25 junho, 2026

A Menina que limpava livros - Paulo Mapu

 


- A menina que limpava livros...

Era seu primeiro dia como higienizadora de livros na Biblioteca...nada melhor do que começar a limpeza pelo Poema Sujo de Ferreira Gullar era preciso deixá-lo limpinho, onde já se viu um poema sujo.

Enquanto limpava os poemas seu coração se agitava com o poder das palavras que saltavam dos livros como se tivesse vida própria.

Seu trabalho foi se tornado uma missão e sem pedir permissão foi modificando os versos de acordo com sua imaginação.

Não bastava matar os fungos, retirar o mofo impregnado pelo tempo...era preciso ir além limpar os versos e os gestos que para ela era mais forte do que a própria sujeira contida nas páginas...

Foi assim que com pena do Homem Bicho, ou do Bicho Homem, de Manuel Bandeira catando comida entre os detritos...resolveu sentá-lo em uma mesa farta de alimentos ao lado de gente importante como está escrito nas Sagradas Escrituras Deus tira o pobre do monturo e o faz assentar ao lado de príncipe do seu povo.

Umas pilhas de outros autores ficaram sobre sua mesa para serem higienizados...e se necessário modificado em histórias alegres...afinal chega de tanta tristeza pensava a menina.

Logo cedo na manhã cai na sua frente o poeta Leminski brigando com sua própria criação...que como ele tornava-se revoltado e desobediente rimando frases não ditas nem pensadas por ele.

À medida que ia limpando os livros ela também se limpava dos seus conceitos e preconceitos e foi assim que entrou em contato com Maiakovski e lavou seu coração enlouquecido pela paixão...

Não foi sem razão que mexeu nos versos de Augusto dos Anjos tirando o gosto de cemitério em alegres jardins primaveris.

Não poupou os clássicos, ressuscitou Romeu e Julieta que envelheceram juntos vivendo de amor.

Achou muito asqueroso a barata de Kafka e dela surgiu uma borboleta colorida em pleno voo pousando em uma flor.

Teve pena também de Mario de Andrade atirando para o diabo suas tripas e num gesto piedoso deu-lhe um destino mais digno jogou-as para os urubus e o resto deixou como estava, o sexo na Paissandu, os pés na Rua Aurora, apenas fez uma mudança em relação aos ouvidos, telegrafo não mais existe...se queres saber da vida alheia, basta deixar os ouvidos em cima da Torre de Brasília e ali ficar bem atento.

Enquanto limpava os livros, a menina ia também se politizando...por isso descobriu que a fome não era uma sina, a fome não era preguiça nem tampouco era um destino, foi graças a Josué de Castro com seu livro proibido que veio a revelação: a fome era produto da má distribuição.

Enfim sua profissão tão nobre e merecedora foi lhe trazendo angustia por não poder transformar tanta dor e agonia vivida ao seu redor, os livros ficaram limpos, os versos ficaram certos...mas os homens continuaram dormindo pelas calçadas as crianças perderam as praças e os carros encheram as ruas...

Paulo Mapu
São Paulo-SP
18.03.2014

Lido no ato do livrocidio de Osasco em 07.04.26

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