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14 setembro, 2026

A assombração do aveloz - Fernando Florêncio

 


​Partindo de Custódia em direção ao Quitimbu, havia duas estradas. Uma pelo antigo campo de futebol, onde hoje é o Tamboril e outra pelo beco de João Florêncio, ali nos fundos da igreja.

​Estas duas saídas mais na frente se encontravam, convergindo para uma estrada única em direção à Cacimba Nova e outros povoados até o Quitimbu e daí até o infinito.

​Bem no local onde as estradas se encontravam, ficava a fazenda de Seu Pedro Mariano, pai de Dr. Rubinaldo Rezende, que entre outros animais, criava porcos (e porcas) e conhece bem essa história.

​De repente, bem em frente à casa da fazenda, que por sinal tinha uma cruz fincada na beira da estrada, em memória de alguém que fora assassinado naquele local, começou a aparecer uma "visagem" apavoradora. Era escurecer, e naquela cruz, antes inofensiva, passou a ser palco de uma assombração tão pavorosa que a matutada saía da feira antes de escurecer para não cruzar com aquele demônio.

​No Bar Ponto Certo, depois de algumas "lapadas" de Serra Grande, Zé Aleijado, que tinha as pernas atrofiadas em decorrência de uma paralisia infantil e andava com ajuda de muletas, apostou que por uma meiota de Serra Grande ele passaria a noite ao lado daquela cruz, desmoralizando assim a visagem. Só preciso que um cabra corajoso igual a mim me leve nas costas até lá.

​Foi aquele alvoroço. Teria Zé Aleijado tanta coragem a ponto de desafiar o sobrenatural?

​Logo Mané Bidó, um preto forte, gente boa até demais, também amante da Serra Grande se prontificou:

- Eu levo o "home" até lá. Vamos esperar anoitecer.

​Dez da noite, Mané Bidó jogou Zé Aleijado nas costas e se mandou para o local mal assombrado.

​Só que descobriram que aquela "marmota" não era bicho do outro mundo coisa nenhuma, era sim, uns ciganos que acamparam ali próximo e resolveram roubar os porcos de Pedro Mariano.

​Enquanto uns iam até o chiqueiro pegar os porcos, outros ciganos enrolados em um lençol branco, faziam todo tipo de piruetas para assombrar quem eventualmente por ali tentasse passar.

Quase meia-noite, aparece Mané Bidó com Zé Aleijado nas costas. Perto da Cruz, a lua cheia clareava tudo. A "assombração" quando viu Mané Bidó com Zé Aleijado nas costas, imaginou que seria um comparsa cigano com um porco às costas e foi perguntando:

- É porco ou porca?

Mané Bidó não conversou. Sacudiu Zé Aleijado em direção à "alma", dizendo: Ou porco ou porca, tome ai seu bagulho!!!

​Pegou a estrada de volta que terminava no beco de João Florêncio, fazendo curva em duas rodas a mil por hora.

​Zé Aleijado, arremessado, tocou o chão correndo e diferentemente de Mané Bidó, pegou a estradinha que desembocava no campo de futebol descendo a ladeira do grupo escolar.

​Quando Mané Bidó, suando que nem tampa de bule, com olhos esbugalhados e faltando a voz chegou ao Bar Ponto Certo, (que fechava sempre na madrugadas), Zé Aleijado já tinha tomado duas lapadas de Serra Grande.

​Dr. Rubinaldo conhece bem essa história.



Autor: 
Fernando Florêncio de Souza
Foi Assim (Uma História Autobiográfica)
Ilhéus-BA
2010

Para adquirir entrar em contato pelo e-mail: florencio.fernando@hotmail.com


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