30 setembro, 2026

Cativeiro, Fome e Violência: A Realidade da Escravização no Sertão do Nordeste


Foto e Texto:
Tiago de Andrade Lima Motta


A história do sertão nordestino é entrelaçada por relatos transmitidos através das gerações, preservando a memória de um tempo de dor, opressão e resistência. Em depoimento resgatado pela tradição oral, Seu Dezinho Mansidão da Silva (filho de Firmino Mansidão, descendente dos escravos do Capitão Lili, no sítio Carvalho), traz à tona lembranças do tempo da escravização e das violências perpetradas por senhores de engenho e fazendeiros regionais na transição para o período pós-Abolição.

1. A Punição e a Crueldade Institucionalizada

As memórias compartilhadas por Seu Dezinho detalham o rigor punitivo aplicado pelas figuras de autoridade locais, como o chamado Capitão Campo. Entre as práticas relatadas pela memória familiar, destacam-se:

  • Castigos Corporais Exacerbados: Punições como o retalhamento e a salga das costas dos escravizados.

  • Acomodação no Tronco e Agilhos: O uso de correntes pesadas nos pés e o confinamento no tronco, instrumento recorrente de tortura e imobilização nas propriedades da região.

2. Condições de Subsistência e Restrição de Recursos

A dieta e os meios de sobrevivência oferecidos às populações cativas e submetidas ao trabalho compulsório eram extremamente precários:

  • Alimentação Limitada: A base alimentar consistia em rações mínimas de farinha de feijão, toucinho, xerém e leite.

  • Interdição da Autossustentação: Havia proibições estritas por parte dos proprietários quanto ao aproveitamento de recursos naturais ou caça local (como o peba), impedindo qualquer alternativa de complemento alimentar por conta própria.

3. A Ilusão da Liberdade e a Manutenção da Dependência

Embora a promulgação da Lei Áurea pela Princesa Isabel em 1888 tenha marcado o fim jurídico da escravidão no Brasil, Seu Dezinho e os interlocutores locais chamam a atenção para a continuidade das estruturas de dominação:

  • Permanência nas Fazendas: Sem acesso à terra, crédito ou assistência do Estado, muitos libertos e ex-escravizados não tinham para onde ir e permaneceram sujeitos aos mesmos patrões.

  • Submissão às Mesmas Condições: Na prática, o cotidiano no pós-Abolição manteve-se marcado por jornadas exaustivas, alimentação restrita e maus-tratos, perpetuando a dinâmica de exploração sob o pretexto da sobrevivência contra a fome.

4. Territorialidade e Preconceito Social

As narrativas conectam essa memória a pontos específicos do sertão (como Poção, Cacimba de Cima e São Sebastião do Umbuzeiro, na Paraíba) e evidenciam a profundidade das barreiras raciais e do preconceito que marcaram as relações sociais na região, onde a miscigenação e os relacionamentos inter-raciais enfrentavam forte oposição das elites locais.

Estes relatos orais constituem um valioso patrimônio imaterial para a compreensão da história social do sertão, evidenciando as marcas deixadas pelo sistema escravista na formação das comunidades rurais e quilombolas do interior nordestino.

Com informações colhidas por 
Tiago de Andrade Lima Motta

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