dormir. As luzes se apagavam às 10 horas da noite e a fraca luz do candeeiro a querosene com sua luz bruxuleante dava movimento em alguma roupa dependurada na parede, aumentando a minha vigília. A minha mente enfraquecida pela doença e pelo sono, dava forma sobrenatural àquela roupa.

Vencido pelo cansaço eu conseguia adormecer, mas logo vinham os pesadelos. Personagens horrendos assemelhados à figura representativa do diabo que, eu tinha visto em algum livro vinham me atacar no quintal. No sonho o pavor era imenso diante daquela figura medonha e apesar dos meus gritos não aparecia ninguém para me salvar. Mas a mente fabulosa das crianças também cria os meios para escapar.

Então, não havendo saída eu dava um salto e começava a voar escapando do perigo de ser levado pelo diabo que, nos meus sonhos não voava. Esse pesadelo se repetiu algumas vezes, mas eu escapava sempre do mesmo jeito: voando. Tanto voei que terminei gostando e passei a usar dessa faculdade para me divertir. Voava por prazer e quando queria. Isso durou até a minha maturidade. E o diabo dos pesadelos? Deve ter ido para o diabo que o carregue, pois nunca mais atanazou os meus sonhos.

Cada época traz consigo os seus medos. Os de hoje, bem conhecidos, não incluem mais medo de alma penada ou do diabo, talvez. Os medos de hoje são mais bem reais e certamente e infelizmente mais danosos física e mentalmente. Os medos de antigamente eram transmitidos por nossos colegas quando contavam “acontecidos” fantásticos ou por nossos pais com o intuito de controlar melhor os filhos ou até porque acreditavam neles também.

O medo do diabo, como descrevi, era passado pelo padre, do púlpito, no sermão ou nas aulas de catecismo. A figura do demo era usada para inibir as crianças e adultos, no seu modo de agir, pois a lista de pecados era muito extensa e o diabo estava sempre a espera que alguém transgredisse as regras do bom comportamento.

Medo de Deus. Medo de Deus? Sim, isso mesmo. Do mesmo modo como a figura do diabo era usada, a figura pregada de Deus também. Deus era aquele que tudo via e estava sempre pronto a castigar quem saía da linha. Deus era uma espécie de “big brother”, o grande irmão do “romance” 1984 de George Orwell e chegava a ser representado em algumas gravuras por um grande e único olho. Esse conceito foi modificado pela Igreja que, prega hoje, Deus como o Pai amantíssimo e misericordioso.

Medo do pai. Hoje acredito que, poucas crianças têm medo do pai; o que não acontecia antigamente. Naquela época, a 40, 50 anos atrás o conceito de autoridade mandava que a obediência paterna e a disciplina devessem ser exercidas através de chicotadas e puxões de orelhas. O pai era temido e talvez também amado, mas esse segundo sentimento ficava bem oculto, pois era interpretado como uma fraqueza.

Medo de papangu. A figura medonha do papangu colocava qualquer criança em desespero. Quando pequeno, durante o carnaval, para ir da minha casa para a casa da minha avó era uma aventura. Eu fazia o trajeto por partes, correndo entre os pontos de parada seguros, vigiando se não aparecia algum papangu. Os rapazes que se trajavam de papangu vestiam geralmente perneiras e gibão e colocavam uma máscara tapando todo o rosto para não serem reconhecidos.

Outros envolviam o corpo em sacos de estopa, penduravam chocalhos na cintura que faziam um barulho disrítmico quando eles andavam ou corriam e usavam igualmente a máscara. Não podia faltar na mão um chicote que tinha uma ponteira, a qual produzia um estalido alto quando o chicote era brandido. A associação da vestimenta com o chicote apavorava até alguns adultos. Esses rapazes assim trajados saiam durante todo o carnaval, pedindo dinheiro e pregando susto.

Tormento, para mim, era quando morria alguém em Custódia. Eu não tinha coragem de ver defunto, pois isso estava associado ao medo de alma penada. Se fosse somente isso, tudo bem. Era só não ir lá vê-lo. Mas havia um costume, na época, de anunciar o óbito na difusora Duas Américas. E aí a coisa se complicava, porque esse anúncio era elevado à potência do absurdo.

