5 de março de 2013

O Eclipse por Jailson Vital



Por Jailson Vital de Souza

Nos dias de hoje a crendice em fantasma, alma penada, lobisomem, vampiro etc., está desmoralizada. Os filmes de terror que antigamente nos assustavam tanto e nos deixavam sem dormir, hoje são comédias e os personagens embora de aparência aterrorizadora e executando ações macabras, só provocam gargalhadas dos jovens espectadores. No entanto uma parcela grande da população, principalmente aquela menos culta, ainda acredita que fenômenos naturais como enchentes, secas prolongadas, grandes incêndios e eclipses são castigos de Deus ou sinais do fim do mundo. Imaginem essa situação no início da década de 60. Ou melhor, imaginem o anúncio em Custódia de um eclipse total, naquela época. Pois eu lhes conto. 
O anúncio do eclipse (da lua, acredito) trouxe inquietação a grande parte dos moradores e começou a correrem os boatos dos malefícios trazidos por esse acontecimento, como doenças, pestes e mortes. Mas corria também para alívio dos desesperados a receita do antídoto para tudo isso. À semelhança dos castigos de Deus ao faraó e seu povo no episódio bíblico das 7 pragas do Egito (Êxodo), onde a salvação para os israelitas seria pintar as ombreiras da sua porta com o sangue de cordeiro (pois Deus veria esse sinal e seu castigo não entraria naquela casa), a salvação para aqueles custodienses na ocasião do eclipse seria colocar um ramo de arruda em um vidro e pendurá-lo na porta de entrada da casa. 
Alguns estudantes, eu entre eles, achávamos aquilo tudo um absurdo e tentávamos explicar a algumas pessoas que o eclipse se tratava de um fenômeno natural causado pelo alinhamento do sol, da terra e da lua, mas éramos vozes vencidas. Éramos pouquíssimos em relação aos que criam que o ramo de arruda era a barreira contra o mal iminente. Não nos conformávamos vendo que quase todas as casas tinham um vidrinho com um ramo de arruda pendurado na porta. 
Então, “bolamos” um modo de demonstrar esse absurdo. Naquela noite, quando aconteceria o eclipse, já altas horas, quando todos dormiam, saímos no jeep de um de nós e cuidadosamente fomos recolhendo os vidrinhos e colocando no jeep. Ao final da “coleta” fomos para a praça em frente à igreja e lá, em uma construção circular de paralelepípedo construída talvez com o intuito de futuramente ser colocada uma estátua, fomos depositando os vidros. 
No dia seguinte ao acordarmos fomos para a praça ver a reação dos que paravam para ver aquilo sem entender o que significava nem como todos aqueles vidros tinham ido parar ali. Havíamos finalmente demonstrado que, mesmo sem a arruda estavam todos sãos e salvos.

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