A notícia do falecimento do professor, historiador e escritor Jovenildo Pinheiro de Sousa golpeia o peito com a força de um vento forte que varre a caatinga. O Sertão perde um de seus intérpretes mais profundos, e a cultura pernambucana despede-se de uma mente brilhante. Ele guardava em si a essência do território que o gerou.
Nascido em Custódia, Jovenildo trazia na alma a altivez de sua terra natal e, acima de tudo, definia a si mesmo com a bravura lírica de quem não aceitava amarras: era o legítimo “Guerrilheiro da Revolução do Sertão do Moxotó”. Sua partida física deixa um vazio imenso, mas sua contribuição para a História Social do Nordeste permanece inabalável.
Jovenildo revolucionou os estudos sobre o banditismo em sua obra-prima, Sertão Sangrento: Luta e Resistência. Para ele, o cangaço jamais poderia ser resumido à dicotomia rasa de heróis ou vilões. Jovenildo enxergava o fenômeno com o rigor metodológico de quem sabia que as raízes da violência sertaneja estavam plantadas nas sesmarias da colonização, no genocídio dos povos indígenas e no abandono estrutural do Estado. Ele via as táticas de Lampião não como mera barbárie, mas como uma refinada e pragmática inteligência de guerrilha militar, nascida da própria geografia do semiárido.
Tive a imensa felicidade e a honra de conhecê-lo pessoalmente. Conversamos por mais de uma vez sobre as páginas densas do seu livro e, de forma tocante, sobre as dores de sua própria história. Ouvir Jovenildo relatar os anos de exílio em Cuba era caminhar por um labirinto de desencantos políticos. Jovem idealista perseguido pela ditadura militar brasileira na década de 1960, ele buscou abrigo na ilha caribenha. No entanto, sua mente livre e crítica recusou-se a silenciar diante da opressão, tornando-se também um dissidente do modelo autoritário de Fidel Castro. Ele me confidenciou os horrores sofridos naquele regime, uma dupla cicatriz que carregava com a dignidade dos que nunca negociaram suas convicções libertárias. Este capítulo da história de Jovenildo está na Exposição ” Memórias da resistência – 5 0 anos do Golpe militar em Sertânia”; , organizada por mim , em 2014 , da qual ele é uma das personalidades enfocadas.
A vivência de Jovenildo em Sertânia era o reflexo desse espírito agregador e profundamente sensível. O município testemunhou sua convivência fraterna com uma constelação de mentes brilhantes, gigantes da palavra e da poesia, como José Carneiro, Ésio Rafael, Marcos Cordeiro e os queridos irmãos Belo — Joaquim, Antônio, Inêz e Maninho —, alguns dos quais compartilhavam com ele o orgulho do berço custodiense. Ver esse grupo reunido, ou debater com eles, era testemunhar a própria efervescência intelectual do Moxotó- Ipanema em sua máxima potência.Mas a grandeza de Jovenildo Pinheiro não se limitava aos livros ou aos debates acadêmicos; ela transbordava em gestos concretos de amor ao próximo. Tive o privilégio de caminhar ao seu lado nas trincheiras da solidariedade.Participamos juntos do Projeto Natal Solidário e das incansáveis ações humanitárias do Lar Fraterno Vovó Cavendish, instituição admirável liderada por seu primo, o também poeta André Pinheiro, à frente da Casa dos Espíritas de Sertânia. Ali, longe dos holofotes da academia, o historiador transformava sua teoria de justiça social em prato de sopa, em acolhimento e em afeto para os mais vulneráveis.
Jovenildo Pinheiro parte no dia de hoje, mas o seu legado não aceita o esquecimento. Ele seguiu os passos dos bravos de que tanto escreveu: resistiu, lutou, sofreu o exílio e floresceu na generosidade. O Guerrilheiro do Moxotó descansou das batalhas terrenas, mas sua voz continuará ecoando em cada página de sua obra e em cada ação de amor que deixou plantada no solo sagrado do Sertão. Descanse em paz, mestre, amigo e eterno combatente.
* Josessandro Andrade é Artista da Palavra e Educador


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