Desde a hora do falecimento até a hora do sepultamento, toda a população era bombardeada com o anúncio e convite para esse “ato de piedade cristã” como anunciava a locutora, entremeada seguidamente, sem descanso, com a Ave Maria de Gounod, cantada por um tenor de voz grave, que mais parecia um lamento saído das profundezas. E não havia como fugir desse tormento, pois a Duas Américas tinha alto-falantes em toda a cidade. O jeito era esperar que o finado fosse finalmente sepultado.

Os leitores desta, conforme as suas idades irão alguns, identificarem alguma semelhança ou nenhuma. Como eu disse antes, são sinais do tempo. Cada tempo nos assusta de modo diferente. O importante é adquirirmos o conhecimento para que sejamos capazes de identificar os medos reais e possamos criar nossas defesas, e os medos criados pela nossa mente para que deles possamos nos tratar.

O vinte de Julho e a visão política de uma criança na primeira metade dos anos sessenta na cidade de Custódia. Autor Jorge Remígio

  

 
A meninada foi dormir mais cedo naquela noite escura de Julho. Já tínhamos consciência que o despertar seria muito mais cedo do que o de costume. Realmente, o dia ainda despontava os primeiros raios de luz, e o estampido estridente de bombas e foguetões a pipocar sucessivamente, acorda toda cidade, era a alvorada em dia de festa.

Pulo da cama numa rapidez felina, visto uma camisa e, ainda com os olhos remelentos, corro para abrir a porta de saída da minha casa.

Descalço, sim, não costumávamos usar calçados, salvo quando a ocasião exigia, e ouço o som dos instrumentos de sopro da banda de música, já descendo a Rua Manoel Borba em direção ao centro arrastando várias crianças das ruas do alto. Fiquei esperando a retreta em frente à minha casa que ficava ao lado da igreja, uma vez que ela já se aproximava. Me junto ao cordão da meninada e sigo o cortejo harmônico, encantado com os clarinetes, trompas, trombones, tuba, sax e a percussão. 

Ah! Ainda tinha os pratos. Percorremos as ruas centrais da cidade caminhando sempre ao lado dos amigos mais chegados. As pessoas iam abrindo as portas das suas casas e ficavam nas calçadas e janelas a observar e ouvir aqueles lindos dobrados executados por músicos profissionais. Aquilo era fantástico, muito mais ainda para a meninada travessa. Era o dia vinte de julho, dia que se comemorava o aniversário do Prefeito Ernesto Alves de Queiroz. Eu tenho poucas lembranças de quando ele foi eleito, em 1959, pela UDN em uma disputa eleitoral com o comerciante João Miro da Silva, lançado candidato pelo então presidente do PTB, José Gonçalves Florêncio.

O meu pai era udenista fervoroso, correlegionário e amigo do prefeito, então, falava para mim que Ernesto já tinha sido prefeito várias vezes e que nunca havia perdido uma eleição.

Estávamos em julho do ano de 1963, então, a campanha política eleitoral se aproximava, mas já sabíamos que a UDN, presidida pelo atual prefeito Ernesto Queiroz, iria lançar como candidato o grande comerciante Severino Pinheiro para disputar com José Florêncio a eleição de outubro daquele ano. As novas gerações custodienses não fazem o menor juízo de como a política era acirrada e violenta naquela época. Os adversários políticos eram intrigados e raramente uma pessoa que seguia uma corrente partidária, tinha amizade com quem apoiava o candidato contrário. Era um verdadeiro “apartheid”. Tudo era dividido. Existiam dois clubes na cidade, a sede do PTB, onde se fazia festas e outras atividades, o qual localizava-se onde hoje é a Câmara de Vereadores, e vizinho, colado mesmo, ficava o CLRC, que era frequentado por pessoas ligadas a UDN. Eu presenciei uma mocinha ser barrada na entrada desse clube. Um dos diretores disse. “Eu soube que você dançou no PTB, aqui você não entra”. 

Severino Pinheiro em um carnaval no CLRC.
Provavelmente em 1970.
 

