O velho patriarcado sertanejo era bastante rígido em relação à manutenção da honra de seu nome, principalmente no seio da família, onde as filhas eram “protegidas” pelos pais enquanto não se casassem. Só que, para isso ocorrer, havia todo um longo e penoso processo. A mãe, geralmente mais tolerante, acompanhava a filha a festas, feira, igreja etc., sempre de olhos e ouvidos atentos a eventuais “conquistadores”. Se aparecesse um jovem se “enxirindo” para a sua filha, a reação poderia ter duas vertentes: seria de defesa por parte da mãe, se o pretendente fosse um “Zé Ninguém”, ou seria alcoviteira, se o dito jovem representasse um bom partido para a filha.
Ocorre que, não raro, aquele pretendente escorraçado pela vigilante mãe não desistia e acabava por conquistar o coração da jovem sertaneja. Começava, então, o namoro “escondido”, sempre auxiliado por amigas da jovem, que serviam de “correio” para recados e bilhetes entre os jovens apaixonados. E tudo corria bem até que os pais descobrissem o namoro proibido. A vigilância era redobrada, os cuidados, apurados, e a jovem coitada vivia “presa” no seu lar.
Mas as amigas “alcoviteiras” se desdobravam em recados, e o casal de jovens resolvia fugir para forçar o casamento. Isso porque o código de honra do sertão daquela época era implacável: a honra da filha fugidia tinha que ser reparada com o casamento ou com sangue.
Aí é que ressurgia uma velha prática iniciada com os homens das cavernas, que consumavam seus “namoros” arrastando com uma mão a sua “amada” pelos cabelos e com um tacape na outra mão para a sua defesa.
Evoluindo com o tempo, a prática se transformou no famoso “roubo de moça”, com costumes mais humanos e modernos. Hoje, a prática se transformou no simples comunicado dos jovens aos pais de que decidiram viver juntos.
Assim, os jovens marcavam dia e horário da fuga, geralmente de madrugada. O jovem, travestido de raptor, chegava a cavalo e fazia um sinal de assobio; em poucos instantes, o casal já estava cavalgando contra o vento frio da madrugada, em busca de um abrigo para servir de ninho de amor.
A tradição mandava que o raptor levasse a amada para a residência de seus padrinhos, uma forma de assegurar a honra — ou o que restou dela — da jovem fugidia. A partir daí, começavam as tratativas para, primeiro, tranquilizar os pais que ficavam desesperados de manhã ao notar a ausência da filha. Depois, vinham as providências para reparar o “erro” do jovem casal: providenciar imediatamente o casamento, única forma de evitar o confronto que terminaria em sangue para “lavar a honra” daquela família ultrajada com o rapto.
Essa etapa da aventura era composta de rituais seguidos ao pé da letra. A moça deveria se ajoelhar aos pés do seu padrinho e pedir a sua bênção; o padrinho deveria levar a afilhada até seus pais, explicar a situação e, juntos, iniciarem as providências para o casamento. Até a realização do matrimônio, a moça ficaria sob a guarda de seus padrinhos ou pais, sem contato íntimo com o futuro marido.
No final das contas, tudo acabava bem. Casados, os jovens passavam a — tardiamente — planejar e pôr em prática os seus sonhos. A casa, o trabalho, a normalidade, os filhos, enfim, a reprodução da vida que segue.
O roubo de moça era notícia para ser comentada pela população por semanas. Naqueles tempos sem comunicações, notícias eram coisas raras.
Recordo-me de que assisti a um “roubo de moça” no início da década de sessenta. Morávamos na Travessa Heleno Aleixo e, em certa tarde, ouvi um verdadeiro alarido. Ao procurar ver melhor, observei um cavaleiro em desenfreada carreira no cavalo, com uma moça na garupa, agarrada a ele. Depois surgiu o comentário de que se tratava de um roubo de moça.

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