02 setembro, 2026

Custódia da minha infância - Zezé do Amaral França



Não é de muito longe. Quase de ontem, a Custódia da minha meininice. A gente sempre guarda uma saudade do que se chama “recordações da infância”...

Nasci nessa cidade, na casa nº 45; ficava no local onde se realizava a feira livre, em dia de segunda-feira. Esse quadro tinha a denominação de Praça 4 de Outubro. Hoje, a bonita Praça Padre Leão. Aí, está a Igreja da cidade. Nela, fui batizada, tendo como padrinhos: Euclides Amaral e Santa Ana.

Nesse imenso espaço, reunia-me com as meninas, para as brincadeiras de roda, cujas canções ainda são repetidas nas rodas atuais: academia desenhada no chão; pular corda, etc.

Época do Padre Antônio Duarte, vigário local. Como pedagogo nato, sabia lidar com a criançada, promovendo recreação, após o catecismo. Dramas, show, competição com distribuição de prêmios aos vencedores; declamação de poesias; cânticos, eram ensaiados. A escolha para se exercer determinados papéis era de conformidade com a habilidade das pequenas artistas. Sobressaíam: Osminda, Orcinda, Neusa, Durcília, Luiza Aleixo, Alzira Farias, Neuma Florêncio, Áurea, Maria Emília, Gerusa Amaral, entre outras.

Para cada acontecimento social ou político ou mesmo para prestar uma homenagem o Padre Duarte compunha estrofes, musicando-as. Foi o que aconteceu, quando o Prefeito Ernesto Queiroz favoreceu a cidade, com luz elétrica. Na inauguração, em 1939, foi feita, ao mesmo, uma homenagem e JOANY (hoje, primeira-dama) cantou:

Em Custódia antigamente
 só reinava escuridão
 eram trevas e mais trevas
 que pairavam na amplidão
 Que horror, que coisa triste 
 Santo Deus, e Credo em Cruz
 Mas por uma felicidade
Veio Ernesto e deu a luz.

Estribilho:

Digamos todos, e todos nós 
Viva o Prefeito Ernesto de Queiroz.


FESTA DE SÃO JOSÉ — Repetiam as atrações externas, comuns às outras festas.

O novenário atrai os cristãos para louvar o querido padroeiro. O altar do Sacrário e sobre o mesmo, o nicho com a imagem do venerado, revestiam-se de maior beleza. Tudo era culminado com a procissão, pelas principais ruas da cidade. Ao chegar o andor, os sinos repicavam com mais insistência e a girândola estourava, aparecendo luminoso o retrato de São José.

DONA (Maria), a quem muitos dos custodienses a chamavam de Madrinha Dona, era uma pessoa singular. Lembro-me, que em sua casa, ao lado da Igreja, no seu quintal, mantinha um cercadinho onde cultivava: espirradeira, bogari, jasmim, alfinete de noiva, bambu, latinhas com bonina, crótons variados e outras plantas que resistiam à inclemência do verão sertanejo.

Mantinha, permanentemente, o altar do Santíssimo ornamentado com essas flores e folhagem.

MÊS MARIANO: Noiteiros, ladainha cantada, etc. As crianças, participantes do catecismo, no 1º dia de maio, vestidas de anjo, com asas trabalhadas com papel crepom e flores nas mãos, chegavam à Igreja cantando:

Queremos a Maria
flores oferecer...


Assim vestidas, no último dia, entravam para coroar Nossa Senhora.

As enfrentantes das festas e do dia-a-dia da Igreja, além de Dona: Maria Josefina, Iaiá Florêncio, Ester Pires, etc.

SÃO JOÃO — O som da bandinha de pífanos e zabumba me fascinava. As barraquinhas eram freqüentadas. Fogueiras crepitantes esquentavam as noites juninas e as rodas, em torno das mesmas, indispensáveis. Delas, firmavam-se os compromissos com as madrinhas e padrinhos, abençoados por São João Batista.

Comida de milho, sim, essas não faltavam.

Nas casas, a imagem de São João, com seu inseparável carneirinho, cercada de flores e velas acesas num atestado de fé e religiosidade.

A iluminação discreta das lanternas oscilantes, penduradas nas janelas.

Portas abertas num abraço de luz e hospitalidade.

As moças agrupavam-se para as adivinhações: umas, vão colocar facas novinhas nos troncos polpudos de bananeiras; outras, enchem d'água bacias que ficavam ao relento; a adivinhação do ovo no copo para descobrir alguma mancha que denotasse uma igreja, terço ou então...

Os primeiros raios do sol surgem. É a hora de interpretar as adivinhações: correm algumas, debruçam-se sobre bacias para verem seus rostos retratados ou não na água.

Retiram a faca da bananeira, procurando descobrir o nome do futuro marido. Outra, levanta o guardanapo que esconde o copo feiticeiro: Uma torre! É de igreja! E a mocinha fica feliz com tão próximo casamento assegurado pelo milagroso santo. Figura de terço: convento ou ficar para titia.

Daí, as decifrações das adivinhações resultarem em alegrias ou insatisfações. Os balões eram atrações. Pontinhos trêmulos, na sua corrida efêmera de estrelas de papel... Na minha visão, era algo que subia em viagem; para onde?

Nunca descobri!

Despediam-nos da festa, já pensando no São João vindouro.

7 e 11 DE SETEMBRO — Desfile dos escolares. Farda nova ou a da diária, muito engomada. Nos cabelos, lacinhos verde-amarelo. O tênis branco complementava a indumentária. Alguém discursava, poesias eram recitadas e a bandeira do Brasil, hasteada. “Pátria”, nome ouvido com respeito, emoção e amor.

NATAL — Festa muito esperada. O Pastoril animava o povo. Armavam-se barracas. Nas minhas compras, não faltava a cestinha de papelão revestida de papel de seda em duas cores. Um dos artesanatos dessa época. Conteúdo: bolinhos e os deliciosos confeitos de mel de abelha. Bebia-se a famosa gasosa.

O carrossel e barcos de propriedade de Duda Ferraz, empurrados à mão, completavam nossa alegria. Sim, o vestido novo fazia-nos vaidosas. Meia-noite, a Missa do Galo, no patamar da Igreja.

Gradativamente, essas festas iam tomando nova fisionomia, chegando a vez da difusora “Duas Américas”, onde se ouvia dedicatória de canções da época.

ESCOLA — A aula era ministrada na sala de visita da professora. Conduzíamos o nosso tamborete. Professoras municipais: Betinha de D. Isabel, Rosinha e Maria Augusta Amaral (Manoca). Do Estado: Corsina Valença e Ivete Matos.

Depois, veio a construção do 1º Grupo Escolar “General Joaquim Inácio”, em 1944, na 2ª gestão do Prefeito Ernesto Queiroz. Os professores eram tidos como autoridades. Suas funções iam além do ensino.

MATURIDADE — Custódia chegou a sua idade adulta: Várias Escolas de 1º Grau, Hospital, três Bancos, oito farmácias, dois clubes sociais, mais de dois hotéis, casas comerciais variadas. A fábrica de doce Tambaú é de excelente qualidade. Bonitas casas residenciais e a cidade bastante estendida.

Fui acompanhando o seu progresso, visitando-a sempre. Daí, não me surpreender com a sua evolução.

Custódia da minha infância tem muito de que fazer saudades...

Ambientes, usos e costumes foram retocados pelas tintas da civilização.

Cresça mais CUSTÓDIA, e muito mais! Eu, agora, a vejo com olhos adultos.

Extraído do livro RETRATO ESCRITO VOLUMA I, publicado em Recife, em 1993.

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