22 de junho de 2016

Foi Assim - por Anísio J. S. Cruz



Foi assim... 

O Fernando já havia dito que estava escrevendo as suas memórias, o que me deixou ansioso, pelo que conhecia da sua vida, e por sabê-lo sertanejo, dos bons, como o mandacaru, que florando lá na seca, é sinal de inverno farto. E eu não estava enganado. Ave de arribação, da região do Moxotó, mais precisamente de Custódia, saiu um dia, ao encontro do “seu norte”, quando o “homem que via longe” apontou o caminho do mar: “Vai menino, você merece coisa melhor”. 

Recife e Olinda foram a escola, o aprendizado pra viver em cidade grande, buscando o seu intento, na Escola de Aprendizes de Marinheiros, onde ficou “agregado”, até passar no exame, e se tornar o 147. Tempos duros, de provações para o menino que de tudo tirava boas lições de vida. A saudade de casa, os primeiros namoricos, a carência afetiva, e a “mãe de leite” ali pertinho, sem que soubesse... 

A 23 de junho, jurou Bandeira, engajando-se na Marinha do Brasil. Agora dentre os 512 que chegaram, já era o 15º, posição de honra para o “custodianense”. O

E a “cidade maravilhosa” despontou no horizonte para o jovem que desembarcou mareado no cais do Arsenal da Marinha, brindado com a visão do Cristo Redentor, e do Pão de Açúcar, um encantamento à parte, é verdade. Estudos, e mais estudos, se realmente quisesse crescer, como aconselhou o tenente. E aí, o meu bom Fernando com suas histórias, me trouxe de volta a situações que em muito me emocionaram: o golpe militar de 64, e os anos duríssimos que todos da nossa época vivemos, e ele, em particular, no “olho do furacão”, vendo a “batata esquentar”. Os momentos dramáticos que tão bem conhecemos, tem aqui uma narração eivada de detalhes, a nos mostrar o outro lado da história. A angústia, as incertezas com relação ao futuro, e todos os sacrifícios em busca de dias melhores, e os sonhos subitamente boiando nas águas fétidas da Baia da Guanabara... A prisão nos porões de um velho navio atracado a uma bóia - uma esperança ainda. 

– Homem à terra! – gritaram os poderosos. Mas agora era um EEP-Elemento Extremamente Perigoso - vigiado, sem tostão, e com ambas as mãos à frente, e muitos olhos ocultos atrás de si. Desembarcado, sim, senhor, mas vivo e solto. E onde estava o “seu norte, afinal? Ali, perdido na cidade grande, mesmo sendo ela maravilhosa, ou lá, em Nova Iguaçu, aonde chegaram quase mortos por 5 longos dias de viagem, a Laura, e o Zé Daniel, seus queridos pais adotivos? 

Lá se foi o Fernando, começar tudo de novo, aportando na cidade fluminense, em busca da sorte grande. E ela veio, sim, com sacrifícios, boas oportunidades de trabalho, criatividade, e um encontro marcado com Maria Apolônia, que ele nem sabia que existia. Casamento feito, nova vida. 

Dalí de Nova Iguaçu, para Maceió, Salvador, Vitória da Conquista, e depois de algum tempo, Ilhéus, no sul da Bahia, onde lançou âncoras, e criou os filhos. Fernando agora tinha um “porto seguro”, e chegara ao “seu norte”, como profetizado pelo “homem que via longe”. 

Mas leiam as histórias contadas em tom informal, com a graça e o jeito nordestino, que Fernando tão bem representa. Tenho certeza de que vão gostar tanto quanto eu, que fiz a leitura de “cabo a rabo”, sem tomar fôlego, para chegar à página final, acelerado, como o seu coração ansioso no dia do retorno a Custódia, com todos os ventos soprando a favor. 

Boa leitura.
Anísio J.S. Cruz
Ilhéus, Bahia, 25/05/2010 


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