30 setembro, 2026

A Fé que Cura e Atravessa Gerações: Dona Helena, Neto Mateus e a Tradição Espiritual no Sertão de Custódia



Por Sertão Místico (Fevereir/2026)

No coração do Sertão Pernambucano, no Sítio Caldeirão, em Custódia, a fé popular ganha forma, voz e cura. É lá que vive Dona Helena, rezadeira e parteira quilombola de 81 anos, cuja trajetória de vida confunde-se com a própria essência da religiosidade e do saber ancestral sertanejo. Ao lado de seu neto, Mateus, de 21 anos, ela lidera um trabalho espiritual centrado na devoção ao Padre Cícero, na força da Jurema Sagrada e no auxílio de espíritos de beatas.

O Chamado no Sonho e a Cura pelas Ervas

A trajetória de Dona Helena no universo da cura popular não começou por escolha, mas por missão e necessidade de sobrevivência. Embora o chamado espiritual tenha surgido ainda na infância, aos 7 anos, a resistência da família e o medo de preconceitos — como o estigma de ser chamada de "catimbozeira" — adiaram sua aceitação.

Foi somente por volta dos 20 anos, após ser desenganada pela junta médica no Recife, que o destino tomou seu rumo.

"Sentia muita dor, desmaiava. Pedi a Nossa Senhora que me levasse, pois não aguentava mais. Foi quando sonhei com uma mulher bem-vestida que me disse: 'Você não vai morrer. Vai fazer um remédio de lambedor e tomar durante um ano, e esses da medicina vai jogar no mato. Quem vai criar seus filhos é você.'"

Através de revelações em sonhos e intuição espiritual, Dona Helena aprendeu a identificar as propriedades medicinais das plantas e cascas da caatinga. Recuperou a própria saúde e a de seu esposo, assumindo o compromisso de rezar e ajudar o próximo sem jamais cobrar por isso.

Relatos de Milagres e Acolhimento sem Distinção

Ao longo de décadas de dedicação no Sítio Caldeirão, milhares de pessoas já passaram pelo oratório da família — herdado de sua avó e de sua mãe, também parteira e rezadeira. Os relatos acumulam histórias impressionantes: pessoas trazidas amarradas que saíram pacificadas, casos desenganados pela medicina convencional e pessoas em cadeiras de rodas que voltaram a andar.

Apesar dos relatos extraordinários, Dona Helena e Mateus mantêm a humildade e fazem questão de atribuir as curas à fé individual e ao poder divino.

  • Fé sem preconceito: A casa de oração recebe a todos — católicos, protestantes, umbandistas — sem distinção religiosa.

  • Gratuidade: As orações e garrafadas de ervas são oferecidas gratuitamente como ato de caridade.

  • Guia dos caboclos: A medicina tradicional da caatinga conta com o auxílio do Mestre Cauã e do Rei dos Índios, protetores das matas.


A Continuidade com Mateus: A Sucessão da Linhagem

O trabalho espiritual da casa tem uma tradição guiada por espíritos de beatas vinculadas à doutrina do Padre Cícero. Historicamente, a missão foi acompanhada por três figuras doutrinadoras:

  1. Beata Maria: Acompanhou Dona Helena nos primeiros 18 anos de trabalho espiritual.

  2. Beata Mocinha: Assumiu o guia espiritual da casa durante 24 anos.

  3. Beata Kinô: A atual mentora espiritual que atua nos atendimentos.

A sucessão familiar, no entanto, já é uma realidade. Previsto anos antes por revelações espirituais, o jovem Mateus assumiu a liderança das rezas coletivas nos últimos anos, permitindo que sua avó poupe as forças devido à idade avançada.

"No começo foi um martírio grande por causa das regras e da minha idade. Mas quando olho para trás e vejo uma pessoa triste sair sorrindo, desenganada sair curada, tenho certeza da minha missão. A recompensa maior é ver a fé agir." — Mateus

Com cânticos de Jurema, orações ancestrais e a botânica sertaneja, a história de Dona Helena e Mateus reafirma o papel essencial das rezadeiras na preservação do patrimônio imaterial do Sertão.

Para assistir ao vídeo completo, abaixo o link:



Outra matéria foi postada anteriormente sobre Dona Helena, escrita por Géssica Amorim, pode ser acessada clicando: AQUI

Nenhum comentário:

Postar um comentário