No coração do Sertão do Moxotó, no Sítio Timbaúba, em Custódia, a história da formação rural brasileira permanece viva através dos relatos orais e das estruturas arquitetônicas do local. Em entrevista concedida ao canal Sertão Mano Amigo, Seu Cícero Mariano(cargo militar e administrativo de Portugal e do seu império colonial, responsável por comandar forças militares e administrar regiões), morador local de 89 anos, resgatou memórias fundamentais sobre a colonização regional, o período escravagista e os episódios que moldaram o interior pernambucano.
Uma Arquitetura Centenária
A residência de Seu Cícero Mariano, erguida em 1929, preserva traços marcantes da arquitetura sertaneja do início do século XX. A estrutura destaca-se por sua calçada elevada em relação ao solo e pelo reaproveitamento de materiais de uma antiga edificação colonial. As madeiras e o alvenaria pertenciam ao antigo casarão do Capitão-Mor, situado originalmente no Sítio Capoeiras, antes de serem transplantados para o Sítio Timbaúba.
Geografia Colonial e a Divisão das "Léguas"
Os relatos de Seu Cícero traçam a cartografia de uma vasta propriedade territorial que se estendia por diversos pontos de referência do sertão, como as localidades de Iguaraci, o Poço do Boi, o Poço da Cruz e Jeritacó.
Para assegurar a fixação da família nas terras, o Capitão-Mor dividiu sua imensa propriedade entre seus 12 filhos utilizando o sistema de léguas (cada légua equivalente a aproximadamente 6 km). Cada herdeiro recebia uma faixa de uma légua de largura para casar, construir sua moradia e dar continuidade à exploração agropecuária na região.
O Livro de Registros e a População Escravizada
A rotina e a contabilidade da fazenda colonial eram registradas pelo próprio Capitão-Mor em um documento histórico confeccionado com penas de peru e tinta importada de Portugal.
Entre as informações preservadas pela memória oral, destacam-se:
Produção e Tributação: A propriedade registrava uma média anual de 1.000 bezerros. Dez por cento da produção (100 bezerros) eram destinados ao pagamento de dízimos e tributos coloniais.
Inventário Humano: O livro contábil listava o inventário de 42 pessoas escravizadas, entre adultos e crianças, categorizadas como patrimônio da fazenda.
Rotas e Violência: Os escravizados eram comprados no litoral, em Recife, e forçados a realizar longas caminhadas a pé pelo interior em busca de terras e minérios. Relata-se que eram marcados a ferro quente, vestiam apenas tangas e enfrentavam a escassez de alimentos.
O Destino do Acervo: Entre a Praga e o Fogo
A memória material daquele período sofreu com a ação do tempo e o desgaste natural:
A Perda do Livro: O antigo livro de registros foi lido por um padre da cidade de Custódia antes de sua degradação final. Sem conservação adequada, o documento acabou destruído por traças e ratos ao longo das décadas.
O Tronco de Punição: Próximo à antiga senzala, ficava o instrumento de castigo: madeira de altíssima densidade. Equipado com rodadeiras e cadeados, o tronco mantinha os escravizados presos pelos pés por dois a três dias consecutivos. A carcaça da madeira resistiu até a geração do irmão mais velho de Seu Cícero, sendo eventualmente consumida pelo fogo.
Entre a Libertação e a Era do Cangaço
A trajetória da família Mariano entrelaça-se com momentos decisivos da história nacional:
O Ano da Abolição (1888): O pai de Seu Cícero nasceu em 1888, ano da assinatura da Lei Áurea. Órfão ainda jovem, ele chegou a habitar as ruínas do antigo casarão colonial abandonado.
Violência Local e o Cangaço: A memória oral guarda episódios de figuras autoritárias, como o Capitão Chico, na região da Várzea Grande, e relatos das passagens do bando de Lampião pelo Sertão e por Sergipe. Seu Cícero recorda histórias das tropas em combate, onde homens feridos eram abandonados na caatinga, culminando no desfecho do cangaço na Grota do Angico (SE), em 1938.
Preservação do Patrimônio Imaterial
Além de documentar a evolução das famílias tradicionais da região — como os laços dos Mariano com a família Machado, em Carnaíba —, os depoimentos de Seu Cícero Mariano reafirmam o valor da tradição oral. Suas memórias resgatam a complexa rede social, econômica e humana que fundamentou o sertão pernambucano.