As crianças reproduziam essas diferenças e se engajavam nas posições políticas dos pais. Digo porque lembrei de um fato curioso. Era frequente brincarmos no quintal da casa de Osminda, prima da minha mãe, então, todas as crianças que frequentavam aquele espaço lúdico, torciam pelo candidato da UDN, Severino Pinheiro, com exceção de um primo, meu xará. Fazíamos chantagem com ele, condicionando a entrada em certas brincadeiras, a dizer que estava com o nosso candidato.


“Vai, basta dizer que é Severino Pinheiro, só isso” Ele ficava calado, meio cabisbaixo, constrangido mesmo. E nós insistíamos, porém, nunca conseguimos o voto dele, era irredutível, inflexível neste aspecto. Em outra ocasião, estava na minha casa em uma manhã, então vi minha mãe entrar com um semblante diferente, assim, meio que perplexa, ela se dirigiu para uma pessoa na cozinha e falou: “Menina, eu ainda estou em choque. Vinha subindo a ladeira da Várzea agora, e me deparei com Zé Florêncio. Ele me cumprimentou e parecia até que eu era uma antiga amiga. Me chamou de comadre, e perguntou sorrindo se estava tudo bem, eu fiquei atônita, sem saber o que responder. Claudionor não pode nem sonhar, não pode saber disso de jeito nenhum”


Chico Elizeu em 1967 com 13 anos.


O cortejo se despedia da Praça Padre Leão com um número bastante significativo de meninos por todos os lados, e agora seguia para o coreto da praça que ficava em frente da casa do Prefeito para fazer o encerramento da retreta. As crianças começaram a se dispersar indo à maioria para as suas casas, restando quatro retardatários: eu, Chico Elizeu, e os irmãos Marcelo e Hiran Burgos, meus primos. Ficamos perambulando pela Praça Padre Leão e seguimos para o local onde o fogueteiro, Santo, havia executado o seu trabalho de acordar a cidade com todo aquele bombardeio. A fogueira usada por este ainda ardia, mesmo com poucas brasas acesas. Um menino que estava próximo, Francisco filho de Mané da Rebeca, falou para nós que tinha achado uma bomba esquecida pelo fogueteiro. Pensamos, vamos requisitá-la. Pedimos para ele aquele artefato belicoso, porém, nos foi negado. Chico por ser o maior, tomou a bomba do menino. Ela agora era nossa. Ficamos os quatro de cócoras ao redor da fogueira, e Chico iniciou a tarefa de desenrolar vagarosamente. Tirou uns cordões rústicos que a envolvia e ficou a pólvora sobre um papel muito grosso já desenrolado. E agora, o que fazer? Chico teve a ideia de derramar um pouco da pólvora solta no papel, diretamente sobre as brasas da fogueira quase morta. Para nossa surpresa nos deparamos com um espetáculo pirotécnico, pois, a pólvora transformou-se em um fogo de um azul intenso, lembrando um neon emergindo das brasas.

Ficamos boquiabertos com aquela beleza de cascata azulada. Incontinente, Chico falou: “Vou jogar a pólvora toda para subir um fogo muito maior” Ele não ponderou, já foi executando a tarefa, eu ainda tive a percepção relâmpago que aquilo não daria certo e gritei: NÃO! Meu grito foi abafado pela grande explosão a nossa frente, surgindo uma densa cortina de fumaça obscurecendo totalmente a nossa visão, e em seguida ouvimos os gritos de dor do amigo Chico. Uma cena que nunca sairá da minha mente, a fumaça esvaecendo lentamente, não mais embaraçando nossas vistas, e na sequência surge a mão do nosso amigo com os dedos dilacerados, que horror.

O zumbido nos ouvidos era ensurdecedor, Hiran gritava dizendo que estava mouco, Chico com os dedos pendurados, segurados por peles banhadas de sangue, sentindo uma dor dilacerante e eu fiquei meio que paralisado naquela cena de guerra, só reagindo quando Chico aos gritos falou: “foi Jorge que acendeu um fósforo e jogou na pólvora” Eu? Fiquei em pânico, comecei a chorar em total desespero, argumentando que era impossível, e ele insistia, me culpando por aquele fato horripilante.

