23 março, 2014

Entrevista com Inêz Oludé


1) Olá Inez Oludé, gostaria que você se apresentasse aos custodienses.

Inêz Oludé: Eu sou filha de Augusto Belo e Julieta Januaria, irmã de muitos Belo: Joaquim, Maninho, Zé Mago que são mais conhecidos talvez dos custodienses do que eu, Maninho, Joaquim, Zé Mago, Tonho, entre outros por ter saído há muitos anos do Brasil. Precisamente há 36 anos. Nasci em Betânia, soube pelo meu mano Joaquim, o Quincas, que nasci na Escola Normal.

2) Você poderia narrar um pouco da sua infância em Custódia? O que mais você se recorda dessa época?

Inêz Oludé – A única coisa que me lembro de Betania é o cheiro do doce de tomates que íamos buscar no Poço do Pau e seu Simpilicio, com quem eu ficava conversando, melhor dizendo, escutando ele. Também lembro das cocadas e doces de leite. Nunca mais voltei lá, mas este ano fui ver o meu passado. Acho que não mudou muito não. Quanto a Custodia, as lembranças são mais vivas, as feridas também. Era uma terra braba, me lembro. Aconteciam coisas medonhas, que não gosto de lembrar. Já foi enterrado este passado. Voltei depois do exílio, encontrei um personagem que chamavam de Caititu, que falou “não falei que a broquinha ia ficar bonita”? Me fez rir muito, lembrei que quando eu andava pelos quatro anos ele falou ” eita a broquinha vai ficar com uma estampa muito bonita”! Ele queria dizer a “brotinha” que se usava dizer com as crianças. Acho que cheguei em Custodia aos 3 ou 4 anos de idade. Morava perto da praça, dava pra ver a praça Padre Leão da janela onde eu ficava sempre sentada, quem sabe olhando as tardes calmas da cidadezinha contrastando com o sangue quente dos habitantes da época.

3) Como surgiu o seu interesse pelas artes?

Inêz Oludé: Eu sempre gostei de artes, aliás, minha mãe sempre dizia “esta menina é muito arteira!” Rsrsrs. Gostava de dançar, gostava de teatro, de cinema, das festas populares do Nordeste, de cordel, de gravura, enfim tudo isso me atraia. Quando pequena fazia desenhos na areia e enchi a casa dos meus pais de flores na época da decalcomania. Cadeiras, guarda-roupas, paredes, tudo colorido. Ficou lindo. Mas a pintura veio para me livrar da memória da prisão. E ficou!

4) Você está a bastante tempo na Europa, tens vontade de voltar ao sertão pernambucano?

Inêz Oludé: Quando vou o Brasil, a primeira visita é ao Sertão, vou lá ver meus parentes em Arcoverde, Sertania e Custodia…

5) Quais as dificuldades de se trabalhar com arte no País? Como tem sido seu apoio a brasileiros nesse sentido?

Inêz Oludé: Na palavra galeria tem galera, olhe remei muitos anos nas galeras européias, só lembro de esforço e o trabalho. Mas aos poucos estou tramando meu próprio futuro, se é que futuro existe. Em todo caso um pouco de reconhecimento, um pouco de gloria e de alegria artística estão chegando. Bem-vindos. O mundo da arte parece idealizado tanto pelos artistas quanto pela mídia, mas é muito duro e difícil. E no Brasil como em qualquer canto do mundo. Ou tem que ter amigos poderosos ou remar. E eu que remo contra a corrente então… ! Agora parece que esta ficando mais fácil, mas ao mesmo tempo, aparecem os invejosos que tentam se pendurar no seu trem, quando não tentam recuperar o seu trabalho. Com a Bienal estou tendo um certo apoio do Brasil, mas ainda não cobre o necessário para fazer uma bienal digna deste nome. Mas já é excelente. Aprendi a fazer com o que tenho.

6) O que você tem acompanhado de Custódia durante esse tempo?
Inêz Oludé: Agora estou mesmo a par de muitas coisas por ter reencontrado o Fernando Florêncio de Laura pela internet após 47 anos de separação, ele envia o babado todo por e-mail, sei dos encontros que acontecem todos os anos dos custodienses e o seu blog, onde navego de vez em quando para matar a saudade.

7) Durante troca de e-mails, te apresentei o artista Edmar Salles, o que achou do trabalho dele?
Inêz Oludé: É um artista muito interessante, com uma paleta maravilhosa e um trabalho de muita fineza. Claro que vi através de fotos, mas espero que vamos nos encontrar em fevereiro quando eu for ao Brasil.


8)Quando será possível uma apresentação em Custódia de alguns dos seus trabalhos?
Inêz Oludé: Vamos ver, o translado de obras de artes é muito custoso, precisaria ter um bom projeto para fazer no Brasil e levar uma itinerância a algumas cidades como Recife, Sertania, Betania, Custodia. O que eu gostaria de fazer é um mural sobre o tema de brinquedos populares (eu tenho lindas lembranças dos) brinquedos e brincadeiras que meus irmãos inventavam para nos distrair, triângulo, jogo de botões, carrinho de rolamento, capoeira, andar em quengas de coco, amarelinha, etc., com as crianças da cidade, e quem sabe, convidar as crianças de Betania para participarem? Para isso, teríamos que conseguir algum patrocínio para o material e apoios para a divulgação e inauguração.

9) O que achou do Blog Custódia Terra Querida? o que te a comentar sobre o mesmo?
Inêz Oludé: O Blog é maravilhoso, os amigos da infância colaboram, encurta a distancia e, claro nos mantém informados do que acontece na cidade.

10) Fique à vontade para fazer suas considerações finais.
Inêz Oludé – Gostaria de enviar aquele abraço aos custodienses e almejar que a nossa pracinha (Praça Ernesto Queiroz) recupere sua beleza de então.

Entrevista feita por: Paulo Peterson

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