Mais ou menos uma hora da madrugada.
Zeca é acordado pela mãe, e levado até a pequena sala de visitas, sob a luz
amarelada de um candeeiro. Ela explica que seu pai estará viajando para longe,
e é preciso se despedir.
Sem
compreender a razão daquela viagem, Zeca nos seus inocentes cinco anos tem mais
vontade é de voltar a dormir. Sua cabeça ainda não poderia compreender que
aquela viagem, antes de viagem era mais uma fuga. Uma fuga da crise que
permanentemente assolava aquele seu pequenino mundo, que se resumia a sua
pequena casa, na rua de acesso ao centro da cidadezinha acanhada que era
Alvorada da década de cinquenta.
Só dias depois é que Zeca entendia
aquilo. A bodega se resumia a quatro garrafas empoeiradas sobre a prateleira
quaze vazia, a balança enferrujada, enfim, um cenário de penúria que se abatia
naquele pequeno estabelecimento comercial tão típico das pequenas cidades
sertanejas.
Em casa, praticamente nada. A velha
petisqueira, com espelhos desgastados pelo tempo abrigavam alguns copos, poucas
chícaras e pratos. A mesa descoberta. Cadeiras que já pediam aposentadoria há
muito tempo. Na sala de visitas, apenas algumas fotografias ampliadas, com
retoques feitos gosseiramente, um pequeno rádio elétrico encimando uma pequena
prateleira a que chamavam de Atajé, algumas cadeiras envernizadas circundando
uma pequena mesa de centro cuidadosamente forrada por minúscula toalha feita de
renda branca.
Praticamente mais nada restou de
lembranças daquela fase. Apenas o dia em que o empregado da loja de eletrodomésticos
ao cobrar e não receber as prestações do pequeno rádio, o levou para sempre.
E como se acordasse de um sonho
esquecido, Zeca se vê agora na casa do Avô materno, no sítio Estrada Nova, na Serra
da Xícara, pés descalços, calça segurada por
suspensórios feitos do mesmo tecido da calça, sem camisa, correndo pelo
terreiro do velho casarão. Sempre as manhãs, acompanhava o avô ao curral, para
observar a ordenha, ou como o velho Juvêncio dizia, olhar ele “ tirar” o leite das poucas vacas, mansas,
que pacientemente aguardavam o final da ordenha, quando o bezerro que se
mantivera preso à sua pata dianteira esquerda, era solto e, faminto, dava
verdadeiros socos com a cabeça no úbere da vaca, em busca do pouco leite que
sobrara.
A TRISTE PARTIDA
Novo retorno no tempo e Zeca agora se vê montado em um burro, cheio de tralhas, malas e trouxas de roupas, junto a outros animais guiados pelo tropeiro conhecido por Servo, saindo da Serra da Chícara com destino a Alvorada. Lá, junto aos irmãos, Giba e Nonô, ajudando a mãe e o pai, carregando malas e trouxas, para um veículo fascinante, jamais visto por eles naquelas bandas. Era um ônibus de cor marron, com a parte de trás totalmente coberta de poeira vermelha das estradas sertanejas. Estão na cidade e se preparam para embarcar com destino ao Sul. Precisamente para a cidade de Capivari, no interior de São Paulo. A bagagem maior é colocada no bagageiro do veículo, sobre o teto do mesmo. Apenas algumas peças de roupa, algumas cobertas, a quartinha com água e a lata que contém parte da alimentação que será usada na longa jornada: galinha assada, farofa e arroz. E tem início a verdadeira aventura que era uma viagem do Sertão nordestino ao Estado de São Paulo, naqueles tempos. Sol de rachar, a poeira avermelhada da estrada encobrindo as roupas simples dos passageiros. Muito calor, cansaço, noites mal dormidas sob o Ônibus. Sequer lembra a quantidade de dias – sim, dias mesmo, que passaram na estrada cheia de poeira, até finalmente chegarem a uma cidade mineira, onde a partir de então a viagem prosseguiria de trem, meio de transporte jamais visto por ele e seus irmãos. Já não havia a poeira a incomodar, e ao invés do calor um frio irritante além do barulho da velha maria fumaça.