As pessoas iam se aproximando curiosas em saber o ocorrido e nos seguia na direção da casa de seu Chiquinho de Elizeu. Chico foi levado imediatamente para o hospital na cidade de Sertânia e posteriormente se desculpou, me dizendo que ficou com medo de levar uma surra do pai pela
peraltice. Horas depois do ocorrido, percebi que fiquei com as duas pálpebras feridas. Poderia ter perdido a visão naquela brincadeira de menino travesso do interior nos anos sessenta.

A campanha política eleitoral foi acirrada, fui a alguns comícios com o meu pai e pela multidão
fervorosa, tinha certeza da vitória. Após as eleições de outubro de 1963 serem encerradas, os votos só começaram a ser contados na manhã do dia seguinte. As urnas ficaram guardadas e policiadas no fórum que ficava vizinho da minha casa, onde posteriormente foi a biblioteca municipal. Claro que não havia pesquisas eleitorais naquela época, portanto, as duas correntes partidárias tinham a certeza da vitória. Após quase dois dias de apuração, veio o inesperado. O meu candidato perdeu.

Foi a minha primeira desilusão. Que gosto amargo é a derrota. Todos meus amigos ficaram
incrédulos com aquele resultado, era realmente inacreditável para todos nós. Os anos seguintes foram bastante conturbados. Em 01 de abril de 1964 instalou-se no Brasil um regime de exceção, e na minha cidade os conflitos beligerantes se intensificaram, ocasionando várias mortes. Amigos e amigas ficaram órfãos de pai ainda criança, resultando em muita dor. O tempo encarregou-se de cicatrizar vagarosamente as feridas abertas, mas é evidente que as sequelas deixadas foram inevitáveis de serem totalmente esquecidas. O tempo mudou, a cidade cresceu, e a outrora propalada “CUSTÓDIA SANGRENTA”, desapareceu na poeira do tempo. Ficou a história.


Texto
Jorge Remígio
Recife - PE
Setembro/2021

 Apoio Cultural



25 setembro, 2021

Caminhoneiros - por José Melo


Por José Melo
Recife-PE
Julho/2013


A vida de caminhoneiro sempre atraiu muitos fazendeiros do sertão, que não raro, vendiam seus rebanhos e aplicavam todo o dinheiro em caminhões, na maioria das vezes, velhos, que terminavam por arruinar financeiramente os antigos fazendeiros.

                Muitas estórias eram contadas sobre a ventura e desventura desses aventureiros. Como a de um fazendeiro que comprou um velho caminhão, depois de ter vendido boa parte de seu rebanho. O caminhão quebrava mais que bolacha Creme Craker, e constantemente o velho fazendeiro tinha que vender algumas rezes para custear os constantes reparos.

                Até que sem mais nenhuma rês para vender, com o caminhão quebrado no terreiro da fazenda, tomou uma decisão: mandou o “Chauffer” abrir a boca do “bicho” ( levantar o Capô), e dirigindo-se ao caminhão deu o veredito:

- “ Ô seu infeliz, você já comeu todo o meu gadinho, comeu toda a minha safra de algodão, comeu todo meu rebanho de cabras, e agora num tem mais nada. Se quer comer, agora você só tem as minhas terras. Vender eu não vendo mas se quizer, pode começar a comer!”

                Esse evidentemente é um caso que não posso assegurar como verídico, mas muitos outros são verdadeiros, como o que relato a seguir.

                Zé Batista sempre foi um fazendeiro muito equilibrado e trabalhador, sempre zelando por sua bela fazenda na Cacimba Nova.

                Dado a proximidade da cidade, passou a morar na cidade. E foi contaminado pelo “cheiro da gasolina”.

                Mas, precavido, procurou não errar. Antes de mais nada, construiu uma Garagem, na Rua Dr. Fraga Rocha. E quando alguém perguntava que construção era aquela, ele respondia sempre:

- “É uma garagem, pois penso no futuro em comprar um caminhão”.

                Os amigos então o aconselhavam a desistir da empreitada, apontando os insucessos de muitos que enveredaram pela vida de caminhoneiro.  Mas ele, apesar de analfabeto, era inteligente. Terminou a construção, trabalhou mais algum tempo, e depois comprou um Caminhão Chevrolet Brasil, zero quilômetro. Contratou um motorista e passou a realizar o seu sonho: fazia o transporte de mercadorias do Sudeste para o Nordeste e vice-versa.