Desembarcam na cidade de Capivarí, interior de São Paulo. E nova vida se vislumbra para Zeca, seus irmãos, sua mãe, enfim, para aquela família sertaneja expulsa de sua terra pela seca malvada.
Agora sim, sua memória recorda com nítida perfeição, a sua nova moradia, a cidade, Capivari, o Rio Lavapés, que cortava a cidade. A estação do trem, o enorme canavial de Seu Santino, que ficava por traz de casa. Casa que Zeca tem fotografada na memória: de frente para o poente, recuada, com um janelão na parte da frente, onde ficava um quarto, a porta lateral que dava acesso à sala de visitas e à casa como um todo. Em seguida outro quarto, a cozinha, e lá por trás da casa, o imenso canavial separado apenas pelo terreiro de terra vermelha. Ao lado, a “casinha”, que servia coletivamente a cerca de 05 casas vizinhas. No lado esquerdo da casa, vizinhos que eram do Norte também, como chamavam a todos os nordestinos. Á esquerda, uma casa bem maior, que abrigava um família numerosa. Recorda que o chefe daquela família era um “artista”: tocava viola e cantava modinhas caipiras. Formavam a dupla Severo e Severiano. Quem era mesmo o dono da casa? Severo, ou Severiano? Não consegue lembrar. Apenas que se quedava extasiado com os acordes da viola caipira, nas noites em que a dupla fazia seus ensaios.
A vida era de uma rotina que só as crianças podem suportar. Acordar cedinho, com o cortante frio paulista, aguardando a passagem do entregador de pães e de leite. Brincar até abusar, no terreiro de trás ou no oitão da casa, e o pior, tomar aquele banho gelado que era um verdadeiro martírio para quem era acostumado ao calor do sertão nordestino. Por mais que a água estivesse morna, ao final batia-se o queixo por um longo tempo. E aguardar o fim de semana, quando o seu pai vinha do trabalho distante, como vigia de uma obra na zona rural.
O Rio Lavapés, que passava por tráz da casinha onde moravam, era preocupação constante de Nina, a mãe de Zeca, temerosa de que algum acidente acontecesse. Zeca certa vez empreendeu uma verdadeira aventura, saindo escondido e pegando carona em uma canoa percorreu bom pedaço do rio, tomando a inevitável surra na volta, horas depois. Outra estripolia que Zeca vez por outra lembra, e ainda se choca com as consequências que poderiam ter ocorrido, foi na “ casinha” . Não havia bacia sanitária, e a construção era bastante rústica. O piso de madeira continha um buraco quadrado, onde eram feitas as necessidades. Pois o Zeca certa feita olhou aquela escuridão lá dentro, botou as pernas e desceu até a cintura prá ver se seus pés atingiriam o chão. Ainda bem que desistiu logo e saiu ileso.
Certa vez Tonho, o pai, levou Zeca com ele, pois iria trabalhar apenas um dia e retornaria no dia seguinte. Animado com a novidade, Zeca se preparou como pode. Mas a experiência não foi nada agradável. No meio do mato, o abrigo era um barracão de madeira, coberta de zinco, e o frio que sentiu naquela noite o desencorajou a voltar aquele local.
IMAGEM NÍTIDA
Agora sim, sua memória recorda com nítida perfeição, a sua nova moradia, a cidade, Capivari, o Rio Lavapés, que cortava a cidade. A estação do trem, o enorme canavial de Seu Santino, que ficava por traz de casa. Casa que Zeca tem fotografada na memória: de frente para o poente, recuada, com um janelão na parte da frente, onde ficava um quarto, a porta lateral que dava acesso à sala de visitas e à casa como um todo. Em seguida outro quarto, a cozinha, e lá por tráz da casa, o imenso canavial separado apenas pelo terreiro de terra vermelha. Ao lado, a “casinha”, que servia coletivamente a cerca de 05 casas vizinhas. No lado esquerdo da casa, vizinhos que eram do Norte também, como chamavam a todos nós nordestinos. Á esquerda, uma casa bem maior, que abrigava um família numerosa. Recorda que o chefe daquela família era um “artista”: tocava viola e cantava modinhas caipiras. Formavam a dupla Severo e Severiano. Quem era mesmo o dono da casa? Severo, ou Severiano? Não consegue lembrar. Apenas que se quedava extasiado com os acordes da viola caipira, nas noites em que a dupla fazia seus ensaios.