                Com o passar dos tempos passou a encaminhar a filharada para a profissão de caminhoneiro. Resultado: todos os seus filhos, à exceção do caçula, o saudoso Ozório, passaram a dotar a profissão de motorista. Foi assim, um dos poucos fazendeiros que migrou para a atividade de transporte com sucesso.

                Outros, nem tanto. Meu próprio pai tinha um comércio ativo, bem movimentado, com grande clientela. Caiu na tentação de ser caminhoneiro e viu seu comércio ir a deriva.

                Vários “causos” engraçados se contam sobre caminhoneiros sertanejos. Como o de um Fazendeiro das Bandas do Barro Vermelho, que comprou um caminhão, e na primeira viagem, o novo caminhoneiro segui na cabine ao lado  tendo o motorista, de nome Valdeci, constatado já no final da descida da Serra do mimoso que o “bruto” perdera os freios, exclamou:

“- Valha-me Deus, faltou freio!”

Ao que o apavorado transportador passa a implorar:

“- Intonce, Sêo Vardemar, pare pra eu descer, qui eu nun quero morrer de virada não!”

                Outro fala sobre a arrogância de um motorista que acabara de dar um polimento na pintura do famoso “Marta Rocha” ( Chevrolet 1956, de linhas arrojadas para a época), quando um fazendeiro, encantado com a beleza do bruto passou a mão na pintura, ao que o motorista “chiou”:

“ - Ei, velho, tire a mão e esse saco velho da pintura do caminhão.”

Ao que o pobre coitado, humilhado, pergunta ao motorista:

“- Sêo moço, qui má lhe pregunto: quanto custa mar ou meno um caminhão desse?”

O Motorista, para humilhar ainda mais o velhote, deu um preço bem superior ao real. O velhinho fez as contas, abriu o saco velho e despejou em cima do capô do caminhão, uma verdadeira fortuna, fruto da venda de uma boiada, e cujo valor cobria o valor informado pelo motorista, e deu o troco ao motorista:

“- Apois se o caminhão vale isso e é seu, me passe os papé dele que eu compro ele agora, e pago a vista. Agora se não for seu, dêxe de xalerá o dono e num venha querer passar pito nas pessoa!”

                Certa feita, Adamastor foi chamado para consertar uma camionete, em Quitimbu, que fazia semanas que a “bicha” não “pegava” nem no tranco.

                Limpeza do carburador, regulagem do relê, bota em tempo, enfim, faz uma revisão geral. Como a bateria estava arriada, pede aos presentes para dar uma empurradinha na camionete, para ver se ela “pegava”.

                Na primeira tentativa, nada, na segunda também não. Depois de várias tentativas e novos ajustes, enfim ela pega, fazendo aquele barulhão tão esperado pelo dono, que não se contendo agradeceu:

“ Viva Santa Luzia, qui graças a ela meu carrim tá bom de novo!!! 

Ao que, Adamastor, conhecido por sua fina ironia, não perdoou:

“- Se foi ela que consertou seu carro, porque você foi me chamar pra consertar?”

E o agora feliz proprietário contra argumentou:

“- Você consertou, mas ela ajudou!”

Adamastor aproveitou e concluiu:

“- Então você vai ter que pagar dobrado: além do meu trabalho, que deu certo, você teve a sorte de ter uma Santa ajudando!

E o pobre homem pagou a Adamastor regiamente e ainda faz uma doação para a Padroeira de Quitimbu.

E pra finalizar, nada mais ridículo do que aquele ajudante de caminhão que, para garantir a segurança do veículo e da carga, foi dormir na boleia do caminhão. Quando se preparava para dormir, descobriu um pijama do dono do bruto, e não teve conversa: vestiu aquela roupa “chic”.

Só que na manhã seguinte, quem disse que ele conseguia desamarrar o nó cego que ele deu no cordãozinho do pijama? Pense num sufoco, vendo a hora o dono chegar e ele ali vestido no seu belo pijama!!!
Não sei o final, só sei que isso aconteceu na antiga Bomba, no Posto Shell que lá havia.