A vida era de uma rotina que só as crianças podem suportar. Acordar cedinho, aguardando a passagem do entregador de pães e de leite. Brincar até abusar, no terreiro de tráz ou no oitão da casa, e o pior, tomar aquele banho gelado que era um verdadeiro martírio para quem era acostumado ao calor do sertão nordestino. Por mais que a água estivesse morna, ao final batia-se o queixo por um longo tempo. E aguardar o fim de semana, quando o seu pai vinha do trabalho distante, como vigia de uma obra na zona rural.
O Rio Lavapés, que passava por tráz da casinha onde morávamos, era preocupação constante de Nina, a mãe de Zeca, temerosa de que algum acidente acontecesse. Zeca certa vez empreendeu uma verdadeira aventura, saindo escondido e pegando carona em uma canoa percorreu bom pedaço do rio, tomando a inevitável surra na volta, horas depois. Outra estripolia que Zeca vez por outra lembra, e ainda se choca com as consequencias que poderiam ter ocorrido, foi na “ casinha” . Não havia bacia sanitária, e a construção era bastante rústica. O piso de madeira continha um buraco quadrado, onde eram feitas as necessidades. Pois o Zeca certa feita olhou aquela escuridão lá dentro, botou as pernas e desceu até a cintuda prá ver se seus pés atingiriam o chao. Ainda bem que desistiu logo e saiu ileso.
Certa vez Tonho, o pai, levou Zeca com ele, pois iria trabalhar apenas um dia e retornaria no dia seguinte. Animado com a novidade, Zeca se preparou como pode. Mas a experiência não foi nada agradável. No meio do mato, o abrigo era um barracão de madeira, coberta de zinco, e o frio que sentiu naquela noite o desencorajou a voltar aquele local.
De qualquer forma as coisas estavam bem melhores para Zeca e sua família. Com os irmãos tiveram até o luxo de ganhar um presente – inimaginável nas condições de sua terra. Um velocípede, orgulho dos três peraltas que a partir de então não viam as horas passar, sempre brincando e brigando pelo brinquedo. Interessante é que ele e seus irmãos na sua inocência de criancinhas pequenas – seis, quatro e três anos respectivamente, arrumaram uma forma prática de se comunicar. Não se sabe porque cada um era um número. Assim, Zeca, o mais Velho, era “Um” , Giba, o segundo, era “Dois”, enquanto que o mais novo, Nonô era “Três”. E só se tratavam por esses números.
- Mamãe, “Dois” tá dando em mim!
- É mentira, mamãe, foi “Um”!
E assim a vida ia passando, calmamente, com o Tonho sempre trabalhando, Nina, sua mulher cuidando das crianças e da casa, e as crianças apenas brincando. De novidade, apenas a chegada de mais uma criança, Maria, apelidade Nenê, branquinha, de olhos azuis como a sua avó materna.
Algum tempo depois, chega do longínquo sertão nordestino, um tio de Zeca, Mário, irmão de sua mãe. É uma verdadeira festa.
Trabalhador braçal disposto, diferente de Tonho, que era mais afeito ao comércio e outras atividades mais “ maneiras”, Mário logo se adaptou ao trabalho e com algum tempo também veio buscar a família no norte, como se dizia lá por São Paulo. E a vida prosseguia, apenas marcada pelas diversas vezes em que Zeca, um pouquinho maior que seus irmãos surpreendia sua mãe, Nina chorando. Perguntava sempre o que havia e a resposta era uma só: saudade dos pais, da terra, da casa, enfim, de suas raízes.
CONTINUA...